A questão ortográfica na língua portuguesa Estudos de Literatura Brasileira: 3ª Série · Capítulo 10 de 14
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A questão ortográfica na língua portuguesa

X A QUESTÃO ORTHOGRAPHIGA Não faltará quem pense (jue a questão é estranha á literatura. A orthographia realmente apenas terá com ella relação indirecta: nada mais que fornecer ao escriptor um modelo geral do transcripção graphicados seus juizos. E' disCLitivel até que ponto faz ella parte da língua, e já não o é mais que da grammatica não faz parte. Não faz ao menos ao mesmo titulo que a lexeologia, a phonologia ou a syntaxe. Não agrupa, examina e estuda factosnaturaes, que obedeçam a certas regras do nosso espirito, mesmo a phenomenos de ordem pbysiologica e psycliologica, e ainda ao desenvolvimento histórico. As variações lexeologicas ou syntaxicas obedecem a princípios que a philologia fixou com o rigor dos melhores methodos scientificos. A parte do individual e do convencional é nellas secundaria e diminuía. No mesmo grupo de linguas, as neo-lalinas ou romanas por exemplo, é possível descobrir uma unidade Icxeologica c syntactica com a qual constituir agrammalica geral, commum poderíamos dizer, dessas linguas.

As influencias locaes que sobre ellas acluam dífferençando-as, dístinguindo-as,,separando-as entre si, não sào ainda, ao cabo de séculos, bastantes para desunil-as de todo em todo. Ha, pois, nessa formação histórica que é uma língua alguma cousaque não é contingente, que resulta da própria estructuraphysio-psychologíca da espécie humana. Si ninguém mais crê que a língua seja um organismo, a expressão, como metaphora, não deixa de ser cxcellente, e aquellc facto a justifica. Do que ha cm uma lingua que faz delia uma organização histórica, tão caracterizada que chegou a íUudir como um organismo, não faz sem duvida parte a orthographía. A orthographía é uma convenção, uma pura convenção, como é a escripta numérica. Os seus signaes foram inventados para representar son.-^ articulados, e para, combinados, representar vocábulos. A primeira graphia, não já de idéas, mas de palavras, devia ser phonelica. Tal era a dos Gregos quando começaram a transcrever os seus cantos, e ainda depois.

Na língua portugueza é sabido que tal foi a primitiva orthogra- A QUESTÃO ORTIIOGRAPIJICA 185 pliia, desde que a lino^ua se começou a formar pelo século XII até á reacção erudita do século XV. Ainda no XVI grande era a irregularidade ortliograpliica em a nossa lingua, por molivo de conlliclo entre aquella reacção c o phonetismo habitual. E embora diminuída pela disciplina grammatical, pela literatura e pela divulgação da instrucção, que tendem Iodas a uniformar a escripta, essa irregularidade continua considerável. Não só noporluguez, porém; o çonflicto entre a etymologia e a prosódia, de onde cila resulta, existe mais ou menos em todas as linguas da nossa civilização. E' na italiana e na hespanhola, onde elle é talvez menos intenso, na ultima sobretudo, "na qual creio quasi já não existe. A retrograda Hespanha adiantou-se a todas as nações em maleria de orthographia. Não vá ser isto argumento contra os que invejam a sua. A Itália ficou a mais de meio caminho, o que já é uma oxcellente posição. Não lhe custará a completar a sua evolução para uma orthographia inteiramente natural.

Contra todos os especiosos argumentos dos letrados e etymologistas pela manutenção de uma orthographia erudila, bastam, como resposla vicloriosa, estes dous exemplos, de dous povos de alta cultura literária, de riquíssima c gloriosa literatura, de notáveis mestres da philologia e dahnguislica, ESTUDOS DE LITERATUn,A terem podido realizar ou quasi o lypo ideal *da orthographia na sua lingua. De reformar a sua, no sentido do simplifical-a, facilital-a, tratam todos os povos cultos. Bismarck por decreto modificou a allemã. Na AUomanha ha indivíduos e associações disso occupados. Na Inglaterra a reforma ortliograpliica é um « movimento », como lá dizem. Desejam-na e reclamamna os conselhos escolares, ineetingse conferências. Uma sociedade, que lem Max-Müller como um dos seus principaes membros, occupa-se especialmente da questão. Nos Estados Unidos existe sociedade idêntica, presidida por um lingüista, o Professor March.

Com ser a mais acabada, a mais perfeila, a mais culta das linguas modernas, a franceza não escapa aos inconvenientes da irregularidade orthographica, 6 até das anomalias synlacticas, que não têm uma explicação ou uma necessidade natural, que são propriamente vicios extirpaveis com vantagem para o organismo lingüístico. Ali também se reclamam desde muito reformas que ao mesmo tempo uniformem e harmonizem a orthographia, simplificando-a. E ali a questão acaba de dar um grande passo. Aceitando uma indicação do Conselho Superior de Instrucção Publica, o ministro desta repartição em França, por um decreto de 30 de Julho de 1900, promulgou uma reforma parcial A QUESTÃO ORTIIOGRAPIIICA i87 da orthographia franceza. Pela própria natureza desse acto governamental, a reforma não é taxativa. Adoptando o parecer daquella corporação, o ministro o fez nos termos em que ella lh'o apresentou, como récommendações aos examinadores sob sua jurisdicção para permitlirem certas liberdades syntaxicas e orthographicas, que não serão mais contadas como erros.

