CORRESPONDÊNCIA
Capítulo XXVI
Correspondência
CANDIDATO BORG ao LITERATO STRUVE NÄMDÖ, em junho de 18.. — VELHO MEXERIQUEIRO! — Como estou convencido de que nem você nem Levin pagaram as prestações do empréstimo feito pelo Banco dos Sapateiros, envio-lhe junto uma nota promissória, para que possa levantar um novo empréstimo no Banco dos Construtores. Se sobrar alguma coisa depois de pagas as prestações, dividiremos o excedente igualmente entre nós. Por favor, mande-me minha parte pelo vapor até Dalarö, onde passarei para buscá-la. Há um mês tenho Falk sob tratamento, e creio que ele está a caminho da recuperação. Você se lembrará de que, depois da famosa conferência de Olle, ele nos deixou abruptamente e, em vez de tirar proveito do irmão e de suas relações, entrou para o quadro da Bandeira Operária, onde foi maltratado por cinquenta coroas por mês. Mas o vento de liberdade que soprava ali deve ter exercido sobre ele um efeito desmoralizante, pois ele se tornou taciturno e descuidou da aparência. Com a ajuda da moça Beda, fiquei de olho nele, e, quando o considerei maduro para uma ruptura com os comunardos, fui buscá-lo. Encontrei-o numa taverna ordinária chamada “A Estrela”, em companhia de dois pasquineiros com quem bebia aguardente — creio que ao mesmo tempo escreviam. Estava em condição melancólica, como você diria. Como sabe, encaro a humanidade com calma indiferença; os homens, para mim, são preparações geológicas, minerais; alguns cristalizam sob uma condição, outros sob outra; tudo depende de certas leis ou circunstâncias que deveriam nos deixar completamente impassíveis. Não choro pelo espato calcário porque ele não é duro como um cristal de rocha. Portanto, não posso considerar melancólica a condição de Falk; era o resultado de seu temperamento — coração, você diria — somado às circunstâncias que seu temperamento criara. Mas, sem dúvida, ele estava “no fundo” quando o encontrei. Levei-o a bordo do nosso cúter e ele permaneceu passivo. Mas, assim que nos afastamos, virou-se e viu Beda parada na margem, acenando para ele; não consigo imaginar como ela chegou lá. Ao vê-la, nosso homem perdeu completamente a cabeça. “Ponham-me em terra!”, gritou, ameaçando saltar pela borda. Segurei-o pelos braços, empurrei-o para dentro da cabine e tranquei a porta. Ao passarmos por Vaxholm, postei duas cartas; uma ao redator da Bandeira Operária, pedindo que desculpasse a ausência de Falk, e outra à senhoria dele, pedindo que lhe mandasse as roupas. Enquanto isso, ele se acalmara, e, quando contemplou o mar e os escolhos, ficou sentimental e disse uma porção de disparates: que perdera toda a esperança de voltar a ver a verde terra de Deus (?) e assim por diante. Mas logo começou a sofrer de algo parecido com escrúpulos de consciência. Sustentava que não tinha o direito de ser feliz e tirar férias quando havia tanta gente infeliz no mundo; imaginava que estava negligenciando seu dever para com o canalha que edita a Bandeira Operária, e nos suplicou que remássemos de volta. Quando lhe falei do tempo terrível que acabara de atravessar, respondeu que era dever de todos os homens trabalhar e sofrer uns pelos outros. Essa opinião quase se transformara nele numa religião, mas eu o curei com água gasosa e banhos salinos. Estava completamente quebrado, e tive grande dificuldade em remendá-lo, pois era difícil dizer onde terminava o mal físico e começava o psíquico. Devo dizer que, em certo aspecto, ele me causa espanto — não direi admiração, pois nunca admiro ninguém. Parece sofrer de uma mania extraordinária que o faz agir em contradição direta com o próprio interesse. Poderia estar numa posição esplêndida se não tivesse abandonado a carreira no serviço público, sobretudo porque o irmão, nesse