A ÚLTIMA PEÇA O Quarto Vermelho · Capítulo 25 de 30
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A ÚLTIMA PEÇA

Capítulo XXV

A Última Peça

Passou o inverno; devagar para os sofredores, mais depressa para os menos infelizes. Chegou a primavera, com suas esperanças frustradas de sol e verdura, e por sua vez abriu espaço ao verão, que não passou de uma breve introdução ao outono. Numa manhã de maio, Arvid Falk, agora integrante do quadro permanente da Bandeira Operária, passeava pelo cais, observando os navios que carregavam e descarregavam. Parecia menos bem tratado que em outros tempos; os cabelos negros estavam mais compridos do que a moda permitia, e ele usava uma barba à Henrique IV, que dava ao rosto magro uma expressão quase selvagem. Um fogo sinistro ardia-lhe nos olhos, desses que denunciam o fanático ou o bêbado. Parecia esforçar-se para escolher entre as embarcações, mas não conseguia decidir. Depois de hesitar durante bom tempo, abordou um dos marinheiros, que empurrava um carrinho cheio de mercadorias para um brigue. Tirou o chapéu com cortesia. — Poderia me dizer qual é o destino deste navio? — perguntou timidamente, imaginando falar com voz firme. — Navio? Não estou vendo navio nenhum. Os circunstantes riram. — Mas, se quer saber para onde vai este brigue, vá ler aquele aviso ali! Falk ficou desconcertado, mas obrigou-se a dizer, irritado: — Não pode dar uma resposta civilizada a uma pergunta civilizada? — Vá para o inferno e não fique aí praguejando contra os outros! Atenção! A conversa se interrompeu, e Falk tomou uma decisão. Voltou pelo caminho por onde viera, subiu por uma viela, atravessou Köpmantorget e virou na Kindstugatan. Deteve-se diante da porta de uma casa de aspecto imundo. Hesitou outra vez; nunca conseguia vencer seu pecado dominante, a indecisão. Um menininho esfarrapado e vesgo vinha correndo, com as mãos cheias de provas em tiras compridas; quando ia passar por Falk, este o deteve. — O redator está lá em cima? — perguntou. — Está; chegou às sete — respondeu o menino, sem fôlego. — Perguntou por mim? — Mais de uma vez. — Está de mau humor? — Está sempre. O menino subiu a escada como uma flecha. Falk, seguindo-lhe os passos, entrou na redação. Era um buraco, com duas janelas dando para uma rua escura; diante de cada janela havia uma mesa simples de pinho, coberta de papéis, penas, jornais, tesouras e um frasco de goma. Uma das mesas era ocupada por seu velho amigo Ygberg, vestido com uma casaca preta e esfarrapada, às voltas com a leitura de provas. À outra mesa, a de Falk, estava sentado um homem em mangas de camisa, com a cabeça coberta por um gorro de seda preta do tipo que agradava aos comunardos. O rosto era coberto por uma barba ruiva, e a figura atarracada, de contornos pesados, traía o homem do povo. Quando Falk entrou, as pernas do comunardo chutaram violentamente a mesa; ele arregaçou as mangas, deixando à mostra tatuagens azuis que representavam uma âncora e um R anglo-saxão, agarrou uma tesoura, cravou-a selvagemente na primeira página de um jornal matutino, recortou um parágrafo e disse, rudemente, de costas para Falk: — Onde você esteve? — Estive doente — respondeu Falk, num tom desafiador, como pensou; humilde, como Ygberg lhe diria mais tarde. — Mentira! Você esteve bebendo! Eu o vi no Naples ontem à noite... — Creio que posso ir aonde quiser. — Pode fazer o que quiser; mas tem de estar aqui na hora exata, conforme nosso acordo. São oito e quinze. Sei muito bem que os senhores que frequentaram universidade, onde imaginam aprender muita coisa, não têm noção nenhuma de método nem de maneiras. Você não acha falta de educação chegar atrasado ao