Alguns livros de 1900
XIII ALGUNS LIVROS DE 1900 Vai de Lr/rios, por B. Lopes (Laemmert e G'^). — Destinos, por Adeliiui Lopes Vieira (Laemmert o C"). — Mãi tapuia, por Medeiros e Albuquerque (H. Garnier). — Pindorarna, por Xavier Marques (Bahia). — Rimario, por Valentim Magalhães (Paris, Aillaud). — Bailadas e Phantasias, por Magalhães de Azeredo (Laemmert e C'^). — Jorge do Barrai por Emmanuel Guimarães (Rio de Janeiro). — O descobrimento do Brasil pelos portugueses por Capistrano de Abreu (Laenmiert e G"'). — Sobre a colônia do Sacramento pelo mesmo (Laemmert eC'"). — Líüro do Centenário (Imprensa nacional), — Via Crucis, por Felix Pacheco (Rio). — Cantos do E(juador, por Mello Moraes Filho (H. Garnier). — Mar- tins Penna, por Sylvio Roniéro (Porto, Lello e Irmão. — Ensaios de sociologia e literatura pelo mesmo (H. Garnier). — O Holocausto, por Xavier Marques (H. Garnier). O novo livro do Sr. B. Lopes não me fez, mau grado meu, mudar de opinião a respeito deste poeta (1).
Conheço hoje toda a sua obra, que não é pequena; li-a com altenção e sympalliia; procurei descobrir nollu qualidades, virtudes, feições que lhe dessem valor, que lhe não acho, sem encontral-as. Não é que propriamente essa obra seja, em a nossa poesia contemporânea, ordinária e connnum. Ha alguma cousa que a distingue, que a afasta das outras, mas essa cousa não é o talento, sinão a maneira, que pôde ser consubstanciai ao autor, que pôde ser sincera, que quero crer seja sincera, mas que dá ao leitor, a mim ao menos, com outras sensações, a de uma altitude, a de uma postura affeclada. E com esta, a de nenhuma riqueza real de sentimento poético, uma carência absoluta de pensamento, uma não vulgar pobreza de recursos métricos, tudo disfarçado, não sem alguma habilidade, em uma simplicidade que pretende ser ingênua, mas que se sente rebus(1) V. 1» série dos Estudos de literatura brasileira, a noticia dos Brasões desto poeta em Alguns livros de 1895-98. ALaUNS LIVROS DE 1900 249 cada, incoherentemente misturada com um fingido ideal da vida pomposa.
Porque lia syslematicamcnte, creio poder dizer, estas duas feições no Sr. B. Lopes: uma em que elle affecla a simplicidade, a ingenuidade, a candura de sentimenlos, de emoções e de expressão, do um poeta natural, espontâneo, simples de espirito, de coraçíio e de forma; outra em que nos apparece como o poeta de rebuscadas sensações de alto gozo, de predilecções fidalgas, do gosto da alta vida, c não canta sinão de duquezas, de palácios, de castellos, de carruagens, de faustos e grandezas. Não é faci' conciliar a sinceridade destas duas feições que.se repellem; também não trato de concilial-as, noto o facto. Vai de Lyvios pertence á primeira feição, simples e cândida, do estro do Sr. B. Lopes. Tom a simplicidade da poesia popular, mas sem se llie encontrar uma só vez um desses achados, verdadeiros mimos de bolleza e graça, que o povo põe não raro nos seus versos. Confesso, aliiís, que prefiro o Sr. B. Lopes sob essa feição, que vai melhor ao seu gênio sem profundeza, á sua inspiração nativa, de curto fôlego.
Para a outra falta-lhe tudo, a começar pelo conhecimento da vida e das cousas que canta, o o seu poder de ideaçãonão é bastante para supprir essa deficiência. O seu mérito, e não lh'o nego, apenas procuro definil- iõO ESTUDOS DE LITERATURA 0 como me parece justo, esl;í na sua maneira simples do descriptivo sem vigor, mas delicado e verdadeiro dos Chromos, e do sensitivo, si posso dizer assim de Sinhâ Flor e de Vai de Lyrios, deste c do que com o mesmo titulo vinha nos Bvazões. Esse mérito, porém, é restringido, quanto á inspiração geral, pela extrema pobreza dos seus lliemas poéticos, do pensamento e do mesmo sentimento; quanto á fôrma, pela affectação evidente de simplicidade, que redunda em uma maneira fixa, monótona, rebuscada e preciosa. E com tudo isto pobre, como de um artista que não conhece a 1 Íngua e os seus recursos de vocabulário e construcção. Tomemos para demonstração este volume novo de Vai de Lyrios. Abre com uma poesia Mater que é, aceita a maneira do autor, verdadeiramente linda, sinão bella, a melhor seguramente do livro.
Ha nella real emoção, e a fôrma traduz bem a naturalidade do sentimento. Mas essa fôrma vai repetir-se, com a monotonia de uma goteira a pingar, pelos vinte e tantos poemas da collecção, e quasi que sô em um único metro. A expressão do pensamento, e tomo pensamento aqui somente no seu sentido grammatical, se faz sempre sob a fôrma de enumeração, com o accumulo de frases descriptivas, que, longe de reforçarem, enfraquecem o effeito esthetico, ALGUNS LIVROS DE 1900 251 tanto mais que, mui raro, si alguma vez succede, alguma verdadeira idéa ou conceito poético remata essa fastidiosa enumeração: Pallido e fino rosto moreno, Rosa crestada posta ao sereno, Magoado aroma deixando no ar; Enlanguescido no vão de um peito, Jasmim lanado, nascido e feito Do um lieijo frio dado ao luar. Mas, cm summa, uma cadência rara, uma verdadeira musica, melodiosa e dolente, de versos que parecem feitos para serem chorados á viola, em noites de luar, por um trovador amoroso e sentimental, é a sensação que deixa nos meus ouvidos, e não no meu espirito, a leitura dos versos do Sr. B. Lopes.
Não nego, ha nelles bollezas, frases de valor poético, virtudes de melodia e sonoridade pouco vulgares, aliás tudo de mistura com verdadeiros disparates de pensamento, expressões errôneas ou forçadas, impropriedades léxicas e verbaes, solecismos e outros senões; mas ao cabo, dando ao S. B. Lopes um lugar á parte entre os nossos poetas, não lhe dão aquellas qualidades, ao' meu ver, um lugar dislincto. Mas que elle é, no seu gênero especial e limitado, e com a sua maneira por assim dizer estereotypada — e que ESTUDOS DE LITEUATUUA já agora não mudará pois confessa ter 40 annos — um bom poeta (grande poela não se pôde ser em tal gênero) não contesto eu. Destinos, por D. Adelina Lopes Vieira e Mãi tapuia pelo Sr. Medeiros e Albuquerque são dous livros de contos. A propósito dos últimos publicados do mallogrado Guy de Maupassant, escreveu o erudito critico e elegante escriptor, Sr. Gastão Deschamps, umas engenhosas considerações mostrando a íiliação do conto nacional aos fabliaux francezes mcdievaes. Maupassant, aliás, offorecia-lhe um bello exemplo da sua theoria.
