NOS MONTES BRANCOS O Quarto Vermelho · Capítulo 16 de 30
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NOS MONTES BRANCOS

Capítulo XVI

Nos Montes Brancos

Numa tarde de agosto, Falk estava outra vez sentado no jardim do Morro de Moisés; mas estava só, e estivera só durante todo o verão. Repassava na mente tudo o que lhe acontecera durante os três meses transcorridos desde sua última visita, quando o coração lhe transbordava de esperança, coragem e força. Sentia-se velho, cansado, indiferente; vira por dentro as casas a seus pés, e em todas as ocasiões suas expectativas haviam sido decepcionadas. Vira a humanidade sob muitos aspectos, aspectos que só se revelam ao olhar do médico dos pobres ou do jornalista, com a única diferença de que o jornalista geralmente vê os homens como desejam parecer, e o médico como são. Tivera toda oportunidade de estudar o homem como animal social em todos os disfarces possíveis; estivera presente a sessões parlamentares, conselhos eclesiásticos, assembleias gerais de acionistas, reuniões filantrópicas, audiências do tribunal de polícia, festas, funerais, comícios de operários; por toda parte ouvira palavras grandes e muitas palavras, palavras jamais usadas no convívio cotidiano, uma espécie particular de palavras que nada significam, pelo menos não aquilo que deveriam significar. Isso lhe dera uma concepção unilateral da humanidade; no homem, só conseguia ver o animal social enganador, criatura que ele é obrigado a ser porque a civilização proíbe a guerra aberta. Seu isolamento o cegava para a existência de outro animal, um animal que “entre vidro e parede” é extraordinariamente amável, desde que não seja exasperado, e que está pronto a aparecer com todas as suas falhas e fraquezas quando não há testemunhas. Era cego para isso, e essa era a razão de ter se tornado amargo. Mas o pior de tudo era ter perdido o respeito por si mesmo. E isso acontecera sem que tivesse cometido um único ato de que precisasse se envergonhar. Seus semelhantes o haviam roubado dele, e não fora coisa muito difícil de fazer. Fora menosprezado por toda parte, e como poderia ele, cuja autoconfiança fora destruída na primeira juventude, respeitar uma pessoa que todos desprezavam? Com muitas pontadas amargas, via que todos os jornalistas conservadores, isto é, homens que defendiam e sustentavam tudo o que era errado — ou, se não podiam defendê-lo, ao menos o deixavam intocado — eram tratados com a máxima cortesia. Ele era desprezado não tanto como homem de imprensa, mas em seu caráter de advogado de todos os pisoteados e maltratados. Passara por tempos de dúvida cruel. Por exemplo: ao relatar a Assembleia Geral dos Acionistas da Sociedade de Seguros Marítimos “Triton”, usara a palavra fraude. Em resposta à sua reportagem, o Barrete Cinzento publicara um longo artigo provando com tanta clareza que a sociedade era uma instituição nacional, patriótica e filantrópica que ele quase se convencera de ter errado; e o pensamento de ter brincado imprudentemente com a reputação de seus concidadãos foi um pesadelo para ele por muitos dias. Estava agora num estado de espírito que alternava entre o fanatismo e a insensibilidade; seu próximo impulso decidiria a direção que tomaria seu desenvolvimento. Sua vida fora tão sombria durante o verão que ele saudava com prazer malicioso cada dia de chuva, e era uma sensação relativamente agradável observar as folhas farfalhando pelas alamedas do jardim. Estava absorvido em meditações sombriamente humorísticas sobre a vida e seus propósitos, quando uma mão magra e ossuda lhe pousou no ombro, e outra lhe agarrou o braço; sentiu como se a morte viesse buscá-lo pela palavra. Ergueu os olhos e sobressaltou-se: diante dele estava Ygberg, pálido como cadáver, emagrecido, olhando-o com aqueles olhos peculiarmente