O QUARTO VERMELHO
Capítulo VI
O Quarto Vermelho
O mesmo sol da tarde que testemunhara a derrota de Arvid Falk em sua primeira batalha contra a fome brilhava serenamente dentro do chalé da colônia de artistas, onde Sellén, em mangas de camisa, estava diante do cavalete trabalhando no quadro que precisava estar na Exposição na manhã seguinte antes das dez, acabado, emoldurado e envernizado. Olle Montanus estava sentado no sofá-cama, lendo o livro maravilhoso que Ygberg lhe emprestara por um dia em troca de seu cachecol; de quando em quando lançava um olhar de admiração ao quadro de Sellén. Tinha grande fé no talento de Sellén. Lundell trabalhava calmamente em sua Descida da Cruz; já enviara três quadros à Exposição e, como tantos outros, aguardava a venda deles com certa ansiedade. — Está bonito, Sellén — disse Olle. — Você pinta divinamente. — Posso olhar seu espinafre? — perguntou Lundell, que, por princípio, nunca admirava nada. O tema era simples e grandioso. O quadro representava um trecho de areia volante na costa de Halland, com o mar ao fundo; estava cheio do sentimento do outono; raios de sol rompiam nuvens rasgadas; o primeiro plano era em parte areia arrastada, em parte alga recém-lançada à praia, pingando e iluminada pelo sol; no plano médio ficava o mar, com ondas enormes e coroadas de espuma — a maior parte em sombra profunda; mas, no fundo, no horizonte, o sol brilhava, abrindo uma perspectiva para o infinito; as únicas figuras eram um bando de aves. Nenhum espírito ainda não pervertido, que tivesse coragem de encarar a misteriosa riqueza da solidão e tivesse visto colheitas promissoras sufocadas pela areia volante, poderia deixar de compreender o quadro. Era pintado com inspiração e talento; a cor nascia do estado de alma dominante, não era o estado de alma que nascia da cor. — Você precisa pôr alguma coisa no primeiro plano — insistiu Lundell. — Aceite meu conselho. — Besteira! — respondeu Sellén. — Faça o que eu digo e não seja burro; senão você não vende. Pinte uma figura; de preferência uma moça. Eu ajudo, se você não souber como. Veja aqui... — Nada dos seus truques! Para que servem saias num vendaval? Você tem mania de saias! — Muito bem, faça como quiser — respondeu Lundell, um pouco ferido pela alusão a um de seus pontos fracos. — Mas, em vez dessas gaivotas cinzentas, você devia ter pintado cegonhas. Ninguém sabe que aves são essas. Imagine as pernas vermelhas das cegonhas contra a nuvem escura! Que contraste! — Você não entende! Sellén não era hábil em expor seus motivos, mas tinha certeza de seus acertos, e seus instintos sãos o conduziam com segurança para longe de todos os erros. — Você não vai vender — recomeçou Lundell; a situação financeira do amigo o preocupava. — Bem, de algum modo hei de viver apesar disso. Alguma vez vendi alguma coisa? Estou pior por causa disso? Você acha que eu não sei que venderia se pintasse como todo mundo? Você acha que não sou capaz de pintar tão mal quanto todo mundo? É que eu simplesmente não quero! — Mas você devia pensar em pagar suas dívidas! Deve ao sr. Lund, da Caçarola, várias centenas de coroas. — Bem, isso não vai arruiná-lo. Além do mais, dei a ele um quadro que valia o dobro. — Você é o homem mais egoísta que já conheci! O quadro não valia vinte coroas. — Eu o avalio em quinhentas, a preços correntes! Mas infelizmente as inclinações e os gostos diferem aqui embaixo. Eu acho sua Crucificação uma coisa execrável, você a acha bela. Ninguém pode culpá-lo por isso. Os gostos diferem! — Mas você arruinou nosso crédito na Caçarola. O sr. Lund se recusou a me fiar ontem, e eu não sei como vou conseguir jantar hoje. — Que importância tem isso? Passe sem jantar! Eu não janto há dois anos. — Você saqueou o sr. Falk outro dia, quando ele caiu em suas garras. — É verdade! É um sujeito simpático; além disso, tem talento. Há muita originalidade nos versos dele; tenho lido alguns nas últimas noites. Mas receio que ele não seja duro o