REVUE O Quarto Vermelho · Capítulo 29 de 30
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Capítulo XXIX

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LICENCIADO BORG, em Estocolmo, ao PAISAGISTA SELLÉN, em Paris IRMÃO SELLÉN, — Você esperou um ano inteiro por uma carta minha; agora tenho notícias a lhe contar. Se agisse segundo meus princípios, começaria por mim; mas, como é melhor me ajustar às regras de polidez estabelecidas pela sociedade civilizada — visto que estou prestes a sair pelo mundo para ganhar meu próprio pão —, começarei por você. Felicito-o cordialmente pelo sucesso de seu quadro recentemente exposto. Isaac levou a nota ao Barrete Cinzento, e ela foi publicada sem conhecimento do redator, que ficou furioso quando a leu; ele havia decidido firmemente que você seria um fracasso. Mas agora que seu gênio foi reconhecido no exterior, você também é famoso em casa, e já não preciso me envergonhar de você. Para não esquecer nada e ser o mais breve possível — pois sou preguiçoso, além de cansado depois de um dia de trabalho no hospital —, escreverei minha carta em forma de relatório e no estilo do BARRETE CINZENTO; isso terá a vantagem adicional de lhe permitir saltar com mais facilidade as partes que não lhe interessarem. A situação política se torna cada vez mais interessante; todos os partidos corromperam uns aos outros com presentes e contrapresentes, e agora todos ficaram cinzentos. Essa reação provavelmente acabará em socialismo. Fala-se em aumentar o número de distritos para quarenta e oito, e a carreira ministerial é a que oferece as melhores oportunidades de promoção, tanto mais que o homem nem precisa ter passado pelo exame de professor primário. Encontrei outro dia um antigo colega de escola que já é ministro aposentado; ele me disse que era muito mais fácil tornar-se ministro do que secretário de um dos departamentos; dizem que o trabalho se parece muito com o de um homem que assina garantias — é apenas questão de uma assinatura de vez em quando! O pagamento não importa tanto; há sempre um segundo avalista. A Imprensa — bem, você conhece a Imprensa. Falando grosso modo, ela é apenas negócio, isto é, adota sempre a opinião da maioria, e a maioria, ou, em outras palavras, o maior número de assinantes, é reacionária. Um dia perguntei a um jornalista liberal como explicava escrever em termos tão elogiosos a seu respeito, sem nada saber de você. Disse-me que era porque a opinião pública, isto é, o maior número de assinantes, estava do seu lado. “Mas suponhamos que a opinião pública se voltasse contra ele?”, perguntei. “Então, naturalmente”, respondeu, “eu também me voltaria contra ele.” Você compreenderá que, nessas circunstâncias, toda a geração que cresceu depois de 1865 e que não está representada no Parlamento está em desespero; por isso ou são niilistas — em outras palavras, não dão a mínima para coisa alguma —, ou encontram vantagem em tornar-se conservadores. Ser liberal nestes dias é uma tarefa do diabo. A situação financeira está deprimida. A oferta de letras, a minha pelo menos, diminuiu; nenhum banco olha para as letras mais seguras, mesmo quando assinadas por dois médicos. O Triton entrou em liquidação, como você sabe. Diretores e liquidantes ficaram com as ações impressas, mas os acionistas e depositantes receberam algumas litografadas da conhecida sociedade de Norrköping, a única que conseguiu atravessar esse período de fraudes e embustes. Encontrei uma viúva que trazia um punhado de papéis relacionados a uma pedreira de mármore; eram folhas grandes e bonitas, impressas em vermelho e azul, nas quais se lia gravado: 1000 Cr., 1000 Cr.; e abaixo das cifras, como se as garantissem, apareciam nomes de pessoas conhecidas; três delas, pelo menos, eram cavaleiros da Ordem dos Serafins. Nicholas Falk, o amigo e irmão, enjoado de seu negócio particular de empréstimos, porque este reduzia o valor pleno de sua autoridade cívica — coisa que não acontece quando o negócio é público —, resolveu juntar-se a alguns especialistas (?) e fundar um banco. A novidade do empreendimento vinha expressa da seguinte maneira: “Como a experiência — experiência verdadeiramente melancólica” (Levin é o autor, como você deve imaginar) “demonstrou que recibos de depósito não são, por si sós, garantia suficiente para a devolução dos depósitos — isto é, do dinheiro depositado —, nós, abaixo-assinados, movidos por zelo desinteressado pelo bem-estar da indústria nacional, e