lavados que só a fome produz. — Bom dia, Falk — sussurrou ele, quase inaudível, e todo o seu corpo parecia chocalhar. — Bom dia, Ygberg — respondeu Falk, subitamente animado. — Sente-se e tome uma xícara de café! Como vai? Parece que esteve deitado sob o gelo. — Ah! Estive tão doente, tão doente! — Parece ter tido um verão tão alegre quanto o meu! — Você também passou tempos difíceis? — perguntou Ygberg, e uma vaga esperança de que fosse assim iluminou seu rosto amarelo. — Só posso dizer: graças a Deus que o verão maldito acabou! Por mim, podia ser inverno o ano inteiro! Não é apenas que se sofra o tempo todo, mas também se é obrigado a ver os outros se divertindo! Não pus um pé fora da cidade; e você? — Não vejo um pinheiro desde que Lundell deixou Lill-Jans, em junho! E por que alguém haveria de querer ver pinheiros? Não é absolutamente essencial; tampouco um pinheiro é coisa extraordinária! Mas não poder ter esse prazer, aí é que está o aguilhão. — Bem, deixemos isso! Está nublando a leste, portanto choverá amanhã; e quando o sol voltar a brilhar, será outono. À sua saúde! Ygberg olhou o ponche como se fosse veneno, mas bebeu assim mesmo. — Mas você escreveu para Smith aquela bela história do anjo da guarda, ou da Sociedade de Seguros Marítimos “Triton” — observou Falk. — Isso não contrariou suas convicções? — Convicções? Não tenho convicções. — Não tem? — Não, só os tolos têm convicções. — Você não tem moral, Ygberg? — Não! Sempre que um tolo tem uma ideia — dá no mesmo se é original ou não —, chama-a de sua convicção, apega-se a ela e se gaba dela, não porque seja uma convicção, mas porque é a sua convicção. Quanto à Sociedade de Seguros Marítimos, acredito que seja uma fraude! Tenho certeza de que prejudica muitos homens, os acionistas ao menos; mas é uma coisa esplêndida para outros, os diretores e os funcionários, por exemplo; portanto, no fim das contas, faz um bocado de bem. — Você perdeu todo o senso de honra, velho amigo? — É preciso sacrificar tudo no altar do dever. — Admito isso. — O primeiro e principal dever do homem é viver — viver a qualquer preço! A lei divina e a lei humana o exigem. — Nunca se deve sacrificar a honra. — As duas leis, como eu disse, exigem o sacrifício de tudo — obrigam o pobre a sacrificar sua chamada honra. É cruel, mas não se pode culpar o pobre por isso. — Sua teoria de vida está longe de ser alegre. — Como poderia ser diferente? — É verdade! — Mas, falando de outra coisa: recebi uma carta de Rehnhjelm. Leio para você, se quiser. — Soube que ele entrou para o teatro. — Sim, e parece não estar se dando bem. Ygberg tirou uma carta do bolso do peito, pôs um torrão de açúcar na boca e começou a ler. “Se existe um inferno numa vida depois desta, o que é muito duvidoso... — O rapaz virou livre-pensador! “...não pode ser pior que este. Estou contratado há dois meses, mas me parecem dois anos. Um demônio, antes carpinteiro de rodas, agora diretor teatral, tem meu destino nas mãos e me trata de tal maneira que três vezes por dia sinto a tentação de fugir. Mas redigiu com tanto cuidado as cláusulas penais do contrato que minha fuga desonraria o nome de meus pais. “Entrei mudo em cena todas as noites, mas até agora nunca me deixaram abrir os lábios. Durante vinte noites consecutivas, tive de untar o rosto com terra-de-sombra e vestir um traje de cigano, do qual nenhuma peça me serve; as malhas são compridas demais, os sapatos grandes demais, a jaqueta curta demais. “Um subdemônio chamado ponto cuida para que eu não troque meu traje por outro mais adequado; e sempre que tento me esconder atrás da multidão, composta pelos operários da fábrica do diretor-fabricante, ela se abre e me empurra para a ribalta. Se olho para os bastidores, meus olhos caem sobre o subdemônio, parado ali, sorrindo; e, se olho para a