trabalho? Não está se comportando como um grosseirão quando obriga seu empregador a fazer o seu serviço? Hein? É o mundo de pernas para o ar! O empregado trata o patrão — ou o empregador, se preferir — como se fosse um cachorro, e o capital é o oprimido. — Quando chegou a essas conclusões? — Quando? Agora mesmo, senhor! Agora mesmo! E espero que sejam conclusões dignas de consideração, apesar disso. Mas descobri outra coisa: você é um ignorante; não sabe ortografia! Olhe isto! O que está escrito aqui? Leia! “Esperamos que todos os que terão de passar pelo exercício no ano que vem...” É possível? “Que... no ano que vem...” — Bem, está perfeitamente certo — disse Falk. — Certo? Como se atreve a dizer que está certo? O uso é dizer “que, no ano que vem,” e, portanto, também se deve escrever dessa forma. — Isso também está certo; as determinações temporais podem reger tanto o acusativo como... — Nada desse palavrório de letrado! Não venha me dizer bobagens! Além disso, você escreve ex-ercício só com x, embora devesse escrever ex-sercício. Não arranje desculpas: é ex-ercício ou ex-sercício? — Naturalmente as pessoas dizem... — As pessoas dizem; portanto ex-sercício está certo. A pronúncia corrente é que deve ser correta. Ou talvez, feitas as contas, eu seja um tolo? Talvez eu não saiba escrever direito? Mas chega, agora! Ao trabalho; e, da próxima vez, preste um pouco mais de atenção ao relógio. Ele saltou da cadeira com um berro e deu um tabefe no menino da tipografia. — Está dormindo em plena luz do dia, seu moleque? Eu lhe ensino a ficar acordado. Você ainda não está velho demais para apanhar. Agarrou a vítima pelos suspensórios, atirou-a sobre um monte de jornais invendidos e bateu nela com o cinto. — Eu não estava dormindo! Eu não estava dormindo! Só estava fechando os olhos um pouquinho — uivou o menino. — Como? Atreve-se a negar? Aprendeu a mentir, mas eu lhe ensino a falar a verdade! Estava dormindo ou não estava? Diga a verdade, ou vai se arrepender. — Eu não estava dormindo — choramingou o menino, ainda jovem e inexperiente demais para sair da dificuldade por meio de uma mentira. — Ah, então pretende sustentar a mentira, diabinho empedernido! Mentiroso insolente! Ia continuar a surra quando Falk se levantou, aproximou-se do redator e disse com firmeza: — Não encoste nele! Eu vi que ele não estava dormindo. — Por Deus! Ouçam isto! Quem diabos é você? “Não encoste nele!” Quem disse essas palavras? Devo ter ouvido um mosquito zumbindo. Ou talvez meus ouvidos me enganassem. Assim espero! Espero mesmo! Senhor Ygberg! O senhor é pessoa decente. Não passou pela universidade. Por acaso viu se este menino, que estou segurando pelos suspensórios como um peixe, estava dormindo ou não? — Se não estava dormindo — respondeu Ygberg, fleumático e prestativo —, estava quase pegando no sono. — Boa resposta! O senhor se importaria de segurá-lo, senhor Ygberg, enquanto lhe dou uma lição de verdade com a bengala? — O senhor não tem o direito de bater nele — disse Falk. — Se se atrever a tocá-lo, abro a janela e chamo a polícia. — Sou o dono da minha casa e sempre bato nos meus aprendizes. Ele é aprendiz, e mais tarde será empregado na redação. É isso que vai acontecer, embora haja pessoas que imaginem que só se pode editar um jornal direito quando se passou pela universidade. Fale, Gustav: você está aprendendo o ofício de jornal? Responda, mas diga a verdade, senão... Antes que o menino tivesse tempo de responder, a porta se abriu e uma cabeça espiou para dentro — uma cabeça muito notável, e certamente não daquelas que se esperariam em semelhante lugar; mas era uma cabeça conhecida, já pintada cinco vezes. Ao vê-la, o