desejosos de oferecer maior segurança ao público abastado, fundamos um banco sob o título de ‘Sociedade Limitada de Garantia de Depósitos’. A característica nova e segura da empresa — e nem tudo que é novo é seguro — consiste no fato de que os depositantes, em vez de receberem recibos de depósito, recebem títulos no valor integral das somas depositadas etc. etc.” Fazem bons negócios, e você pode imaginar que espécie de títulos emitem em lugar de recibos de depósito. Levin. Falk, com seu olhar agudo para os negócios, reconheceu de imediato a grande vantagem que poderia tirar dos serviços de um homem com a experiência de Levin e seu conhecimento colossal das pessoas, adquirido no negócio de empréstimos. Mas, para treiná-lo para todas as eventualidades e familiarizá-lo com todos os desvios da profissão, derrubou-o com sua nota promissória e o forçou à falência. Feito isso, apareceu no papel de salvador e o fez seu funcionário confidencial, com o título de secretário. Agora Levin está instalado num pequeno gabinete particular; mas em hipótese alguma lhe é permitido mostrar o rosto no banco. Isaac Levi trabalha no mesmo banco como caixa. Passou nos exames (com latim, grego e hebraico) em primeira classe em todas as matérias. O Barrete Cinzento, naturalmente, noticiou a façanha. Agora estuda direito e faz alguns negócios por conta própria. É como a enguia: tem nove vidas e vive de nada. Não toma álcool; não fuma; não sei se possui vícios, mas é formidável. Tem uma loja de ferragens em Härnösand, uma tabacaria em Helsingfors e uma loja de miudezas em Södertälje; além disso, possui algumas casinhas em Estocolmo Sul. Dizem que é o homem do futuro; eu digo que o homem já chegou. Depois da liquidação do Triton, seu irmão retirou-se, segundo ouvi dizer, com uma fortuna considerável, e agora negocia por conta própria. Ouvi que se propôs comprar o mosteiro florestal perto de Uppsala e reconstruí-lo num novo estilo inventado por seu tio da Academia de Artes. Mas sua oferta foi recusada. Levi, muito ofendido, enviou uma nota ao Barrete Cinzento sob o título: “Perseguição aos Judeus no Século XIX”. Conquistou a viva simpatia de todo o público culto; a questão lhe valeria uma cadeira no Parlamento se ele se importasse com essa distinção. Seus correligionários lhe apresentaram um voto de agradecimento — como se Levi tivesse religião —, que foi impresso no Barrete Cinzento. Agradeceram-lhe por defender os direitos dos judeus — de comprar o mosteiro florestal. A mensagem lhe foi entregue num banquete ao qual muitos suecos também haviam sido convidados — sempre remeto a questão judaica a seu domínio legítimo, o etnográfico —, para se banquetearem com salmão estragado e vinho sem rolha. O herói do dia, profundamente comovido (vide Barrete Cinzento), recebeu na mesma ocasião um presente de vinte mil coroas (em ações) para a fundação de um Lar para Rapazes Caídos da Confissão Evangélica. Eu estava presente ao banquete e vi uma coisa que nunca havia visto antes — vi Isaac piorado pela bebida! Gritou que odiava a mim, a você, a Falk e todos os “brancos”; alternadamente nos chamava de “brancos”, “nativos” e roche; nunca ouvira a última palavra, mas, mal ele a pronunciou, grande número de “negros” se juntou ao nosso redor, com expressão tão ameaçadora que Isaac achou melhor me levar a uma sala contígua. Ali abriu-me toda a alma; falou de seus sofrimentos como colegial; dos maus-tratos a que professor e colegas o haviam submetido, das pancadas e bofetadas diárias dos moleques de rua. Mas o que despertou minha indignação mais do que qualquer outra coisa foi um incidente que lhe acontecera durante o serviço militar: chamaram-no à frente na hora das vésperas e ordenaram que recitasse o Pai-Nosso. Como não o sabia, riram dele e o escarneceram. Seu relato me fez mudar de opinião sobre ele e sua raça. A fraude religiosa e o embuste caritativo estão mais desenfreados que nunca e tornam muito desagradável a vida em nosso país. Você há de se lembrar de duas diabretes de Satanás, a Sra. Falk e a Sra. Homan, as duas criaturas mais mesquinhas, vaidosas e maliciosas que jamais desperdiçaram seus dias na ociosidade. Conhece a creche que fundaram e seu fim. Sua façanha mais recente é um Lar para Mulheres Caídas, e a primeira interna — recebida por minha recomendação — foi Marie, de Nygränd! A pobre moça emprestara todas as economias a um sujeito que fugiu com elas. Ficou mais que feliz em encontrar uma casa onde seria