bastante para se dar bem neste mundo. É sensível demais, o patife! — Se conviver muito com você, há de se curar disso. É uma vergonha como você estragou aquele jovem Rehnhjelm em tão pouco tempo. Ouvi dizer que o está encorajando a subir ao palco. — Foi ele quem lhe disse isso? Diabinho! Ele vai longe se continuar vivo; mas isso não é tão simples quando se tem tão pouco para comer! Pela morte de Deus! Não tenho mais tinta! Pode me emprestar branco? Senhor misericordioso! Todos os tubos estão vazios! Você precisa me dar um pouco, Lundell! — Não tenho mais do que preciso para mim — e, mesmo se tivesse, faria questão de não lhe dar. — Pare de falar bobagem! Você sabe que não há tempo a perder! — Falando sério, não tenho suas cores. Se você não desperdiçasse tanto, seus tubos renderiam mais. — Eu sei disso! Então me dê dinheiro! — Dinheiro! Isso não dá! — Levante, Olle! Você precisa ir penhorar alguma coisa. À palavra penhorar, o rosto de Olle se iluminou; ele vislumbrou uma perspectiva de comida. Sellén vasculhava o quarto. — O que é isto? Um par de botas! Arranjamos dois pence e meio por elas; é melhor vender. — São de Rehnhjelm! Você não pode levá-las — objetou Lundell, que pretendia calçá-las à tarde, quando subisse à cidade. — Certamente você não vai abusar da propriedade alheia! — Por que não? Ele vai receber o dinheiro por elas. O que há neste pacote? Um colete de veludo! Uma beleza! Vou ficar com ele para mim, e então Olle pode penhorar o meu. Colarinhos e punhos? Ah! Papel! Um par de meias! Aqui, Olle, dois pence e meio! Embrulhe tudo no colete! Pode vender as garrafas vazias — acho que o melhor seria vender tudo. — Quer dizer então que você vai vender coisas dos outros? Não tem senso de certo e errado? — interrompeu Lundell outra vez, esperando apoderar-se, por meio de persuasão, do pacote que há tanto tempo o tentava. — Ele será pago depois! Mas ainda não basta. Precisamos tirar os lençóis da cama. Por que não? Não precisamos de lençóis! Aqui, Olle, enfie tudo dentro! Olle, com muita habilidade, fez de um dos lençóis uma espécie de saco e enfiou tudo lá dentro, enquanto Lundell continuava protestando com ardor. Quando o pacote ficou pronto, Olle o tomou debaixo do braço, abotoou o casaco esfarrapado para esconder a falta de colete e partiu rumo à cidade. — Ele parece um ladrão — disse Sellén, observando-o da janela com um sorriso malicioso. — Espero que a polícia não se meta com ele! Depressa, Olle! — gritou para a figura que se afastava. — Compre seis pãezinhos franceses e duas meias-garrafas de cerveja, se sobrar alguma coisa depois da tinta. Olle se virou e acenou com o chapéu, com tanta segurança como se já tivesse o banquete bem guardado nos bolsos. Lundell e Sellén ficaram sozinhos. Sellén admirava seu novo colete de veludo, pelo qual Lundell nutrira durante muito tempo uma paixão secreta. Este raspou a paleta e lançou olhares invejosos à glória perdida. Mas era outra coisa que tentava dizer; outra coisa, muito difícil de mencionar. — Gostaria que você olhasse meu quadro — disse enfim. — O que acha dele, seriamente? — Não desenhe e não se escravize tanto! Pinte! De onde vem a luz? Das roupas, da carne! É loucura! O que essas pessoas respiram? Cor! Terebintina! Não vejo ar! — Bem — disse Lundell —, os gostos diferem, como você disse agora há pouco. O que acha da composição? — Gente demais! — Você é terrível! Quero mais, não menos. — Deixe-me ver! Há um grande erro nele. Sellén lançou ao quadro um longo olhar, desses peculiares aos habitantes das costas marítimas e das planícies. — Sim, você tem razão — concordou Lundell. — Então você vê? — Só há homens no seu quadro. Fica um pouco monótono. — É isso! Mas imagine que você tenha visto! — Então você quer uma mulher? Lundell olhou para ele, perguntando-se se estava zombando, mas não conseguiu decidir, pois Sellén assobiava. — Sim, quero uma figura feminina — respondeu afinal. Fez-se silêncio, e pouco a pouco o silêncio se tornou