redator afivelou o cinto às pressas, vestiu o paletó, curvou-se e sorriu. O visitante perguntou se o redator estava livre. Recebeu resposta satisfatória, e o último vestígio do homem do povo desapareceu quando um movimento rápido varreu da cabeça do redator o gorro de comunardo. Os dois entraram numa sala interna e a porta se fechou atrás deles. — Que será que o conde quer? — perguntou Ygberg, com ar de colegial quando o mestre deixa a sala. — Eu não me pergunto nada — disse Falk. — Acho que sei que espécie de canalha ele é, e que espécie de canalha é o redator. Mas me surpreende ver que você passou de simples cabeça-dura a patife infame, e que se presta a esses atos vergonhosos. — Não perca a calma, meu caro! Você não esteve na Câmara ontem à noite? — Não! Na minha opinião, o Parlamento é uma farsa, salvo quando se trata de interesses privados. E o Triton? — A questão foi posta em votação, e resolveu-se que o Governo, em vista da grandeza, do patriotismo que caracterizava a empresa, assumiria as debêntures enquanto a sociedade entrava em liquidação, isto é, liquidava os negócios correntes. — Quer dizer que o Governo vai escorar a casa enquanto os alicerces ruem, para dar aos diretores tempo de se pôr a salvo. — Você preferiria que todos aqueles pequenos... — Sei o que vai dizer: todos aqueles pequenos capitalistas. Sim, eu preferiria vê-los trabalhando com seu pequeno capital a vê-los sem fazer nada e emprestando-o a juros; mas, acima de tudo, gostaria de ver aqueles trapaceiros na cadeia. Isso ajudaria a pôr fim a essas fraudes. Mas eles chamam isso de economia política! É vil! Há outra coisa que quero dizer: você cobiça meu posto. Pois ele é seu! Odeio a ideia de vê-lo sentado no seu canto com o coração cheio de amargura porque precisa varrer o chão depois de mim na leitura de provas. Já há artigos meus demais, não publicados, sobre a mesa deste desprezível apóstolo da liberdade para que eu me sinta tentado a continuar contando lorotas. O Barrete Vermelho era conservador demais para o meu gosto, mas A Bandeira Operária é suja demais. — Fico feliz em vê-lo abandonar suas quimeras e ouvir o bom senso. Vá para o Barrete Cinzento; lá você terá uma oportunidade. — Perdi a ilusão de que a causa dos oprimidos esteja em boas mãos, e acho que seria uma esplêndida missão esclarecer o povo sobre o valor da opinião pública — especialmente da opinião pública impressa — e sobre sua origem; mas nunca abandonarei a causa. A porta da sala interna se abriu outra vez, e o redator saiu. Parou no meio da redação e disse, numa voz de conciliação artificial, quase polida: — Quero que cuide da redação por um dia, senhor Falk. Preciso me ausentar a negócios importantes. O senhor Ygberg o ajudará no expediente cotidiano. Sua Senhoria usará minha sala por alguns minutos. Espero, senhores, que providenciem para que nada lhe falte. — Ah, por favor, não se incomodem — veio a voz do conde, lá de dentro, onde ele estava inclinado sobre um manuscrito. O redator saiu e, coisa estranha, dois minutos depois o conde também saiu; esperara apenas o suficiente para não ser visto na companhia do redator da Bandeira Operária. — Tem certeza de que ele foi embora? — perguntou Ygberg. — Espero que sim — disse Falk. — Então vou descer até Munkbron e ver as senhoras fazendo compras. A propósito, você viu Beda depois disso? — Depois de quê? — Depois que ela deixou o Naples e foi morar num quarto sozinha. — Como sabe que ela fez isso? — Controle-se, Falk. Você nunca vai subir na vida se não fizer isso. — Sim, você tem razão. Preciso encarar as coisas com mais calma, senão vou perder o juízo! Mas aquela moça, que amei tanto! Como ela me tratou