caso, o teria ajudado com uma soma de dinheiro. Em vez disso, lançou a reputação aos ventos e se escravizou para um plebeu brutal; e tudo por causa de seus ideais! É extraordinário! Mas parece enfim estar melhorando, principalmente depois de uma lição que recebeu aqui. Você acredita que ele chamava os pescadores de “senhor” e tirava o chapéu para eles? Além disso, entregava-se a conversas cordiais com os nativos, a fim de descobrir “como aquela gente vivia”. O resultado foi que os pescadores aguçaram as orelhas, e um deles me perguntou, um dia, se “esse Falk” pagava a própria pensão, ou se o doutor — eu — pagava por ele. Contei isso a Falk, e ele se abateu; fica sempre abatido quando lhe roubam uma ilusão. Alguns dias depois, conversou com nosso senhorio sobre o sufrágio universal; mais tarde, nosso senhorio perguntou-me se Falk estava em circunstâncias difíceis. Nos primeiros dias, ele corria para cima e para baixo na praia como um louco. Muitas vezes nadava para muito longe, fiorde adentro, como se jamais pretendesse voltar. Como sempre considerei o suicídio um direito sagrado de cada indivíduo, não interferi. Isaac me contou que Falk lhe abrira o coração a respeito da moça Beda; ela parece tê-lo feito de bobo de maneira horrorosa. A propósito de Isaac! É um dos sujeitos mais espertos que já encontrei. Depois de um mês de estudo, dominou a gramática latina e lê seu César como nós lemos o Barrete Cinzento; além disso, entende tudo, coisa que nós nunca fizemos. Seu cérebro é receptivo, isto é, capaz de assimilar conhecimento, e, além disso, prático; essa combinação produziu muitos gênios, apesar da estupidez grosseira em muitos outros aspectos. De vez em quando, ele se entrega a seus instintos comerciais; outro dia deu-nos um exemplo brilhante de seu talento nessa direção. Nada sei de sua situação financeira — nesse ponto ele é muito reservado —, mas, há pouco tempo, precisou pagar algumas centenas de coroas. Estava muito agitado e, como não queria recorrer ao irmão — o do Triton —, com quem não se dá bem, pediu-me que lhe emprestasse a quantia. Eu não estava em condições de fazê-lo. Então ele se sentou, pegou uma folha de papel de carta, escreveu uma carta e a mandou por mensageiro especial. Por alguns dias, nada aconteceu. Diante da nossa cabana crescia um lindo pequeno bosque de carvalhos, que nos dava sombra contra o sol e abrigo contra as fortes brisas do mar. Não entendo muito de árvores nem de coisas referentes à natureza, mas gosto de sentar-me à sombra nos dias quentes. Uma manhã, ao levantar a persiana, fiquei assombrado; eu olhava para o fiorde aberto e para um iate ancorado a cerca de um cabo da margem. Todas as árvores tinham desaparecido, e Isaac estava sentado num toco, lendo Euclides e contando os troncos à medida que eram carregados para bordo do iate. Acordei Falk; ele ficou furioso e brigou com Isaac, que ganhou mil coroas no negócio. Nosso senhorio recebeu duzentas, tudo o que pedira. Eu poderia ter matado Isaac, não por ter mandado cortar as árvores, mas por eu não ter pensado nisso antes. Falk disse que era antipatriótico, mas Isaac jura que a remoção do “entulho” melhorou a vista; declara que na semana que vem pegará um barco e visitará os ilhéus vizinhos com o mesmo objetivo. A mulher do nosso senhorio chorou o dia inteiro, mas o marido foi a Dalarö comprar-lhe um vestido novo; ficou fora dois dias inteiros e, quando finalmente voltou, estava bêbado; não havia nada no barco, e, quando a mulher perguntou pelo vestido novo, o pescador confessou que se esquecera completamente dele. Basta por agora. Escreva logo e conte-me alguns escândalos novos, e tenha cuidado ao manipular o empréstimo. Seu inimigo mortal e avalista, H. B. P.S. Li nos jornais que um Banco