AMO E CÃES
Capítulo IV
Amo E Cães
Dois ou três dias haviam passado. A senhora Charles Nicholas Falk, uma dama de vinte e dois anos, acabara de tomar o café da manhã na cama, a colossal cama de mogno do grande quarto de dormir. Eram apenas dez horas. Seu marido estava fora desde as sete, recebendo linho no cais. Mas não era por contar com a ausência dele que a jovem esposa permanecera na cama — coisa que sabia ser contrária às regras da casa. Estava casada havia apenas dois anos, mas, durante esse período, encontrara tempo de sobra para introduzir amplas reformas no velho, conservador e burguês lar, onde tudo era velho, até os criados. Ele a investira do poder necessário no dia em que lhe confessara seu amor, e ela consentira graciosamente em tornar-se sua esposa, isto é, permitira-lhe libertá-la do odiado cativeiro do teto paterno, onde fora obrigada a levantar-se todas as manhãs às seis horas e trabalhar o dia inteiro. Fizera bom uso do período de noivado, pois fora então que reunira uma série de garantias que lhe prometiam uma vida livre e independente, sem ser molestada por qualquer interferência da parte do marido. É claro que essas garantias consistiam apenas em promessas verbais feitas por um homem apaixonado; mas ela, que jamais permitira que a emoção se sobrepusesse a ela, anotara-as cuidadosamente nas tábuas da memória. Depois de dois anos de matrimônio, não redimidos pela promessa de um filho, o marido mostrava uma decidida inclinação a pôr de lado todas essas garantias e a questionar seu direito de dormir quanto quisesse, por exemplo, de tomar café na cama, etcétera, etcétera; chegara até a ser indelicado a ponto de lembrá-la de que a tirara do lodo; que a libertara de um inferno, sacrificando-se com isso. O casamento fora uma mésalliance, pois o pai dela era um dos tripulantes do navio-almirante.
Deitada ali, maquinava respostas a esses e outros reproches semelhantes; e, como seu bom senso, durante o longo período de conhecimento mútuo entre ambos, jamais fora turvado por qualquer embriaguez dos sentidos, ela o tinha bem sob controle e sabia como usá-lo. Os sons do retorno do marido encheram-na de puro prazer. Pouco depois, a porta da sala de jantar bateu com estrondo; fez-se ouvir um berreiro tremendo; ela meteu a cabeça debaixo das cobertas para abafar o riso. Passos pesados atravessaram o cômodo vizinho, e o marido furioso apareceu no limiar, de chapéu na cabeça. A esposa, que estava de costas para ele, chamou, nos tons mais doces de sua voz:
— É você, meu bobalhãozinho? Entre, entre!
O bobalhãozinho — aquele era um apelido carinhoso, e marido e mulher usavam com frequência outros ainda mais originais — não mostrou nenhuma inclinação a aceitar o convite; permaneceu parado à porta e gritou:
— Por que a mesa não está posta para o almoço?
— Pergunte às criadas; não é meu trabalho pôr a mesa! Mas é costume tirar o chapéu ao entrar num quarto, senhor!
— O que você fez com meu boné?
— Queimei! Estava tão engordurado que você devia ter vergonha de usá-lo.
— Queimou? Falaremos disso depois! Por que você está deitada na cama até estas horas da manhã, em vez de vigiar as criadas?
— Porque gosto.
— Acha que me casei com uma esposa para vê-la recusar-se a cuidar da casa? Hein?
— Casou! Mas por que você acha que eu me casei com você? Já lhe disse mil vezes: para não ter de trabalhar — e você me prometeu que eu não precisaria. Não prometeu? Pode jurar, por sua palavra de honra, que não prometeu? É esse o tipo de homem que você é! Igualzinho a todos os outros!
— Isso foi há muito tempo!
— Há muito tempo? Quando é que foi há muito tempo? Uma promessa não obriga para todos os tempos? Ou precisa ser feita numa estação particular?
O marido conhecia bem demais aquela lógica irrespondível, e o bom humor da esposa exercia sobre ele o mesmo efeito que suas lágrimas: ele cedeu.
— Vou receber visitas esta noite — declarou ele.
— Ah, é mesmo? Cavalheiros?
— Naturalmente! Detesto mulheres.
— Bem, suponho que você tenha encomendado o que deseja.
— Não, quero que você faça isso.
— Eu? Não tenho dinheiro para receber ninguém. Com toda certeza não gastarei meu dinheiro da casa com os seus convidados.
— Não; você prefere gastá-lo em vestidos e outras coisas inúteis.
— Chama de inúteis as coisas que faço para você? Uma touca de fumar é inútil? Chinelos são inúteis? Diga-me! Diga-me com franqueza!
Ela era perita em formular perguntas de tal maneira que a resposta fatalmente esmagava a pessoa obrigada a respondê-las. Apenas copiava o método do marido. Se ele quisesse evitar ser esmagado, via-se obrigado a mudar sem cessar o assunto da conversa.