incômodo: dois conhecidos muito antigos numa conversa tête-à-tête. — Quisera eu saber onde arranjar uma modelo! Não quero as modelos da Academia, todo mundo as conhece; além disso, o tema é religioso. — Você quer algo melhor? Entendo! Se não fosse pelo nu, talvez eu... — Não é para nu! Ficou louco? Entre todos aqueles homens... além disso, é um tema religioso. — Sim, sim, sabemos tudo isso. Ela deve estar vestida com alguma coisa oriental e curvar-se como se estivesse apanhando algo, mostrar os ombros, o pescoço e a primeira vértebra, entendo. Religiosa como a Madalena! Vista de cima! — Você zomba e escarnece de tudo! — Vamos ao ponto! Você terá sua modelo, pois é impossível pintar sem uma. Você mesmo não conhece nenhuma. Muito bem! Seus princípios religiosos não lhe permitem procurar uma; portanto Rehnhjelm e eu, as duas ovelhas negras, encontraremos uma para você. — Mas precisa ser uma moça respeitável, não se esqueça disso. — Claro! Veremos o que se pode fazer depois de amanhã, quando estivermos com dinheiro. E continuaram pintando, quietos, diligentes, até as quatro — até as cinco. De quando em quando seus olhares ansiosos varriam a estrada. Sellén foi o primeiro a romper o silêncio inquieto. — Olle está demorando! Alguma coisa deve ter acontecido com ele — disse. — Sim, deve haver alguma coisa. Mas por que você sempre manda o pobre-diabo? Por que não faz você mesmo seus recados? — Ele não tem mais nada para fazer e gosta de ir. — Como você sabe? Além disso, deixe-me dizer: ninguém pode saber no que Olle vai dar. Ele tem grandes planos e pode se levantar de um dia para o outro; então será bom tê-lo como amigo. — Não me diga! Que grande obra ele pretende realizar? Posso perfeitamente acreditar que Olle venha a ser um grande homem, embora não um grande escultor. Mas onde diabos ele está? Você acha que está gastando o dinheiro? — Possivelmente, possivelmente! Ele não come nada há muito tempo, e talvez a tentação tenha sido forte demais — respondeu Lundell, apertando o cinto dois furos e pensando no que faria no lugar de Olle. — Bem, ele é apenas humano, e a caridade começa em casa — disse Sellén, que sabia perfeitamente o que teria feito naquelas circunstâncias. — Mas não posso esperar mais. Preciso de tinta, nem que tenha de roubá-la. Vou ver Falk. — Vai espremer mais daquele pobre rapaz? Você o roubou ontem para comprar sua moldura. E não foi pouco o que tomou emprestado. — Meu caro, sou obrigado a lançar aos ventos todos os sentimentos de vergonha; não há remédio. É preciso aguentar muita coisa. Além disso, Falk é um sujeito de grande coração, que entende que um homem pode de repente se ver na Rua dos Apertos. Seja como for, vou indo. Se Olle voltar nesse meio-tempo, diga que ele é um idiota. Até logo! Venha ao Quarto Vermelho e veremos se nosso mestre há de se dignar, em sua graça, a nos dar algo para comer antes do pôr do sol. Tranque a porta quando sair e empurre a chave para debaixo do tapete. Tchau-tchau! Foi embora, e pouco depois estava diante da porta de Falk, na Rua Conde Magni. Bateu, mas não recebeu resposta. Abriu a porta e entrou. Falk, que provavelmente tivera sonhos inquietos, despertou do sono, deu um salto e encarou Sellén sem reconhecê-lo. — Boa noite, velho — disse Sellén. — Ah! É você. Devo ter tido um sonho estranho. Boa noite! Sente-se e fume um cachimbo! Já é noite? Sellén achou que conhecia os sintomas, mas fingiu não notar nada. — Você não foi ao Botão de Latão hoje? — comentou. — Não — respondeu Falk, confuso. — Não estive lá, estive no Iduna. Ele realmente não sabia se sonhara aquilo ou se estivera lá de fato; mas ficou contente por ter dito, pois tinha vergonha de sua situação. — Perfeitamente certo, velho — comentou Sellén. — A cozinha do Botão de Latão está abaixo de qualquer crítica. — Está mesmo — concordou Falk. — A sopa é ruim pra diabo. — E o velho maître está sempre em cima, contando os pãezinhos e a manteiga, o patife! As palavras pãezinhos e manteiga