Como nenhum contador francoz, dos contemporâneos ao menos, clle possua a mesma veia libertina dos velhos poetas dos fabliaux, apenas augmentada do septicismo, da ironia, da malicia moderna. Ao contrario, segundo uma autoridade reconhecida, as historietas dos fabliaux são alegres, revelando nos seus autores, com a libertinagem do espirito, o amor da chocarrico e da jovialldade, o goslo, tão dos Franceses, de rir sem maldade dos defeitos o ridículos humanos, um optimismo malicioso e alegre. Foi essa origem que, mediante Brantòme, Rabelais, a Rainha de Navarra, o La Fontaine dos Contos, e toda a rica literatura faceta franceza, e Voltaire, e Diderot, e outros, cujo nome esqueço, fez o conto francez qual ehe é nas ALGUNS LIVROS DE 1900 253 suas características geraes, sobretudo o conto de Maupassant. No conto, a literatura portugueza e a nossa, ramo seu, procedem directamenlc da franceza.
Também os nossos antepassados tiveram contadores de historias em verso, e os velhos cancioneiros e romanceiros as conservam, resguardadas do conhecimento do commum pela sua língua archaica, quasi incomprehensivel ao vulgar, e por sua obscenidade, desagradável ao nosso gosto mais civilizado e aos nossos costumes, si não mais puros, mais decentes. Mas, quaesquer que fossem as causas, e não é aqui o lugar de dizel-as, é certo que dessas historias, ou estórias, como se então dizia, gestas, romances, poemas, que aliás, pelo fundo e intenção, se parecem pouco com o fabliau francez, se não originou uma fôrma moderna que se lhe possa, á primeira vista e sem algum esforço, filiar. Demais, o primitivo romanceiro portuguez está cheio da influencia franceza, e o que haveria nello de espontâneo e nativo, suffocou-o a reacção palaciana e humanista do século XV.
As novellas e contos do século seguinte, ou são sentimenlaes, pasloraes á moda italiana, como a Menina e Moça de Bernardim Piibeiro ou, pela maior parle, uma sobrevivência das gestas medievaes, historias heróicas e de cavallaria, de que vai sair, com Camões, a vasta epopéa portugueza. O futuro conto será, com a reacção clássica do século XVII, com os chamados culteranistas, moral, allcgorico, pastoril, sem nenhuma ligação com as historias primitivas, com o sentimento popular, sem nenhuma jovialidade. Nem isso nos depara o século XVIII, e a primeira metade do século XIX apenas apresenta de notável os contos históricos e austeros de Alexandre Herculano. Garett n,ão escreveu propriamente contos: íL Joanninha das Viagens na Minha Terra é uma novella, mais que um conto e menos que um romance.
O conto, em Portugal, como no Brazil, é de menos de cincoenta annos atrás, e nosso contemporâneo, e deriva directa e apertadamente do franccz, lendo, salvo excepções muito raras, o mesmo caracter, a mesma inspiração, as mesmas intenções e até o mesmo estylo daquelle, de (jue é, o nosso ao menos, um pasíiche. Somente não sustentarei que um pastiche não possa revelar talento, superioridade de feitura, e até imaginação e originalidade. Mesmo na imitação ha graus de bom e mau. Os dous livros de contos, que acabo de ler, do Sr. Medeiros e Albuquerque e da Sra. D. Adelina Vieira, creio me justificam. Approximando-os, não é meu intuito comparal-os. Ha entre elles differenças grandes, mas, com ellas, o fundo commum do conto francez, segundo a ALGUNS LIVROS DE 1900 255 maneira dos seus contadores do naturalismo para cá, e da qual Maupassant foi o principal praticante. E essa é, e somente me refiro á concepção geral, abslrahindo da execução, a da maioria dos nossos autores de conlos, dos mais nomeados e mais fecundos na producção, como os Srs.
Aluizio e Arthur Azevedo, Coelho Netto, Valcntim Magalhães, Lúcio de Mendonça, Pedro Piabello e outros. Os contos do Sr. Machado de Assis têm outra inspiração e outro caracter; no século XVIII francez muitos delles mereceriam a denominação de philosophicos. Não se confundem com outros; têm unia concepção e uma execução muito pessoaes. Afora estes, que se não pôde dizer tenham feito escola c se propagado, não obstante algum imitador inhabil, lemos lambem o conto a que, á falia de outra qualificação, chamarei ethnographico, descrevendo intencionalmente a nossa vida nacional, principalmente nos seus aspectos sertanejos mais originacs. Taes sao os dos Srs. Magalhães de Azeredo, Inglez de Souza, Affonso Arinos, Valdomiro Süveira, e de muitos escriplores provincianos. Mas inconlestavelmentc o que domina em a nossa novellistica contemporânea é o conto á feição dos contadores francezes do Gil Blas c do Echo de Paris, nos tempos heróicos —si não fosse blasphemia chamar-lhes assim—dessas duas folhas parizienses. Os contos do Sr. Medeiros e Albuquerque e da Sra. D.
Adelina Vieira pertencem a essa feição. Mas os do Sr. Medeiros c Albuquerque têm as qualidades de um talento que, sem embargo da sua accessibilidade a todas as correntes de pensamento, da sua curiosidade, do seu amor da novidade, da sua fácil receptividade, conserva a sua originalidade, ou pelo menos têm a potência necessária para, amalgamando ou assimilando tudo o que recebe, dar-nos a impressão da originalidade. Si essa impressão não ó sempre bastante forte, si algumas vezes a producção descuidada e apressada revela, mais do que fora para desejar, a imitação, ou, talvez melhor, a inspiração franceza, como em Bis in idein e em outras que são verdadeiros pastiches, ha uma tal versatilidade e variedade no talento do Sr. Medeiros e Albuquerque, que afmal a sua obra resulta original, ao menos original e dislincta relativamente- a producção indígena. EUe é um nervoso, e não sei si um critico da escola de Nordau lhe não chamaria mais. O seu nervosismo de ])oela e de artista dá-lhe uma rara variedade ii ideação, correspondente á mobilidade geral da sua personalidade.
Assim, nesta sua collccção de contos, como em todos por elle escriptos, não ha nenhuma unidade ou similhança do invenção, de concepção, ou, siquer, de execução. Apenas a ALGUNS LIVROS DE 1900 257 maneira, o eslylo é o mesmo. Cada conto é uma novidade em relação aos outros, e como Urão se pôde dizer que o autor lenha uma pliilosophia da vida, ou siquer a revele nestas suas historias, ou ao menos um critério commum, um pensamento conformo, um mesmo ideal artislico e moral, falta á sua obra uma unidade qualquer. Si a variedade deleita, a unidade superior da obra d'arle, resullado de uma concepção da vida, é, penso eu, com a mesma historia da literatura e da arte, condição indispensável do seu valor e duração. E' aqui o lugar de repetir a minha queixa do Sr. Medeiros e Albuquerque: o desperdício de grão senhor que elle faz do seu real talento e das suas evidentes capacidades literárias.
