Um romance da vida amazônica: O "Missionário" do Sr. Inglês de Souza
II UM ROMANCE DA VIDA AMAZÔNICA O Missionário, por H. INGLEZ DE SOUZA, 2=^ edição, Laemmert et C., Rio do Janeiro, 2 vols., in-16. Este romance do Sr. Inglez de Souza não ó talvez, sem embargo de se republicar agora em segunda edição, tão conhecido quanto merece. Appareceu ha nove annos, em Santos, num formato impróprio c incommodo a este gênero de literatura; foi certamente lido pelos, não mui numerosos, que lêm livros brazileiros; estimado pelos que o leram, louvado pela critica ou pelo noLiciarismo; com tudo isto, porém, si nao me engano, não penetrou propriamente no publico, se não divulgou, ficou injustamente meio desconhecido. Si não é inexacta esta minha impressão, a nova e boa edição que delle acaba de publicar a casa Laemmert, revista pelo au- tor e precedida de um estudo do Sr. Araripe Júnior, é quasi um livro novo. E, não hesito em affirmar, um dos melhores, ao meu parecer, da nossa ficção em prosa. Tem este romance, infelizmente, um defeito, cuja gravidade não tentarei diminuir: a desproporção entre o assumpto e o desenvolvimento que lhe deu o autor.
O drama parece-me pequeno para tamanho scenario, o painel demasiado vasto para a pintura. Deste senão inicial derivam as máculas secundarias que uma critica meticulosa poderia descobrir na sua composição: excesso e minúcias de descripções e narrações, ampliíicação de episódios, prolixidade, sinão diffusão do texto. Estes defeitos, porém, fundem-se e quasi desapparecem na íluencia da narrativa, na analyse intelligente e, por vezes, subtil dos caracteres, na cxcellencia das descripções, no interesse que o escriptor teve o talento de dar ao seu romance. E a impressão geral que nos resta, que me íicou ao menos das duas vezes que o li, é o de uma obra quasi perfeita, em que a lingua, sem ser de uma pureza irreprehensivel, é correcta, exacta e elegante; o estylo claro, pittoresco e natural; a invenção imaginosa; as sensações sinceras; a emoção discreta e a composição geral, que combina e faz valer tudo isto, a disposição, a architectura do livro, em summa, boa. Boa mesmo, UM ROMANCE DA VIDA AMAZÔNICA 23 como não é vulgar nos nossos romancistas.
Passa-se a acção do romance no Amazonas, ha mais de vinte annos. A uma villa do interior, Silves, chega um novo vigário, padre moço, ardente na fé, zeloso na pratica, cuidadoso na disciplina. Justamente precedera-o naquella vigararia um padre, de nome ainda hoje famoso naquellas paragens, que foi ali um escândalo da religião, um açoite da moral e dos bons costumes. O novo parodio encontrara aquelle mesquinho rebanho destroçado pelo seu próprio pastor, a miserável igreja abandonada e descuidada, descuradas as praticas eofíicios religiosos, apagada a crença, relaxados os costumes. Si a sua fé e zelo se revoltaram no intimo da sua alma de crente fervoroso, achou talvez que Deus o favorecia, deparando-lhe para primeira vigaria um lugar onde havia muito que fazer pela religião. Com inteiro devotamento o ardor, entrou elle a exercer o seu ministério.
Limpou a igreja, restaurou os exercícios de piedade, instituiu o ensino do cathecismo aos meninos, acudiu pressuroso a todos os que buscavam os ofíicios da rehgião, foi um exemplo, um modelo raro de bom procedimento, de modéstia, de compostura e de virtudes. « Um santo », dizia ediíicada, nos primeiros tempos, toda a villa, inclusive Xico Fidencio, o espirito forte do lugarejo, carioca inlelligente e bohemio, que, de aventura em aventura, fora ter áquella aldeia, onde vivia miseravelmente de lições de latim, e de onde mandava a um jornal de Mandos correspondências maledicas da moíina vida da pobre povoaçáo e diatribes anti-clericaes. Esse mesmo tinha de reconhecer raivoso que o padre Antônio de Moraes era um santo, ou um relinado hypocrita, que conseguia illudil-o, a elle, o esperto e incrédulo Xico Fidencio. Parecia ao principio fructiíicar a obra do exemplar vigário.
Enchia-se a igreja para os ofíicios divinos, compunham-se os costumes, afervorava-se a fé, restabelecia-se a pratica dos actos religiosos- Mas de pouca dura foram estes effeitos do devotamento do padre Antônio de Moraes aos deveres do seu cargo e, mais, ao desempenho da missão religiosa que se dera. Mais do que Xico B"idencio, o professor publico Annibal Americano Selvagem Brazileiro, os mações, os.rapazes libertinos, os janotas da villa, admu'adores do Xico Fidencio, contraminavam-lhe a obra o temperamento indifferente, os hábitos relaxados, a incapacidade de fervor da gente do lugar. A rigidez da vida do vigário, a austeridade dos seus costumes, a pureza da sua existência, acabara por pesar-lhes como um reproche vivo, um obstáculo á vida fácil e desmanchada que com o outro levavam. Os seus nervos de indifferentes e desmazelados não pu- UM nOMANCE DA VIDA AMAZÔNICA deram supporlar por longo tempo a tensão em que os puzera elle. Achavam-no já excessivo, exigente, impertinente, e começaram a retirarse delle e da igreja e dos seus ofiicios.