Não será desnecessário, em terra em que nomes valem mais que razões, dizer que assignam o parecer do Conselho Superior homens da mais alta e estimada cultura literária, e especialmente philologica, como Gastão Paris, Gréard, A. Groiset, Paulo Meyer, para não citar sinão os de fama universal. Pois estes philologos, estes eruditos, estes professores (que é a gente mais rotineira que ha), estes grammaticos, estes escriptores, que quasi todos o são, o alguns primorosos, não duvidaram tocar não só na orthographia, mas na mesma syntaxe da lingua que é, no melhor sentido, a mais clássica do todas as linguas cultas. Eis algumas das suas reformas, pois de facto o são. Acabam com a extravagância de syntaxe o de orthographia de escrever quatreüingts-francs com s em vingt e escrever qiiatre-vingt-deux francs sem s; timbres-poste sem s e malles-postes com s, coiitrepoids e poriemanteau sem traço de união, porém con- tre-eoup e porte-cigare com traço. Toleram que os nomes próprios, em todos os casos em que venham precedidos do artigo no plural, tomem o signal do plural.

Isto é que é lógico, e assim se escreveu sempre emportuguez. Por ignorância da lingua estávamos nós a dizer e a escrever erradamente os Almeida, os Gicero, os Gonzaga. E' possível que agora, graças á reforma franceza, voltemos á boa tradição vernácula. Os nomes estrangeiros, quando de todo entrados na lingua, tomarão plural, lesexeats, les deficits. Os nomes próprios se poderão escrever sem traço de união, em uma palavra só, formando o plural segundo a regra geral. Os adjectivos nu, demi, feu são postos na regra geral, concordando com o substantivo quer o precedam, quer o sigam: nus pieds, une deinie heure, feue Ia reine. Osnumeraes vingt e cent poderão tomar o plural, mesmo quando seguidos de outro numerai. Poder-se-á dizer mi/le em lugar de mil: l'a/i mille huit cents quatre-ving-dix. Também se poderá dizer cest ou ce sont des niontagnes, e substituir o imperfeito dosubjunctivo, tão pouco euphonico, pelo presente do indicativo: // faudrait quil üienne ou qutl vint.

No participio passado, acompanhado do auxiliar avoir, toleram que elle íique sempre invariável ou concorde com o complemento: les livres que fai lu ou lus; A QUESTÃO ORTIIOaRAPIIICA 189 Ia peine que faipris ou prise. Nomes que se empregavam ora em um gênero, ora em outro, conforme o sentido, como ceuvre, orge, pagues, périoüe, amour, orgue, poder-se-ão empregar no feminino em todos os sentidos, e os dous últimos podersio ser do masculino no plural, como no sigular. Serão toleradas frases como du bon pain, de Ia bonne viande, des bons fruits, até aqui condemnadas. E ainda ha mais concessões propriamente orthographicas umas, outras que, mesmo synlaxicas, redundam em symplificações orthographicas. O acto do ministro da Instrucção Publica provocou naturalmente discussões e também protestos. Em geral, porém, foi recebido sem opposição ou contrariedadc formal. Em um artigo da Reoue des Deux Mondes oppoz-lhe objecções, algumas, cumpre reconhecer, ponderosas, o Sr. Brunelière.

A Academia Franceza, julgando-se menosprezada pela resolução governamental, que procedeu sem ouvil-a, parece ter votado uma indicação para que qualquer reforma seja sujeita ao seu juizo antes de ser posta em pratica nos exames universitários. O Sr. Brunelière admitlc, entretanto, em principio, a. reforma. Nas « tolerâncias » facultadas acha elle que « sunt mala, suntbona quoedam, sunt mediocria plura. Não as approvamos, diz, nem as desapprovamos em massa. » A Academia já lhe lembraram que, pretendendo intervir na questão, sem ser consultada, se põe em contradicção com todo o seu passado. Com effeito, a Academia não fez até aqui, em maleria de lingua e de orlhographia, sinão acompanhar o uso; o publico, comprehendendo os escriptores, é que faz as reformas. Ella se limitou sempre a dar-lhes ou negar-lhes, conforme as julga boas ou más, a consagração da sua autoridade. Nos mesmos prefácios de varias edições do seu Diccionario, declarou-o expressamente.