vergonhosamente! Dar àquele brutamontes tudo o que me negou! E ainda ter a cara de me dizer que isso provava a pureza do amor dela por mim! — Dialética excelente! E ela também está certa, pois sua primeira proposição é correta. Ela ama você, não ama? — Está correndo atrás de mim, pelo menos. — E você? — Eu a odeio com toda a minha alma, mas tenho medo de encontrá-la. — O que prova que você ainda está apaixonado por ela. — Vamos mudar de assunto! — Você realmente precisa se controlar, Falk! Tome-me como exemplo! Mas agora vou me bronzear um pouco; deve-se aproveitar a vida tanto quanto possível neste mundo lúgubre. Gustav, você pode ir jogar botões por uma hora, se quiser. Falk ficou sozinho. O sol lançava seus raios sobre o telhado íngreme do outro lado e aquecia o quarto; ele abriu a janela e pôs a cabeça para fora em busca de ar fresco, mas só respirou os odores acres da sarjeta. Seu olhar percorreu a rua à direita e, muito ao longe, viu uma parte de um vapor, algumas ondas do lago Mälaren cintilando ao sol, e uma depressão nas rochas do outro lado, que aqui e ali começavam a mostrar um pouco de verde. Pensou nas pessoas que aquele vapor levaria para o campo, que se banhariam naquelas ondas e regalariam os olhos com o verde novo. Mas nesse instante o latoeiro de baixo começou a martelar uma chapa de ferro, de tal modo que a casa e as vidraças tremeram; dois ou três trabalhadores passaram com uma carroça ruidosa e fedorenta, e do botequim em frente veio uma baforada de aguardente, cerveja, serragem e ramos de pinheiro. Ele fechou a janela e sentou-se à mesa. Diante dele estava uma pilha de uns cem jornais de província, dos quais devia fazer recortes. Tirou os punhos e começou a examiná-los. Cheiravam a óleo e fuligem e lhe enegreceram as mãos — essa era sua principal característica. Nada que ele considerasse digno de reprodução tinha utilidade, pois era preciso levar em conta o programa do jornal. Uma notícia informando que os operários de certa fábrica haviam dado ao contramestre uma tabaqueira de prata precisava ser recortada; mas a nota sobre um fabricante que dera quinhentas coroas ao fundo de seus trabalhadores devia ser ignorada. Um parágrafo relatando que o duque de Halland inaugurara um bate-estacas, e que o diretor Holzheim celebrara o acontecimento em versos, tinha de ser recortado e reproduzido na íntegra “porque o povo gostava de ler esse tipo de coisa”; se ele pudesse acrescentar um pouco de sarcasmo mordaz, tanto melhor, pois então “com certeza ouviriam falar no assunto”. Em linhas gerais, a regra era recortar tudo o que se dissesse a favor dos jornalistas e dos trabalhadores, e tudo o que depreciasse clérigos, oficiais, comerciantes atacadistas — não varejistas —, profissionais liberais e escritores famosos. Além disso, ao menos uma vez por semana, era seu dever atacar a administração do Teatro Real e criticar severamente, em nome da moralidade e da decência pública, as comédias musicais frívolas encenadas no Pequeno Teatro — ele notara que os trabalhadores não frequentavam esses teatros. Uma vez por mês, os vereadores deviam ser acusados de extravagância. Sempre que surgisse oportunidade, a forma de governo, não o Governo em si, devia ser atacada. O redator censurava com severidade todos os ataques a certos membros do Parlamento e a ministros. Quais? Esse era um mistério desconhecido até do redator; dependia de uma combinação de circunstâncias com a qual apenas o proprietário secreto do jornal podia lidar. Falk trabalhou com a tesoura até ficar com uma das mãos preta. Recorria com frequência ao frasco de goma, mas a goma cheirava azedo e o calor na sala era sufocante. O pobre aloé, capaz