Elle pertence, infelizmnnle, ao numero, hoje copioso, dos amadores e dilettantes literários, que talvez sem verdadeiro amor, sem paixão seguramente, têm pelas letras uma incHnação mais ou menos forte, uma queda mais ou menos grande; um gosto, não uma verdadeira e profunda affeição. E' desses espirilos curiosos, ávidos de sensações inlellectuacs de todo o gênero, românticos a seu modo, nervosos atormentados pela inquieta e complicada vida moderna, quasi puramente cerebraes, também hoje numerosos, incapazes de assentarem o seu pensamento e a sua vontade. Esses dão ou os desesperados ou os dilettantes, com todas as graduações e modalidades que eslas duas feições do espirito podem comportar. Politico, jornalista, pedagogista, poeta, critico, novellista, o Sr. Medeiros e Albuquerque é, parece-mo ao menos, um dilettante, um amador, no fundo um sccptico, mas um sceptico sem uma philosophia especial do sceplicismo.
Como virtuosa não se lhe dá de tocar este ou aquelle instrumento, executar este ou aquelle trecho,indifferente aos mestres, ás escolas, ao gosto alheio, com a intima e inconsciente certeza de que em nenhuma cousa é mediocre. Neste livro dá elle mais uma prova disso, e reúne sem cura o mau e o excellente, as emoções mais puras e mais delicadas {As calças do Raposo, A Escada) com oiiiras (Noivados trágicos, Bichani/iha), que positivamente pertencem a literatura malsan, segundo a aualiíicação de Gener. A nola bregeira de Bis in idem, Prophylaxia dairi/idelidade, Como se escreve a historia, ou simplesmente chocarreira de A^ota dissonante. Setenta e cinco, casa-se no mesmo livro com os rasgos commoventes do Presente de Vovô, das Calças do Raposo, da Escada e os tons trágicos do General e da Revolta.
Para esta variedade um pouco natural, um pouco rebuscada, concorre a preoccupação do autor do tomar ás chamadas sciencias psychopathicas a á physiologia noções e themas ALGUNS LIVROS DE 1900 2õ9 applicados, aliás com bastante tacto literário, como no Presente de Vovó, em Tic-Tac, no Homem que morreu e em mais contos. No seu trabalho facíl, espontâneo, e como quer que seja não muito cuidado de dilettanle que concebe sem esforço e gera sem dôr, falta ao Sr. Medeiros menos a vulgar correcção, que a abundância e variedade não só do vocabulário, mas da expressão, da frase, dos modos de dizer. Estes defeitos, porém, resgala-os a facilidade, a clareza, o correntio do seu eslylo, e mais a sua arte natural e espirituosa de contar. O livro de contos da Sr. D. Adelina Vieira é menos interessante. Grandes excellencias tem a lingua franceza; uma dellas, que agora me lembra, é não ter feminino para as palavras autor 6 escriptor.
Inapreciavel vantagem para o critico, perante quem esta simples falta de flexão iguala o escriptor o a escriptora,desobrigando-o das cortezias que podem prejudicar a sinceridade dos seus juizos ou pondo a salvo os seus reparos do reproche de menos galantes. Eis abi uma pobreza léxica que eu hoje invejo aos Francezes. Verdadeiramente, não tenho a dizer mal dos Destinos. São contos sem relevo, nem distincção especial, mas razoavelmente contados. Alguns ha em dialogo, que são bem bons. A narração é por vezes viva, alegre, picante. Exemplo, esta pagina, em que falia um maldizente: « — Dizia-me liontem o Veiga, bem sabe, aquelle Veiga do Club, que poz no prego os brilhantes da Celestina, que « a Bolsa nestes últimos tempos é a photographia da sociedade; cada qual procura enganar a cada um, com mais vantagem. ». « A fortuna é caprichosa como as mulheres e, comoellas, enganadora e mentirosa; os ricos de hoje são os troca-tintas de hontem. E venham para cá com os seus carros de luxo, as suas parelhas inglezas ou argentinas, que eu bem os conheço.
Desvio-me delles e vou, satisfeitíssimo, tomar o meu lugar honrado no bonde expresso da Tijuca. Pois si até se dão ao luxo de ter amantes de alto cothurno! Isto quando as ha tão baratas por ahi! « Sabe o meu amigo o caso da Honorina Trigueiros? Não? « Pois não pôde haver nada mais Jln desiècle. « O marido entra; o querido esconde-se atrás do cortinado; o Trigueiros tem calor, vem cangado, despe-se e deita-se, á fresca; Honorina sobre brazas, sem atinar como ha de fazer sair dali o amante. De repente: — « Estou com vontade de imitar-te, está tão quente a tarde! Faz vontade de dormir, n E ei-la que se deita ao lado do marido e com tal arte o cega com beijos, que o Oliveira sác do esconderijo e do ALGUNS LIVROS ni3 1900 261 quarto sem ser visto nem presenlido. Até me alfirmou que voltou lá para buscar a bengala, que esquecera a um canto, sem ([ue dessem por isso. » E mais adiante: « Quinta-feira passada fui com mais três rapazes jantar ás Paineiras, pois lia de crer? antes da sobremesa já eu sabia umas vinte chronicas escandalosas de pessoas do liigh-Ufe. Algumas até suas conhecidas.
« O Ramiro, por exemplo, vive nas melhores relações com duas cunhadas e uma sobrinha; e o caso é que todas se dão muito bem, e são madrinhas dos filhos umas das outras. E é muita alegria e muita festa ao pai de todos. « Do Conselheiro F. diz-se que tem sempre em casa umas carinhas novas e bonitinhas. Vai buscal-asa bordo, ás emigrações ou aos recolhimentos c pouco depois deixa-as ir e vai buscar outras. « E ellas não se-queixam, por([ue naturalmente elle paga-lhes bem o silencio. « A viuva do Senador V. F., aquella gorda, muita rosada, que conversou comniigo quando fomos ver o panorama, lembra-se? escolhe as fazendas nas casas de modas e exige que lhe sejam levadas á casa pelo caixeiro;iiais novo. Os pequenos voltam sempre de lá com as algi- beiras cheias de doces e o coração de saudades. Ora não lia? » Não é precisamente uma leitura para escolas o livro desta professora. Hatolioes fecundas. Uma dellas é esta invenção de Pindorama, de um espirito manifestamente enfermo e em declinio.
Que o selvagem brazileiro não denominava a terra em que vivia, e, o que é mais, não podia denominal-a com appellido algum, é o que a ninguém acudirá contestar. Que lhe chamasse Pindovaina, Terra das palmeiras, é um disparate. Mas, como tantos outros, e como é talvez próprio dos disparates em certas terras, frutilicou. Os frutos, aliás, — e, por amor da verdade, ainda bem — não serão sobreexcellentes á semente. São até agora um romance da Bahia e, creio, um poema ou drama de S. Paulo. O romance Pindorama, do Sr. Xavier Marques, obteve o prêmio do concurso aberto na Bahia pela respectiva commissão do Centenário « para um poema descriptivo do descobrimento do Brazil ou um esboço histórico sobre o mesmo assumpto », e foi por essa mesma commissão publicado. Não está bem na letra do programma; mas, que é o romance moderno sinão o poema antigo? De accôrdo com este conceito da critica, ALGUNS LIVROS DE 1900 263 se não pôde dizer exorbitasse a digna commissão, nem nós temos a ver com isso. O livro do Sr.