E é talvez por isso que o seu Diccionario faz lei, poniuc é o registro da lingua em uso « não no uso que começa — são palavras da Academia •— mas no uso geralmente aceito. » Nas sele edições desse Diccionario publicadas de 'lG9i a 1878 são em crescidissimo numero as modificações orthographicas e mesmo synlacticas, aceitas e compendiadaspela Academia. Somente nas edições de 17íO e 1702 a Academia modificou a orLliographia de mais de cinco mil palavras em cerca de vinte mil que continha o Diccionario. São dados colhidos na presente discussão em França. Mostram bem o que vale a alarma contra a reforma, ou a suá vontade da Academia, por se ella operar independente delia. Não a prejudica, porém, que a illustre companhia se intrometia na questão. Entre os signatários do parecer aceito pelo ministro estão aca- A QUESTÃO ORTIIOGRAPIIICA 19Í demicos. Um delles, o eminente pedagogisla Sr. Gréard, já em 1893 apresentou á Academia um relatório favorável á reforma orlhographica e á consagração por ella, de m.odificações na matéria operadas pelo publico. E este relatório foi por ella bem acolhido.

Parallela á acção do Governo e do Conselho Superior de Instrucção Publica, a da Academia não pôde ser sináo proveitosa á reforma, que conta no seu seio partidários conhecidos. A nossa lingua, muito menos policiada e disciplinada que a franceza, está, em matéria de orthographia, em condições muitíssimo peiores do que aquella. Ha uma orthographia franceza, determinada pela Academia, e que todos, salvo excepções excêntricas muito raras, adoptam. Pôde nella haver, e ha, extravagâncias, mas, mesmo os que o acham, submettem-se-lhes. Não assim na lingua portugueza, que, póde-se afíirmar, não tem orthographia. Herculano, Castilho, Garrelt, Caslello Branco, os quatro mais consideráveis escriptores da moderna literatura portugueza, cada um tem a sua graphia especial. E de cada escriptor portuguez ou brazileiro se pôde dizer o mesmo. Ha, pelo menos, um ou alguns vocábulos que cada um delles escreve a seu modo. No Rio de Janeiro, e será o mesmo em Lisboa, cada jornal, cada offlcina typographica tem o seu modo peculiar de gra- 192 ESTUDOS DE IJTERATUUA pliar.

Gluiina-se pitLorescitinciile: « a orlhographia da casa ». Para esta siluação singular — pois creio que em nenliuma lingua se encontra idêntica — concorrem a mesma infixidez e indisciplina da portugueza. Não desadoro, ao contrario, a estimo e amo, a nossa lingua. Si não a julgo ainda um perfeito intrumento de expressão do pensamento, não sou dos (pie a malsinam de incapacidade, ou lhe negam belleza. Do parte o ão e os seus pluraes, é seguramente uma das mais harmônicas, das mais melodiosas, das mais sonoras das linguas cultas. Somente a italiana lhe levará, sob este aspecto, a palma. E' enérgica como a hespanhola, e possue ainda algumas das virtudes da latina. Mas não sei si o que Venus lhe achava, para recommendar o povo que a falava á bemquerença de Júpiter — o parecer-se tanlo com a latina — não será antes um prejuízo que uma vantagem. Tem varias origens a incerteza, a indecisão orlhographica, o também syntactica, poderia dizer grammatical, da nossa lingua. Uma é, como com razão nota o Sr.

Theophilo Braga, que a lingua portugueza, não seguindo a sua evolução natural, estorvada pela reacção erudita do século XV, não chegou a essa contracção de palavras que tanto distingue a lingua franceza. Esta só foi submettida á disciplina dos eruditos no século XVI, quando A QUESTÃO, ORTHOGRAPHICA a sua morpliologia já constiluida pelo povo não podia ser alterada. >i A língua portugueza desde que começou a ser escripta foi fixando as suas fôrmas ao capricho dos traductores, e por isso as duas leis phonclicas que predominam constantemente na formação divergente das linguas romanicas — o desapparecimento das vogaes mudas e a queda das consoantes médias — pela fatalidade da natureza exerceram-se sempre na linguagem oral, mas foram modificadas na linguagem escripta.

» Esta divergência na constituição da lingua entre o elemento popular e o elemento erudito, mais frisante'na lingua portugueza que talvez em nenhuma outra do grupo romanico, creou por assim dizer nella duas linguas, duas fôrmas de expressões,, uma erudita, outra popular, como certas linguas americanas tinham dous modos de falar, o falar dos homens e o falar das mulheres. Nenhuma outra lingua romanica terá, creio, tamanha copia de fôrmas duplas como a nossa, mostrando essa divergência. Em nenhuma também a linguagem literária se distingue e separa tanto da linguagem popular, da lingua corrente. Dahi talvez provenha serem os que a escrevem por via de regra guindados, empolados mesmo, tendo todos, mais ou menos, a preoccupaçáo daquillo que o nosso povo chama « palavra difíicil » e também « palavrão ». A superabun- 19'i ESTUDOS DE LITERATURA daaciu dos synonymos, a riqueza embaraçosa de palavras, com a relativa carência de expressões características, deu á lingua porlugucza, mais talvez que á castelhana, o vicio que os Hespanhóes chamam palavreria.

