Um nababo dos tempos coloniais: sobre "Felisberto Caldeira"
VI UM NABABO DOS TEMPOS COLONIAES. Felisherto Caldeira, Chronica dos tempos coloniaes por RoDuiGo OcTAvio. Rio de Janeiro, Laemmert e C, 1900. A execranda fome do ouro, comd ao appetite desmarcado das riquezas chamou o poeta, fome que aliás é apenas a manifestação brutal da eterna e legitima e justa aspiração humana para o melhor, para a felicidade, para a alegria e o prazer de viver, foi, talvez mais que nenhum outro sentimento, o mais poderoso incentivo do progresso na ordem material. Nem a historia da humanidade se pódc explicar, creio eu, sinão pelas suas causas econômicas, sinão como o esforço do homem porá conquistar a terra, a habitação, o alimento, a mulher, o vestuário, as felicidades da existência, os gozos da vida, a auloridade, o poder, quo ludo, mal saido ello da animalidade primitiva, em que só a força dominava, se obtinha com dinheiro ou pelo dinheiro, qualquer que fosse a sua fôrma ou valor. O ouro, pois que esle mineral devia symbolizar Iodas as feições e matérias da riqueza, foi cedo, desde que o descobriram e trabalharam, o principal fito da energia humana.
Uma das mais antigas historias, envolvida ainda nas nevoas da lenda, que de si conta a humanidado, é a dos Argonautas, que lá se vão á Phrygia, á busca do vellocino de ouro. A historia da conquista e civilização da America é a mais frisante confirmação, nos tempos m.odernos, desse grande faclo que faz da procura do bcm-eslar e dos meios que, ao parecer geral do homem, somente o podem dar, a suprema occupação humana. Já Camões presentira genialmente quo aquelles mesmos reis, quo foram dilatando a Fé e o Império e andaram devastando as terras viciosas da África e da Ásia, não buscavam afinal, por seus enviados, como Vasco da Gama, sinão estabelecer commercio com os povos exóticos da Índia rica, porque lhes cresçam as rendas e abastanças (Por quem a gente mais trabalha e súa) E Lope de Voga, sem illudir-se, apezar de UM NABABO DOS TEMPOS COLONIAES 103 religioso, sobre o espirito que animava os conquistadores seus compatriotas, delles dizia que So color de religion Van á buscar plata ij oro Del ineubierto tesoro.
O mesmo movei, o mesmo estimulo determina, primeiro o descobrimento do Brazil, depois a penetração e conquista do seu interior. Desde Vaz de Caminha, a preoccupação do ouro e da prata, da mina emíim e de suas riquezas, significativa da ambição de fortuna, do bemestar, de bom viver, anda em todas as cabeças e se publica em todos os chronistas, mesmo nos que pelo seu ministério religioso, e pela sua fervorosa piedade, pareceria deverem íicar estranhos a ella, como os Anchietas, os Nobregas, os Vieiras. No Grão-Pará, onde jamais se encontraria ouro ou outro mineral precioso, é a mesma preoccupação que faz devassar os sertões^ cujo accesso aliás os rios tornam fácil. O padre Ghrislovão da Cunha, relator da famosa viagem de Pedro Teixeira, como os outros noticiadores, todos religiosos, dessa expedição memorável, a têm cm grau subido e a cada passo a manifestam.
Na sua legitima e inextinguivel sede de melhorar, de gozar, de ser feliz, a pobre humanidade, tendo feito do ouro o fac- Í04 ESTUDOS DE LITERATURA tor necessário do bem-viver, procura afanosa e incessantemente alcançal-o, e ao cabo é esta sua luta continua por libertar-se, mediante elle, das durezas da vida que faz a trama da sua historia. Si a exploração do Brazil interior começa a realizar-se desde os princípios do século XVII, é a sede do ouro, são as vagas c incertas noticias delle, havidas logo em melados do século do descobrimento, e também das esmeraldas e da prata, que incitam os exploradores.
Mas é já ao cabo daquelle século c começos do XVIII que as minas são descoberlàs e conhecidas, e essa exploração por assim dizer se systemaliza, se desenvolve, se multiplica nas numerosas bandeiras que vão, sertão a dentro, até o coração do paiz, das beiradas do Atlântico ás regiões que receberam os nomes de minas dos Gei-aes, deGoyaz e de Malto-Grosso,chegandoalgumas até ás leiTas do rio das Amazonas, de onde partiam outras, no mesmo afan, rumo do sul e do oeste, como a de Mello Palheta, em 1722-23. De muitos dos chefes dessas expedições, os pionniers brazilciros, guardou a historia o nome: Bartliolomeu Bueno, pai, o famoso Anhanguera, Paschoal Paes de Araújo, Antônio Pires de Campos, que ainda no ultimo terço do século XVII devassaram os sertões desde S. Paulo até ás cabeceiras do Tocantins, UM NABABO DOS TEMPOS COLÔNIA ES 105 e Fernão Dias Paes e seus descendentes, e Bartholomeu Bueno íillio, e Pires Linhares, e Castanho Taqncs, e Rodrigues Fróes e outros e outros.