Xavier Marques infelizmente justifica a opinião da quasi infallivel mediocridade da literatura de occasião, da literatura commemorativa e de a propósito. O Sr. Xavier Marques é, no romance, talvez o escriptor mais dislincto enire os escriptores provincianos, e mesmo um dos mais distinctos entre os escriptores do gênero no Brazil. Conhece a lingua o a maneja com facilidade, tem imaginação, tem estylo próprio, tem invenção e poesia. O seu livro Praieiros é de um escriptor e de um romancista; tive a satisfação de o reconhecer algures. Mas o seu livro Pindorama, sendo de um esci'iptor que não pôde fazer mais um livro inteiramenló ruim, não tem, soh nenhum aspecto, o merecimento que se devia nelle esperar. Considerando-Ihe o mérito, e não só a facíui-a, não é nem um romance hisloríco, nem verdadeiramente uma obra de imaginação ou antes de idealização, como o Guarany ou a Iracema, de Alencar.
Quero dizer que se não encontra nelle nem um quadro que nos pareça verdadeiro, e corno tal nos impressione, da época, da vida e da alma dos seus personagens, nem o alento poético, o sopro lyrico e épico, que faz dos citados livros de Alencar dous dos mais bellos poemas de nossa lingua. Curioso, muito mais poesia ha em Janna e Joel, o penúltimo livro do |Sr. Xavier Marques, que neste romance premiado como um poema. Singular ainda, que o Sr. Xavier Marques, que nos seus anteriores livros se mostrava um puizagista, não tenha sabido neste fazer a paizagem, aqueUa paizagem nova e opulenta que devia deslumbrar os descobridores. Ella é neste livro sem precisão, sem caracter, sem destaque, como são também os personagens, portuguezes ou indios. Nelle não sentimos viver o Brazil primitivo, nem da vida real que os primeiros chronistas nos deixaram entrever, nem da vida idealizada, que com tanto vigor e poesia lhe crearam os nossos indianistas desde Basilio da Gama até Alencar.
E' esta, pelo menos, a minlui impressão, que, entretanto, me não veda verificar as qualidades que fazem do autor um escriptor estimavel e bem dotado. Si não foi bem succedido neste romance, é seguramenle que o seu assumpto lhe não era de facto sympathico, não existia entre ambos, o escriptor e o seu thema, a correspondência de sentimentos de que Tolstoi faz com razão um.a das condições do êxito da obra de arte. Em um volume, editado pela casa Aillaud de Pariz, reuniu o Sr. Valentim Magalhães, sob o titulo de i?ímar/o, os seus versos, quasi todos, sinão todos, jã publicados em folhetos ou em periódicos, de 1878-1899. ALGUNS LIVROS DE 1900 265 O Sr. Valentim Magalhííes é um poeta. E', com a do chronista ou folliclinista, que o foi com muita verve e desenvoltura, esta, a de poeta, a sua principal perfeição literária. Forçando o seu talento a outras partcJs da literatura, nada produziu o escriptor que não seja muito mcdiocre comparado aos seus versos e ás suas chronicas.
E' um poela, c este livro o prova, mas não um grande poela ou siquer daquelles que temos todos pelos nossos melhores, entro vivos o mortos. Tem o seu verso facilidade e correcção, tem mesmo luz e ar, possue as qualidades que foram as primaciaes dos seus bons tempos de chronista hilariante e endiabrado, a graça, a leveza, mesmo o espirito; ha em alguns emoção real ou apparentemente real, o ás vezes uma sensibilidade fina e discreta; mas, com tudo isto, nenhuma distincção especial, tudo em tons e notas médias. Seria diílicil, a mim ao menos foi impossível, achar-lhe um distinclivo, uma physionomia ou uma expressão poética extremada, característica. Elle pertence, e então conspicuamente, aquellcs que os colleccionadores da poesia latina chamaram poetai minores. Amando a literatura, como é cvidcnie que a ama, sempre a amou o Sr. Valentim Magalhães mais á maneira de um galanteador que de um apaixonado. Ora, a arte quer-se amada com ardor e paixão para se entregar toda; reserva sempre alguma cousa de si, resguarda-se e defende-se dos simples namoradores. Como literato e como artista, o Sr.
Valentim Magalhães é, iníelizmenle para elle e para nós, um devoto da « literatura ligeira » e um dos seus mestres aqui. Confesso não tenho por essa fôrma de Hteratura, si nao é delia apenas uma parodia ou um arremedo, nenhuma estima, e o que se chama « leve » em arte, chamo-lhe eu simplesmente « vasio í. Veriíica-se, porém, do Rimario que o Sr. Valentim Magalhães é um poeta e mesmo, com as retricções feitas, um bom poeta. Devia elle ter tido ao republicar os seus versos mais desprendimento em escolhel-os e em sacrificar maior numero delles, como por exemplo a maioria dos que chamou Rimas heróicas e poemas de quejanda inspiração, quasi todas inferiores, de nenhum valor para a reputação do poeta, e que só mereceriam reeditados como documenlo do seu republicanismo lüslorico, que nada aliás interessa á literatura. O que ha de melhor no Rimario são os poemas sonlimentaes em que o poeta casa e harmoniza a sua sensibilidade superficial com a graça, a leveza de espirito, o tom facecioso, que lhe é natural.
E não muito raro consegue darlhes uma emoção e uma eloqüência de bom ALGUNS LIVROS DE 1900 267 cunho, como em Canção, O nosso morto. Felicidade e poucos mais. As Iraducções, de que abunda o livro, são, em geral, felizes. Do seu novo livro, Bailadas e Phantasias, titulo como quer que seja romântico e escolar, revendo a juvenilidade do poeta e a ingenuidade do escriplor, diz-nos o Sr. Magalhães de Azeredo que o fez sem quasi pensar em fazel-o. Não que o fizesse sem cuidado ou sem prazer; gosou ao contrario muito em o fazer, e só desse goso se dá por premiado. Mas compol-o todo sem esforço, nem fadiga, nem attenção obrigada de prazo ou programma, livremente, á mercê da imaginação caprichosa, já preguiçosa, já diligente. Si não são esses os livros melhores, são pelo menos os que deixam na memória do autor recordação mais grata. Não se podem, infelizmente, escrever muitas vezes na vida. PLcquerem condições especiaes de alma e de ambiente, uma razão própria, vagares que raro se nos deparam. Absorvido por outros labores, tão cedo iião dará, não dará talvez nunca, outro livro desta feição.
Por isso, no momento de publical-o, sente que elle lhe é caro, não pelo que vale, mas pelo que representa, e mais, sente que SC está a despedir de uma estação da vida que se não podo prolongar e, ainda menos, renovar. Não que se lhe acabasse a Primavera, mas na Primavera acabou-se-lhe o que havia de mais tenramente verde, mais indecisamente inalinal, mais symbolizador de percursão e promessa. Fora com effeito ridiculo que longe ainda da maturidade se puzesse o poeta a perguntar pelas rosas de antanlio. Rosas, muitas rosas, florescem ainda e florescerão, pcrmittindo Deus, por largos annos, rosas de crença, rosas de enthusiasmo, rosas de affecto, mescladas embora aos espinhos da experiência c da dôr, e aos primeiros frutos estives. Mas rosas plenamente desabrochadas, não já botões de rosa. Tem algo de profundamente significativo o commovedor o ultimo dom ritual da adolescência em todas as religiões c em todos os povos. Estas paginas, que são a sua prenda votiva ao despedir-se daquella idade, não as deixa o poeta sem enternecimenlo.
