Presságios
- Isso é inadmissível! - A mulher bateu com força na mesa, levantando-se em fúria. Os olhos gélidos de Amélia Hevixot encaravam-no com uma ira velada, disfarçada com a sutileza de seus trejeitos muito nobres que lhe concediam aquela famosa postura de superioridade. Marcus, pai de Gabriel, não passava muito longe de sua mãe, encarando-o com uma profunda incredulidade tal qual se ele houvesse assassinado uma pessoa sem sua expressa autorização. Seus dois irmãos mais velhos olhavam com choque, sem saber com o que chocar-se, se chocar mais, se era com a “surpresa” de seu irmão ou se era com a ira da mãe. Tios e tias olhavam com desdém, outros parentes distantes soavam incertos do que pensar. O desconforto na mesa da família Hevixot era palpável.
Gabriel suspirou fundo. É claro que sua espera por uma resposta mais positiva era vã, sua família não ficara nem um pouco feliz.
- Inadmissível ou não, a senhora precisa admitir… - disse Gabriel, cruzando os braços, tentando desesperadamente se impor naquela situação. Seu rosto infantil e sua idade não ajudavam nem um pouco. - …se a Trindade crer que não posso ser atirador, eu não posso me candidatar a outra coisa.
Um murmúrio correu pela mesa, indicando a indecisão dos demais parentes. Eles sabiam que ele estava certo, e ninguém naquela mesa ousaria dizer que os sábios - logo os sagrados sábios de Teranova! - Estavam errados.
- Então você não se inscreverá como atirador para a Trindade. Você será um atirador comum, como a maioria da família Hevixot, e será um atirador muito bem-sucedido! - Disse a mulher, impondo grande pressão sobre os convidados, de forma que rapidamente mudaram sua opinião para concordar com ela, embora com desconforto, dado o desdém da matriarca ao cuspir “atirador comum” junto às suas palavras de reprovação. As outras mesas do Ágape olhavam com espanto a demonstração da matriarca Hevixot. - Você…
-Eu não quero ser um atirador!- Gabriel vociferou, tomando enfim coragem que nunca teve para revelar seu desejo, as lágrimas escorrendo de seus olhos, a expressão de fúria fria. A reação assustou todos os membros da mesa, e até mesmo Amélia Hevixot parecia incrédula com tamanho disparate. -Eu vou seguir como paladino, quer vocês queiram ou não! E se vocês não vão me apoiar, eu procuro apoio em outro lugar!
Aos gritos e exigências de seus pais, Gabriel levantou-se e saiu por um dos vários portais do grande salão onde ocorria o Ágape, no interior do Templo. Passando pelos corredores, encontrou sossego em uma varanda qualquer com vista para a Floresta Negra, o vento gélido da noite uivando e cobrindo seu corpo. Era uma noite especialmente ventosa, com algumas nuvens no céu anunciando uma possível chuva durante a madrugada e a lua crescente imaculada no céu. Gabriel, àquela altura, se achava um tolo irremediável por achar que seus pais ouviriam seu desejo. Quando as palavras foram pronunciadas pelo mago durante a divinação, seu coração se desatou de um imenso fardo que carregava há anos, o de ser o filho que iria carregar o legado da família Hevixot entre os atiradores de elite. Esse nunca fora seu desejo, e ele sequer demonstrava as habilidades excepcionais de seus familiares. Ele era um atirador medíocre, para dizer o mínimo, ou o tanto de palavras duras que sua mãe já lhe dissera se desejassem ser mais precisos ao descrevê-lo. De toda forma, era uma vergonha para os Hevixot, e sua mãe sempre deixara isso muito claro. Seu pai, embora tentasse amenizar, também não escondia sua decepção. Seus irmãos e irmãs, todos atiradores, pareciam sempre ter pena dele. Tios e tias nunca escondiam seus comentários ácidos. E aquele peso finalmente fora levantado de seus ombros, como se o mago que divinava estivesse atendendo aos seus apelos por uma saída desta situação, uma súplica silenciosa que já se arrastava por anos. As lágrimas queimavam seu rosto enquanto ele abafava os soluços de seu choro, o conflito entre alívio e decepção agitando-se em seu coração apertado.
De repente, uma sensação cálida surgiu ao seu lado, fazendo-o finalmente olhar em outra direção. A garota ali estava encolhida no chão. Aparentemente ele não fora o único cuja vida havia sido revirada naquela noite, e de alguma forma a sorte o trouxe justamente para a sua amiga de infância para que os dois chorassem juntos noite afora. Verdade seja dita, ele estava preocupado, pois não a vira desde que entrou para o exame, um pouco antes dela. Dos dois ela era a mais animada para o Léxicus, e se ela estava chorando… Sentou-se do seu lado sem falar ou tocá-la, apenas permitindo que sua presença fosse percebida. Seus olhos ainda lacrimejavam, enquanto a garota estava quieta em um silêncio profundo.