— Mas tenho, de fato, uma razão muito boa para receber alguns convidados esta noite — disse ele, com uma demonstração de emoção; — meu velho amigo Fritz Levin, dos Correios, foi promovido depois de dezenove anos de serviço — li isso ontem à noite na Gazeta Postal. Mas, já que você desaprova, e como sempre cedo diante de você, deixarei o assunto de lado e apenas convidarei Levin e o mestre-escola Nyström para uma pequena ceia no escritório.
— Então aquele vadio do Levin foi promovido? Essa é boa! Talvez agora ele lhe pague todo o dinheiro que deve?
— Espero que sim!
— Não consigo entender como você pode ter qualquer coisa a ver com esse homem! E o mestre-escola! Mendigos, os dois, que mal possuem a roupa que vestem.
— Escute aqui, minha velha, eu nunca me meto nos seus assuntos; deixe meus negócios em paz.
— Se você recebe convidados lá embaixo, não vejo por que eu não haveria de receber amigas aqui em cima!
— Bem, por que não recebe?
— Está bem, bobalhãozinho, então me dê algum dinheiro.
O bobalhãozinho, satisfeito em todos os aspectos com o rumo que as coisas haviam tomado, obedeceu com prazer.
— Quanto? Hoje estou com muito pouco dinheiro vivo.
— Oh! Cinquenta bastam.
— Está louca?
— Louca? Dê-me o que peço. Por que devo passar fome enquanto você se banqueteia?
A paz foi estabelecida, e as partes se separaram com satisfação mútua. Não havia necessidade de ele almoçar mal em casa; era forçado a sair; não havia necessidade de comer um jantar pobre e sentir-se incomodado pela presença de senhoras; ele ficava embaraçado na companhia de mulheres, pois fora solteirão por tempo demais; não havia motivo para ser atormentado pela consciência, pois a esposa não ficaria sozinha em casa; acontecia que ela queria convidar as próprias amigas e livrar-se dele — isso valia cinquenta coroas.
Assim que o marido saiu, a senhora Falk tocou a campainha; passara a manhã inteira na cama para castigar a criada, pois a moça observara que, antigamente, todos costumavam estar de pé às sete horas. Pediu papel e tinta e rabiscou um bilhete à senhora Homan, esposa do controlador, que morava na casa em frente.
Querida Evelyn — dizia a carta:
Venha esta noite tomar uma xícara de chá comigo; poderemos então discutir os estatutos da “Associação pelos Direitos das Mulheres”. Talvez um bazar ou representações amadoras nos ajudem a avançar. Estou ansiosa para pôr a associação em marcha; é uma necessidade urgente, como você tantas vezes disse; sinto isso muito profundamente quando penso no assunto. Acha que Sua Senhoria honraria minha casa na mesma ocasião? Talvez eu deva primeiro fazer-lhe uma visita. Venha me buscar ao meio-dia e tomaremos uma xícara de chocolate numa confeitaria. Meu marido está fora.
Sua afetuosamente,
Eugênia.
P.S. Meu marido está fora.
Depois de despachar a carta, levantou-se e se vestiu, para estar pronta ao meio-dia.
Era noite.
A extremidade leste da Rua Longa já estava mergulhada no crepúsculo quando o relógio da Igreja Alemã bateu sete horas; apenas um raio débil de luz vindo da Rua dos Porcos caía na loja de linho de Falk, enquanto Andersson se preparava para fechá-la pela noite. As venezianas do escritório já haviam sido cerradas, e o gás estava aceso. O lugar fora varrido e posto em ordem; duas cestas, das quais se projetavam gargalos de garrafas lacradas em vermelho e amarelo — algumas cobertas de folha de estanho, outras envoltas em papel de seda cor-de-rosa —, estavam junto à porta. O centro da sala era ocupado por uma mesa coberta com uma toalha branca; sobre ela havia uma tigela indiana e um pesado candelabro de prata.
Nicholas Falk andava de um lado para outro. Vestia uma casaca preta e tinha um ar ao mesmo tempo respeitável e festivo. Tinha o direito de esperar uma noite agradável: ele a organizara; ele a pagara; estava em sua própria casa e à vontade, pois não havia senhoras presentes, e os convidados que chamara eram de um calibre que justificava esperar deles não só atenção e civilidade, mas algo mais.
Eram apenas dois, mas ele não gostava de muita gente; eram seus amigos, confiáveis, devotados como cães; submissos, agradáveis, sempre lisonjeiros e jamais contraditórios.
Sendo homem de posses, poderia ter frequentado círculos melhores; poderia ter convivido com os amigos do pai — e o fazia, duas vezes por ano —, mas sua natureza era despótica demais para se dar bem com eles.
Eram sete horas e três minutos, e os convidados ainda não haviam chegado. Falk começou a dar sinais de impaciência. Quando convidava seus sequazes, esperava que fossem pontuais ao minuto. Contudo, a ideia da disposição extraordinariamente suntuosa, e da impressão paralisante que ela certamente produziria, ajudou-o a controlar o temperamento por mais algum tempo; ao cabo de mais alguns instantes, Fritz Levin, funcionário dos Correios, deu o ar de sua graça.