A lingua é palavrosa e os seus escriptores o são com ella. O gongorisraja existia em Portugal antes de Gongora. Gongoricos são mais ou menos quasi todos os seus escriptores, ainda os' modernos: Camillo o é muito, Latino Coelho muitíssimo, como o foram Rebello da Silva, os Castilhos, Vasconcellos, para não citar sínão os mais característicos. O próprio Herculano não escapa de todo á pecha, da qual só porventura se salvaria incólume Garrett. Não sei si já notaram como entre nós os que não são propriamente escriptores, quando em discursos ou artigos querem « fazer hteratura », caem ínfallivelmente no empollado, no gongoríco, na procura do « palavrão » E os mesmos escriptores não escapam a elle. Decididamente o atticismo não é uma virtude da nossa lingua e da nossa gente. Ou porque esta copia de vocabulário não fosse trabalhada por uma literatura verdadeiramente superior, humana e viva, ou porque nós não conhecemos bastante a literatura que a empregou, o certo é que no uso corrente, popular ou literário, falta á nossa lingua precisão.

Dahi a necessidade, a que A QUESTÃO ORTHOOnAPinCA 19.mesmo um Vieira se não isentou (Hcrculano escreveria exemptou), de multiplicarem os escriptores os epithetos. Reparem, salvo nos modernissimos, fülios da influencia franceza, nós abusamos de uma longa adjectivação. E ainda nesses, Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão. Oliveira Martins, ha mais,adjectivos que nos bons escriptores francezes. Quasi não podemos marcar um matiz com um só; ou por ignorância nossa, ou pela ignorância que suppomos no publico, precisamos de dous e mais para o fazer. Os clássicos não têm absolutamente a sciencia moderna do adjeclivo, comquanto haja nelles exemplos felicíssimos e de rara belleza. A propriedade é em Vieira a qualidade dominante da sua lingua, é verdadeiramente exquisita e sorprendente no substantivo e no verbo, mas já o é muito menos no quahíicativo. Em Camillo, salvo na polemica e na satyra, em que o manejo do plebeismo e mesmo do chulismo dão um forte e pittoresco sainete á sua frase, a adjectivação não tem nenhum relevo particular. iMais tem a de Eça de Queiroz ou a do Sr. Machado de Assis.

Gomo não ha matizes, gradações, cambiantes (todos me compreherideriam melhor si eu dissesse em uma palavra só, nuanças) no pensamento porluguez, gente, como elles dizem, de « pão, pão; queijo, queijo », não os ha quasi na sua lingua. Si ai- guns escriptores nella os introduziram, e mais de um com muita arte o bom gosto, foi forçando o gênio, não só dalingua, mas do eslylo que lhe é peculiar. Admirável instrumento de poesia, pelo muito que foi trabalhada por poetas do mais rico estro, a lingua portugueza deixa muito a desejar como lingua de prosa. E não fora talvez a obra dos proceres do romantismo portuguez, ella seria acaso de todo imprópria á perfeita expressão das idéas abstractas no domínio da philosophia, no domínio da critica, no dominio das generalizações especulalivasde todo o gênero. Não tanto, talvez, porque na sua velha literatura em prosa se não achassem os elementos da lingua necessária a laes assumptos, mas porque em Portugal e aqui a nação é estranha á sua literatura, o que torna deficientissima a lingua corrente. Aqui se lê o Sr. Ruy Barbosa de diccionario na mão.

Estes mesmos fados são talvez causa de não ter jamais havido uma autoridade, siquer moral, que, sinão determinasse, assentasse a nossa grammatica e a nossa orthographia. Não só não exerceu essa funcção ulil a Academia das Sciencias de Lisboa, mas os escriptores mais eminentes não lograram jamais alcançar tal supremacia, que a sua escripla servisse a todos de norma. AUás elles mesmos tornavam isso impossível, escrevendo cada um a seu modo. A QUESTÃO ORTIIOGRAPIIICA 197 Delles vinha o exemplo da anarchia orthographica. Não será tempo de pôr-llic um termo? Portugal e nós vivemos muilo do exemplo da França. Acudiu-me que o tratar-se ali desta questão poderia despertar nos dons paizes de língua portugueza a vontade de imital-a. Não sei que o assumpto possa parecer a alguém somenos. Sob o seu aspecto puramente literário, poderia talvez ser assim, mas a reforma da orlhographia tem, persuado-me, um aspecto mais relevante, o social, e é por elle que a reforma no sentido da simplificação me parece útil e necessária.