de suportar a sede como um camelo e de receber pacientemente incontáveis estocadas de uma pena de aço irritada, acentuava a terrível semelhança com um deserto. Fora espetado até se cobrir de feridas negras; suas folhas brotavam da terra ressequida como um feixe de orelhas de burro. Falk provavelmente tinha uma vaga consciência disso enquanto estava sentado, mergulhado em pensamentos, pois, antes de perceber o que fazia, havia decepado todos os lóbulos daquelas orelhas. Quando notou o que fizera, pintou as feridas com goma e ficou olhando enquanto secavam ao sol. Perguntou-se vagamente, por alguns momentos, como conseguiria jantar, pois se desviara para aquela senda que leva à destruição, as chamadas “circunstâncias difíceis”. Por fim, acendeu um cachimbo e observou a fumaça apaziguadora subir e banhar-se, por alguns segundos, na luz do sol. Aquilo o fez sentir-se mais tolerante com a pobre Suécia, tal como ela se exprimia nesses relatórios diários, semanais e mensais chamados Imprensa. Pôs a tesoura de lado e atirou os jornais para um canto; dividiu o conteúdo da bilha de barro com o aloé. O objeto miserável parecia uma criatura a quem tivessem cortado as asas; um espírito de cabeça para baixo num brejo, cavando em busca de alguma coisa — pérolas, por exemplo, ou, ao menos, conchas vazias. Então o desespero, como um curtidor, agarrou-o de novo com um longo gancho e o empurrou para dentro da cuba, onde seria preparado para a faca que lhe arrancaria a pele e o tornaria igual a todos os outros. E ele não sentiu remorso, nem pesar por uma vida desperdiçada, mas apenas o desespero de ter de morrer ainda jovem, morrer a morte espiritual, antes de ter tido a oportunidade de ser útil no mundo; o desespero de ser lançado ao fogo como um caniço inútil. O relógio da igreja Alemã bateu onze horas, e os carrilhões começaram a tocar “Ó terra abençoada” e “Minha vida, uma onda”; como se tomado pela mesma ideia, um realejo italiano, com acompanhamento de flauta, começou a tocar “O Danúbio Azul”. Tanta música deu nova vida ao funileiro de baixo, que passou a martelar a chapa de ferro com energia redobrada. O estrépito e o alvoroço impediram Falk de perceber a porta se abrindo e a entrada de dois homens. Um deles tinha a figura alta e magra, nariz aquilino e cabelos compridos; o outro era baixo, louro e atarracado; o rosto suado lembrava muito o quadrúpede que os hebreus consideram mais impuro que todos. A aparência exterior de ambos denunciava uma ocupação que não exigia muita força mental nem grande força física; havia nela uma qualidade vaga, indicativa de hábitos e trabalhos irregulares. — Psiu! — sussurrou o homem alto. — Está sozinho? Falk ficou em parte satisfeito, em parte aborrecido ao ver os visitantes. — Completamente sozinho; o Vermelho saiu da cidade. — Saiu? Então venha jantar conosco. Falk não se opôs; trancou a redação e acompanhou os visitantes até o boteco mais próximo, onde os três se sentaram no canto mais escuro. — Tome, beba aguardente — disse o homem atarracado, cujos olhos vidrados faiscavam ao ver a garrafa. Mas Falk, que só se juntara aos amigos porque ansiava por simpatia e consolo, não deu atenção aos prazeres oferecidos. — Faz muito tempo que não me sinto tão miserável — disse. — Coma pão com manteiga e um arenque — disse o homem alto. — Vamos pedir queijo com alcaravia. Ei! Garçom! — Não podem me aconselhar? — recomeçou Falk. — Não suporto mais o Vermelho, e preciso... — Ei! Garçom! Traga pão preto! Beba, Falk, e não fale bobagem. Falk perdeu o prumo; não fez segunda tentativa de encontrar solidariedade para suas dificuldades mentais, mas tentou outra via, nada incomum. — Então o conselho