— Boa noite, irmão — oh! Mas veja só!
Deteve-se no ato de tirar o sobretudo e fingiu surpresa diante dos magníficos preparativos; quase pareceu em perigo de cair de costas de puro assombro.
— O candelabro de sete braços e o tabernáculo! Bom Deus! — exclamou, ao avistar as cestas.
O indivíduo que soltava essas pilhérias bem ensaiadas enquanto tirava o sobretudo era um homem de meia-idade, do tipo do funcionário público de vinte anos antes; suas suíças uniam-se ao bigode, o cabelo era repartido de lado e arranjado num coup de vent. Era extremamente pálido e magro como uma mortalha. Apesar de bem-vestido, tremia de frio e parecia manter comércio secreto com a pobreza.
A maneira de Falk recebê-lo era ao mesmo tempo rude e condescendente; destinava-se, em parte, a expressar seu desprezo pela lisonja, sobretudo vinda de um indivíduo como o recém-chegado, e, em parte, a dar a entender que este gozava do privilégio de sua amizade.
À guisa de congratulação, começou a traçar um paralelo entre a promoção de Levin e o fato de seu próprio pai ter recebido uma nomeação na milícia.
— Pois bem, é uma grande coisa ter uma nomeação real no bolso, não é? Meu pai também recebeu uma nomeação real...
— Perdoe-me, caro irmão, mas eu apenas fui nomeado.
— Nomeação ou nomeação real, dá no mesmo. Não me venha ensinar! Meu pai também tinha uma nomeação real...
— Asseguro-lhe...
— Assegura-me? O que quer dizer com isso? Quer insinuar que estou aqui contando mentiras? Diga-me, quer dizer que estou mentindo?
— Claro que não! Não há necessidade de perder a cabeça desse jeito!
— Muito bem! Você admite que não estou contando mentiras; consequentemente, tem uma nomeação real. Por que fala tanta bobagem? Meu pai...
O homem pálido, em cujo rastro parecia ter entrado no escritório um bando de fúrias — pois tremia em todos os membros —, lançou-se agora contra seu patrono, firmemente resolvido a acabar logo com seu assunto antes que a festa começasse, para que nada depois perturbasse o prazer geral.
— Ajude-me — gemeu, com o desespero de um homem que se afoga, tirando uma letra do bolso.
Falk sentou-se no sofá, chamou Andersson aos gritos, ordenou que abrisse as garrafas e começou a preparar a poncheira.
— Ajudá-lo? Já não o ajudei antes? — respondeu. — Você não tomou dinheiro emprestado comigo repetidas vezes, sem me pagar? Responda! O que tem a dizer?
— Sei, irmão, que você sempre foi a própria bondade comigo.
— E agora você foi promovido, não foi? Agora tudo ficaria em ordem; todas as dívidas seriam pagas, e uma vida nova começaria. Escuto esse tipo de conversa há dezoito anos. Que salário recebe agora?
— Mil e duzentas coroas, em vez das oitocentas de antes. Mas pense nisto: o custo da nomeação foi cento e vinte e cinco; o fundo de pensão desconta cinquenta; isso faz cento e setenta e cinco. De onde devo tirar isso? Mas o pior de tudo é isto: meus credores penhoraram metade do meu salário; consequentemente, tenho agora apenas seiscentas coroas para viver, em vez de oitocentas — e esperei dezenove anos por isso. A promoção é uma coisa esplêndida!
— Por que se meteu em dívidas? Nunca se deve contrair dívidas. Nunca — contrair — dívidas.
— Com um salário de oitocentas coroas durante todos esses anos! Como era possível evitá-las?
— Nesse caso, você não tinha nada que estar a serviço do governo. Mas isso é um assunto que não me diz respeito; não — me — diz — respeito.
— Não quer assinar mais uma vez? Pela última vez?
— Você conhece meus princípios; nunca assino letras. Por favor, deixe o assunto de lado.
Levin, que evidentemente estava acostumado a essas recusas, acalmou-se. No mesmo instante entrou o mestre-escola Nyström, que, para alívio de ambas as partes, interrompeu a conversa. Era um indivíduo ressequido, de aparência e idade misteriosas. Sua ocupação também era misteriosa; supunha-se que fosse mestre numa escola de um dos subúrbios do sul — ninguém jamais perguntava em que escola, e ele não gostava de falar no assunto. Sua missão, no que dizia respeito a Falk, consistia primeiro em ser tratado por mestre-escola quando havia outras pessoas presentes; segundo, em ser polido e submisso; terceiro, em tomar emprestado um pouco de vez em quando, nunca mais de cinco coroas; era uma das necessidades fundamentais de Falk que as pessoas lhe pedissem dinheiro emprestado de vez em quando, só um pouco, é claro; e, quarto, em escrever versos em ocasiões festivas; e esta última não era a menor das partes constitutivas de sua missão.