do Serviço Público está prestes a ser criado. Quem vai pôr dinheiro nele? Fique de olho, para podermos colocar ali uma letra quando chegar a hora. Por favor, insira o seguinte parágrafo no Barrete Cinzento; ele influirá em meu diploma de medicina. DESCOBERTA CIENTÍFICA: O Când. Med. Henrik Borg, um de nossos mais distintos jovens médicos, descobriu, enquanto se dedicava a pesquisas zootômicas nos escolhos próximos a Estocolmo, uma nova espécie da família Clypeaster, à qual deu o nome muito pertinente de maritimus. Suas características podem ser descritas da seguinte forma: lâminas cutâneas em cinco escudos ambulacrários porosos e cinco escudos interambulacrários, com verrugas em vez de espinhos. O animal despertou grande interesse no mundo científico. * * * * * ARVID FALK a BEDA PETTERSON NÄMDÖ, em agosto de 18.. — Quando caminho à beira-mar e vejo as algas crescendo entre areia e seixos, penso em você, florescendo por um inverno inteiro numa estalagem da velha Estocolmo. Nada conheço de mais delicioso que me deitar de bruços sobre uma rocha e sentir os fragmentos de gnaisse fazendo cócegas nas minhas costelas enquanto fito o mar. Isso me enche de orgulho, e imagino ser Prometeu, enquanto o abutre — isto é, você — tem de ficar deitado num colchão de penas na rua Sandberg e engolir mercúrio. A alga marinha não serve para nada enquanto cresce no fundo do mar; mas, quando apodrece na praia, cheira a iodo, que é remédio para o amor, e a brometo, que é remédio para a loucura. Não existia inferno antes que o Paraíso estivesse completo, isto é, antes que a mulher fosse criada — piada velha! Longe, junto ao mar aberto, vive um casal de êideres, dentro de um velho quarto de tonel. Quando se considera que as asas estendidas do êider medem dois pés, isso parece um milagre — e o amor é um milagre. O mundo inteiro é pequeno demais para mim. * * * * * BEDA PETTERSON ao SR. FALK ESTOCOLMO, em agosto de 18.. — QUERIDO AMIGU, — acabei de reseber sua carta, mas não posso diser que compriendi, vejo que você pensa que estou na rua Sandberg, mas isso é uma grandi mintira e posso compriender por que aquele canalha diz que estou, é uma grandi mintira e eu juro que amo você tanto como antes, muitas vezes tenho saudadi de ver você mas ainda não pode ser. Sua fiel Beda. P.S. Querido Arvid, se você pudesse me imprestar 30 coroas até o dia 15, eu juro que pago de volta no dia 15 porque vou reseber dinheiro então, tenho estado tão doenti e muitas vezes fico tão triste que queria estar morta. A moça do café era uma criatura orrível que tinha ciúmes por causa do gordo Berglund e foi por isso que saí. Tudo que dizem de mim é mentira, espero que você esteja bem e não esqueça da sua. A mesma. Pode mandar o dinheiro para Hulda no Café, então eu vou reseber. * * * * * CANDIDATO BORG ao LITERATO STRUVE NÄMDÖ, em agosto de 18.. — PATIFE CONSERVADOR! — Você deve ter desviado o dinheiro, pois, em vez de receber numerário, recebi uma intimação de pagamento do Banco dos Sapateiros. Imagina que um homem tem o direito de roubar porque tem mulher e filhos? Preste contas imediatamente, senão subirei à cidade e farei um escândalo. Li o parágrafo, que, naturalmente, não estava sem erros. Dizia “zoológico” em vez de “zootômico”, e “Crypeaster” em vez de “Clypeaster”. Apesar disso, espero que sirva ao seu propósito. Falk enlouqueceu depois de receber, há um ou dois dias, uma carta em caligrafia feminina. Num minuto trepava em árvores, no seguinte mergulhava até o fundo do mar. Suponho que tenha sido a crise — falarei com ele como um pai um pouco mais tarde. Isaac vendeu seu iate sem pedir minha permissão e, por essa razão, somos neste momento inimigos. No presente, está lendo o segundo livro de Lívio e fundando uma Companhia de