Embalou-o até aqui a Phanlasia: mulher, não domestica e provida e repousada, antes mulher bizarra, um pouco excêntrica, um pouco emancipada, ás vezes sombria, galante ás vezes, mas sempre encantadora. Mulher que com sorprendente facilidade muda de tom, de traje e de humor; que tão depressa veste a chlamyde grega como ás vestes da bailarina andaluza, que calça igualmente bem nos ágeis pés os cothurnos romanos, os chapins orientaes, os sapatinhos parizienses e até os socos de pastora. Que importa ALGUNS LIVROS DE 1900 269 lhe ralhe a razão, sua irmã mais velha, chamando-lho louca e perdulária, si a adora e a prende com caricias, conhecendo que sem ella a sua 'morada seria horrivelmente árida è tediosa. E' ella, a Phantasia, quem invade tudo, abre as janellas do espirito para que entrem a jorros os raios do sol, os coros magníficos das aves e os perfumes salubres do bosque e do vergel. iRapariga franca e sem affectação, embora não se embarace a fronte com uma coroa e a dextra com um sceptro, todos os reinos, sem exceptuar o da sciencia, são seus.
A sua apparente leviandade lhe não veda de servir menos que a Lógica ou que as Musas austeras as grandes causas humanas. Ella busca a Belleza pelo prisma da ficção e proclama a verdade sob a fôrma extravagante do paradoxo. Por não ser secca e magistral, ou altisona e guindada, a sua linguagem não deixa de cantar as loas dos sentimentos fortes e delicados, e ás vezes, em uma frase petulante, traduz cousas capitães, inexplicadas em um ponderoso tratado. Este é, transposto, como se diz em musica, por mim num tom mais baixo c menos vivo, o hymno que á Phantasia canta no atrio da sua capella o poeta. Não o hymno todo, apenas uma parte do hymno; que elle é mais extenso c mais bello. Não indaguemos do poeta porque Phan- 270 ESTUDOS DB UTIÍRATURA tasias e ]:)orque Bailadas. A;Pliantasia inspirou todos os trechos do seu livro, os ligeiros, os alegres, os risonhos, como os graves e dolorosos; o Samba, idealizarão pungente de uma dôr nacional retrospectiva como o Hymno a Lote Fuller, uma pagina quasi digna d'Annunzio pela harmonia plástica da fôrma.
Não cuidemos de classificações; contos, lendas, fantasias, historias, que quer que sejam, os artigos que formam o livro do Sr. Magalhães de Azeredo são formosas paginas, de uma literatura assentada e calma, talvez um pouco acadêmica, numalingua que é seguramente, com toda a sua modernidade, uma das mais puras que escrevemos hoje no Brazil. Sob o aspecto do estylo e da lingua, ha enormes progressos no Sr. Magalhães de [Azeredo, e isto e a sua emoção poética, verdadeira, sincera, embora pouco intensa c pouca profunda, fazem delle um escriptor, e entre os contemporâneos da nossa lingua um dos mais estimaveis. Mas não só as faculdades de expressão têm ganho no Sr. Magalhães de Azeredo, mas igualmente todas as suas outras faculdades de escriptor, de poeta e de artista. Talvez lhe falte ainda mais liberdade espiritual, mais desembaraço, mais personalidade, mais independência, mais virilidade; tudo isso, porém, virá, porque tudo isso ha nelle em germen.
Somente é preciso que ellc resista á ac- ALGUNS LIVROS DE 1900 271 ção, espiritualmente deprimente, da artificialidade da vida diplomática e mundana, ao respeito supersticioso do decorum convencional de uma sociedade sem espontaneidade e compressora de toda a originalidade, que não seja bastante forte e enérgica para superal-a. Paginas como estas que cUe agora publicou, não obstante agradáveis, mesmo deliciosas como leitura ligeira e amena, valem apenas como os estudos de um pintor para um quadro mais vasto e mais completo. Não vivem em geral por si mesmas, sinão quando o escriplor soube accumular nellas, com a emoção sentimentale a riqueza da fantasia, que não faltam nestas, idéas e sensações verdadeiramente raras, ou a alta expressão de um pensamento social e moral. Não as ha por ora neste livro, ainda da adolescência; mas a sua gênesis já porventura ncllc se entrevê ou adivinha. Creio que é uma estréa o ronumce Jorge do Barrai, do Sr. Emmanuel Guimarães. Não conheço o autor e nada sei delle. Ignoro si aquelle nome não é apenas um pseudonymo.
Em todo o caso, parece-me que ó inteiramente desconhecido em o nosso mundosinho literário, onde, si não me engano, surge pela primeira vez na capa de um livro, e um grosso volume do 300 paginas compactas, antes de apparecer, como em geral acontece, em jornaes e revistas. Sendo assim, é rigorosamente uma estrca. Não a qualificarei siquer de boa ou auspiciosa; mas, tanto quanto cabe á critica a previsão, me não arreceio do dizer que o romance do Sr. Emmanuel Guimarães é uma promessa. Apezar dos seus defeitos e falhas, descobrem-se no autor capacidade para o gênero e no livro qualidades que, desenvolvidas e aperfeiçoadas, promeltem nelle um romancista. Não são em a nossa producção literária vulgares estréas como esta. Não faltam no livro invenção, imaginação, aarte da apresentação das personagens, da disposição dos episódios, do arranjo das scenas, da composição geral da fábula, tudo, emflm, que constituo a technica do romance, segundo o modelo francez, que, si não é o melhor, é o mais vulgar e conhecido.
O espirito geral do livro é mesmo francez, de sorte que, lendo-o, temos a impressão de estar a ler um romance francez bem feito, como são de ordinário todos elles, mas em uma traducção defeituosa. Sob o aspecto da íórma, da lingua e do estylo, o livro é mal composto e mal escripto, mesmo incorrecto. O autor não conhece sufíicienlemente a lingua, maneja-a com manifesta difficuldade e usa-a ainda com muita impropriedade. Estou convencido que em o nosso meio literário a critica pedagógica tem ainda o seu lugar e prestimo. Por via de regra, os que aqui escre- ALGUNS LIVROS DE 1900 273 vemos começamos a fazel-o sem o preparo necessário. Os nossos estudos literários não são apenas deficientes, sinão completamente falhos. O da nossa lingua é pura e estreitamente grammatical.
Não ha nelle, como ha nos paizes de boa cultura, onde o estudo da lingua nacional é completo e perfeito, o estudo, ou siquer a leitura, intelligente e comprehensiva, dos bons autores, a analyse literária dellcs c dos seus estylos e peculiaridades de linguagem, não ha a discussão das fôrmas e modalidades linguislicas que todo o idioma apresenta, e não se procura também penetrar, descobrir, fazer perceber o gênio, a indolo da lingua. O alumno se não exerce em composições e redações da lingua materna, sobretudo nessas composições, em que, tendo já um certo desenvolvimento intellectual, pôde deixar correr espontâneo e livre o seu pensamento, a sua imaginação, a sua invenção, o seu raciocínio. Dahivem que raros são os que, dedicando-se ás letras, entram logo a Iratal-as sabendo utilizar a maioria prima doUas, que é a lingua. Rarissimos somos os que não tivemos de por nós mesmos refazer um aprendizado falho, trabalho longo o difficil e ordinariamente defeituoso na sua execução e imperfeito no seu resultado.