Ha cerlamente um estudo curioso, um livro de grande interesse a fazer da historia das bandeiras e bandeirantes, que seria a do descobrimento, do povoamento e da mesma civilização do nosso interior. Desse livro acaba de escrever um capitulo interessante o Sr. Rodrigo Oclavio no seu volume Felisberto Caldeira. FeHsberto Caldeira Brant começou por ser um chefe de bandeira. Fidalgo de raça, como décimo neto de João III, Duque de Brabante e neto de D. Marianna de Souza Coutinho, de boa nobreza portugueza, com a qual casou seu avô João de Braut, Cônsul do Luxemburgo em Lisboa, na segunda metade do século XVII, Felisberto Caldeira nasceu já no Brazil, para onde, em 1700, se mudara seu pai, Ambrosio Caldeira, nos lugares onde é hoje S. João d'ElRey, nos primeiros annos daquelle século. Sua mãi pertencia á nobreza colonial, oriunda da portugueza, e a mulher com quem casou em 1730, D. Branca de Almeida Lara, era também da melhor íidalguia paulista.
Este nome de Caldeira— que elles, creio, escreviam com y, Caldeyra — tomou-o seu pai de sua avó Cornelia, cujo appellido Kettler em flamengo se lOG traduz por caldeira. Não são inúteis eslas referencias á alta cslirpe de muitas famílias brazileiras, quando, a despeito do que nos ensinam as nobiliarchias locaes, como as de Taques c Jaboalão, c das noticias da nossa historia, se continua a afílrmar que Portugal só povoou o Brazil de degradados e da ralé da sua população. Espirito, ao que parece, cheio de audácia e ambição, aventuroso mesmo, bravo, ardente, tanto por propensão de raça, desenvolvida pelos incitamentos do meio, como por herança c educação paterna, que seu pai fora já assignalado cabo de guerra na dos paulistas contra os emboabas, Felisbcrto Caldeira mal se fez homem entrou na vida aventureira de sertanista, fazendo entradas pelo sertão da capilania á procura de ouro e, naturalmente, á frente de tropas negociando nos gêneros do trato sertanejo. Ao mesmo tempo tinha aventuras de capa e espada só ou com seus irmãos, contra particulares e autoridades.
Ha noticia de uma destas em que por haver disparado um tiro no Ouvidor do Rio das Mortes, abriu-se contra elle e seu irmão Joaquim devassa, e uma ordem regia mandou que, si fossem achados culpados em pena de morte, se executasse logo a sentença, pondo-lhes a cabeça no logar do delicto. Póde-se imaginar o que seria a este respeito UM NABABO DOS TEMPOS COLONIAES essa sociedade, e a vida e actos de homens atrevidos e valentes como os Caldeiras, ao demais fidalgos bem aparentados e, portanto, protegidos até a quasi impunidade, quando se conheceu de noticia ou de próprio a do nosso interior ainda não haverá trinta annos. O processo dos Caldeiras, si chegou a fazer-se, deu em nada, como ainda hoje dão em nada os nossos precessos contra os mandões de aldeia. Isto foi por 1731 e em 35 lá partia-se elle com a mulher c irmãos, para as minas de Goyaz, cuja fama de riqueza excitava a ambição de todos os de seu animo. Parece que alii começou a sua, ao depois colossal, fortuna.
Como os aventureiros da sua laia, entre os quaes e o üsco se estabelecia naturalmente um conlliclo de interesses e uma luta, ás vezes verdadeiramente dramática, de fraudes de um lado e de exacções de outro, Felisberto Caldeira, intelligenle e audacioso, tudo fez para lezar a apertada e rigorosa fiscalização dos cobradores reaes do quinto do ouro. Perseguidos pela autoridade, abandonaram as suas lavras e minas. Uma tradição romanesca fal-o possuidor de um roteiro de minas desconhecidas, que lhe dera um velho padre jesuita. Um padre jesuita a presentear com um roteiro de minas de ouro um joven fidalgo aventureiro, desculpando-se comsigo mesmo que a Companhia era assás BSTUDOS DR LITUUATURA rica para disso llic advir prejuízo, pôde ser verdadeiro, mas não é verosimil. De roteiro ou não, parliu Caldeira, com seus três irmãos, Joaquim, Sebastião e Conrado, a mulher e numeroso séquito de negros, Índios, e aventureiros, em grande bandeira, de Vilia Boa sertão fora, era busca de novas minas que explorasse, sem o vexame dos oxactoros do fisco.
