Um irmão de Brás Cubas: O "Dom Casmurro" do Sr. Machado de Assis Estudos de Literatura Brasileira: 3ª Série · Capítulo 3 de 14
Obra Menu

Um irmão de Brás Cubas: O "Dom Casmurro" do Sr. Machado de Assis

III UM IRMÃO DE « BRAZ CUBAS » Dom Casmurro, por MACHADO DE ASSIS, H. Garnier, Rio do Janeiro, 1900. Dom Casmurro é irmão gêmeo, posto que com grandes differenças de feições, si não de Índole, de Brás Cubas. Eu preferia, e commigo estarão porventura os devotos do escriptor, que a este raro e distincto livro, e a Quincas Borba, que o seguiu, differenciando-se por uma humanidade maior, uma realidade mais viva, succedesse uma obra que mostrasse um novo aspecto da imaginação e do pensamento do autor. Relativamente a Brás Cubas, Quincas Borba, derivado embora, da mesma inspiração, era novo; iilho do mesmo sangue, tinha, entretanto, outra physionomia e outro caracter. Sem ser uma reproducção de Braz Cubas, Dom Casmurro tem com elle mais que o ar de família dos filhos do mesmo pai, semelhanças de irmão gêmeo. São semelhanças, entretanto, que ■ não deixam lugar á confusão. Parecem-se, mas não são o mesmo, nem se podem confundir. Si Brás Cubas e Dom Casmurro, contam ambos os dous a sua historia, cada um tem o seu estylo, a sua lingua, a sua maneira de contar.

No que mais se assemelham é no fundo da sua philosophia e no modo de considerar as cousas. Mas ainda assim ha no homem do primeiro reinado e da regência, que era Braz Cubas, e no homem do segundo império, que foi Dom Casmurro, sensíveis dífferenças de épocas, de civilização, de costumes. Basta comparar-lhes a linguagem. Certo o estylo é o mesmo, pois ó o estylo de um escríptor feito, e se não muda de estylo como de penna. Só o trocam os que* de facto não o tem, e menos poderia reformal-o um escriptor conlpleto, como o Sr. Mochado de Assis, e que o possue com uma individualidade como nenhum outro dos nossos. Mas si não é possível mudar de estylo sem mudar do personalidade, não é impossível varial-o, conforme as condições, os gêneros, os personagens, a índole, a natureza da acção ou da composição da obra literária. Eesta variação, feita comintellígencia, do Braz Cubas, para o Dom Casmurro, bastou para dífferen- UM IHMÃO DE CRAZ CUBAS 35 çal-os.

Não faltaria quem inquinasse aquellede uma linguagem, comquanto de raro sabor artístico e inexcedivel pureza e elegância, quasi antiquada, com os seus boleios clássicos, o uso, embora discreto, de expressões archaicas, a construcção intencionalmente invertida. Náo viam esses que era um homem, para nós do tempo antigo, espirituoso e douto em letras, que nos reconlava a sua historia com a lingua do seu tempo e da sua classe, accrescentada de preoccupações literárias. Quem fala en Dom Casmurro é outro homem, já do nosso tempo e das nossas idéas, que se formou cm S. Paulo e não em Coimbra, e, comquanto pelo espirito, pelo temperamento, apezar da sua casmurrice ulterior, e pela concepção da vida, parecido com o outro, muilo differentc delle pelas fôrmas e modos com que sentia e se exprimia. Porque na vida, como na arte, que a representa, deíine ou idealiza, são as fôrmas e modos de sentir e exprimir o que sentimos, mais que o mesmo sentir, que produzem as variedades e differenças da existência em todos os seus múltiplos aspectos.

E Dom Casmurro, sentindo talvez como Braz Cubas, exprime o seu sentimento de outra maneira, que basta para renoval-o e distinguil-o. Braz Cubas, em summa, não dispensa Dom Casmurro, antes de alguma sorte é completado por elle. Mas, o aqui venho ao fim do meu reparo, si a critica lem o direito de formular um desejo, eu quizera que, mesmo sem inteirar a trilogia que alguns esperam de Braz Cubas e Quincas Borba, o escriptor consummasse a evolução, que porventura neste ultimo se pronunciava, para um modo mais piedoso, si não mais humano, do conceber a vida, e nos desse, como com aquelles dous admiráveis livros, uma obra inieiramenle nova. Sabe o Sr. Machado de Assis que taes pedidos se não fazem sinão aos opulentos. A obra literária, a obra d'arle, se define pela emoção quo deve provocar ou despertar em nós. Essa emoção pódc ser sentimental ou intelletual.