plateia, vejo o próprio Satanás sentado num camarote, rindo. “Pareço ter sido contratado para sua diversão, não para representar papel algum. Em certa ocasião, aventurei-me a chamar sua atenção para o fato de que eu deveria ter prática em papéis falados se algum dia viesse a ser ator. Ele perdeu a calma e disse que é preciso aprender a engatinhar antes de aprender a andar. Respondi que eu sabia andar. Ele disse que era mentira e perguntou se eu imaginava que a arte de representar, a mais bela e difícil de todas as artes, não exigia treinamento. “Quando eu disse que era exatamente isso que imaginava, e que aguardava impacientemente o início do meu treinamento, ele me chamou de cachorrinho ignorante e disse que me expulsaria a pontapés. Quando protestei, perguntou se eu via o palco como refúgio para jovens sem recursos. Minha resposta foi um franco e incondicional Sim. Ele berrou que me mataria. “Este é o presente estado de meus negócios. “Sinto que minha alma se apaga como uma vela de sebo numa corrente de ar, e logo acreditarei que ‘o Mal triunfará, mesmo que esteja oculto em nuvens’, como diz o Catecismo. “Mas o pior de tudo é que perdi todo o respeito por esta arte, que foi o sonho e o amor de minha infância. Posso evitá-lo quando vejo que homens e mulheres sem educação nem cultura, esporeados pela vaidade e pela imprudência, completamente desprovidos de entusiasmo e inteligência, são capazes de representar, em poucos meses, papéis de caráter, papéis históricos, de maneira razoável, sem terem um lampejo sequer de conhecimento da época em que se movem ou da importância do papel que a pessoa representada desempenhou na história? “É assassinato lento, e a convivência com essa turba que me mantém por baixo — alguns membros da companhia já entraram em choque com vários parágrafos do código penal — está fazendo de mim o que nunca fui: um aristocrata. A pressão dos cultos jamais pode pesar tanto sobre os incultos. “Há apenas um raio de luz nessas trevas: estou apaixonado. Ela é o ouro mais puro em meio a toda essa escória. Naturalmente, ela também é perseguida e lentamente assassinada, como eu, desde que recusou as propostas infames do diretor de cena. É a única mulher com espírito vivo entre todos esses animais que chafurdam na sujeira, e me ama com toda a alma. Estamos noivos em segredo. “Aguardo apenas o dia em que terei conquistado sucesso para fazê-la minha esposa. Mas quando será isso? Muitas vezes pensamos em morrer juntos, mas a esperança, a esperança traiçoeira, sempre nos iludiu e nos fez continuar nesta miséria. Ver meu amor inocente ardendo de vergonha quando é obrigada a usar trajes indecentes é mais do que posso suportar. Mas abandonarei este assunto desagradável. “Olle e Lundell mandam lembranças. Olle está muito mudado. Antes era um pagão; agora é cristão, seráfico, quase pietista; ficou gordo de viver comendo bem; pele e cabelo brilham como se tivessem sido encerados; ele pinta cenas religiosas; está tão feliz e contente consigo mesmo que não se consegue falar com ele. Anda sempre com um pentezinho no bolso lateral e, quando quer impressionar as pessoas, penteia os tufos de barba e ajeita o bigode. Joga bilhar e nunca perde a calma quando é derrotado; diz que se habitua à adversidade. Ultimamente dorme de cobertor de algodão, e acha que é seu dever para com a sociedade e para consigo mesmo cuidar da saúde. Agora está pintando o retrato do conde, e no inverno vai para a Itália com uma bolsa do Governo. Neste mundo, basta ter a sorte de encontrar a veia certa; se a veia não aparece, nada adianta. “Lundell tornou-se religioso; pintou um quadro de altar que acaba de ser consagrado. Deus nos proteja! Não posso entender o que se passa com meus amigos, nem comigo mesmo. Chego, às vezes, a desejar que pudesse voltar à minha antiga casa em