trouxeram Falk de volta à consciência; ele não sentia fome, apenas uma leve tremedeira, uma fraqueza. Mas não gostou do assunto da conversa e o mudou. — Bem, seu quadro ficará pronto para amanhã? — perguntou. — Não, infelizmente não. — O que houve agora? — Não posso terminá-lo de jeito nenhum. — Não pode? Por que não está em casa trabalhando? — A velha, velha história, meu caro! Não tenho tinta! Tinta nenhuma! — Mas há remédio para isso! Ou você não tem dinheiro? — Se tivesse, estaria tudo bem. — E eu também não tenho nenhum! O que fazer? Sellén baixou os olhos até que seu olhar alcançou a altura do bolso do colete de Falk, para dentro do qual rastejava uma pesada corrente de ouro; não que Sellén acreditasse que fosse ouro, ouro bom, contrastado. Ele não teria compreendido a imprudência de carregar tanto dinheiro do lado de fora do colete. Mas seus pensamentos seguiam um curso definido, e ele continuou: — Se ao menos eu tivesse algo para penhorar! Mas nós, descuidadamente, empenhamos nossos sobretudos de inverno no primeiro dia de sol de abril. Falk corou. Nunca fizera uma coisa dessas. — Vocês penhoram seus sobretudos de inverno? — perguntou. — Dão alguma coisa por eles? — Dão alguma coisa por tudo — por tudo — disse Sellén, carregando no tudo. — A única coisa necessária é ter alguma coisa. Para Falk, o quarto pareceu começar a girar. Teve de se sentar. Então puxou o relógio de ouro. — Quanto você acha que me dariam por este relógio e por esta corrente? Sellén apoderou-se das futuras garantias e as examinou com olho de conhecedor. — É ouro? — perguntou, débil. — É ouro. — Contrastado? — Contrastado. — A corrente também? — A corrente também. — Cem coroas — declarou Sellén, sacudindo a mão de modo que a corrente de ouro tilintou. — Mas é uma pena! Você não deve penhorar suas coisas por minha causa. — Então por minha própria causa — disse Falk, ansioso por evitar a aparência de um desprendimento que não sentia. — Eu também preciso de dinheiro. Se você as transformar em dinheiro, me fará um favor. — Muito bem, então — disse Sellén, resolvido a não constranger o amigo com perguntas indiscretas. — Vou penhorá-las! Reaja, velho! A vida às vezes é dura, não nego; mas a gente atravessa. Ele deu umas palmadas no ombro de Falk com uma cordialidade que raramente atravessava o escárnio no qual se envolvera. Saíram juntos. Quando concluíram o negócio, eram sete horas. Compraram a tinta e se dirigiram ao Quarto Vermelho. * * * * * O Salão de Berns acabava de começar a desempenhar seu papel civilizador na vida de Estocolmo, pondo fim à vida malsã dos café-chantants que florescera — ou grassara — nos anos sessenta e, da capital, se espalhara por todo o país. Ali, todas as noites depois das sete, reuniam-se multidões de jovens que viviam naquele estágio anormal de transição que começa ao deixar a casa paterna e termina com a fundação de um novo lar e de uma família; ali havia muitos rapazes que fugiam da solidão do quarto ou da água-furtada para encontrar luz, calor e um semelhante com quem conversar. O proprietário fizera mais de uma tentativa de divertir seus fregueses com pantomimas, ginástica, balés e outras apresentações; mas lhe haviam demonstrado claramente que os convidados não estavam em busca de diversão, e sim de paz; o que se queria era uma sala de consulta, onde a qualquer momento fosse provável topar com um amigo. A banda era tolerada porque não interrompia a conversa; antes a estimulava, e pouco a pouco se tornou um componente tão necessário da dieta noturna de Estocolmo quanto o ponche e o tabaco. Desse modo, o Salão de Berns tornou-se o clube dos solteiros de toda Estocolmo. Cada círculo tinha seu canto especial; os colonos de Lill-Jans haviam usurpado a sala de xadrez interna, geralmente chamada de Quarto Vermelho por causa dos móveis vermelhos e por economia de palavras. Era um terreno seguro de encontro, mesmo se durante o dia inteiro seus membros tivessem sido espalhados como palha. Quando