mantida gratuitamente e poderia recuperar sua reputação. Disse-me que não se importava com toda aquela lenga-lenga religiosa, infelizmente inseparável de uma empresa dessa espécie, desde que pudesse contar com sua xícara de café pela manhã. O pastor Skåre, de quem sem dúvida se lembra, não foi feito pastor primarius, e por puro aborrecimento está pedindo fundos para construir uma nova igreja. Cartas impressas de mendicância, assinadas por todos os magnatas mais ricos da Suécia, são enviadas para apelar ao público caridoso. A igreja, que deverá ter três vezes o tamanho da igreja de Blasieholm e ser ligada a uma torre que toque o céu, será construída no antigo terreno de Santa Catarina. Supõe-se que esta seja pequena demais para satisfazer as grandes necessidades espirituais de que a nação sueca sofre neste momento, e por isso será demolida. A soma arrecadada já atingiu tais dimensões que foi necessário nomear um tesoureiro, com moradia e combustível gratuitos. Quem você acha que é o tesoureiro? Jamais adivinharia! Struve! Struve tornou-se um tanto religioso nestes tempos — digo um tanto, porque não é muito —, apenas o suficiente para o cargo, pois é protegido pelos fiéis. Isso, entretanto, não interfere em seu jornalismo nem em sua bebedeira. Mas seu coração não está mole; pelo contrário, ele se mostra amarguíssimo contra todos os que não desceram; cá entre nós, deteriorou-se muito; portanto odeia você e Falk, e jurou desancá-lo na próxima vez que se ouvir falar de você. Teve de submeter-se à cerimônia de casamento por causa da moradia e do combustível gratuitos. Casou-se com a mulher em Vita Bergen. Fui uma das testemunhas. A mulher também se converteu, pois está convencida de que religião é de bom-tom. Lundell deixou a esfera religiosa e já não pinta senão retratos de diretores; foi nomeado assistente na Academia de Artes. Também se tornou imortal, pois conseguiu contrabandear uma pintura sua para o Museu Nacional. Realizou isso por meio de um truque muito simples, que deveria encorajar imitadores. Smith presenteou o Museu Nacional com uma das cenas de gênero de Lundell, serviço que Lundell retribuiu pintando gratuitamente o retrato de Smith. Esplêndido, não? Fim de um romance. Numa manhã de domingo, à hora em que a paz sabática ainda não é perturbada pelos terríveis sinos de igreja, eu estava sentado em meu quarto, fumando. Bateram à porta, e entrou um homem alto, bem-feito, cujo rosto me parecia familiar — era Rehnhjelm. Interrogamo-nos mutuamente. Ele é gerente de uma grande fábrica e está bastante satisfeito com a própria sorte. Pouco depois bateram de novo. Era Falk. (Mais sobre ele adiante.) Reavivamos antigas lembranças e discutimos amigos comuns. Mas logo houve uma pausa, aquele silêncio estranho que tantas vezes ocorre depois de uma conversa animada. Rehnhjelm pegou um livro, virou as páginas e leu em voz alta: “Operação Cesariana: dissertação acadêmica que, com permissão da ilustre Faculdade de Medicina, será discutida publicamente na pequena sala de conferências da Universidade.” Que diagramas horríveis! “Quem será, no mundo, o infeliz condenado a assombrar os vivos dessa maneira depois de morto?” “Você encontrará na página 2”, eu disse. Ele continuou lendo: “A pelve que, sob o nº 38, se conserva na coleção patológica da Academia...” Não — não podia ser aquilo. “Agnes Rundgren, solteira...” O rosto do homem ficou branco como giz. Levantou-se e bebeu um pouco de água. “Conheceu essa mulher?”, perguntei, para desviar seus pensamentos. “Conheci? Esteve no palco, e eu a conheci em X-köping; depois de deixar X-köping, foi contratada num café de Estocolmo, sob o nome de Beda Petterson.” Então você deveria ter visto Falk! Houve uma cena que terminou com Rehnhjelm amaldiçoando todas as mulheres, e Falk, muito excitado, respondendo que havia duas espécies de mulheres, que diferiam entre si tanto quanto anjos e demônios. Ficou tão comovido que os olhos de Rehnhjelm se encheram de lágrimas. E agora passemos a Falk! Deixei-o de propósito por último. Ele está noivo! Como aconteceu? Ele próprio diz: “Nós simplesmente nos encontramos!” Como você sabe, não tenho opiniões rígidas, mas cultivo uma mente aberta; contudo, pelo que vi até agora, é inegável que o amor é algo de que nós, solteirões, nada sabemos — aquilo que chamamos de amor não passa de frivolidade. Pode rir, velho escarnecedor! Só em peças muito ruins vi um desenvolvimento de caráter tão rápido quanto o que tive ocasião