II Esta nossa pobre lingua portugueza não tem dous escriptores que escrevam da mesma maneira, que tenham a mesma orlhographia. Haverá outra lingua que se preze de culta e que se ache nas mesmas circumstancias? Duvidamos. Em todas ou em muitas dellas, ha entre os seus estudiosos e cultores, quem conteste a oxcellencia dos seus modos graphicos, quem preferisse outros, quem lhes mostre incoherencias e defeitos; mas, por via de regra, todos, Í98 até OS mesmos dissidentes, seguem uma norma geral. As divergências, quando as ha, são em tão pequeno numero e tão insignificantes que escapam á leitura corrente. Das linguas que nos são mais conhecidas e familiares, o francez, o inglez, o allemão, o italiano, o hespanhol, podemos dizer que têm uma ortographia; do portuguez essa affirmação seria temerária. Não são só nomes próprios, as palavras exóticas, os vocábulos compostos, as expressões, personificadas ou inlencionaes, cuja representação graphica na nossa lingua varia consideravelmente de escriptor para escriptor.

Esse facto é commum a todas as linguas, si bem que não me arreceio de dizer, em menor grau do que em a nossa— na qual reina a mais completa licença e para com a qual não temos o minimo sentimento de acatamento e veneração. Todos nos julgamos com o direito de cortar nesta nossa pobre lingua, como em roupa de francez. Eu sempre tive a subserviência com que portuguezes e brazileiros, emais brazileiros que portuguezes, transcrevemos e pronunciamos os nomes patronimicos e geographicos estrangeiros como um signal de carência de individualidade. Todas as linguas, de regra, traduzem os nomes próprios das linguas estrangeiras, ou pelo menos os adaptara á sua prosódia e orthographia. O portuguez fez assim também emquanto foi a lingua de um povo A QUESTÃO ORTHOGRAPHICA Í99 vigoroso, enérgico, original. Os nomes que hoje aprendemos nos nossos detestáveis compêndios de geographia, em fôrmas ingiczas, francezas ou allemãs, foram elles os portuguezes que os deram ou revelaram ao mundo na sua língua sonora.

Quando foi da guerra da Itália com a Abyssinia, outro dia, os telegrammas que aqui se publicavam tingiam vir de Massowah, de Massaouah ou de Massouah, formas inglezas e francezas, para os nossos ouvidos antipathicas e arrevezadas, do nome de um porto do Mar Vermelho, que já Camões (Lus. X, 97), como os pilotos, chronistas e historiadores que o precederam, graphara porluguezmente Alaçuá, expressão phonetica exacta na nossa lingua daquellas graphiãs ingleza e franceza. Pôde haver maior desnacionalização? No Brazil ao menos, não temos mais lingua geographica, sinão uma mistura disparatada. Foi sempre a regra que cada povo reproduzisse as denominações geographicas conforme a indole phonetica da sua lingua, traduzindo-as por assim dizer, no seu vocabulário, naturalisando-as com as fôrmas peculiares á suagraphia. Nas linguas chamadas latinas, essa é a norma, de que ainda se não afastam o francez, o italiano e o hespanhol.

O portuguez a seguiu até que entrou a não saber de si, e a escrever e dizer de todos os modos, como gente sem lingua, sem personalidade, 200 ESTUDO DE LITERATURA sem caracter, qual essa que, vivendo em cortas regiões marítimas infestadas por todas as raças elínguas, escalas do levante, ou escalas dooccidenle, acaba por não falar nenhuma, falando baralhadamente todas. Foi por igual sempre foro das nossas linguas romanas trasladarem os nomes próprios, cujos correspondentes tinham. Italianos e Hespanhóes ainda são rigorosos nisso, c os Francezes também. Ha mais liberdade nas linguas germânicas, mas não completa. Portuguezes c Brazileiros quasi já o não fazemos, e nos inchamos de pueril vaidade escrevendo ou dizendo á estrangeira um nome que tem cabal represcnlação portugueza. E o que é mais, não nos contentamos em tomar o nome tal qual á lingua estrangeira, o que ainda teria uma desculpa ou explicação, rccebemol-o através de outra de lingua estrangeira, que o traduziu, e fazemol-o nosso. Gomo « burguez fidalgo », não ha nada melhor!

E' exemplo Henrique Heine, que todos dizemos Henri, traducção franceza do Heinrich allemão. O mesmo com Leão TolsLoi que pronunciamos a franceza Léon, como si o nome fosse francez. Este facto contra o gênio, o uso, a longuissima praxe da lingua, prova que ella perde em individualidade e está prompta a se degradar, faz-se serva, desapparecc-llie a capacidade de resistência. Sei que o purismo, que ó a nobreza A QUESTÃO OUTIIOGRAPHICA 201 das línguas, se não pôde mais defender sem anachronismo. Desde que as línguas se puzeram em conlacto díreclo e immedíato umas com as outras, que os homens aprenderam varias línguas, que as literaturas de umas penetraram as literaturas de outras, que os mesmos povos se penetraram uns aos outros com os seus costumes, com as suas curiosidades, com as suas usanças, com os seus modos vários de conceber e de dizer, o purismo perdeu, por este só facto, o seu assento, a sua base. Nenhum escriplor, que seja verdadeiramente um escriptor vivo, será mais em hngua nenhuma purista, no sentido clássico desta palavra.