Vestmanland, cheia de paz, honesta, silenciosa. Mas nenhum passo que damos na vida pode ser desfeito; tenho sido um mau filho, lancei sombras sobre a velhice de meus pais e os entristeci por meus atos. Se eu tivesse feito isso por uma nobre causa, eles me teriam perdoado e bendito; mas agora, se eu voltar como penitente, terei de dizer: pai e mãe, perdoem-me, fui um tolo! Seria uma humilhação grande demais. “O que devo fazer? Permanecer onde estou e ser pisoteado? Para minha vergonha, devo admitir que às vezes desejo que a velha de casa morra; então poderei voltar, herdar a propriedade e, com o tempo, tornar-me membro do Parlamento. Mas minha noiva? Como posso desejar que ela seja primeiro-ministro ou dona de uma loja de armarinhos? Ah! Minha cabeça está em pedaços; sinto-me como se tivesse sido picado para vira-latas. Escreva-me uma carta longa e sensata, meu bom amigo.” A carta lançara uma sombra sobre os dois companheiros. — Tola juventude — disse Ygberg —, deixando as panelas de carne para procurar a fama e a honra! É justo, profundamente justo, que quem pisa no pão e na manteiga seja obrigado a passar fome. Você não acha? — É verdade! Pode parecer estranho, mas não tenho nada a dizer a seu amigo. Como se pode exigir que eu, que sou absolutamente incapaz de me aconselhar a mim mesmo, seja capaz de aconselhar os outros? — Então você abandonou a ideia de ser pastor de almas? O que me diz disso? Ygberg tirou do bolso um folheto lilás, onde a seguinte pergunta estava impressa em vermelho: A FOLHA DO OPERÁRIO, ÓRGÃO PARA TUDO E PARA TODOS. — É revolucionário! — comentou Falk. — Quer dizer que tem medo? — Talvez! — Vou direto ao ponto. Diga-me, em poucas palavras, se está do nosso lado ou do lado deles. — Ainda não cheguei tão longe! — Está bem! Então não preciso dizer mais nada. — Não fique ofendido. Admito que já cheguei à mesma conclusão que você, a de que a própria vida é a coisa principal, mas não posso aceitar que se deva viver a qualquer preço. — Ah, espere até sofrer um pouco mais; espere até sentir a fome, e então venha a nós. — Acho que é preciso ser muito inescrupuloso para seguir adiante. — Experimente! Talvez não ache tão fácil! — Você ainda faz negócios com Smith? — Não, infelizmente! E você? — Estive com ele por causa de meus poemas. Ele os comprou, dez coroas por fólio, e agora pode me assassinar do mesmo modo que o carpinteiro de rodas está assassinando Rehnhjelm. E receio que algo assim esteja para acontecer, pois ainda não ouvi uma palavra sobre eles. Foi tão extraordinariamente simpático que espero o pior. Se ao menos eu soubesse o que está havendo! Mas o que há com você? Está branco como um lençol. — A verdade é — respondeu Ygberg, agarrando-se ao gradil — que tudo o que comi nestes últimos dois dias foram cinco torrões de açúcar. Acho que vou desmaiar. — Se comida o puser de pé, posso ajudar; felizmente tenho algum dinheiro. — Claro que me porá de pé — sussurrou Ygberg, fraco. Mas não foi assim. Quando estavam sentados na sala de jantar e a comida foi servida, Ygberg piorou, e Falk teve de levá-lo ao seu quarto, que felizmente não ficava muito longe dali. * * * A casa era velha, térrea, construída de madeira; trepara sobre uma rocha e parecia sofrer de doença no quadril. Era manchada como um leproso; muito tempo antes, iam pintá-la, mas, depois de queimada a tinta velha, nada mais fora feito; parecia miserável em todos os aspectos, e era difícil acreditar na lenda do letreiro da Companhia de Seguro contra Incêndio, enferrujando na parede, a saber, que uma fênix deveria renascer das cinzas. Ao pé da casa cresciam dentes-de-leão, urtigas e erva-dos-caminhos, fiéis companheiros da pobreza; pardais banhavam-se na areia escaldante e a espalhavam; crianças de rosto pálido e barriga grande, como se fossem criadas com noventa por cento