Mesmo de uma emoção puramente sentimental não é possivel excluir, ou siquer abstrair, a intelligencia, que tem nella a sua funcção própria; mas ha emoções que, sem necessidade dos conceitos da psychologia, cada um de nós sente que nellas predominam já a intelligencia, já o sentimento. E esta predominância a distingue para nós. Theoricos da esthetica quizeram que o sentimenio predominasse sempre nas emoções artísticas e literárias. A concepção é, talvez, estreita c acanhadamente comprehensiva, pois uma emoção intellectual, de ordem esthetica, tende necessariamente a transformar-se em emoção sentimental, e satis- UM IRMXO DE BRAZ CUBAS 37 fazer assim aos íins que a arte assignam os seus tlieorislas. Na obra do Sr. Machado de Assis, a emoção é por via de regra, não sei si não poderia dizer sempre, de ordem inlellectual. Fallece-lhe, ou esconde-a ciosamenie — e, talvez, seja esta a hypothese verdadeira—a emoção sentimental. Advirto que não (juero fazer a psycliologia do Sr. Machado de Assis; e os meus conceitos, certos ou falsos, do escriptor, derivo-os apenas do esludo da sua obra.

E' nolavel que vindo do romantismo, nada lhe haja ficado do scnlimentalismo romântico, e que, ao contrario, toda a sentimenlalidade, talvez com horrcfi' da pieguice em que ella descambou iinalmente naquella escola, lhe repugne profundamenle. Mas, quando em um escriptor como elle, de uma tão alta honestidade literária, sentimos esta espécie de repugnância orgânica de um tão humano e legitimo sentimento, esla falia desnatural do amor, ao qual devem a arie e a literatura mais que as suas mais bellas obras, a sua mesma existência, desperta-se-nos também a curiosidade de indagar da sua mesma obra até que ponto será qual se nos ilgura. Dessa obra resumbra uma philosophia amarga, sceplica, pessimista, uma concepção desencantada da vida, uma desillusão completa dos moveis humanos.

E com isto, em vez das imprecações e raivas dos pessimistas proíissionaes, como os prophetas bíblicos, ou seus imitadores hodiernos, a quem uma fé, uma espei^ança desesperada, uma forte convicção alça a cólera ou exaspera a paixão, uma ironia fina, brincalhona, corlezà, de homem bom, mas seguro, como o Ecclesiaste, de que tudo é vão neste mundo,e resolvido por isso a se não iiludir com alguma apparencia. Neste ultimo rasgo, senle-se no escriptor, si não o esforço, o propósito, como que o timbre, de se não deixar tomar por néscio e ludibriar por cousas que elle assenta fallaciosas. Tudo é vaidade, vão é quanto ha sob o sol. Mas não será lambem vã a ironia, vão o scepticismo, vã a nossa tenção de escaj)armos a todas as illusões? Como quer que seja, não escapamos ao encanto amargo desta philosophia desenganada. Si Cohelet buscou palavras deliciosas com que ensina magistralmente as máximas da sua verdade! Não me é possível resumir a auto-biographia de Dom Casmurro. Si clle não nasceu homem calado e meltido comsigo, a vida acabou por fazel-otal.

Somente aquella philosophia desabusada, que estava nelle, não consentiu que com elle entrasse a maldade, permittindo-lhe apenas a malicia. Quem foi que disse que a bondade do sceptico é a mais solida? Não sei si acerto, attribuindo malicia ao po- UM IRMÂ.0 DE BRAZ CUBAS 39 bre Bento Santiago, antes que se fizesse Dom Casmurro. Não, elle era antes ingênuo, simples, cândido, confiante, canliestro. O seu mestre — iormoso e irresistivel mestre! — de desillusões e de enganos, o seu professor, não de melancolia, como outro que inventou o autor de um certo Apólogo, mas de alegria e viveza, foi Capilú, a deliciosa Capitú. Foi ella, como diziam as nossas avós, quem o desasnou, e, encantadora Eva, quem ensinou a malicia a esse novo Adão. Somente haveria nelle adequadas disposições para receber a agradável doutrina. Tembem eu duvido que delle sejam as reflexões, as considerações, a luz a que vè as cousas do seu passado.