O material com que elle trabalha pertence por tal fôrma a vários povos e línguas, ás vezes as mais diversas, que já a própria não tem sobre elle o império do seu vocabulário o da sua syntaxe. E' o que explica a evolução tão rápida da syntaxe nas nossas línguas modernas, o como no ultimo século os lexicons clássicos de cada uma dellas tiveram de soffrer a invasão triumphante de legiões de palavras exóticas. Os que faziam da ignorância das línguas estrangeiras, excepto do latim ou do grego, uma condição de pei-feição na própria, do seu ponto de visía de purismo estreito não deixavam de ter razão. Um velho provérbio inglez ainda apóda de patife o que fala mais que a sua língua. De alguma fôrma a pureza nacional do pensamento depende da pureza ethnica da língua; c vice-versa, um pensamento estrangeiro forçando uma fôrma de expressão estrangeira.

Seria, porém, mal entender estes factos autorisarmo-nos delles para não zelarmos pela pureza relativa da lingua, mantendo-lhc entre as outras os seus foros, as suas características, as suas distincções, as suas excellencias, o que lhe constituo a personalidade. E' por salval-a justamente que a lingua literária, em todas as linguas, se atina, se apura, se cultiva. O desleixo que notei a propósito das denominações geographicas e da reproducção dos nomes próprios na nossa lingua contemporânea, mostra quão pouco se nos dá da integridade da nossa lingua, no que ella tem de menos opiniativo. A sua syntaxe — e já não falo da sua grammatica, onde hoje é cada cabeça, cada sentença — tem innumeros pontos que mereciam estudo que os resolvesse. Mas só Jo que eu chamarei o seu aspecto material, a sua maneira de graphar, a suagraphia, me parece digno de altenção aspecial e urgente. Eu confesso que não falo aqui para os esthetas.

Também não tenho por essa espécie de gente nenhuma estima especial, Que elles vejam ou não vejam numa palavi^aum symbolo,um signal distinctivo, uma combinação de linhas que concorrem para lhes A QUESTÃO ORTIIOGRAPIIICA 203 revelar melhor a idéa, é-me iiidifferenle, porque c pueril. Trata-se de ensinar facilmenle toda a genle a ler c escrever — o que vale infinitamente mais que as picuinhas esthelicas. Trata-se mais de se fazer que uma lingua só se escreva de uma única maneira. Quem quizer deliciar-se nos caprichos da orthographia, invente-se uma lingua para seu uso. Alitís, os que argumentam com o aspecto esthetico da escripta, não reparam no disparate que dizem. Com uma differença de trinta annos, de vinte annos, a graphia de muitas palavras varia; que íim levou a esthetica? Eu que leio, com sempre crescente prazer, Camões, numa reproducção da edição de 1572, acho lambem intenso prazer cm ler Garrett, ou Gonçalves Dias, cm edições da primeira metade do século.

E quando fosse ler Herculano teria outra impressão esthetico-orthographica muito differenle da que me dariam os livros de Eça de Queiroz, cheios de maiúsculas? E' uma invencionice de esthetas; não ha tal cousa. Póde-se realizar uma reforma orthographica, sem escandalizar mesmo os olhos mais beatamente estheticos. Aliás, como mostrámos, a esthetica não tem nada que fazer aqui. O facto, porém, é este: a hngua portugueza não tem orthographia, o que é um mal no ponto de vista da educação publica, e uma inferiori- dade para uma lingua de gente civilizada. Escreve-se idéa = idéia; poz:= pòs, irman = irmã; grão == grau, coisa = cousa e assim todos os vocábulos com o dithongo au em latim; loiro e louro, ouro e oiro, thesouro o íhesoiro, c mil outros. Alexandre Ilerculano (ü/ísíoría de Portugal) escreve: raSão, sair, lagrymas, cahir, lição paiz, falar, vizinho, farol, amizade, eschola, conformidade, epocha, thio, diante, trair, traição, igreja, idade, teor, etc. Escreve, contrahindo as proposições com os determinativos, delle, naquelle, desta, mas ncão escreve num.

Escreve sempre letra {letra apostólica, letras gregas c latinas), maslitteratura. Também Camillo escrevia letrado com um tclitteratura com" dous. Latino Coelho {Oração da Coroa) escreve: escola, falar,, deiante, cair, ali (Herculano: alli), ao diante, adiantado, circundava,época, pictoresco, esplendida, etc. Garett occupou-sc especialmente da orlhographia, no seu livro Da Educação. « E' lastima, diz elle, ter que dar satisfacções sobre orlhographia; a ninguém mais succedc isto sinão a nós, que tendo uma lingua formada ha séculos, ainda (copiamol-o tal qual) não podemos sahir da anarchia orlhographica em que vivemos. » E nella estamos, tendo o mesmo Garett ainda mais para cila A QUESTÃO ORTIIOGRAPIIICA •205 contribuído com o syslema que adoptou. Reformas e modificações individuaes não podem ter nenhuma influencia útil para o fim de chegarmos á unidade orthographica que é sobretudo o que devemos procurar. Os três reformadores da literatura portugueza no renascimento romântico, Herculano,Garrett e Castilho, tinham cada um a sua orthographia.