O conhecimento cabal da nossa hngua, que a escola não preparou suflicientemente, so nos torna ainda mais difficulloso pela forçada necessidade que temos de ler mais nas alheias que na própria, versar mais os autores estrangeiros que os nossos. Náo admira que genLc que só fala, lè e pensa numa lingua, como a franceza, a ingleza ou a allemà — que é a sua leitura estrangeira comparada com a nacional? — mantenha pura a tradição, a Índole, o gênio, a synlaxe, o léxico delia. Os Francezes, por exemplo, escrevem naturalmente bem; são excepções os que delles conhecem, além das linguas clássicas, outro idioma que não o seu; masmesmo o conhecendo, Icm cnormemente mais no seu que no alheio. Aprendendo o seu profundamente (o curso de francez nos Lycêos é de sete annos) e directamente dos seus grandes escriptores estudados sob todos os aspectos, não admira que a critica ali raro tenha a notar-lhes incorrecções do linguagem.
A sua lingua acha-se por tal modo feita e perfeita que um critico allemão poude dizer com espirito e motivo que não ha grande mérito em escrever bem em francez, pois a lingua já escreve pelo escriptor. Não ó absolutamente o mesmo caso em portuguez, e sobretudo no Bi'azil, onde mil circumstancias adulteram a lingua. Aqui dá-se o opposto do que se passa cm França: raro é o escriptor que começa a escrever, sabendo-o. A critica que aqui systematicamenlc abandonasse ALGUNS LIVROS DE 1900 275 o que acolá aliás não abandonou ainda systemalicamente, o seu direito de estudar lambem a lingua dos escriptores, lhes faria um desserviço, e nãosóaelles, masá literatura nacional. Não foram os defeitos de linguagem, poderse-ia dizer do livro do Sr. E. Guimarães, sem embargo dos seus outros senões, ([uc era uma excellente estréa. Em literatura não ha qualidades que suppram a lingua. Sem esta não ha em literatura alguma grande escriptor. Dedica o Sr. Guimarães o seu primeiro livro ao Sr. Machado de Assis: primo primum. Tudo o que faz o Sr. Machado de Assis digno desta homenagem vale, liquc certo o Sr.
Guimarães, pela lingua admirável que clle escreve. O Sr. Enunanuel Guimarães mostra no seu livro louváveis preoccupações de pensamento; sente-se lendo-o que o novo escriptor tern idéas, muitas idéas, quer exprimil-as, óxpríme-as a todo o propósito, mas por via do regra mal, sem saber dar novidade ás velhas, nem relevo ás novas. Não é só elegância, facilidade, precisão, clareza, propriedade que falia á sua hngua, falta-lhe também correcção, na syntaxe dos pronomes, no uso do demonstrativo o, no emprego abusivo do verbo ser significando estar, edos pronomes pessoaes á franceza, e da regência da preposição de com verbos que a não admittem (« cantava de sua maaniíica VOZ »; OS exemplos aliás são frequontissimos), no uso immoderado de ccrlas palavras e formulas (o verbo soer, a palavra solito) e de expresções e frases francezas e até lui conjugação de verbos (poder, por exemplo). Affecta o Sr.
Guimarães a construcção inversa, mais da nossa lingua, mas, imperilo, sae-lhc tal construcção desnatural o « gôche », como elle diz'horrivelmente, imitando um verdadeiro disparate de Eça de Queiroz, que alias o engeitou, e é hoje não só um dos mais elegantes, mas dos mais correctos e puros escriptores da nossa lingua. Assim escreve o Sr. Emmanuel Guimarães: « Um tênue sopro de esperança por isso ella respirara » — « Hygienicamente os dias lhe corrião num methodico programma » — « toda a gamma do sentimento elle escrevera. » — Fôrmas similhantes são abundanlissimas, e muitas de mau effeilo. Não levarei mais longe os meus reparos sobre esta feição do livro do Sr. Emmanuel Guimarães. Atrevo-me a chamar para ella a sua attencão: saiba criticar-se a si mesmo, não duvide sacriilcar muito do que escrever, estude, converso os bons autores da nossa lingua, aprenda-a com amor, que vale a pena, e fio não terei errado annunciando no seu primeiro livro, e apezar de todas as suas máculas, um futuro escriptor e bom romancista. ALGUNS LIVUOS DE 1900 277 Quantos conhecem e apreciam o Sr.
Capistrano de Abreu, por o tratar mais de perlo ou de leitura da sua obra fragmentaria, lastimam que clle não tenha até hoje produzido aquella que da sua rara e segura sciencia das cousas brazilciras de alguma fôrma lhe creava a obrigação de escrever. O centenário do Brazil deu lugar a bastantes publicações occasionaes. A maior parle, porém, como é aliás de regra em circumstancias similhantes, de pouco ou nenhum valor. Não preciso dizer que estão jusLamentc no caso opposto as duas do erudito professor. Não são propriamente livros as novas publicações do Sr. Gapistrano de Abreu; uma é o artigo, ampliado e corrigido, que, commemorando o 4" centenário do descobrimento do nosso paiz, publicou o Jornal do Commercio; outra, a reproducção parcial do prólogo que escreveu para a edição que da Historia topo(jraphica e bellica da colônia do Sacramento, publicou uma das associações portuguezas desla citado, celebrando também aquelle facto. Mas ambos esses folhetos têm a substancia de ura livro. Não terá aquelle novidades, principalmente para os que conhecem os primeiros trabalhos do Sr.
Gapistrano de Abreu sobre o mesmo assumplo e outros esparsamente por eUe publicados em épocas diversas. No expor IG 278 ESTUDOS DE LITERATUllA uma historia tantas vezes repelida, como a do descobrimenlo do nosso paiz, acha, enirelanto, o Sr. Abreu maneira de dar-llie uni tom de novidade, revivendo e animando os successos á luz dos documentos coevos, adequando a sua narrnção á Hngua do tempo, salpicando-a de expressões contemporâneas que llie emprestam um tom pittoresco, semeando-a de conceitos seus originaes, que animam toda a sua narrativa, renovando a liistoria conhecida. No segundo capitulo do seu opusculo, « emquanto Cabral proseguc seu caminho de longo » destino da índia, seu ílto, discuto o nosso sabedor « algumas questões connexas á historia do descobrimento », como qual o navio de Cabral que desgarrou na altura de Cabo Verde; si o descobrimento de nossa terra foi ou não obra do acaso; qual o ponto exaclo em que passou a armada de Cabral e, íinalmente, como se deve escrever, com s ou com.c, o nome da terra descoberta por Cabral.