os tempos eram difíceis e era preciso levantar fundos a qualquer custo, faziam-se dali incursões regulares pelo salão. Formava-se uma corrente: dois membros escaramuçavam pelas galerias, e outros dois atacavam a sala no sentido do comprimento. Poder-se-ia dizer que dragavam a sala com uma rede de fundo, e raramente dragavam em vão, pois durante a noite havia um fluxo constante de recém-chegados. Naquela noite, porém, tais esforços não foram necessários; Sellén, calmo e orgulhoso, sentou-se no sofá vermelho ao fundo. Depois de representarem uma pequena farsa sobre o que iriam beber, chegaram à conclusão de que primeiro precisavam comer alguma coisa. Estavam começando a sexa, e Falk começava a sentir as forças voltarem, quando uma longa sombra caiu sobre a mesa. Diante deles estava Ygberg, pálido e emagrecido como sempre. Sellén, que naquela noite estava com dinheiro e, nessas circunstâncias, era invariavelmente cortês e bondoso, insistiu para que ele jantasse com eles, e Falk reforçou o convite. Ygberg hesitou enquanto examinava o conteúdo dos pratos e calculava se sua fome seria satisfeita ou apenas meio satisfeita. — O senhor maneja uma pena ferina, sr. Falk — disse, para desviar a atenção das investidas que seu garfo fazia contra a bandeja. — Como? O que quer dizer? — perguntou Falk, corando; ele não sabia que alguém travara conhecimento com sua pena. — O artigo causou sensação. — Que artigo? Não entendo. — A correspondência na Bandeira Operária sobre a Junta de Pagamento dos Salários dos Funcionários. — Eu não o escrevi. — Mas a Junta está convencida de que foi o senhor. Acabei de encontrar um membro, amigo meu; ele mencionou o senhor como autor; percebi que o ressentimento era feroz. — De fato? Falk sentiu que tinha metade da culpa; compreendeu agora que notas eram aquelas que Struve tomara naquela noite no Morro de Moisés. Mas Struve apenas relatara o que ele, Falk, havia dito. Era responsável por suas afirmações e devia sustentá-las, ainda que corresse o risco de ser considerado um caluniador. Recuar era impossível; compreendeu que precisava seguir adiante. — Muito bem — disse. — Sou o instigador do artigo. Mas falemos de outra coisa! O que acha de Ulrica Eleonora? Não é uma personagem interessante? Ou qual é sua opinião sobre a Companhia de Seguros Marítimos Triton? Ou sobre Haquin Spegel? — Ulrica Eleonora é a personagem mais interessante de toda a história da Suécia — respondeu Ygberg, gravemente. — Acabei de receber uma encomenda para escrever um ensaio sobre ela. — De Smith? — perguntou Falk. — Sim; mas como sabe? — Devolvi a matriz esta tarde. — É errado recusar trabalho. Você se arrependerá! Acredite. Um rubor febril tingiu as faces de Falk; ele falava de modo febril. Sellén estava sentado quieto no sofá, fumando. Prestava mais atenção à banda do que à conversa, que não o interessava porque não a compreendia. De seu canto no sofá, através das duas portas abertas que davam para a galeria sul, conseguia entrever a galeria norte. Apesar da densa nuvem de fumaça que pairava sobre o fosso entre as duas galerias, distinguia rostos do outro lado. De repente, algo à distância lhe chamou a atenção. Agarrou o braço de Falk. — O velhaco! Olhe atrás da cortina esquerda! — Lundell! — Isso mesmo! Está procurando uma Madalena! Veja! Agora fala com ela! Que moça bonita! Falk corou, fato que não escapou a Sellén. — Ele vem aqui atrás de modelos? — perguntou, surpreso. — Ora, e onde mais iria? Não pode encontrá-las no escuro. Um momento depois, Lundell se juntou a eles; Sellén o saudou com um aceno condescendente, cujo significado não pareceu escapar ao recém-chegado. Ele se inclinou diante de Falk com mais polidez do que de costume e expressou sua surpresa com a presença de Ygberg em palavras depreciativas. Ygberg, observando-o atentamente, aproveitou a oportunidade para perguntar o que gostaria de comer. Lundell arregalou os olhos; parecia ter caído entre magnatas. Sentiu-se feliz; um