Achouas abundantes, mas teve de partil-as com outro bandeirante vindo da Bahia, Rodrigues Fróes, que ali se achava, por possuir o original do roteiro, do qual o do jesuita era cópia. Coincidência ou acaso reuniu acolá as duas bandeiras, que estiveram a ponto de irem ás mãos, antes de catarem o ouro dos ribeiros que ali corriam. A situação é salva por um alvilre romanesco de Felisbertü, que se vai ao chefe rival e propõe que em vez de brigarem pela posse exclusiva daquelle descoberto, o dividam em boa paz entre si e que para firmar este pacto se unam por umaalliança de familia. Fróes tem comsigo uma irmã moça e bella, elle Felisberto dous irmãos solteiros, qualquer delles dignos de a ter por esposa; que se case um delles com ella. E' aceita a convenção e dado um prazo para que a moça decida entre os dous Caldeiras. Entretanto, emquanto esperam a decisão, encetam os trabalhos da mineração, e colhem clandestinamente o ouro que naquellas paragens UM NABABO DOS TEMPOS COLONIAES 109 encontraram.
Perante os leis do tempo, aquillo constituía simplesmente um roubo á fazenda real, que hoje diríamos publica. O lugar dessa exploração é o da região do Paracalú, que [)arece se chamou primeiramente Pyracatü. Foi dali que Felisberlo Caldeira, já riquíssimo, veiu para o Tejuco, trabalhar nas famosas minas de diamantes que desde alguns annos estavam ali cm plena exploração, feita por um arrematante ou contratador com a fazenda real, sob a ciosa e avara fiscalização de um funccionario especialmente incumbido de vigiar a execução do contrato, o Intendente das minas. Em 1868 publicou o Dr. Joaquim FcHcio dos Santos, com o titulo áo Memórias do Districto Diamantino, um livro que é uma das mais interessantes monographias da nossa literatura liistorica. Ahi faz elle a historia do Tejuco, depois villa do Príncipe e hoje comarca do Serro Frio, e conta-nos, com as chronicas e tradições do lugar, os fastos de Felisberto Caldeira. O livro do Sr.
Rodrigo Octavio traz novas noticias e elementos a essa narrativa que a cada passo relembra, mas sendo mais particular não dispensa aquelle, que na sua singeleza tem verdadeiramente grande mérito. Felisberto Caldeira arremata o contracto dos diamantes e mediante elle chega ao auge da sua fortuna, que seria o motivo da sua des- 110 ESTUDOS IJE LITERATURA graça. Accusado de fraude á fazenda, é preso, sequestram-lhe os Lens, por fim, declarado fallido, é encerrado no Limoeiro, em Lisboa, de onde, depois de esquecido por annos, sem se lhe tomarem conlas, é libertado pelo terremolo que derroca os muros do cárcere que o prendia. Também pouco depois morreu obscuro e miserável. Tal é, reduzida ás suas linhas principaes, a historia dramática e por vezes commovente que nos conia o Sr. Rodrigo Octavio, em um livro que, estou certo. Iodos gostarão de ler. Misturando a lenda, a tradição com a historia, chamou-lhe o autor « chronica dos tempos coloniaes », querendo talvez lisamente prevenir ao leitor de que não era precisamente historia que escrevia.
Não sei si eu não preferiria que o seu livro fosse de pura historia; mas como elle teve o cuidado honesto de nos indicar as.suas fontes de informação, discriminando as propriamente históricas das tradicionaes ou lendárias, não vem daquella mistura prejuízo; antes dá ella ao livro um geito e gosto de romance, que o fará mais bem aceito do commum dos leitores. O Sr. Piodrigo Octavio tratou Felisberto Cal deira como um heróe de romance: deu-lhe todas as seducções e prendas próprias a carearnos as sympathias. Reconheço que assim fazendo ficou dentro da tradição e da lenda que UM NADABO DOS TEMPOS COLONIAES 111 se creou em Minas em torno da íigm^a do celebre contractador dos diamantes. Mas não sei si não esqueceu os direitos da critica histórica. Natureza exuberante, enlhusiastica e fácil á admiração — e é um elogio que lhe faço — o Sr. Rodrigo Octavio, parece-me, aceitou sem nenhuma reserva a historia romanesca de Felisberio Caldeira, segundo a imaginação popular a concebeu, e que antes reproduziram os Srs. Felicio dos Santos, Affonso Arinos e Moreira de Azevedo.