Estas questões nào tem, nem o desconhece o escriptor, importância maior em a nossa historia. Por qualquer modo que se resolvam, não influem sobre a sua exactidão, o seu caracter e o seu desenvolvimento. São de facto meras curiosidades de erudiyão. Responde á primeira o Sr (.]. de Abreu, que a({uelle navio desgarrado foi o de Vasco de Atliayde. A segunda ALGUNS LIVROS DE 1900 279 resolve de uma maneira original: que sendo, na concepção do tempo, no globo lerraqueo o oceano apenas parte mínima e a lerra quasi a totalidade, Cabral, encontrando ventos favoráveis, podia entregar-se a elles sem receio, pois por toda a parte se lhe deparariam Icrras encastoando os' mares, por toda a parte estaria no caminho da índia, por SO como por SE. Nada teria de imprevisto o descobrimento, nem de inexplicável a insistência, si houve insistência, em buscar terras apparentemente estranhas áquellas a que levava missão de ir.
Este argumento parece-me mais original que concludente, e eu persisto cm pensar que desde c[ue Cabral não trazia o propósito de descobrir terras novas ao occidente, c nem siquer as buscava á aventura, o seu achado tem o caracter do fortuito, do imprevisto, do acaso, dando a esta palavra a exacta significação daquellas. Aliás, como bem diz o Sr. Abreu, « não é questão histórica; deve relegar-se para as minúcias da biographia conjectural ». Sobre a ancoragem de Cabral pronuncia-se ellc pela bahia Cabralia, ilhéo da Coroa Vermelha e riacho Mutary. Com certa acrimonia, o Sr. Capistrano do Abreu repete e renova a sua opinião c argumentos sobre a graphia da palavra Brazil, que elle quer que se escreva com s. Outros, com argumentos igualmente históricos, ensinam que se deve escrever com z. Confesso que, de uma c de outra parle, os argumentos não me convencem sufficientemente. Que passando para as línguas latinas essa palavra, donde quer que vcalia e fosse qual fosse a sua orthographia primitiva, só se havia de escrever com s, é rudimentar.
Portuguezes, hespanhóes, francezes, italianos não podiam escrever de ouiro modo que BRASIL, e é essa a fôrma por que a palavra, como nome da nossa terra, se acha escripta cm todos os documentos nas linguas desses povos. O que eu sustento, porém, é que, no Brazil ao menos, a tendência, não só popular mas erudita, é escrever com z, tendência que corresponde bem á tendência geral da orthographia portugueza, em Portugal e aqui, de substituir s por z em todas as occasiões em que aquelle signal graphico tem o som deste. Penso que a orthographia — que é uma convenção — que não é, como aphoneticaoua syntaxe, uma parte integrante da philologia, que não tem, como estas, regras e leis naluraes, sinão preceitos convencionaes, tem um aspecto social mais interessante c importante que o grammatical ou o eslhetico. Sou convictamente pela simplificação orthographica, como um meio de facilitar ao povo a leitura e a escripta, e não tenho nenhuma superstição pelas complicações com que se ALGUNS LIVROS DE 1900 281 deleitam eruditos e grammaticos. Sou emfim « cacographo.
» A tendência referida da graphia do nome do nosso paÍ7. com z prova-se pelo uso geral de doutos e indoutos (é claro que ha excepções e numerosas), na legislação, nas moedas, na literatura, nos documentos officiaes, na maioria da imprensa, de cerca de meio século para cá. Desde 1812 que a Academia Real das Sciencias de Lisboa assim o escreve nos documentos publicados nas Noticias para a historia e geografia (sic) das nações ultramarinas; Varnliagen, que já assim o escrevera nessa collecção, assim o escreve na primeira edição da sua Historia geral (1(S54) e assim o escreveu sempre. Creio que se poderia dizer que desde que os dislicos das nossas moedas passaram a ser em porluguez o não mais em latim, se introduziu nellas o Brazil com z. Já em 1822 se encontra numa medalha consagrada a José Bonifácio, Brazil assim escripto e de 1841 cm diante, em todos os annos do deccnnio de 50, e mais ainda para adiante, quasi todas as medalhas que têm alegenda em porluguez assim o trazem. Nem preciso alongar-me a demonstrar essa tendência; é um facto patente. Em um capitulo final revista o Sr.
Capislrano as duas correntes históricas que levaram os navegadores dos séculos XV e XVI a procurar ESTUDOS DK LITERATURA a índia, uns ao longo da cosia africana, oulros ao longo do Atlântico, ou uns para lésle, oulros para oésle. No seu opusculo sobre a colônia do Sacramento historia o Sr. Abreu succintamente a marcha dos descobridores, porluguezes c hespanhóes, para o sul do nosso continente, attribue áquelles o descobrimento e talvez o baptismo do R-io da Prata, e moslra como, desprezando a cosia safara do Puo Grande do Sul, se foram de preferencia eslabelecer no exlremo da região banhada ao sul por aquelle rio, fundando ali o estabelecimento que recebeu o nome de Colônia do Santíssimo Sacramento. Exposta nos termos em que expoz essa historia movimentada e dramalica, comprehcnde-se melhor tudo o que delia se desenrolou, os conflictos hispano-porluguczes, que haviam de deixar no exlremo sul do Brazil, enlre esle e as republicas hespanholas suas vizinhas, os germens de futuras questões, quem sabe si de todo extinclas.
Pensa o oscriplor que, perdida em 1828 a província Gisplatina, mais descortino político mostraria D. PedroI abrindo mão lambem do Rio Grande do Sul. « Separada a província cisplatina, pergunla elle, que ficava significando o Rio Grande do Sul? Que se lucrava em, derri- ALGUNS LIVROS DE 1900 283 badas as muralhas de Ilion, guardar o cavallo de Troya? » « A resposta não se fez esperar. Em 1835 rebentou uma revolução que durou dez annos. Desde então ou doutrinário, ou sanguinário, ou pecuário, ou caudatariooufederatario — as fôrmas variam, o fundo permanece — grassa o artiguismo além do Cabo de Santa Martha. O Dr. Francia poudc prender o corpo; mas a alma de José Artigas (chacal conjugado a Moloch) ulula, duende impropiciavel, pela campanha e sobre as coxilhas. « Haveria medico, diz Wilhelm Roscher, incumbido do tratamento de um tisico, que em falta do medicamento efllcaz, não querendo íicar sem fazer nada, cosesse.a boca do paciente para impedir os escarros de sangue? » Si ha! « Desde mais de meio século não têm estado outros á cabeceira do enfermo Brazil.
» Os homens de boa vontade que tomaram a peito não deixar passar despercebida a data do quarto centenário do descobrimento da nossa terra, e que com tão inesperado êxito realizaram a sua aventurosa empreza,puzcram no programma das celebrações desse facto uma resenha da nossa vida histórica e da nossa actividade social nos quatro séculos da nossa existência. A vários escriptores confiaram a reahzação 28-i ESTUDCS DE LITERATURA deste seu empenho, que coinprehendia o descobrimento do Brazil, o povoamento do solo, a organização administrativa c política, a evolução social, a religião, ordens religiosas, instituições pias e beneficentes, as religiões acatholicas, a literatura, a instrucçáo, a imprensa, as bellas artes, as sciencias jurídicas e sociaes e a organização judiciaria, as sciencias malhematicas, physicas e naturaes, as explorações scientificas, as sciencias medico-pharmaceuticas, a engenharia, a viação e obras publicas, a mineração, a industria, a lavoura, o commercio e a navegação, as finanças, a organisaçào militar, as relações exteriores, os tratados e os limites.