Charles Nicholas Falk estava entronizado em seu sofá de couro, muito consciente do fato de que era o seu sofá de couro, cercado por seu séquito; ou por seus cães, como se poderia dizer. Levin achava tudo esplêndido: a poncheira, os copos, a concha, os charutos — a caixa inteira fora tirada da lareira —, os fósforos, os cinzeiros, as garrafas, as rolhas, o arame — tudo. O mestre-escola parecia contente; não era chamado a falar, os outros dois faziam isso; dele se exigia apenas que estivesse presente como testemunha, caso necessário.
Falk foi o primeiro a erguer o copo e beber — ninguém sabia a quem —, mas o mestre-escola, supondo que fosse ao herói do dia, tirou seus versos e começou a ler “A Fritz Levin no Dia de Sua Promoção”.
Falk foi acometido por uma tosse violenta que perturbou a leitura e estragou o efeito dos pontos mais espirituosos; mas Nyström, que era homem astuto e previra isso, introduzira em seu poema a reflexão finamente sentida e finamente expressa: “Que teria sido de Fritz Levin se Charles Nicholas não o houvesse protegido?” Essa sutil alusão aos numerosos empréstimos feitos por Falk ao amigo acalmou a tosse; ela diminuiu e garantiu melhor acolhida à última estrofe, que era, com bastante impudência, dedicada a Levin, falta de tato que de novo ameaçou perturbar a harmonia. Falk esvaziou o copo como se drenasse uma taça cheia até a borda de ingratidão.
— Você não está à altura, Nyström — disse ele.
— Não, ele foi muito mais espirituoso no seu trigésimo oitavo aniversário — concordou Levin, adivinhando aonde Falk queria chegar.
O olhar de Falk penetrou nos recessos mais ocultos da alma de Levin, tentando descobrir se ali se escondia alguma mentira ou fraude — e, como seus olhos estavam cegos pelo orgulho, nada viu.
— Muito certo — aquiesceu ele. — Nunca ouvi nada mais espirituoso em toda a minha vida; era bom o bastante para ser impresso; você realmente devia mandar imprimir suas coisas. Escute, Nyström, decerto o sabe de cor, não sabe?
Nyström tinha uma memória chocante; ou, para dizer a verdade, ainda não bebera vinho suficiente para cometer a sugerida afronta à decência e ao bom-tom; pediu tempo. Mas Falk, irritado por sua resistência silenciosa, fora longe demais para recuar e insistiu no pedido. Estava quase certo de que trazia consigo uma cópia dos versos; procurou na carteira e — eis! — lá estavam eles. A modéstia não o impedia de lê-los em voz alta ele mesmo; não seria a primeira vez; mas soava melhor quando outro os lia. O pobre cão mordeu a corrente, mas ela resistiu. Era um homem sensível, esse mestre-escola, mas precisava ser brutal se não quisesse abrir mão do precioso dom da vida, e fora muito brutal. Os assuntos mais privados eram discutidos plena e abertamente; tudo o que se relacionava ao nascimento do herói, à sua recepção na comunidade, à sua educação e criação era ridicularizado; os versos teriam repugnado até ao próprio Falk se tratassem de qualquer outra pessoa, mas o fato de celebrarem a ele e seus feitos os tornava excelentes. Terminada a recitação, brindou-se ruidosamente à sua saúde, em muitos copos, pois cada membro da pequena companhia sentia-se sóbrio demais para manter sob controle seus sentimentos verdadeiros.
A mesa foi então desimpedida, e serviu-se uma excelente ceia composta de ostras, aves e outras boas coisas. Falk foi farejando de prato em prato, mandou um ou dois de volta, cuidou para que se tirasse o frio da stout e para que os vinhos estivessem na temperatura certa. Agora seus cães eram chamados a cumprir seu trabalho e a oferecer-lhe um espetáculo agradável. Quando todos estavam prontos, ele puxou o relógio de ouro, segurou-o na mão e fez, em tom de brincadeira, uma pergunta que seus convivas já haviam ouvido muitas vezes — muitíssimas vezes:
— Que horas marcam os relógios de prata dos cavalheiros?
A resposta esperada veio, como mandava o dever, acompanhada de riso alegre: os relógios estavam no relojoeiro. Isso pôs Falk no melhor dos humores, que encontrou expressão na piada nada inesperada:
— Os animais serão alimentados às oito.
Sentou-se, serviu três licores, tomou um e convidou os amigos a lhe seguirem o exemplo.
— Preciso começar eu mesmo, já que vocês dois parecem estar se fazendo de rogados. Nada de cerimônia! Ataquem, rapazes!