de vocês é a garrafa de aguardente? — disse. — Muito bem; de todo o coração, então! O álcool correu por suas veias como veneno, pois não estava acostumado a tomar bebidas fortes pela manhã; o cheiro da comida, o zumbido das moscas, o odor das flores murchas que estavam ao lado do centro de mesa sujo, tudo lhe produziu uma estranha sensação de bem-estar. E seus companheiros ordinários, com a roupa branca descuidada, os paletós engordurados e os rostos sujos de aves de cadeia, harmonizavam tão bem com sua própria posição degradada que ele sentiu uma alegria selvagem subir-lhe ao coração. — Estivemos no Djurgården ontem à noite e, por Deus, como bebemos! — disse o homem gordo, saboreando outra vez, pela memória, os prazeres passados. Falk não respondeu; além disso, seus pensamentos corriam por outro trilho. — Não é delicioso ter a manhã livre? — disse o homem alto, que parecia desempenhar o papel de tentador. — É, sim! — respondeu Falk, tentando medir sua liberdade, por assim dizer, com um olhar pela janela; mas tudo o que viu foi uma escada de incêndio e uma lata de lixo num pátio que nunca recebia mais que um pálido reflexo do céu de verão. — Meio litro! É isso! Ah! Bem, e o que vocês dizem do Triton? Ha-ha-ha! — Não ria — disse Falk. — Muito pobre-diabo vai sofrer com isso. — Que pobres-diabos? Pobres capitalistas? Você sente pena dos que não trabalham e vivem dos rendimentos do dinheiro? Não, meu rapaz, você ainda está cheio de preconceitos! Havia uma história engraçada na Vespa sobre um comerciante atacadista que legou vinte mil coroas à creche Belém e recebeu a Ordem de Vasa por sua munificência; agora se descobriu que o legado era em ações do Triton, com responsabilidade solidária, e portanto a creche, é claro, está falida. Não é uma maravilha? O ativo era de vinte e cinco berços e um óleo de mestre desconhecido. É engraçadíssimo! O retrato foi avaliado em cinco coroas! Ha-ha-ha! O tema da conversa irritou Falk, pois ele sabia mais sobre o assunto que os outros dois. — Você viu que o Barrete Vermelho desmascarou aquele farsante Schoenström, que publicou aquele volume de versos miseráveis no Natal? — disse o gordo. — Foi um prazer raro conhecer a verdade sobre o canalha. Eu mesmo mais de uma vez lhe dei uma boa surra na Cobra de Cobre. — Mas você foi um tanto injusto; os versos dele não eram tão ruins como você disse — observou o homem alto. — Não tão ruins? Eram piores que os meus, que o Barrete Cinzento estraçalhou. Não se lembra? — A propósito, Falk, você esteve no teatro do Djurgården? — perguntou o homem alto. — Não. — Que pena! Aquela quadrilha de ladrões do Lundholm está representando lá. Insolente, aquele diretor! Não mandou lugares para a Cobra de Cobre, e, quando chegamos ao teatro ontem à noite, pôs-nos para fora. Mas vai pagar por isso! Você dá uma paulada no cachorro! Aqui estão papel e lápis. Cabeçalho: “Teatro e Música. Teatro de Djurgården.” Agora, continue! — Mas eu não vi a companhia. — Que importância tem isso? Nunca escreveu sobre coisa que não tivesse visto? — Não! Desmascarei impostores, mas nunca ataquei gente inofensiva, e nada sei dessa companhia. — São uma turma miserável. Só escória — afirmou o homem gordo. — Afie a pena e esmague-lhe o calcanhar; você é esplêndido nisso. — Por que vocês mesmos não lhe esmagam o calcanhar? — Porque os tipógrafos conhecem nossa letra, e alguns deles circulam no meio da multidão. Além disso, Lundholm é sujeito violento; com certeza vai invadir a redação. Então será bom poder dizer a ele que a crítica é uma comunicação do público. E, enquanto você escreve sobre o palco, eu faço os concertos. Houve um concerto sacro na semana passada. O