Nesta disposição estavam, quando cliegou a época da colheita das castanhas, principal producto da exportação da villa. E, apezar das admoestações severas do padre, quasi toda a villa j)artiu para os castanhaes, sities que a agglomeração de adventicios de toda a parte, costumes e Índole torna outros tantos focos de licença, de irrehgião e immoralidade. Um grande e fundo desgosto Fe apoderou do padre. Viu perdida a sua obra, inútil o seu fervor e devoção, incomprehendido o seu zelo, menoscabadas as suas intenções. Sentia em torno de si a opposição, o ataque do Xico Fidencio e dos seus asseclas. Um grande desalento tomava-lhe a alma, pensando que a sua sciencia theologica, orgulho do Seminário Maior do Pará, a sua intclligencia, a sua instrucção e, mais que isso, o seu desejo ardente de servir áo seu ministério, á sua fé, á religião, tudo inutilizavam os maus inslinctos de uns e a indifferença de outros; tudo se viera miseravelmente perder naquella mesquinha aldeia, onde se lhe acabaria a vida inútil e obscuramente.
Este era o estado de sua alma quando uma circumstancia lhe descortinou uma tarefa mais nobre, mais elevada, por incomparavelmente mais diílicil que aquella que lhe tinha gorado, qual a de ir, como os padres antigos, os Anchietas, os Luiz F^igueiras, os Vieiras, missionar os Índios, os Mondurucús selvagens, que justamente acabavam de commetter depredações e mortes em populações christãs vizinhas. E isto assentado, apparelhada difíicilmenle a viagem, partiu, com o seu sacristão, o antigo sacristão de Silves, Macario de Miranda Valle, o Sancho Pansa deste novo D. Quixole, mas um Sancho Pansa bem local, bem original, uma boa creação do Sr. Inglez de Souza. Não quero tirar ao leitor o gosto de ler no próprio romance as aventuras do vigário de Silves, transformado em missionário do Evangelho ao gentio Mondurucú. O romance do Sr. Inglez do Souza é ao mesmo tempo um quadro vivo e exacto da vida amazônica — mas ura quadro cuja realidade tenha sido, muito ao de leve embora, diminuída pela pintura de memória — e uma representação de um aspecto moral dessa vida.
Não direi que o padre Antônio de Moraes seja um symbolo dos parochos sertanejos da região; o seu caso, porém, é freqüentíssimo ali. E' constante em todos os observadores a nota de índífferença do caracter brazileiro. Em matéria religiosa essa Índífferença é, parece-me, desmarcada. Essa UM ROMANCE DA VIDA AMAZÔNICA 27 indifferença geral, e especialmente religiosa, não creio seja em parte alguma do Brazil maior que na Amazônia. Aliás a predominância acolá do elemento indígena, a grande facilidade da vida em uma gente profundamente accommodada a todas as circumstancias e condições delia, explicam esto saliente rasgo do seu caracter. O padre Antônio de Moraes pertencia bem ao seu meio e, talvez, á gente nelle dominante. Grearase na vida solta e dissoluta dos si tios e fazendas de Igarapémiry, que deixou nome indigno na tradição paraense. O Seminário contivera, disciplinara, compensara, com a sua regra, os seusexercícios, a sua disciplina, o seu temperamento melancólico por sua mãe, brutal e lascivo por seu pae, cuja casa era um serralho.
Fez bons estudos, foi o primeiro em theologia, saiu physica o moralmente puro do Seminário, onde, á força do exercícios de piedade e devoção, ganhou uma exaltação mystica. Chegou á sua parochia cheio das mais altas resoluções de um verdadeiro apostolado religioso. Impoz ao principio pelo seu exemplo, realmente singular ali, cujo ultimo vigário deixou a fama ignóbil de que SC encoulram éco em relatórios presidenciaes. Mas, pouco e pouco, a incapacidade do ardor daquolla gente foi vencendo a reacção que o s,eu zelo produzira. Elle sente a sua obra perdida, inúteis os seus esforços, sem reper- cussão OS seus actos e palavras. Os seus inimigos, os Homais, os livres pensadores, os mações do lugarejo, duvidam da sua sinceridade, desafiam-no a uma grande obra de abnegação e sacrificio, como a calhechese dos selvagens, que precisamente assolavam uma região não muito distante.
A sua vaidade, porque no intimo do seu ardor, da sua devoção, do seu espirito de proselytismo ha este sentimento, um desejo de gloria, de renome, de posições, de apparecer a subir, clle que fora o mais laureado alumno do Seminário, excita o seu animo desalentado pela indifferença ingrata dos seus parochianos. Não, não se inutilizará naquella aldeia, onde sento acabará por desmoralizar-se, como o seu antecessor, o famoso padre José, como a maioria dos outros vigários sertanejos. Irá cathechizar selvagens, prestando á religião e á civilização do Amazonas este grande serviço. Terá o marlyrio talvez e, certamente, a gloria.