Os Castilhos escreviam seo, meo, teo, deos ou Deos, o-jarão, é-o, se-eduear, eclade, insina; aponctar, céo, impresas, practica, scei (do verbo saber), n'um, manhã. No fim dos verbos põem, ao contrario de Herculano et Garrett, ão e, ao envés delles, escrevem amal-os, Ja:;el-os. A mais perfunctoria analyse destas differenlos graphias destes escriptores mostra-lhes a incoherencia, asem razão. Por que escreve Herculano cahir com A? porque escreve thio com h e pharol com/? Não vêm ambos do grego com o li um e o correspondente do ph outro? Por que respeita a etymologia em esc/tola e já a não respeita em igreja'! Já Latino escreve cair, fallar, ali, época c muitas outras palavras differentcmente de Herculano. Certo não escreve piclor, mas escreve pictoresco, por amor do archaismo. Garrclt escrevia hynverno, ricco, fuminar, injóo, sette, commigo, ceita, diante, atélLi, apesar e mil outras cousas mais. Os diccionarios da lingua para serem bons deviam Irazor cada palavra nas suas fôrmas diversas: si/stema, sistema, systhema.

As grammaticas nos ensinavam desde meninos que o nosso systema orlhographico era o mixto. A etymologia fornecia-llic a base essencial, e depois os melhores elenicnlos o uso, e a phonelica. Nadu mais simples e claro; o resultado é o que ahi se vô. Os próprios grammaticos, e dos mais sabidos, não se entendem. Uns mandam dizer falar, outros fallar, divergindo como os escriptores. A mais recente Grammatiea Portuguesa, do Sr. Dr. Ribeiro de Vasconcelloz, lento da Universidade de Coimbra e adoptada no ensino secundário ofiicial, traz uma verdadeira reforma orthographica. De parte a accentuaçáo, em que é pródiga, manda | escrever simples, português, francês, inglês, noutra, e assim com conlracção todas as conjuncções de uma preposição com um determinativo, inclusive num, o que até aqui alguns 1 grammaticosrefugavam, gerais, fundamentais, sam, pior, ombro, dithongo (os outros todos escrevem diphthongo), açúcar, ontem, ai (ahi). Mas o que a orthographia do Sr. Dr. Ribeiro 1 de Vasconcelloz, adoptada já hoje nap aulas portuguezas, e a de outros reformadores de além-mar, como o Sr.

Cândido Figueiredo, tem de realmente novo, e não sei si não também de piltoresco, é a accentuaçáo! Quasi a gente não A QUESTÃO ORTIIOGKAPIUCA 207 conhece mais a sua pobre lingua portugueza; rara será a palavra sem accento, leiam: dissemos, ás (o accento grave, que de íacto não existe em portuguez, entra a ter um papel), babylónica,histórica, sciéncia,período, reunir, (inlroduz-se o banido trema), ordinário, ainda, impróprio, caracter, inútil, secundário, àquelles, além, colônia, somente, sábio, matéria, simultaneamente, amanhã, Emfim, manda accentuar sempre todas as exdruxulas, quasi sempre as agudas, e ainda em muitos casos as graves. De sorte que ao cabo, quasi não ha palavra que não seja accentuada, segundo a nova orthographia. O Sr. Cândido de Figueiredo é advogado também de uma reforma orthographica mais ou menos nos mesmos termos, com accentos em barda. O seu Novo Diccionário da Lingua Portuguesa (aliás é antes um vocabulário, de escasso mérito, que um diccionário) é escripto nella e traz a justificação delia.

As modificações orthograpliicas doutrinadas pelos dous eruditos portuguezes, sem embargo de estreitamente apegados á etymologia, mostram que mesmo com esta base a nossa orthographia seria mais simples e mais fácil do que actualmente é. Essa base, porém, no estado a que chegámos, ainda é reslricta de mais e aliás os mesmos que a proclamam como única boa, divergem no ap- plical-a. o Sr. Cândido de Figueiredo manda escrever inãi, pai, falar, além daquellas palavras que não ha mais.etymologista que restaure na sua fôrma lídima: aghora, charta,prancto, mactar, chorda, e outras. Taes eruditos não querem ver que em orlhographia a etymologia é uma convenção como outra qualquer, que não tem nenhum caracter dogmático, ou scicnfitleo ou racional. A Hespanha e a Itaha puderam banil-a, sem que o castelhano ou o italiano perdessem o que quer que fosse da sua derivação latina. A razão — e deu-a Júlio Piibeiro! — de com ella melhor percebermos a evolução histórica do vocábulo, é indigna de altenção.