sujeito não se chamava Daubry? Com y? — Não, com i — corrigiu o gordo. — Não se esqueça de que ele é tenor e cantou o Stabat Mater. — Como se escreve isso? — Eu lhe digo daqui a pouco. O redator gordo da Cobra de Cobre tirou um pacote de jornais sebentos de cima do medidor de gás. — Aqui está o programa inteiro e, creio, uma crítica também. Falk não pôde deixar de rir. — Como uma crítica pôde sair ao mesmo tempo que o anúncio? — Por que não poderia? Mas não vamos precisar dela; eu mesmo vou criticar aquela cambada francesa. É melhor você cuidar dos livros, Gordo! — Os editores mandam livros para a Cobra de Cobre? — perguntou Falk. — Você enlouqueceu? — Vocês mesmos os compram para fazer as resenhas? — Comprá-los? Novato! Tome outro copo, anime-se, e eu lhe pago uma costeleta. — Vocês leem os livros que resenham? — Quem você acha que tem tempo de ler livros? Já não basta escrever sobre eles? É suficiente ler os jornais. Além disso, nosso princípio é desancar tudo. — Um princípio absurdo! — De modo nenhum! Ele põe do nosso lado todos os inimigos e invejosos do autor — e assim ficamos em maioria. Os neutros preferem ver um autor desancado a vê-lo elogiado. Para o zé-ninguém, há algo de edificante e consolador em saber que o caminho da fama é coberto de espinhos. Não acha? — Talvez você tenha razão. Mas é terrível brincar assim com destinos humanos. — Ora! Faz bem a jovens e velhos; sei disso, pois fui desancado sem descanso na juventude. — Mas vocês desviam a opinião pública. — O público não quer ter opinião; quer satisfazer suas paixões. Se elogio seu inimigo, você se contorce como um verme e me diz que não tenho julgamento; se elogio seu amigo, diz que tenho. Pegue aquela última peça do Teatro Dramático, Gordo, que acabou de sair em livro. — Tem certeza de que saiu? — Absoluta. É bastante seguro dizer que falta ação; essa é uma frase que o público conhece bem. Ria um pouco da “bela linguagem”; é um bom elogio depreciativo, bem antigo. Depois ataque a direção por ter aceitado tal peça e assinale que a lição moral é duvidosa — uma coisa muito segura de se dizer sobre quase tudo. Mas, como você não viu a representação, diga que a falta de espaço nos obriga a adiar a crítica da atuação. Faça isso e não poderá errar. — Quem é o infeliz autor? — perguntou Falk. — Ninguém sabe. — Pense nos pais dele, nos amigos, que talvez leiam suas observações completamente injustas. — Que tem a Cobra de Cobre com isso? Eles esperavam ver um amigo ser desancado; sabem o que esperar da Cobra de Cobre. — Vocês não têm consciência? — O público que nos sustenta tem consciência? Acha que poderíamos sobreviver se ele não nos sustentasse? Quer ouvir um parágrafo que escrevi sobre o estado atual da literatura? Posso lhe garantir que dará muito em que pensar. Tenho uma cópia comigo. Mas peçamos stout primeiro. Garçom! Ei! Agora vou lhe oferecer um prazer; aproveite, se quiser. “Há muitos anos não se ouvia tanto choramingo na fábrica sueca de versos; esse lamuriar constante é capaz de levar um homem ao manicômio. Canalhas robustos miam como gatos em março; imaginam que anemia e adenoides despertarão interesse público agora que a tísica saiu de moda. E, no entanto, têm lombos largos como cavalos de cervejaria e rostos vermelhos como taberneiros. Este aqui choraminga sobre a infidelidade das mulheres, embora tudo o que possua a esse respeito seja a lealdade comprada de uma meretriz; aquele ali nos diz que não tem ouro, mas que sua ‘harpa é tudo o que possui no mundo’ — mentiroso! Tem cinco mil coroas de dividendos por ano e direito a uma cadeira dotada na Academia Sueca. Um terceiro é um zombador infiel e cínico, que não pode abrir os