humor suave e filantrópico tomou conta dele, e, depois de pedir uma ceia quente, sentiu-se constrangido a dar expressão à sua emoção. Era evidente que queria dizer alguma coisa a Falk, mas era difícil encontrar uma abertura. A banda tocava Ouve-nos, Suécia!, e um momento depois Castelo Forte é Nosso Deus. Falk pediu mais bebida. — Pergunto-me se o senhor admira este belo hino antigo tanto quanto eu, sr. Falk — começou Lundell. Falk, que não tinha consciência de admirar um hino mais que outro, pediu que ele tomasse um pouco de ponche. Lundell teve escrúpulos; não sabia se podia se aventurar. Achou melhor comer mais um pouco antes; não tinha força suficiente para beber. Tentou prová-lo, depois do terceiro licor, com um curto e violento acesso de tosse. — A Tocha da Reconciliação é um nome esplêndido — disse em seguida. — Prova ao mesmo tempo a profunda necessidade religiosa de expiação e a luz que veio ao mundo quando se deu o milagre que sempre ofendeu os orgulhosos de espírito. Engoliu uma almôndega, estudando cuidadosamente o efeito de sua observação — e sentiu-se tudo menos lisonjeado ao ver três rostos vazios fitando-o, sem expressar nada além de consternação. — Spegel é um grande nome, e suas palavras não são como as palavras dos fariseus. Todos sabemos que ele escreveu o magnífico salmo Os gritos de lamento se calam, um salmo que jamais foi igualado. À sua saúde, sr. Falk! Fico feliz em saber que o senhor se identifica com a obra de tal homem. Lundell descobriu que seu copo estava vazio. — Acho que preciso de mais uma meia-garrafa! Dois pensamentos zumbiam no cérebro de Falk: O sujeito está bebendo aguardente pura e Como ele soube de Spegel? Uma suspeita iluminou sua mente como um relâmpago, mas ele fingiu nada saber e disse apenas: — À sua saúde, sr. Lundell! A explicação desagradável que parecia inevitável foi evitada pela entrada súbita de Olle. Era Olle, mas mais rústico do que antes, mais sujo do que antes e, a julgar pela aparência, mais manco do que antes. Seus quadris saltavam por baixo do casaco como gurupés; um único botão mantinha o casaco unido logo acima da primeira costela. Mas estava bem-humorado e riu ao ver tanta comida e bebida sobre a mesa. Para horror de Sellén, começou a relatar o sucesso de sua missão, enquanto se despojava de suas aquisições. Fora realmente preso pela polícia. — Aqui estão os recibos! Passou por cima da mesa dois bilhetes verdes de penhor para Sellén, que os transformou imediatamente numa bolinha de papel. Fora levado à delegacia. Apontou para o casaco, cujo colarinho desaparecera. Lá lhe perguntaram o nome. O nome, é claro, era falso! Não existia nome nenhum como Montanus! Naturalidade? Vaestmanland! Outra declaração falsa! O inspetor era natural daquela província e conhecia seus conterrâneos. Idade? Vinte e oito anos! Mentira; devia ter pelo menos quarenta. Domicílio? Lill-Jans! Outra mentira; ninguém além de um jardineiro morava ali. Profissão? Artista! Também mentira: tinha aparência de estivador. — Aqui está sua tinta, quatro tubos! É melhor examiná-los com cuidado! Seu pacote fora aberto e, no processo, um dos lençóis se rasgara. — Por isso só consegui um xelim, dois pence e meio pelos dois. Você verá que estou certo se olhar o bilhete. A pergunta seguinte foi onde ele roubara as coisas. Olle respondeu que não as havia roubado; então o inspetor chamou sua atenção para o fato de que não lhe perguntara se as roubara, mas onde as roubara. Onde? Onde? Onde? — Aqui está o troco, dois pence e meio; não fiquei com nada. Então o depoimento foi tomado, e os bens roubados — que haviam sido lacrados com três selos — foram descritos. Em vão Olle protestara, em vão apelara ao senso de justiça e humanidade deles; o único resultado de seus protestos foi uma sugestão feita pelo guarda para que se registrasse que o preso — já era visto à luz de um preso — estava fortemente embriagado; a sugestão foi aceita, mas a palavra fortemente foi omitida. Depois que o