de água, faziam correntes de dente-de-leão e tentavam amargar suas vidas tristes aborrecendo e insultando umas às outras. Falk e Ygberg subiram uma escada podre, rangente, e chegaram a um grande cômodo. Era dividido em três partes por linhas de giz. A primeira e a segunda divisões serviam de oficina a um marceneiro e a um sapateiro; a terceira era consagrada exclusivamente às ocupações mais íntimas da vida familiar. Sempre que as crianças berravam, o que acontecia uma vez a cada quarto de hora, o marceneiro entrava em fúria e desatava a ralhar e praguejar; o sapateiro protestava com citações da Bíblia. Os nervos do marceneiro estavam tão destroçados por aqueles gritos constantes, pelas punições e reprimendas incessantes, que, cinco minutos depois de participar do rapé da reconciliação oferecido pelo sapateiro, voltava a se enfurecer apesar da firme resolução de ser paciente. Consequentemente, passava quase o dia inteiro em brasa viva. Mas as passagens piores eram quando ele perguntava à mulher “por que essas fêmeas infernais precisavam botar tantas crianças no mundo”; então a mulher em questão entrava em pauta e seu adversário respondia à altura. Falk e Ygberg tiveram de atravessar aquele cômodo para chegar ao sótão deste último, e, embora ambos caminhassem na ponta dos pés, acordaram duas das crianças; imediatamente a mãe começou a cantarolar uma canção de ninar, interrompendo assim uma discussão entre o sapateiro e o marceneiro; naturalmente, este quase teve um acesso. — Cale a boca, mulher! — Cale a boca você! Não pode deixar as crianças dormirem? — Para o inferno com as crianças! São minhas crianças? Tenho de sofrer pela imoralidade dos outros? Sou um homem imoral? Hein? Tenho filhos? Cale a boca, digo, ou jogo minha plaina na sua cabeça. — Mestre, mestre! — começou o sapateiro. — O senhor não devia falar assim das crianças; Deus manda os pequeninos ao mundo. — É mentira, sapateiro! Quem os manda é o diabo! O diabo! E então os pais dissolutos culpam Deus! Deviam se envergonhar! — Mestre, mestre! O senhor não devia usar essa linguagem! A Escritura nos diz que o reino dos céus pertence às crianças. — Ah, sim! Então têm crianças no reino dos céus, é? — Como ousa falar assim! — gritou a mãe furiosa. — Se um dia tiver filhos seus, vou rezar para que nasçam aleijados e doentes; vou rezar para que sejam cegos, surdos e mudos; vou rezar para que sejam mandados para o reformatório e terminem na forca; pode esperar. — Reze à vontade, sua vagabunda inútil! Não vou pôr crianças no mundo para vê-las levar vida de cachorro. Você é que devia ser mandada à Casa de Correção por trazer os coitados a toda esta miséria. Você é casada, diz? Pois bem! Precisa ser imoral porque é casada? — Mestre, mestre! Deus manda as crianças. — É mentira, sapateiro! Li num jornal outro dia que a maldita batata é culpada pelas famílias numerosas dos pobres; você não vê? A batata consiste em duas substâncias, chamadas oxigênio e nitrogênio; sempre que essas substâncias ocorrem em certa quantidade e proporção, as mulheres se tornam prolíficas. — Mas o que se deve fazer? — perguntou a mãe furiosa, a quem essa interessante explicação acalmara um pouco. — Não se deve comer batata; não percebe? — Mas o que se há de comer, se não batata? — Bife, mulher! Bife com cebola! Hein? Não é bom? Ou bife à Chateaubriand! Sabe o que é isso? Hein? Vi n’A Pátria outro dia que uma mulher que tomara grão-do-útero quase morreu, ela e a criança também. — O que é isso? — perguntou a mãe, aguçando os ouvidos. — Gostaria de saber, não é? — É verdade isso que acabou de dizer sobre grão-do-útero? — perguntou o sapateiro, piscando os olhos. — Ohô! Isso lhe traz os pulmões e o fígado para fora, mas há pena pesada para isso, e é como deve ser. — É como deve ser? — perguntou o sapateiro, inerte. — Claro que