- Mago. - Disse ela, depois de um bom tempo em que os dois se sentavam ali. Gabriel olhou-a com tristeza por saber qual era seu sonho, seu coração doendo tanto quanto o dela própria com a notícia.
***
O salão cheirava a mofo e umidade, embora sua aparência fosse limpa e resplandecente, em tons de dourado brilhante. A sala, nos fundos do Templo, era ornamentada por piras das mesmas chamas azuis de cheiro adocicado que havia em todo o Templo e uma única mesa circular no seu centro. Do lado oposto ao que entrara, tal como um espelho, uma outra porta aguardava fechada, dando a algum lugar dentro do Templo. A mulher que a guiou até ali fechou a porta, deixando-a a sós no recinto. A jovem analisou cada detalhe daquele local, como os glifos eloquentes cuidadosamente desenhados nas paredes, no teto e no chão. De alguma forma, o local era frio e o ar úmido como o da própria floresta e silencioso como o fim do mundo, de tal forma que era possível ouvir sua respiração reverberar pelas paredes.
- Bem-vinda, Angélica. - Um frio correu a espinha de Angélica tal qual aconteceria ao ver uma assombração, o que não era muito longe do que acabara de acontecer: no lado oposto da mesa, onde antes não havia ninguém, de repente havia um homem em pé, vestido com as vestes brancas de fina costura típicas de um mago arcano. De pele escura, cabelos brancos e barba comprida amarrada em uma longa trança, com dedos cheios de anéis, braceletes dourados e pesados brincos prateados, o homem passava um tom tenebroso mesmo com sua aura iluminada e superior. - Estive aguardando sua vinda.
- Cac- digo, como? - Gaguejou a jovem.
- Me chamo Eamon. Sou um Sábio Arcano e sou responsável pelo seu processo de Divinação. - Os olhos escuros olhavam Angélica como se analisassem a sua própria alma. - Você é uma garota interessante… essa aura, fluida e forte, encantará qualquer professor que você tenha na Trindade com certeza. Já sabe o que você gostaria de se tornar?
- Eh… paladino. Assim como meu avô.
- Trevor Aragon. Claro. Previsível. - Ela não soube diferenciar se era desdém ou fascínio em seu tom de voz, fato que a deixava perturbada. - Venha, sente-se. Vamos começar com o seu processo, certo? - Falou, sentando-se em um banco cilíndrico de mármore que, de alguma forma, surgira do próprio chão. Do lado dela, um igual surgiu. - Vamos, prometo que o banco é mais confortável do que aparenta.
Ela sentou-se, e mais um arrepio correu seu corpo tão logo a menor parte de sua pele trocou o toco gelado de mármore em que se sentara. Ela sentia como se passar 5 minutos sentada ali já fosse suficiente para lhe dar uma bela dor de coluna.
- Certo. Vou explicar o processo, mas é simples. - Ele apontou para a mesa e uma série de inscrições nela se iluminou em dourado. - A Divinação não é um processo em que você precisa saber dos detalhes, mas você deve saber de algumas coisas. Dê-me sua mão esquerda. - Angélica estendeu a mão imediatamente, tensa. - Primeiro, uma vez que o ritual começar, eu não poderei parar. Esse ritual nos colocará em uma encruzilhada entre este mundo e o plano espiritual, uma terra onírica e muito suscetível ao nosso estado mental e de espírito. Esse reflexo mostrará suas potencialidades com bastante precisão, embora não se deva confiar totalmente neste processo devido à sua natureza volátil. Só há uma circunstância em que terei de realizar um trabalhoso ritual de reversão, que é se o ritual der errado. Isso não acontecerá se você obedecer às regras.
- Ahn… regras?
- Segundo, você não deve se levantar deste banco, não importa o que você veja. - Disse ele. - A depender do seu estado mental e espiritual, você pode ver coisas… complicadas. Nenhuma delas será capaz de te tocar, pois não estaremos totalmente no mundo espiritual, mas pode te assustar com certeza.
- Espera, que tipo de…
- Terceiro. - Ele olhou profundamente, apertando sua mão com força, seu olhar indicando que era melhor não falar mais nada. - Não. Solte. Minha. Mão. Sob nenhuma hipótese. Entendeu?