Fazendo um simples conto, o Sr. Affonso Arinos é o único justificado de haver aceitado a lenda sem restricções. Os outros não o são, c não o é também o Sr. Rodrigo Octavio, tanto mais que foi talvez além da tradição no juizo que faz de Felisberto Caldeira. Chega a chamar-lhe t veneravel », quando elle não teria ainda mais de quarenta e cinco annos e andava em explorações clandestinas, criminosas em face da lei, á testa de bandeiras. Um bandeirante veneravel é cousa que me parece impossível: aquclla funcçào exclue formalmente este attributo.Trescircumstancias contribuíram para dar á figura de Felisberto ó relevo que ella adquiriu na imaginação popular e de onde passou á historia: a sua rebeldia contra o fisco real, profundamente odiado pelas populações mineiras, a sua grandiosa liberalidade, que devia impressionar grandemente as imaginações e, finalmente, a sua desventura o fim Iragico.
Rebelde ao poder aborrecido, bravo, fidalgo de maneiras, pródigo, dadivoso, obsequiador, liberal, expansivo, generoso, festivo, glorioso e por fim desgraçado, nelle se reuniram todas as condições para o amor e a admiração ingênua do povo. Não llie descobrimos, e nos parece errado inculcar-llie, outras virludes. Aquellas aliás sobejam á sua caracterização e á explicação do seu renome. Honrado, honesto, não era; não o podia ser. Nenhuma fortuna colossal, como a delle, já se fez honestamente, mesmo na exploração de minas. Nenhum trabalho humano, por indefeso e productivo que seja, permitle fazelas com honestidade. Era pensando nesses ricos extraordinários que um papa, cilado por Castelar no seu famoso discurso sobre a internacional, dizia que « todo o rico é ladrão ou filho de ladrão ». As immensas fortunas individuaes não são realizáveis sinão com violação da moral e do código, e certamente Caldeira, como os actuaes billionarios americanos, violou uma e outro.
Quando o seu contracto lhe consentia apenas trabalhar com seiscentas praças, ellc empregava na lavra das minas quatro mil escravos. Tivesse ou não razão o fisco, o creio que no fundo a teria, Felisberto Caldeira não foi somente perseguido por o ter lesado; e eu propendo a crer que foi parle na sua persegui- UM NABABO DOS TEMPOS COLONIAES 113 i;ão a mesma fama das suas riquezas c da sua vida opulenta o sumpluosa, mal vista pelo governo suspeitoso de Pombal, cuja cubiça farejava as presas ricas com cujos despojos se enriquecesse o erário e se locupletasse cllc próprio. Gamillo Gastello Branco foi o primeiro que attribuiu ao gênio femenlido, desconfiado e violento de Pombal as grandes desventuras de Felisberto Caldeira. Fora excellente que o Sr. Piodrigo Oclavio houvesse considerado com mais demora c estudo essa hypothese, que me parece verosimil.
Que Caldeira não pensasse de modo algum em aproveitar a sua fortuna e o seu prestigio para libertar a Capitania de Minas do dominio portuguez, é quasi certo; mas é lambem muito crivei que essa immensa fortuna, esse grande prestigio e popularidade do esplendido contractador, ensombrassem o suspicaz ministro. Não destoaria isso do que se sabe da sua psychologia e dos seus actos. Nem lalvez possa ter outra razoável explicação o procedimento violento e illegal tido pelo Governo portuguez com o contractador, injustamente declarado fallido, quando os seus bens e depósitos davam sobejamente para o pagamento dos seus compromissos, e sem siquer lhe apurarem as contas, que jamais se apuraram. E não fora o tci-remoto, Caldeira não teria talvez voltado a ver a luz do dia, sinão coada por ferros. Houve em tudo isto um requinte de violência e maldade que, parece, a simples lesão do fisco, mesmo aggravada do ódio pessoal de magistrados porLuguezes no Brazil, não explica bastantemente. Só si se prefere reconhecer que para explical-o bastava a época — o reinado de Pombal.
Não quero concluir sem dizer que o interessante livro do Sr. Rodrigo Oclavio, além da vida e feitos do nababo brazileiro, tem outras feições curiosas, como a existência nas lavras, os processos da extracção, o trabalho das minerações e lavagens e outros aspectos de uma vida que foi certamente das mais intensas e curiosas, e cruéis e rudes também, que se já viveram no nosso paiz.