A alimentação começou. Charles Nicholas, que não estava particularmente faminto, tinha tempo de sobra para apreciar o apetite de seus convidados e não parava de instigá-los a comer. Um sorriso de benevolência indizível irradiava de seu rosto claro e solar enquanto observava o zelo deles, e era difícil dizer o que lhe dava mais prazer: o fato de estarem fazendo uma boa refeição ou o fato de estarem com tanta fome. Ficava ali sentado como um cocheiro na boleia, estalando a língua e fazendo estalar o chicote sobre eles.
— Coma, Nyström! Você não sabe quando terá outra refeição. Sirva-se, Levin; parece que precisa pôr um pouco de carne nesses ossos. Está fazendo careta para as ostras? Não são boas o bastante para um sujeito como você? O que me diz? Pegue mais uma! Não seja tímido! O que me diz? Já comeu o suficiente? Bobagem! Agora beba! Tomem um pouco de stout, rapazes! Agora um pouco mais de salmão! Você vai pegar outro pedaço, pelo Senhor Harry, vai sim! Continue comendo! Por que diabo não come? Não lhe custa nada!
Quando as aves foram trinchadas, Charles Nicholas serviu o clarete com certa solenidade. Os convidados fizeram pausa, esperando um discurso. O anfitrião ergueu o copo, aspirou o buquê do vinho e disse com profunda gravidade:
— À saúde de vocês, seus porcos!
Nyström respondeu erguendo o copo e bebendo; Levin, porém, deixou o seu intacto, com o ar de quem afiasse secretamente uma faca.
Terminada a ceia, Levin, fortalecido pela comida e pela bebida, os sentidos enevoados pelos vapores do vinho, começou a alimentar um sentimento de independência; um forte anseio de liberdade agitou-se em seu coração. Sua voz tornou-se mais ressonante; pronunciava as palavras com segurança crescente, e seus movimentos denunciavam maior desembaraço.
— Dê-me um charuto! — disse, em tom de comando. — Não, não uma porcaria dessas, um bom.
Charles Nicholas, tomando suas palavras como uma boa piada, obedeceu.
— Seu irmão não está aqui esta noite — observou Levin, casualmente.
Havia algo ominoso e ameaçador em sua voz; Falk o sentiu e ficou inquieto.
— Não! — disse, em tom breve, mas a voz lhe tremia.
Levin esperou alguns instantes antes de desferir o segundo golpe. Uma de suas ocupações mais lucrativas era meter-se nos negócios alheios; levava mexericos de família em família; semeava um grão de discórdia aqui e outro ali, apenas para desempenhar depois o papel agradecido de mediador. Desse modo, adquirira grande influência, era temido por seus conhecidos e os manejava como marionetes.
Falk sentiu essa influência desagradável e tentou livrar-se dela; em vão. Levin sabia como aguçar-lhe a curiosidade; e, insinuando mais do que sabia, conseguia blefar de tal modo que as pessoas acabavam traindo seus segredos.
Naquele momento, Levin segurava o chicote e prometia a si mesmo fazer seu opressor senti-lo. Por enquanto, apenas brincava com ele, mas Falk esperava o golpe. Tentou mudar de assunto. Instigou os amigos a beber, e eles beberam. Levin tornou-se mais branco e mais frio à medida que a embriaguez aumentava, e continuou a brincar com sua vítima.
— Sua esposa recebe visitas esta noite — observou de repente.
— Como sabe disso? — perguntou Falk, desconcertado.
— Eu sei de tudo — respondeu Levin, mostrando os dentes.
Era quase verdade; suas extensas relações comerciais o obrigavam a frequentar tantos lugares públicos quanto possível, e ali ouvia muita coisa; não apenas as coisas de que se falava em sua sociedade, mas também as que eram discutidas pelos outros.
Falk começava a sentir medo sem saber por quê, e achou melhor desviar o perigo ameaçador. Tornou-se cortês, humilde até, mas a audácia de Levin continuou aumentando. Não havia alternativa: precisava fazer um discurso, lembrar aos companheiros a causa da reunião, reconhecer o herói do dia. Não havia outra saída. Era mau orador, mas aquilo precisava ser feito. Bateu na poncheira, encheu os copos e, recordando um antigo discurso feito por seu pai quando Falk se tornara senhor de si, ergueu-se e começou, muito devagar:
— Senhores! Sou senhor de mim há oito anos; eu tinha apenas trinta anos...
A passagem da posição sentada para a posição de pé fez o sangue subir-lhe à cabeça; ficou confuso; os olhares zombeteiros de Levin aumentaram seu embaraço. Sua confusão cresceu; a cifra trinta pareceu-lhe algo tão colossal que o desconcertou por completo.
— Eu disse trinta? Não foi isso que quis dizer. Estive a serviço de meu pai — por muitos anos. Levaria tempo demais contar tudo — sofri durante aqueles anos; é o destino comum. Talvez os senhores me julguem egoísta...
— Muito bem! Muito bem! — gemeu Nyström, que apoiava a cabeça pesada sobre a mesa.
Levin soprava a fumaça do charuto na direção do orador, como se lhe cuspisse no rosto.