De Angélica, saiu apenas um grunhido. Ela já estava assustada em demasia, e sua mão estava doendo com o aperto. A essa altura, ela própria já apertava a mão do homem como se sua vida dependesse disso. Ela assentiu, a bile subindo por sua garganta dado o nervosismo. De repente, ter almoçado soara uma péssima ideia.
- Perfeito. Olhe para o centro da mesa enquanto finalizo o ritual. - Ele disse e ela obedeceu prontamente. Ela pôde ouvir quando o homem começou a pronunciar algum tipo de cântico e luzes douradas começaram a surgir ao seu redor. Ela fez o possível para se concentrar no círculo dourado reluzindo no centro da mesa, a inscrição feita apenas de um brilho dourado espectral, sem presença de sulcos ou tinta. Pelo canto do olho, porém, ela percebeu quando as paredes pareceram diminuir e se dissipar em um efeito caleidoscópico estranho e hipnotizante.
- Concentre-se. - Ela voltou os olhos novamente ao centro. - Você precisa ser mais disciplinada. Agora, feche os olhos. - E ela fechou. Pelas pálpebras, pode perceber quando um brilho surgiu no local, engolindo-o e logo em seguida dando lugar à escuridão quase noturna. - Pronto. Abra os olhos e olhe para mim.
Ela levantou os olhos e o encarou, mas o que chamou sua atenção foi a própria sala - se é que podia ser chamada assim agora. Por exceção da mesa e dos “bancos”, tudo sumiu. Apenas um breu infinito.
- Bom, parece que você se concentrou apropriadamente, o plano espiritual reagiu bem à sua concentração. - De repente, luzes coloridas começaram a brilhar à sua volta. - E já está se adaptando a você novamente. Será útil se você ficar um pouco menos tensa, querida.
Ela olhou para a sua volta, vendo as luzes diminutas piscando, aparecendo e sumindo. Aquilo era estranho, assustador e, de alguma forma, belo. Então ventos macios sopraram seus cabelos, uma brisa leve e amena que carregava o frio e o calor para longe, ao mesmo tempo que o restolhar das folhas soava em seus ouvidos. Pode sentir quando a gramínea surgiu sob seus pés, árvores brotaram do chão e o céu pálido surgiu sob sua cabeça. De repente, eles estavam no meio de uma campina, animais exuberantes pastando e andando por todo lado, árvores de frutos que pareciam deliciosos, árvores de joias como rubi, esmeralda e safira, estátuas antigas e ruínas abandonadas há muito tempo. No horizonte, uma alta montanha despontava de forma que parecia que eles estavam em um grande vale. Aquele local, se tivesse que descrever, parecia um paraíso.
- Interessante. Calmaria, mesmo em meio ao nervosismo. Uma boa qualidade, talvez você não tenha problema em aprender a disciplina afinal. - Disse ele, sério. - Árvores de joias, um presságio de grandiosidade, junto de um céu limpo que indica um espírito de pacificação. Todas são boas qualidades.
- Como… - Ele aperta a mão da mais nova, como se a impedisse de falar.
- O mundo espiritual é traiçoeiro. Ele reflete o nosso estado de espírito com precisão ou o estado de espírito de seu invocador, a depender do encantamento que foi enlaçado. De toda forma, é um mundo volátil. Se você se desconcentrar, coisas hostis podem surgir ou, na pior das hipóteses… - Ele olhou fundo nos olhos dela. - … você pode se soltar e ficar com sua alma perdida aqui. Nesse momento, sua âncora ao mundo físico sou eu. Cuidado, garota.
- Como… como isso funciona?
- Se for sortuda o suficiente, talvez você descubra por si própria. - Disse ele, carrancudo. - Ainda temos mais duas etapas. Este mundo reflete sua mente mais densa, a mais superficial, a mente que você usa quando está acordada. Vamos aprofundar, garota, até ver a sua mente muito sutil, aquela que se conecta profundamente com o próprio Infinito, a sua verdadeira essência, a sua verdadeira natureza. Agora… - Ele inspirou. - … Vamos mais fundo…
Ele começou a balbuciar palavras novamente, e por alguns segundos Angélica, não eu, começou a sentir como se o mundo inteiro estivesse submergindo, mergulhando, como uma queda livre em um lago transparente. O mundo embranqueceu, e por alguns instantes a água pareceu se converter em um vento soprando de todos os lugares, primeiro em direção a Angélica e depois saindo dela. Ela olhava, encantada e assustada, hipnotizada pelo mundo se transformando diante de seus olhos sem sequer parecer que estavam naquela mesma sala no Templo. Então, parou. O espaço branco era limpo, e o chão parecia água.