lábios sem exalar seu espírito impuro e balbuciar blasfêmias. Seus versos não são nem um pouco melhores que aqueles que, trinta anos atrás, as filhas dos pastores cantavam ao violão. Deveriam escrever para confeiteiros a um vintém por linha, e não desperdiçar o tempo de editores, tipógrafos e críticos com suas rimas. Sobre o que escrevem? Sobre nada, isto é, sobre si mesmos. É falta de educação falar de si, mas é perfeitamente correto escrever sobre si. De que se queixam? Da incapacidade de alcançar sucesso? Sucesso? Eis a palavra! Produziram um único pensamento capaz de beneficiar seus semelhantes, a época em que vivem? Se ao menos uma vez tivessem defendido a causa dos desamparados, seus pecados talvez lhes fossem perdoados; mas não o fizeram. Por isso são como metal que soa — não, são como uma lata tinindo e o guizo rachado do barrete de um bobo —, pois não têm outro amor senão o amor pela próxima edição de seus livros, o amor pela Academia e o amor por si mesmos.” — Isso é sarcasmo, não é? Hein? — É injusto — disse Falk. — Acho muito impressionante — disse o homem gordo. — Você não pode negar que está bem escrito. Pode? Ele maneja uma pena capaz de furar sola de sapato. — Agora, rapazes, parem de falar e escrevam; depois terão café e licores. E eles escreveram sobre mérito humano e indignidade humana, e partiram corações como quem quebra cascas de ovo. Falk sentiu um desejo indescritível de ar fresco; abriu a janela que dava para o pátio; era escuro e estreito como um túmulo; tudo o que podia ver era um quadradinho de céu, se inclinasse a cabeça bem para trás. Imaginou que estava sentado em seu túmulo, respirando vapores de aguardente e cheiros de cozinha, comendo o banquete fúnebre no enterro de sua juventude, de seus princípios e de sua honra. Sentiu o cheiro das flores de sabugueiro que estavam sobre a mesa, mas elas fediam a decomposição; olhou mais uma vez pela janela, ansioso por encontrar um objeto que não lhe inspirasse asco, mas nada havia senão uma lata de lixo recém-alcatroada — de pé como um caixão — com seu conteúdo de enfeites descartados e trastes quebrados. Seus pensamentos subiram pela escada de incêndio, que parecia conduzir da sujeira, do fedor e da vergonha diretamente ao céu azul; mas não havia anjos subindo e descendo, e nenhum amor velava lá de cima — não havia nada além do vazio azul e desocupado. Falk pegou a pena e começou a sombrear as letras do título “Teatro”, quando uma mão forte agarrou-lhe o braço e uma voz firme disse: — Venha comigo. Quero falar com você! Ele ergueu os olhos, surpreendido e envergonhado. Borg estava ao seu lado, aparentemente decidido a não deixá-lo escapar. — Posso apresentar... — começou Falk. — Não, não pode — interrompeu Borg. — Não quero conhecer nenhum escrevinhador bêbado. Venha. Arrastou Falk até a porta. — Onde está seu chapéu? Ah, está aqui! Venha! Estavam na rua. Borg tomou-lhe o braço, levou-o à praça mais próxima, enfiou-o numa loja e comprou-lhe um par de sapatos de lona. Feito isso, arrastou-o através da eclusa até o porto. Um cúter estava ali, preso às amarras, mas pronto para sair ao mar; dentro do cúter, o jovem Levi lia uma gramática latina e mordiscava um pedaço de pão com manteiga. — Este — disse Borg — é o cúter Urijah; é um nome feio, mas o barco é bom e está segurado no Triton. Ali está seu proprietário, o rapaz hebreu Isaac, lendo gramática latina — o idiota quer entrar na universidade —, e deste instante em diante você está contratado como tutor dele para o verão. Agora partimos para nossa residência de veraneio em Nämdö. Todos a bordo! Sem discussão! Prontos? Largar!

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