inspetor instou repetidamente o guarda a tentar lembrar se o preso oferecera resistência no momento da prisão, e o guarda declarou que não podia jurar — seria questão muito séria, pois o preso parecia um sujeito desesperado —, mas que lhe parecera que ele tentara resistir refugiando-se numa porta, essa última declaração foi posta no registro. Então foi redigido um relatório, e Olle recebeu ordem de assiná-lo. Dizia assim: Um indivíduo do sexo masculino, de aparência sinistra e repulsiva, foi encontrado esgueirando-se ao longo da fileira de casas da Rua Northland, levando na mão um pacote de aparência suspeita. No momento da prisão trajava sobrecasaca verde — não usava colete — calças de sarja azul, camisa com as iniciais P. L. (o que prova claramente que ou a camisa era roubada ou que ele dera nome falso), meias de lã com bordas cinzentas e chapéu de feltro com pena de galo. O preso deu o nome suposto de Olle Montanus, declarou falsamente que seus familiares eram camponeses de Vaestmanland e que era artista, domiciliado em Lill-Jans, evidentemente uma invenção. Ao ser preso, tentou oferecer resistência refugiando-se numa porta. Seguia-se uma descrição minuciosa do conteúdo do pacote. Como Olle se recusou a admitir a correção daquele relatório, enviou-se um telegrama à prisão, e apareceu uma condução para buscar Olle, a trouxa e um guarda. Quando dobravam na Rua da Moeda, Olle avistou Per Illson, membro do Parlamento e seu conterrâneo. Chamou-o, e Per Illson provou que o relatório estava errado. Olle foi solto e sua trouxa lhe foi devolvida. E agora viera juntar-se a eles e... — Aqui estão seus pãezinhos franceses! São só cinco, porque comi um. E aqui está a cerveja! Produziu cinco pãezinhos franceses dos bolsos do casaco, colocou-os sobre a mesa e dispôs ao lado duas garrafas de cerveja, que retirou dos bolsos da calça, depois do que sua figura recuperou as desproporções habituais. — Falk, velho, você precisa desculpar Olle; ele não está acostumado à alta sociedade. Ponha os pãezinhos franceses de volta nos bolsos, Olle! Qual será a próxima? — disse Sellén, em tom reprovador. Olle obedeceu. Lundell recusou-se a deixar que levassem a bandeja, embora tivesse limpado os pratos tão completamente que teria sido impossível dizer o que haviam contido; de quando em quando agarrava a garrafa de aguardente, distraído, e se servia de meio copo. Às vezes se levantava ou se virava na cadeira para ver o que a banda estava tocando. Nessas ocasiões, Sellén o vigiava de perto. Enfim chegou Rehnhjelm. Era evidente que bebera; sentou-se calado, os olhos procurando um objeto em que pudessem repousar enquanto ouvia as exortações de Lundell. Por fim seus olhos cansados caíram sobre Sellén e ficaram cravados no colete de veludo, que lhe deu muito alimento para o pensamento durante o resto da noite. Seu rosto se iluminou por um momento, como se tivesse encontrado um velho amigo; mas a luz se apagou quando Sellén abotoou o casaco porque havia corrente de ar. Ygberg cuidou para que Olle comesse alguma coisa e não se cansava de insistir para que se servisse e enchesse o copo. À medida que a noite avançava, música e conversa se tornavam cada vez mais vivas. Aquele estado de semiestupor exercia grande encanto sobre Falk; ali era quente, claro e barulhento; ele estava na companhia de homens cujas vidas prolongara por mais algumas horas e que, portanto, estavam alegres e vivazes como moscas reanimadas pelos raios do sol. Sentia-se um deles, pois sabia que, em sua consciência íntima, eram infelizes; eram despretensiosos; entendiam-no e falavam como seres humanos, não como livros; até a grosseria deles não era sem atrativo; havia tanta naturalidade nela, tanta inocência; até a hipocrisia de Lundell não o repelia; era tão ingênua e pousava tão frouxamente sobre ele que poderia ser lançada fora a qualquer momento. E a noite se passou, e terminou o dia que empurrara Falk irrevogavelmente para o caminho espinhoso do escritor.