- Bem-vinda à sua mente menos densa, sua mente subconsciente, sua mente dormente. - Disse ele. - Uma mente útil para se dominar, especialmente para conjuração. Paladino, não é? Você precisa dominar muito bem sua alma para dominar Arcanomancia. Vamos ver o que ela nos mostra.
O mundo tremeluziu e se comprimiu. O mundo pareceu se transformar em pequenas fagulhas que, cada uma, parecia ter um mundo inteiro dentro. Sonhos vívidos, passados e futuros, presságios, imaginativos, preditivos. O sábio pegou um com sua mão livre.
- Interessante. Pouca imaginação, mas muitas memórias. Memórias antigas, memórias futuras, mas nenhuma de outras vidas. - Disse ele, carrancudo. - Pode indicar um fim trágico, uma dilaceração por magia, o cessar de sua própria alma. Mas… quem sabe… - Algo pareceu mudar em seus olhos. Ele pegou outra visão. - Mas o que vejo em sua vida parece-me interessante. Glória, poder, mas tão embaçado… - Ele falou, aproximando a fagulha, tentando visualizar melhor as imagens no pequeno brilho. - … Não vejo com detalhes. Você é uma alma curiosa, criança, quase como se fosse protegida por algo… Teria de ser um encantamento poderoso para resistir até mesmo a uma Divinação tão profunda. - E então pegou mais uma fagulha. - E ainda por cima, tão certo… - Disse ele, intrigado. - Glória inigualável, sucesso garantido, quase como se o destino não se permitisse mudar. Poucas vezes vi alguém com um destino tão certo.
- Glória… isso quer dizer que…
- O que quer que você se torne, você será bem-sucedida e será reconhecida por isso. - Algo pareceu chamar a atenção dele em uma fagulha, e um frio correu a espinha da jovem. Ele pegou a fagulha, negra como fuligem e com vislumbres púrpuros. - Isso… não consigo ver o que é, mas é um mau presságio com certeza. Uma memória tão negra, tão obscura… Não sei se já aconteceu ou se irá acontecer. Não… não pense muito sobre isso, garota. - Disse ele, o semblante mostrando nada além de curiosidade. - Vamos… agora, vamos ver sua mente mais sutil de todas, sua conexão com o infinito. Essa costuma mostrar ainda mais sobre você. Vamos?
Antes que eu… não… ela pudesse responder, mais um mergulho. Porém, este foi diferente. Ela, não eu,não eu, sentiu-se como se o ar estivesse se esgotando e, por fim, acabando. O mundo branco foi ficando cada vez mais avermelhado e, então, preto. Profundo. Obscuro. Ela sequer podia ver a si mesma, a visão escurecendo.
Então, um suspiro.
- Esta é uma visão que nunca me cansa. Veja, criança. - E, como se abrisse os olhos, ela olhou para o alto. A visão, a sua visão, não a minha, foi tomada por completo por um fino fio prateado surgindo no meio da escuridão. Então, vários fios surgiram, se entrelaçando no principal, costurando, laçando, formando um fio mais grosso. Então mais fios se juntaram, tecendo sob o fio menor, formando um ainda mais grosso, e cada vez mais fios surgiram no intrincado trançado que, por fim, terminou exatamente onde começou, sem começo, sem fim, apenas contínuo. O Infinito.
- Uma conexão tão forte. - Ele me disse. Não. Disseaela. Ou a mim? Quem sou…? - Tão profunda. Uma poderosa habilidade, com certeza, você dominará bem a magia. Mais belo que a maioria, confesso. Garota, você…
Então, fios surgiram do chão e entrelaçaram a mesa, segurando firmemente a mão, a minha, a dela. Mão de quem? Quem sou… Quem…
- Garota, não! - Gritou o desconhecido... Quem era ele? Segurando sua mão. - Não, o que é isso? O que está…?
Mais fios, puxando para baixo. De repente, o piso estático parecia um abismo. Um abismo. Fios, a imensidão negra se tornando cada vez mais amarela, dourada, os fios que pareciam palavras, palavras antigas, palavras profundas, uma verdade não dita. Uma verdade. A Verdade. O Infinito acima, profundo, belo.
- Não solte! - Gritou a senhora de face pálida, de rosto liso, de olhos negros como piche. - Não solte a minha mão! Garota! - A voz rouca soou como um mau agouro, enquanto um sorriso perverso se formava em seu rosto.
A mesa quebrou. A mão soltou. O mundo despedaçou.
E então, eu caí.