Dom Casmurro traio e calumniou o Bentinho, o bom menino, o filho amante, o rapaz innoccnte e respeitoso, o estudante applicado, o joven piedoso, o namorado ingênuo, o amigo devotado e confiante, o marido amoroso e crédulo. A moral, os commentarios de que acompanha os fados e gestos de Bentinho, são delle, mas depois que o espirito se lhe desabusou daquelles olhos de Capitú « que traziam não sei que fluido myslerioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca », daquelles « olhos de cigana obliqua e dissimulada », como lhes chamava, com demasiado estylo, José Dias, c também dos « olhos dulcissimos » 40 ESTUDOS DB LITERATURA de Escobar, como lh'os achava o mesmo José Dias, e da sua polidez, das suas boas maneiras, que a Iodos captavam. Sim, é de Dom Casmurro e não de Benlinho ou siquer do Bento Santiago, a parte que não é propriamente narrativa da auto-biographia, as rellexões moraes, as explicações dos aclos e sentimentos.

A única verdadeira e certa das qualidades que se attribuem á mocidade é a illusão com a emoção correspondente. Decididamente Dom Casmurro, de boa ou má fé, calumniou a Bentinho, isto é, a si próprio. Somente, ditosa culpa, si o não houvesse feito, talvez a sua obra, promessa auspiciosa da Historia dos Subúrbios, que tanta falta está fazendo á nossa historiograpliia, não tivesse este picante sabor de malicia, nem a novidade com que renovou um velho thema, difliculdade só dada a vencer aos grandes artistas. Mas também, apezar das prevenções de José Dias, quem houvera com quinze annos e a innocencia de Benlinho, e mesmo sem isso, resistido á curiosa e solerte Gapitú, acoroçoada pela ingênua e velhaca cumplicidade dos pais? Lêdeme aquelle delicioso capitulo do « penteado », ó vós que já tivestes quinze annos, e dizoi-me quem houvera capaz de resistir á Gapitú? Bentinho acabara, por um jogo de crianças intimas, UM IRMÃO DE BRAZ CUDAS de pentear-lhe os cabellos, e exclama, a obra concluída: « — Promplo! « — Estará bom? « — Veja no espelho. « Em vez de ir ao espelho, que pensais que fc/.

Capitú? Nào vos esqueçais que estava sentada, de costas para mim. Capitú derreou a cabeça a tal ponto, que me foi preciso acudir com as mãos e amparal-a; o espaldar da cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ella, rosto a rosto, mas trocados, os olhos de um na linha da boca do outro. Pedi-lhe que levantasse a cabeça, podia íicar tonta, machucar o pescoço. Cheguei a dizer-lhe que estava feia; mas nem esta razão a moveu. « — Levanta, Capitú! « Não quiz, não levantou a cabeça, e ficámos assim a olhar um para o outro, até que ella abrochou os lábios, eu desci os meus, e... ». Que excellente, e penetrante, e tino estudo de mulher nos deu, como a brincar, recobrindo-o de riso e de ironia, o Sr. Machado de Assis, nesta sua Capitú! E ao demais, novo, original, bem nosso, como aliás são, sem embargo da sua real generalidade humana, ascreações do Sr. Machado de Assis.