de observar em Falk. Você não ficará surpreso ao saber que o noivado não transcorreu sem obstáculos. O pai da moça, velho viúvo, pensionista do Exército e egoísta, via a filha como investimento, esperando que ela se casasse bem e assim lhe garantisse uma velhice confortável. Nada incomum! Portanto, recusou sem rodeios seu consentimento. Você precisava ter visto Falk! Procurou o velho repetidas vezes; foi posto para fora e, ainda assim, voltou e disse ao velho egoísta, na cara, que se casaria com a filha sem seu consentimento, caso ele continuasse a se opor. Não tenho certeza, mas creio que chegaram às vias de fato. Certa noite, Falk acompanhara a amada até em casa. Os dois haviam passado a noite na casa de um parente da moça, a quem Falk se apresentara. Ao dobrarem a esquina da rua onde a moça mora, viram, à luz do lampião, que o pai dela se debruçava à janela — ele mora numa casinha de sua propriedade. Falk bateu no portão do jardim, mas ninguém veio abrir. Por fim trepou por cima dele e, do outro lado, foi atacado por um cão enorme; venceu a fera e a trancou na lata de lixo. Imagine o nervoso Falk! Então obrigou o porteiro a se levantar e abrir o portão. Agora tinham alcançado o pátio e estavam diante da porta principal. Ele a golpeou com uma pedra grande, mas não veio resposta de dentro; procurou pelo jardim e encontrou uma escada, com a qual alcançou a janela do velho. “Abra a porta”, gritou, “ou arrebento a janela!” “Se arrebentar a janela, seu patife”, gritou o velho, “eu atiro em você!” Falk arrebentou a janela imediatamente. Por alguns instantes houve silêncio. Finalmente veio uma voz de dentro da fortaleza: “Você é meu homem! Consinto.” “Não gosto de quebrar janelas”, explicou Falk, “mas não há nada que eu não faça para conquistar sua filha.” A questão ficou resolvida, e ficaram noivos. Não sei se você sabe que o Parlamento levou adiante a reorganização das repartições públicas, dobrando salários e número de cargos, de modo que um jovem da primeira divisão agora está em condições de casar-se. Falk vai se casar no outono. Sua mulher conservará o posto na escola. Quase nada sei da Questão Feminina — ela não me interessa —, mas acredito que nossa geração se livrará do último resquício da concepção oriental que ainda se agarra ao casamento. Nos tempos vindouros, marido e mulher entrarão numa sociedade em que ambos conservarão a independência; não tentarão converter um ao outro, mas respeitarão mutuamente suas fraquezas e viverão juntos numa amizade vitalícia, que nunca será tensionada pela exigência, de uma das partes, de demonstrações amorosas. Considero a Sra. Nicholas Falk, a diaba caritativa, nada mais que uma femme entretenue, e tenho certeza de que ela própria também se considera assim. A maioria das mulheres casa por uma casa onde não precise trabalhar — ser sua própria senhora, como se diz. O fato de o casamento estar em declínio é culpa da mulher tanto quanto do homem. Mas não consigo entender Falk. Estuda numismática com um zelo quase antinatural; outro dia me disse que estava escrevendo um manual de numismática que tentaria introduzir nas escolas onde essa ciência deve ser ensinada. Nunca lê jornal; não sabe o que se passa no mundo e parece ter abandonado a ideia de escrever. Vive apenas para o trabalho e para a noiva, a quem idolatra. Mas não confio em sua calma. Falk é um fanático político, plenamente consciente de que seria consumido se deixasse o fogo arder livremente; por isso tenta sufocá-lo com trabalho duro e monótono; mas não creio que consiga; apesar de todo seu domínio de si, chegará necessariamente o dia em que jogará fora todo controle e irromperá em novas chamas. Entre nós — acredito que pertença a uma dessas sociedades secretas responsáveis pela reação e pelo militarismo no Continente. Não faz muito tempo, durante a leitura da Fala do Trono no Parlamento, vi-o, vestido com um manto púrpura, uma pena no chapéu, sentado aos pés do trono — aos pés do trono! — e pensei... não, seria pecado dizer o que pensei. Mas, quando o primeiro-ministro leu as graciosas proposições de Sua Majestade sobre o estado e as necessidades do reino, vi nos olhos de Falk uma expressão que dizia claramente: Que diabos sabe Sua Majestade da condição e das necessidades do país? Aquele homem, ah! Aquele homem! Concluo minha revista sem ter esquecido ninguém. Basta por hoje. Em breve terá notícias minhas outra vez. H. B. 1879.

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