Parte ardente de enthusiasmo myslico, soffre, não só resignado, mas satisfeito, conlrariedades, inclcmencias do tempo e daquelles sertões bravios, arrisca a vida, padece, confortado da sua fé e alentado pela sua ambição de apostolado, cruéis incommodos e privações, até que, quando esperava receber o martyrio buscado, se acha conlbrtavelmente installado, carinhosamenle agasalhado, num sitio do que outro padre, U.M ROMANCE DA VIDA AMAZÔNICA 29 vigário deMaués, fizera o retiro dos seus amores sacrilegos. Ahi dá-se o supremo combate da sua fé, da sua honestidade, do seu ardor apostólico, com o seu temperamento, com o sei caracter real, a sua verdadeira indole, que educação ecclesiastica subjugando e discipli. nando não conseguira de todo vencer e anniquilar.
O romance moderno, com o naturalismo principalmente, inspirando-se numa physiologia materialista de curto descortino, que, esquecendo as reacções sociaes, evidentemente tão poderosas, deu á carne uma absoluta preponderância sobre o espirito, usou e abusou do falso presupposto, contrariado pela experiência, das irresistíveis necessidades genesicas. E sobre este postulado architectou crescidissimo numero dos seus romances. O do Sr. Inglez de Souza deriva da mesma concepção, somente é um daquelles em que a verdade relativa delia é menos sacrificada ao que do absoluto lia nessa noção biológica, e ao preconceito que delia se gerou no espirito dos literatos. Pela verdade da sua ficção, pela sua completa verosimilhança, tem o autor de Missionário os exemplos copiosos do meio em que se coUocou, e, como elle tem a intelligencia de expor, a mesma feição moral do seu personagem, fortemente favorecido pelas determinações desse meio.
O caso do padre Antônio de Moraes é um daquelles em que mais nos parece aquella noção physiologica de perfeito accordo com a realidade, e é para louvar a arte com que o romancista graduou a evolução do apóstolo para o libertino, de modo a não offender nenhuma dessas verdades superiores da natureza humana que são a base immutavel da arte. A transformação faz-se logicamente, naturalmente, e a metamorphose ultima do padre, que acaba por conciliar a sua fé, a pratica do seu ministério, com a irregularidade sacrilega da sua vida, e vive em paz com a sua consciência, dividindo a sua existência em duas metades distinctas, appellando tranquillo e confiante para um arrependimento extremo, uma absolvição final, é um facto de experiência e, neste romance, de uma grande verdade artística. Os sonhos ambiciosos do falso missionário não o são menos, si bem me não pareçam tão conformes ao que chamarei a reahdade local. Recebi este livro com prazer. Ao seu mérito próprio, não pequeno, junta elle para mim a evocação de paizagens, scenas, typos e cousas famihares, que a saudade poetisa e engrandece.
Não julgo somenos no romance a exacta e minuciosa figuração das cousas descriptas e recontadas. Ella remata a verdade e a perfeição do quadro, dá á representação artística o acabado das cousas existentes e completa para nós a UM ROMANCE DA VIDA AMAZÔNICA illusão do real. Uma ou outra ligeira falha que, a este respeito, um conhecedor da vida amazônica pudesse notar, não diminuiria em nada a exaclidão geral da pintura, a realidade superior que delia íinalmento resulta. E essa é a única, talvez, que se tem o direito de exigir do artista. Filia-se estreitamenteácorrenlegeral donaturahsmo, e mais de perto do naturalismo zolista, divulgado cm a nossa lingua pelo Sr. Eça de Queiroz, o romance do Sr. Inglez de Souza. Não creio que o naturalismo tenha produzido no Brazil obra superior a esta; mas nella mesma, estou em que o reconhecerá o próprio autor, deixou os vicios inherentes aos preconceitos das escolas. Na explicação, por exemplo, dos moiivos do padre Antônio de Moraes ha talvez demasiada minúcia, rebuscada analyse, sobeja interpretação.
Recorre também o romancista a noções scientiíicas para robustecer a sua analyse psychologica da alma e dos moveis de acção do seu protogonista, o que se me afigura um erro. A arte certamente ha de utilizar, e utilizou sempre, os resultados geraes da sciencia, aquelles que, por assim dizer, perdendo quanto têm de technico e especial, se incorporam no que podemos chamar a atmosphera intellectual da humanidade. Mas como nem o chimico é capaz de sentir na atmosphera physica em que vivemos os elementos que a compõem, assim na obra de arle não devemos senlir siquer traços do que não fòr puramente artístico. Não abusa, aliás, o Sr. Inglez de Souza; este peccado da escola é muito menos saliente no seu livro que, por exemplo, no Homem do Sr. Aluizio Avezedo ou na cerebrina Carne de Júlio Ribeiro, sem falar dos medíocres copistas do naturalismo.