Falk, agora realmente embriagado, continuou seu discurso; seus olhos pareciam procurar um alvo distante sem conseguir encontrá-lo.
— Todo mundo é egoísta, todos nós sabemos disso. Si-im! Meu pai, que fez um discurso quando me tornei senhor de mim, como eu estava dizendo...
Puxou o relógio de ouro e o desprendeu da corrente. Os dois ouvintes arregalaram os olhos. Estaria ele prestes a dá-lo de presente a Levin?
— Entregou-me, naquela ocasião, este relógio de ouro, que ele, por sua vez, recebera do pai dele no ano de...
De novo aquelas cifras terríveis — era preciso voltar atrás.
— Este relógio de ouro, senhores, foi-me entregue, e não posso pensar sem emoção no momento — em que o recebi. Talvez os senhores me julguem egoísta, senhores? Não sou. Sei que não é de bom-tom falar de si mesmo, mas numa ocasião como esta parece muito natural lançar um olhar para — o passado. Só quero mencionar um pequeno incidente.
Esquecera Levin e o significado do dia, e tinha a impressão de estar celebrando o encerramento de sua vida de solteiro. De repente, lembrou-se da cena entre ele e o irmão, e de seu triunfo. Sentiu uma necessidade premente de falar desse triunfo, mas não conseguia recordar os detalhes. Lembrava-se apenas de ter provado que o irmão era um canalha; esquecera a cadeia de provas, com exceção de apenas dois fatos: o irmão e um canalha; tentava ligá-los um ao outro, mas eles sempre se separavam. Seu cérebro trabalhava sem cessar, e quadro sucedia a quadro. Precisava contar-lhes uma ação generosa que praticara; recordou que dera algum dinheiro à esposa naquela manhã e permitira que ela dormisse quanto quisesse e tomasse café na cama; mas aquele não era um assunto adequado. Estava numa posição desagradável, mas o medo do silêncio e os dois pares de olhos agudos que seguiam cada movimento seu ajudaram-no a se recompor. Percebeu que ainda estava de pé, com o relógio na mão. O relógio? Como viera parar em sua mão? Por que os amigos estavam sentados, quase apagados pela fumaça, enquanto ele continuava de pé? Ah! claro! Estivera contando a eles a história do relógio, e eles aguardavam a continuação da narrativa.
— Este relógio, senhores, não tem nada de especial. É apenas ouro francês.
Os dois antigos donos de relógios de prata arregalaram os olhos. Aquela informação era nova para eles.
— E creio que tem apenas sete rubis — não é um bom relógio, de modo algum — pelo contrário — eu o chamaria antes de barato...
Alguma causa secreta, da qual seu cérebro mal tinha consciência, enfureceu-o; precisava descarregar a cólera em alguma coisa. Batendo na mesa com o relógio, gritou:
— É um relógio miseravelmente ruim, estou dizendo! Escutem-me quando falo! Você não acredita no que digo, Fritz? Responda! Por que me olha com essa cara perversa? Você não acredita em mim. Posso ler isso nos seus olhos. Fritz, você não acredita no que estou dizendo. Acredite, eu conheço a natureza humana. E pensar que eu ainda poderia avalizá-lo mais uma vez! Ou você é mentiroso, ou eu sou! Quer que eu lhe prove que você é um canalha? Quer? Escute, Nyström, se — eu — falsifico uma letra — sou um canalha?
— Claro que é um canalha, com os diabos! — respondeu Nyström, sem um instante de hesitação.
— Sim — sim!
Seus esforços para lembrar se Levin havia falsificado uma letra, ou se estava de algum modo ligado a uma letra, foram inúteis. Por isso, viu-se obrigado a abandonar o assunto. Levin estava cansado; temia também que sua vítima perdesse a consciência e que ele e Nyström fossem roubados do prazer de assistir à derrota que preparava para ela. Por isso, interrompeu Falk com uma pilhéria no próprio estilo do anfitrião.
— À sua saúde, velho patife!
E então desceu o chicote. Ele tirou um jornal.
— Você viu a Bandeira Operária? — perguntou a Falk, em tons frios e assassinos.
Falk fitou o pasquim escandaloso, mas nada disse. O inevitável estava prestes a acontecer.
— Traz um artigo esplêndido sobre a Junta de Pagamento dos Salários dos Funcionários.
As faces de Falk ficaram brancas.
— Corre o boato de que seu irmão o escreveu.
— É mentira! Meu irmão não é nenhum mexeriqueiro de jornal! Não é! Está ouvindo?
— Mas, infelizmente, ele teve de sofrer por isso. Disseram-me que foi despedido.
— É mentira!
— Receio que seja verdade. Além disso, eu o vi hoje jantando no Botão de Latão com um sujeito de aparência canalha. Tenho pena do rapaz.