Porque, e é seguramente um raro e alto mérito, sendo o autor de Dom Casmurro o único talvez dos escriptores brazileiros que na ficção se eleva até o geral, o simplesmente humano, sem preoccupação de representações ethnographicas e locaes, nenhum, cmtanto, é mais verdadeiro e exacto do que elle quando as faz. A extrema flexibilidade do seu talento permilte-lhe casar perfeitamente a verdade geral e superior da natureza humana, com a verdade particular do temperamento nacional. E esta é, si não me engano, uma das condições da grande arte, do realismo na sua fôrma mais elevada e mais pura. A sua literatura não é, de intenção, descriptiva; no mundo só lhe interessa de facto o homem com os seus sentimentos, as suas paixões, os seus moveis de acção; na sua terra, o puro drama, humano, talvez elle preferisse dizer comedia, sem lhe dar da decoração, da paizagem, dos costumes, de que apenas se servirá para crear aos seus personagens e aos seus feitos o ambiente indispensável, porque sendo entes vivos não podem viver sem elle.

Entretanto, raros terão, com toda a sua intençãode scenographia, de pintura de costumes, de representação da vida material nos seus aspectos familiares, dado da nossa vida quadros tão acabados, tão vivos. Ainda Dom Casmurro é um testemunho do que não erro ou exagE', talvez, que na obra do Sr. Machado de UM IRMÃO DE BRAZ CUBAS 43 Assis a representação dos aspectos materiaes da vida nào provêm da descripção ou da enumeração das partes que os compõem, sináo, como nos pintores das novas escolas — e não me refiro ás chamadas decadentes — da impressão geral, e por assim dizer animada, e quasi espiritual das cousas. Neste sentido elle é, talvez, e muito a seu modo, um ruskiniano: a paizagem, que elle, aliás, nào ama, e da qual, que me lembre, jamais se occupou — nào será para elle um conjuncto de arvores, montes, águas, pedras, com este ou aquelle aspecto particular, sinão a impressão moral e esthetica que ella produz no artista.

Si esla é, como creio, a característica da sua represenlaçào literária, tanto nos romances como nos contos, a da sua psychologia é idêntica a esta, mostrando assim que os seus processos literários, como próprios e pessoaes que são, derivam do seu mesmo temperamento de escripLor e procedem de um fundo commum de idéas e sentimentos. Elle nào faz a psychologia, nem á moda de Balzac, nem á moda de Bourget; sobretudo nào a faz á moda deste e de seus imitadores, essa psychologia meticulosa, minuciosa, rebuscada, preciosa como a lingua das sabichonas, e, no fundo, falsa. Nào a faz, como elles, procurando decompor uma alma, como se decompõe um corpo em seus elementos constituintes, ou analysar os seus sentimentos como se analysa uma substancia chimica, e explicar os seus moveis como um physiologisla explicaria o jogo das funcções do nosso organismo. Sobretudo, elle não a faz com qualquer preoccupação estranha á pura literatura, ou com os retratos das pretensas psychologias scientiíicas apanhadas de atropello em leituras desordenadas e mal feilas.

A sua, certa ou errada, vem evidentemente de uma observação longa, acurada e aguda. Não é no geral sympathica, o que pôde bem ser Uie vicie a visão, mas sente-se que é sua. Não a expõe em capitules didacticos, explica-a, quanto baste para completar a representarão que da sua dão os mesmos personagens nas suas falas, nos seus gestos, nas suas acç.ões. E ao cabo os seus livros são galerias de gente viva, como este Dom Casnnirro, com Capilú, José Dias, Escobar, e as íiguras, secundarias, os pais de Capitú, D. Gloria, Justina, o tio,Cosnie. Capitú, a dissimulada, a pcríida, é deliciosa de affectuosidade felina, de reflexão e de inconsciencia ou desplante, de animalidade intelligente e perspicácia feminil, de gcito, feiliçaria e graça, e, com isto tudo, viva, real, exacta. Dom Casmurro a descreve, aliás, com amor e com ódio, o que pôde tornal-o suspeito. Elle procura cuidadosamente esconder estes sentimentos, sem UM IRMÃO DE URAZ CUBAS 45 talvez conseguil-o de todo. Ao cabo das suas memórias sentc-so-lhe uma emoção, que elle se empenha em refugar. E só.

A sua conclusão, que não é talvez aquella que elle confessa, seria acaso que não ha escapar á malícia das mulheres e á má fé dos homens. Mas vejo que é, no fundo, a mesma que elle nos dá. Perco-me decididamente em explicações. Lede a fábula, e tirai-lhe vós mesmos a moralidade. cm unesp 10 11

1/1
Menu

Fazer anotação