Pesca. Comprou uma rede de strömming, uma espingarda de focas, vinte e cinco piteiras, uma linha de salmão, duas redes de robalo, um galpão para redes de arrasto e uma — igreja. Esta última parece incrível, mas é pura verdade. Admito que ela foi um pouco chamuscada pelos russos em 1719, mas as paredes ainda estão de pé. A paróquia possui uma nova, que serve ao uso comum; a velha era utilizada como depósito paroquial. Isaac pensa em oferecê-la de presente à Academia de Letras, História e Antiguidades, na esperança de receber a Ordem de Vasa. Esta já foi concedida por menos. O tio de Isaac, que é estalajadeiro, recebeu-a por tratar os surdos-mudos com pão com manteiga e cerveja quando eles usavam o picadeiro no outono. Fez isso durante seis anos. Então recebeu sua recompensa. Agora não dá mais atenção aos surdos-mudos, o que prova como a Ordem de Vasa pode ser fatal em certas circunstâncias. A menos que eu afogue o patife do Isaac, ele não descansará enquanto não tiver comprado toda a Suécia. Recomponha-se e comporte-se como homem honrado, ou cairei sobre você como Jeú, e então estará perdido. H. B. P.S. Quando escrever a nota relativa aos estrangeiros ilustres em Dalarö, mencione a mim e a Falk, mas ignore Isaac; sua presença me irrita — ele foi vender o iate. Mande-me alguns formulários de letra — azuis, Sola- — quando enviar o dinheiro. * * * * * CANDIDATO BORG ao LITERATO STRUVE NÄMDÖ, em setembro de 18.. — HOMEM DE HONRA! — O dinheiro chegou! Parece ter sido trocado, pois o Banco dos Construtores sempre paga em cédulas escanianas de cinquenta. Mas não importa! Falk está bem; atravessou a crise como um homem; recuperou a autoconfiança — qualidade importantíssima no que diz respeito ao sucesso mundano, mas que, segundo as estatísticas, é consideravelmente enfraquecida nas crianças que perdem a mãe cedo. Receitei-lhe uma prescrição que prometeu tentar com tanto mais disposição quanto a mesma ideia já lhe ocorrera. Voltará à antiga profissão, mas sem aceitar a ajuda do irmão — seu último ato de loucura, que não aprovo —, reingressará na sociedade, registrará seu nome com o resto do gado, tornar-se-á respeitável, conquistará uma posição social e manterá a boca fechada até que sua palavra tenha peso. Esta última medida é absolutamente necessária se ele quiser permanecer vivo; tem tendência à insanidade e acabará perdendo a razão se não se esquecer de todas essas ideias que realmente não consigo compreender; e não creio que ele próprio pudesse definir o que deseja. Começou a cura, e estou espantado com seu progresso. Tenho certeza de que acabará como membro da Casa Real. Era isso que eu acreditava até alguns dias atrás, quando ele leu num jornal uma notícia sobre a Comuna de Paris. Teve imediatamente uma recaída e voltou a trepar em árvores. Superou-a, porém, e agora não ousa olhar para um jornal. Mas nunca diz uma palavra. Cuidado com esse homem quando seu aprendizado terminar. Isaac agora estuda grego. Considera os manuais estúpidos e compridos demais; por isso os desmonta, recorta as partes mais importantes e as cola num livro-caixa que organizou como resumo para seus próximos exames. Infelizmente, seu conhecimento crescente dos clássicos torna-o atrevido e desagradável. Assim, por exemplo, atreveu-se outro dia, jogando damas com o pastor, a contradizê-lo e a sustentar que os judeus haviam inventado o cristianismo e que todos os batizados eram, na verdade, judeus. O latim e o grego o arruinaram! Receio ter criado um dragão em meu peito peludo; se assim for, então a semente da mulher deverá esmagar a cabeça da serpente. H. B. P.S. Falk raspou a barba americana e já não tira o chapéu para os pescadores. Você não terá mais notícias minhas de Nämdö. Voltamos à cidade na segunda-feira.