Era o pior golpe que poderia ter caído sobre Charles Nicholas. Estava desonrado. Seu nome, o nome de seu pai, fora desonrado; tudo quanto os velhos burgueses haviam conquistado fora em vão. Se lhe tivessem dito que a esposa morrera, ele teria conseguido suportar; uma perda financeira também poderia ser reparada. Se lhe tivessem dito que seu amigo Levin, ou Nyström, fora preso por falsificação, ele os teria renegado, pois jamais se mostrara em público na companhia deles. Mas não podia negar seu parentesco com o irmão. E o irmão o desonrara. Não havia como escapar ao fato.
Levin sentira certo prazer em varejar suas informações. Falk, embora jamais tivesse dado ao irmão o menor encorajamento, tinha o hábito de se gabar dele e de seus feitos aos amigos. “Meu irmão, o assessor, é um homem de talento, e irá longe, lembrem-se do que digo!” Essas contínuas censuras indiretas haviam sido, havia muito tempo, fonte de irritação para Levin, sobretudo porque Charles Nicholas traçava uma linha definida, intransponível, embora indefinível, entre assessores e secretários.
Levin, sem mover um dedo no assunto, obtivera sua vingança a tão baixo custo para si mesmo que podia dar-se ao luxo de ser generoso e fazer o papel de consolador.
— Não há razão para levar isso tanto a peito. Até um jornalista pode ser um espécime decente de humanidade, e você exagera o escândalo. Não pode haver escândalo quando nenhum indivíduo definido foi atacado. Além disso, a coisa toda é muito espirituosa, e todo mundo a está lendo.
Essa última pílula de consolo deixou Falk furioso.
— Ele me roubou o bom nome! Meu nome! Como poderei aparecer amanhã na Bolsa? O que dirão as pessoas?
Por pessoas ele queria dizer sua esposa. Ela desfrutaria a situação, porque ela tornaria a mésalliance menos marcada. Daí em diante, estariam no mesmo nível social. A ideia era intolerável. Um ódio amargo por toda a humanidade tomou posse de sua alma. Ah, se ele fosse o pai daquele bastardo! Então poderia fazer uso de seu privilégio paterno, lavar as mãos quanto a ele, amaldiçoá-lo e assim pôr fim ao assunto; mas não existia privilégio fraterno semelhante. Seria possível que ele próprio tivesse, em parte, culpa pela desonra? Não teria forçado o irmão a seguir sua profissão? Talvez a cena daquela manhã ou as dificuldades financeiras do irmão — causadas por ele — fossem culpadas? Não! Ele jamais cometera uma ação baixa; era irrepreensível; era respeitado e tido em consideração; não era nenhum mexeriqueiro de jornal; nunca fora despedido por ninguém. Não trazia na carteira um papel atestando que era o amigo mais bondoso, de coração mais bondoso? O mestre-escola não o lera em voz alta havia pouco? Sim, certamente — e sentou-se para beber, beber desmedidamente — não para entorpecer a consciência, não havia necessidade disso, pois não cometera mal algum, mas apenas para afogar sua cólera. Mas de nada adiantou; ela transbordou — e escaldou os que estavam sentados mais perto dele.
— Bebam, seus patifes! Aquele bruto ali está dormindo! E vocês se dizem amigos! Acorde-o, Levin!
— Com quem você está gritando? — perguntou o ofendido Levin, irritado.
— Com você, é claro!
Dois olhares foram trocados através da mesa, e não prometiam nada de bom. Falk, cujo humor melhorava assim que via outro homem encolerizado, despejou uma concha do conteúdo da poncheira sobre a cabeça do mestre-escola, de modo que o líquido escorreu por sua nuca, atrás do colarinho.
— Não ouse fazer isso de novo! — ameaçou Levin.
— Quem vai me impedir?
— Eu! Sim, eu! Não vou deixar que você estrague as roupas dele. É uma vergonha bestial!
— As roupas dele — riu Falk. — O casaco não é meu? Não fui eu que o dei a ele?
— Você está indo longe demais! — disse Levin, levantando-se para ir embora.
— Então agora você vai embora! Já comeu o bastante, não consegue beber mais, não precisa mais de mim esta noite. Você não queria tomar cinco coroas emprestadas? Hein? Serei privado da honra de lhe emprestar algum dinheiro? Você não queria que eu assinasse alguma coisa? Assinar, hein?
À palavra assinar, Levin ficou de orelhas em pé. E se tentasse levar vantagem sobre ele naquele estado de excitação? A ideia o amoleceu.
— Não seja injusto, irmão — recomeçou. — Não sou ingrato; aprecio plenamente sua bondade; mas sou pobre, mais pobre do que você jamais foi ou poderá ser; sofri humilhações que você nem sequer consegue conceber; mas sempre o considerei um amigo. Quero dizer, um amigo no mais alto sentido da palavra. Você bebeu demais esta noite e por isso está irritadiço; isso o torna injusto, mas eu lhes asseguro, senhores, que no mundo inteiro não bate coração mais bondoso do que o de Charles Nicholas. E não digo isso pela primeira vez. Agradeço-lhe a cortesia desta noite, isto é, se a excelente ceia que comemos, os magníficos vinhos que bebemos, foram comidos e bebidos em minha honra. Agradeço-lhe, irmão, e bebo à sua saúde. À sua saúde, irmão Charles Nicholas! Obrigado, obrigado mil vezes! Você não fez isso em vão! Lembre-se do que digo!