é! A imoralidade deve ser punida; e é imoral assassinar os próprios filhos. — Filhos! Ora, há diferença — respondeu a mãe furiosa, resignada. — Mas de onde vem essa substância de que o senhor acabou de falar, mestre? — Haha! Você quer mais filhos, sua vadia, embora seja viúva com cinco! Cuidado com esse diabo de sapateiro! Ele é duro com as mulheres, apesar da piedade. Uma pitada de rapé, sapateiro? — Então existe mesmo uma erva... — Quem disse que era erva? Eu disse? Não; é uma substância orgânica. Deixe-me lhe dizer: todas as substâncias — a natureza contém cerca de sessenta — dividem-se em substâncias orgânicas e inorgânicas. O nome latino desta é cornuticus secalias; vem do estrangeiro, por exemplo da Península Calabresa. — É muito cara, mestre? — perguntou o sapateiro. — Cara! — exclamou o marceneiro, manejando a plaina como se fosse uma carabina. — É terrivelmente cara! Falk ouvira a conversa com grande interesse. Agora estremeceu; escutara uma carruagem parando debaixo da janela e o som de duas vozes femininas que lhe pareceram familiares. — Esta casa parece adequada. — Parece? — disse uma voz mais velha. — Acho que parece medonha. — Quero dizer que parece adequada para o nosso propósito. O senhor sabe, cocheiro, se há pobres morando nesta casa? — Não sei — respondeu o cocheiro —, mas juraria que há. — Jurar é pecado, portanto é melhor não o fazer. Espere-nos aqui enquanto subimos para cumprir nosso dever. — Diga, Eugenia, não seria melhor primeiro conversarmos um pouco com as crianças aqui embaixo? — disse a sra. Homan à sra. Falk, ficando para trás. — Talvez seja mesmo melhor. Venha cá, menino! Como você se chama? — Albert — respondeu um garotinho pálido de seis anos. — Você conhece Jesus, meu pequeno? — Não — respondeu a criança com uma risada, enfiando um dedo na boca. — Terrível! — disse a sra. Falk, tirando seu caderno de notas. — Melhor escrever: Paróquia de Santa Catarina. Montes Brancos. Profunda escuridão espiritual no espírito dos jovens. Suponho que escuridão seja a palavra certa? Virou-se para o pequeno: — E você não quer conhecê-lo? — Não! — Gostaria de uma moeda? — Sim! — Deve dizer por favor! Indescritivelmente negligenciados, mas consegui, pela doçura, despertar seus melhores sentimentos. — Que cheiro horrível! Vamos, Eugenia — implorou a sra. Homan. Subiram e entraram no grande cômodo sem bater. O marceneiro agarrou sua plaina e começou a aplainar uma tábua cheia de nós, de modo que as senhoras tiveram de gritar para se fazerem ouvir. — Há alguém aqui sedento de salvação? — gritou a sra. Homan, enquanto a sra. Falk acionava seu borrifador de perfume com tanto vigor que as crianças começaram a chorar com a ardência nos olhos. — A senhora está nos oferecendo salvação? — perguntou o marceneiro, interrompendo o trabalho. — De onde a tirou? Talvez também haja caridade a receber, e humilhação e orgulho? — O senhor é um brutamontes; será condenado — respondeu a sra. Homan. A sra. Falk fez anotações no caderno. — Ele está ótimo — observou. — Há mais alguma coisa que gostaria de dizer? — perguntou a sra. Homan. — Conhecemos o tipo das senhoras! Talvez queiram conversar comigo sobre religião, minhas senhoras? Posso conversar sobre qualquer assunto. Já ouviram alguma coisa sobre os concílios de Niceia ou os Artigos de Esmalcalda? — Não sabemos nada disso, meu bom homem. — Por que me chama de bom? A Escritura diz que ninguém é bom senão Deus. Então as senhoras nada sabem sobre o Concílio de Niceia? Como ousam ensinar os outros quando nada sabem? E, se querem distribuir caridade, façam-no enquanto lhes dou as costas, pois a verdadeira caridade é dada em segredo. Pratiquem nas crianças, se quiserem; elas não podem se defender. Mas deixem-nos em paz. Deem-nos trabalho e paguem-nos um salário justo, e então não precisarão andar