Quem a não souber independemente da forma do vocábulo, no periodo a que chegaram as nossas línguas, não a aprenderá dessa fôrma. Homem em italiano escreve-se sem A, uomo, o que não impede que o italiano semicullo.saiba que deriva do homo latino, nôs o escrevemos com h, homem; ensina acaso isso aos nossos illetrados a sua origem clássica? A puerilidade da razão não lhe dava direito mesmo a esta observação. Para que a etymologia fosse tomada, segundo parece quererem os reformadores portuguezes, como o critério uuico, era preciso que, não sô para o latim, mas para outra qualquer lingua, ella fosse a regra absoluta. E não é assim, o dada a copia A QUESTÃO ORTIIOaRAPIIICA 209 de palavras de Ioda a origem que entram na nossa lingua, cumpre-nos resolver sobre como adoplal-as, adaplal-as e graphal-as. O mesmo Sr. Cândido de Figueiredo dá no supplemento do seu vocabulário budismo e diz: « Melhor orthograpliia que budliismo (note-se que acima elle mandara escrever como melhor budhismó) e até do que buddhismo. O grupo dli, em palavras simples, n

» E as geminadas jo/j e tt o outras, e os grupos th e 7'h e outros, são da indole da lingua portugueza? Eu acreditava, e continuo a acreditar, que grupos, letras, signaes nada têm com a indole das linguas. Si nós não nos servimos do Wanglo-saxonio,é porque o transformámos no nosso Vnas palavras que o povo adoplou. Desde o Rio de Janeiro ao Pará dizse vagou ou üagão, e já se escreve assim, e não wagon ou wagão, que era como otymologicamenlc se deveria escrever. Si a etymologia deve valer sempre para o latim, deve valer também para o sanscrito, para o grego, para o inglez, o allemão, ou outra qualquer lingua. Já vimos como os próprios etymologistas não estão de accordo comsigo mesmos, e com os outros mestres da mesma escola. Tudo é contra elles, a evolução da lingua, a independência com que cada vez mais se separa do latim, as altas necessidades da disseminação de uma ins- trucção fácil e popular.

A tendência evidente da orthograpliia portugueza, de parte estas reacções eruditas, é para a simplificação: acabar com o duplo som do s; reduzir os do j;; findar com a inutilidade das letras dobradas; supprimir as que já não soam: tratar, tratado; desprezar as de todo inúteis: tísica, sem o ph Q o rj\ época, éco, escola; seguir a pronuncia geral, sem embargo du etymologia, inãi, pai, igreja, igual, irmão, irman; acompanhar a etymologia, quando ella favorece a simplificação, a/Hí^racZe, cz^mAo, saí/', cair, ai, letra, literatura, trair, razão; abolir o ^; reduzir ás fôrmas duplas idéa — idéia, coisa — cousa a uma só. Não falo em orlhographia phonelica, não porque tenha medo da cerebrina razão de T^atino Coelho, que não respeitou sufíicientemente a Academia das Sciencias para cohibir-se de manifestal-a. EUe não podia igno • rar que, quando se fala de orihographia phonelica ou sônica, enlende-se a orlhographia que manda escrever como se deve pronunciar e não como se pronuncia. A recta escripta presuppõe a recta pronuncia. Aliás póde-se dizer voi e baca e escrever boi e vaca.

Na minha terra ha homens de boa cultura que dizem claramente canua, curua, dus e escrevem correctamento canoa, coroa, dous. A orlhographia é naturalmente phonelica, pois não é sinão a trans- A QUESTÃO ORTIIOGRAPIIICA ÍU cripção dos sons. Os primeiros orthographos foram phonetistas. Num povo só, é possivel conseguir uma média de pronunciação; não o ó, porém, em dous povos como o porluguez e o brazileiro. Basta ver as notações prosodicas de que elles se servem para se no lar a differença. Ainda assim, brazileiros e portuguezes escreverão da mesma maneira a grande maioria das palavras da sua lingua, desde que não queiram levar a todo o rigor as notações dos sons e suas gradações. Creio que ninguém o contestará. Parece ouvi dizer que a Academia das Sciencias de Lisboa trabalha numa reforma da orthographia portugueza. Ha tempos sei que o Sr. Assis Brazil propoz áquella illustre corporação que ella se entendesse para este fim com a Academia Brazileira. Ignoro que andamento teve a sua proposta.

Esse seria o único meio pratico de chegar a um resultado, que nada impedia fosse mais tarde favorecido pela acção ofíiciosa dos dous governos. Não faltam na Academia Brazileira, além de escriptores sabedores de sua lingua e amorosos delia, eruditos capazes de versarem o assumplo com competência, Carlos de Laet, Silva Ramos, Ruy Barbosa, João Ribeiro e outros. A collaboração do Brazil numa obra destas me parece indispensável, e quero crer que sem ella a tentativa porluyuGza ficaria perdida. Não duvido dizer que não aceilariamos rcacções excessivas (como escrever çapato e açúcar, português, francês e simples, por amor da elymologia) ou carregar todas as palavras de accentos. que na maioria dos casos não corresponderiam á nossa prosódia. Mas, creio eu, nada impedia que se viesse a chegar a um resultado pratico que acabasse coma anarchiaorthographica, de que, ha mais de cincoenta annos, já se lastimava Garretl.

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