Por estranho que pareça, aquelas palavras, pronunciadas com voz trêmula — trêmula de emoção —, produziram bom resultado. Falk sentiu-se bem. Não lhe haviam assegurado mais uma vez que possuía um coração bondoso? Ele acreditava firmemente nisso.
A embriaguez chegara ao estágio sentimental; eles se aproximaram; falaram de suas boas qualidades, da maldade do mundo, do calor de seus sentimentos, da força de suas boas intenções; apertaram as mãos um do outro. Falk falou da esposa; de sua bondade para com ela; lamentou a falta de espiritualidade em seu ofício; mencionou o quanto tinha dolorosa consciência de sua falta de cultura; disse que sua vida era um fracasso; e, depois de consumir o décimo licor, confidenciou a Levin que sua ambição fora entrar para a Igreja, tornar-se até mesmo missionário. Tornavam-se cada vez mais espirituais. Levin falou da mãe morta, de sua morte e de seu funeral, de um caso de amor infeliz e, por fim, de suas convicções religiosas, em geral ciosamente guardadas como segredo. E logo estavam lançados numa ardorosa discussão sobre religião.
Bateu uma — bateram duas —, e eles ainda conversavam, enquanto Nyström dormia profundamente, os braços sobre a mesa e a cabeça apoiada nos braços. Uma densa nuvem de fumaça de tabaco enchia o escritório e roubava o brilho das chamas de gás. As sete velas do candelabro de sete braços haviam ardido até os bocais, e a mesa apresentava um aspecto desolador. Um ou dois copos haviam perdido as hastes, a toalha manchada estava coberta de cinza de charuto, e o chão juncado de fósforos. A luz do dia começava a romper pelas frestas das venezianas; seus raios atravessavam a nuvem de fumaça e desenhavam figuras cabalísticas sobre a toalha, entre os dois campeões de sua fé, ocupados em reeditar a Confissão de Augsburgo. Agora falavam com vozes sibilantes; seus cérebros estavam entorpecidos; suas palavras soavam secas, e a tensão se afrouxava apesar de seu diligente recurso à garrafa. Tentavam açoitar a alma até o êxtase, mas seus esforços se tornavam cada vez mais fracos; o espírito morrera na conversa; eles apenas trocavam palavras sem sentido; os cérebros estupefatos, que haviam girado como piões, diminuíram a velocidade e por fim pararam; um único pensamento enchia-lhes a mente — precisavam ir para a cama, se não quisessem detestar a vista um do outro; precisavam ficar sozinhos.
Nyström foi sacudido de volta à consciência; Levin abraçou Charles Nicholas e aproveitou a ocasião para enfiar três de seus charutos no bolso. As alturas que haviam escalado eram sublimes demais para permitir que falassem da letra naquele momento. Separaram-se — o anfitrião pôs os convidados para fora — estava sozinho! Abriu as venezianas — a luz do dia inundou o aposento; abriu a janela; a brisa fresca do mar varreu a rua estreita, um de cujos lados já era iluminado pelo sol nascente. Bateram quatro horas, e ele escutou aquele toque maravilhoso, só ouvido pelo pobre miserável que anseia pelo dia num leito de doença ou de tristeza. Até mesmo a Rua Longa Leste, aquela rua de vício, sujeira e brigas, jazia ao sol da manhã, quieta, deserta e pura. Falk sentia-se profundamente infeliz. Estava desonrado — estava só! Fechou a janela e as venezianas e, ao se voltar e contemplar o estado do aposento, começou imediatamente a pô-lo em ordem. Recolheu as pontas de charuto e atirou-as na lareira; tirou a mesa, varreu o aposento, espanou-o e pôs cada coisa em seu lugar. Lavou o rosto e as mãos e escovou o cabelo; um policial poderia tê-lo tomado por um assassino empenhado em apagar todos os vestígios de seu crime. Mas, durante todo esse tempo, pensava com clareza, firmeza e lógica. Quando pôs em ordem o aposento e a si mesmo, formou uma resolução, havia muito ruminada, mas que agora seria posta em prática. Apagaria a desonra que caíra sobre sua família; subiria no mundo e se tornaria um homem conhecido e influente; começaria uma vida nova; conservaria imaculada a reputação e faria com que seu nome fosse respeitado. Sentia que somente uma grande ambição poderia ajudá-lo a manter a cabeça erguida depois do golpe recebido naquela noite. A ambição estivera latente em seu coração; fora despertada e, dali por diante, regeria sua vida.
Já inteiramente sóbrio, acendeu um charuto, bebeu um conhaque e subiu, em silêncio, com cuidado, para não perturbar a esposa adormecida.