correndo por aí desse jeito. Uma pitada de rapé, sapateiro! — Escrevo: Grande incredulidade, bastante endurecido, Evelyn? — perguntou a sra. Falk. — Eu poria impenitente, querida. — O que estão escrevendo aí, minhas senhoras? Nossos pecados? Ora, esse livro das senhoras é pequeno demais para isso! — O resultado dos chamados sindicatos operários... — Muito bem — disse a sra. Homan. — Tomem cuidado com os sindicatos operários — disse o marceneiro. — Durante centenas de anos fez-se guerra aos reis, mas agora descobrimos que os reis não têm culpa. A próxima campanha será contra todos os ociosos que vivem do trabalho dos outros; então veremos alguma coisa. — Basta! — disse o sapateiro. A mãe furiosa, cujos olhos haviam ficado cravados na sra. Falk durante toda a cena, aproveitou a oportunidade para dizer uma palavra. — Com licença, mas a senhora não é a sra. Falk? — perguntou. — Não — respondeu aquela dama com uma segurança que tirou o fôlego até da sra. Homan. — Mas a senhora é tão parecida com ela quanto é possível ser! Conheci o pai dela, Ronock, que agora está no navio-almirante. — Tudo isso é muito bonito, mas não nos diz respeito... Há outras pessoas nesta casa que precisem de salvação? — Não — disse o marceneiro —, não precisam de salvação; precisam de comida e roupas, ou, melhor ainda, trabalho; muito trabalho e trabalho bem pago. Mas é melhor as senhoras não irem vê-las, porque uma delas está com varíola... — Varíola! — gritou a sra. Homan. — E ninguém disse uma palavra! Venha, Eugenia, vamos informar a polícia imediatamente! Que gente nojenta! — Mas as crianças? De quem são estas crianças? Responda! — disse a sra. Falk, erguendo o lápis em tom ameaçador. — São minhas, senhora — respondeu a mãe. — Mas seu marido? Onde está seu marido? — Desaparecido! — disse o marceneiro. — Mandaremos a polícia no encalço dele! Será enviado à Penitenciária. As coisas precisam mudar aqui! Eu disse que era uma boa casa, Evelyn. — As senhoras não querem se sentar? — perguntou o marceneiro. — É muito mais fácil manter uma conversa sentado. Não temos cadeiras, mas isso não importa; também não temos camas; foram-se em impostos, para a iluminação da rua, para que as senhoras não precisem voltar do teatro no escuro. Não temos gás, como podem ver por si mesmas. Foram-se no pagamento da taxa de água — para que suas criadas fossem poupadas de subir e descer escadas; aqui a água não está encanada. Foram-se para a manutenção dos hospitais, para que seus filhos não fiquem de cama em casa quando... — Venha embora, Eugenia, pelo amor de Deus! Isto é insuportável! — Concordo com as senhoras, é insuportável — disse o marceneiro. — E virá o dia em que as coisas ficarão piores; nesse dia desceremos dos Montes Brancos com grande estrondo, como uma queda-d’água, e pediremos a devolução de nossas camas. Pediremos? Nós as tomaremos! E as senhoras se deitarão em bancos de madeira, como eu tive de fazer, e comerão batatas até que seus estômagos fiquem duros como tambores e sintam como se tivessem passado pela tortura da água, como nós... Mas as senhoras haviam fugido, deixando para trás uma pilha de folhetos. — Ufa! Que cheiro bestial de água-de-colônia! Cheira a prostitutas! — disse o marceneiro. — Uma pitada de rapé, sapateiro! Enxugou a testa com o avental azul e retomou a plaina, enquanto os outros refletiam em silêncio. Ygberg, que dormira durante toda a cena, acordou então e se preparou para sair de novo com Falk. Mais uma vez a voz da sra. Homan flutuou pela janela aberta: — O que ela quis dizer quando falou que seu pai estava no navio-almirante? Seu pai é capitão, não é? — É como o chamam. Dá no mesmo. Que gente insolente, não? Nunca mais volto lá. Mas vai dar uma bela reportagem. Para o restaurante Hasselbacken, cocheiro!

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