As memórias sobre estes diversos assumptos constituirão o Livro do Centenário, cujo primeiro tomo acaba de ser publicado na Imprensa Nacional, em um grosso volume in-4° de mais de 400 paginas. Além das memórias do Sr. Capistrano de Abreu sobre o descobrimento do Brazil, do Sr. Padre Júlio Maria sobre a religião, do Sr. Sylvio Homero sobre a literatura, do escriptor destas linhas sobre a instrucção e a imprensa, traz este volume duas outras, premiadas no concurso aberto pela Associação do 4° Centenário, publicadora do livro: uma do Sr. Oliveira Lima acerca do descobrimento, primeiras explorações e negociações diplomáticas a que ALGUNS LIVROS DE 1900 285 deu o descobrimento origem, e outra, do Sr. Moreira de Azevedo, ainda sobre o descobrimenlo e intuitos da viagem de Cabral. O trabalho do Sr. Capistrano de Abreu, solido como quanto sai da sua pcnna, é um dos melhores, pelo fundo e pela fôrma, que elle tem cscripto. Conhecendo bem o assumpto, e tendo sobre elle vistas próprias e, o que mais vale, certas, o seu quadro tem na sua concisão o acabado das obras perfeitas.
Pódesc-lhe notar que para chegar ao descobrimento do Brazil tenha vindo de muito longe, das origens do commercio das especiarias, madeiras singulares, perfumes, pedras preciosas, bichos exóticos, desde Salomão e Alexandre. Mas a censura não chega a formular-se, attendendo-se á excellcncia desse resumo do que é a mais moderna e segura erudição das relações econômicas do homem e da sua iníluencia sobre o conhecimento do mundo, as navegações, as viagens, os descobrimentos. Uma opinião recente, publicada justamente a propósito do quarto centenário (1), contestou alguns factosque pareciam deünilivamente adquiridospara a nossa historia, como a existência da expedição de 1501 ás nossas costas e a da armada de D. Nuno Manoel. O Sr. Capistrano de Abreu con(1) V. nesto volume Nor:a liistoria das origens brasileiras. tinúa nesta sua memória, e a despeito dessa opinião, a sustentar, ao meu ver com razões poderosas, a realidade dos tlous factos.
Tendo aproveitado os últimos documentos publicados sobre o assumpto dos arcliivos porluguezes, hespanlióes e italianos c os mais recentes e aprofundados estudos sobre o assumpto, e com os próprios, feitos nas fontes que se aqui encontram, a memória do Sr. Gapislrano de Abreu é o resumo do que neste momento de mais novo c seguro se conhece do descobrimento do Brazil, seus antecedentes históricos e econômicos, as primeiras viagens e explorações da sua cosia, a ethnographia c a feição da terra descoberta. Esta ultima parto é devida á sciencia solida e elegante do Sr. Emilio Gôldi, sciente director do Museu paraense. Não está infelizmente completa a porção do Livro do Centenário que cabia ao Sr. C. de Abreu escrever, mas* uma nota no íim do seu trabalho promettc que nos volumes subsequentes sairão as duas parles complementares. Ainda bem. Cumpre agradecer ao Sr.
Capistrano de Abreu ler reproduzido integral e facilmente Iranscriptos os cinco documentos que são as fontes da historia do descobrimento da nossa terra: o sétimo livro da sétima navegação de Vicente Pinzon escripta por Pedro Mártir, a narrativa da viagem de Pinzon ou de Diogo de Lepe escripta por Yes- ALGUNS LIVROS DE 1900 287 pucio a Pedro Soderini, a carta de Vaz de Caminha a D. Manoel, a carLa de Meslre João, physico e cirurgião da armada de Cabral, ao mesmo D. Manoel e a narrativa de Matheus Cretico sobre a viagem de Cabral. Segue-se a memória do Padre Júlio Maria sobre a religião, ordens religiosas, instituições pias e beneficentes no Brazíl. E' exlensa e mesmo diffusa, mas não deixa por isso de ser interessante. Perde monos por aquelles defeitos, que a vivacidade e o calor com que está escripla desvanecem cm parle, que pelo seu tom apologetico e de polemica.
O autor faz em largos, e como quer que seja salteados, traços, a historia da religião catholica no paiz desde a sua entrada com os descobridores até hoje, mas a sua historia, Ixsita ad prohandum, apenas lhe serve do motivo e thema ás considerações geraes, poliücas e religiosas, e acaso mais políticas — no melhor sentido aliás do termo — que propriamente religiosas. A memória do Padre Júlio Maria pareceu-me um trabalho franco e sincero. A sua intenção apologetipa, de apostolado, de propaganda, não só não a esconde ou disfarça, mas a publica. Pôde islo tornal-o suspeito como historiador, mas dá á sua obra o picante da polemica e o vivaz da predica. E' antes uma conferência religiosa, como as faz o autor do púlpito, um sermão de controvérsia. que uma memória histórica, no sentido commum. Não lhe faltam nem as invocações, nem as apostrophes do gênero, nem aquolla cólera sem peccado que o mais violento dos apóstolos recommendava.
Com peccado ou sem elle (nenhuma competência tenho para resolver), a ira do Padre Júlio Maria contra os adversários da igreja no Brazil, contra os catholicos servidores do regalismo, contra a indiffcrença do Imperador e dos seus ministros em matéria religiosa, contra os governantes do tempo da « questão religiosa », contra o calhohco Senador Nabuco de zVraujo e seus projcctos de reforma dos conventos c medidas similhantcs, contra o Sr. Joaquim Nabuco, seu íilho, c como cllc declarado calholico, que o defende e as escusa ou approva, contra o mesmo clero, de bispos a presbyteros, contra a libieza e pouco zelo dos lieis, se expande sem refolhos nem subterfúgios.
Os livres pensadores não estarão sempre pelas razões o argumentos do autor, c menos pelas suas intenções confessadas, e ainda menos pela sua conclusão dequo « nas mãos da Igreja está o futuro do Brazil», mas não deixarão de, mais de uma vez, dar-lhe razão contra o regalismo, contra a intolerância, contra os pseudo-catholicos que se repartem entre a Igreja e o Estado, que examinam, que separam, que escolhem, ALGUNS LIVROS DE 1900 289 em matéria de fé, que conciliam o a venial de pedreiros livres com a ópa de beatos. E' certo, parece-me ao menos, que sem estas transacções, que o Sr. Júlio Maria justamente, do seu ponto de vista, condemna, sem este relaxamento, digamos a palavra, do dogma, da disciplina, dos costumes i^eligiosos catliolicos, sem essa escolha por parle dos crentes, sem essa transigência das regras da fé com o temperamento, a Índole, os gostos, a pratica dos üeis— a Igreja talvez já não existisse.
E', talvez, do afrouxamento de Iodas essas obrigações que ella vive, principalmente entre gentes que não têm quiçá a capacidade das convicções fortes, aj;tivas, persistentes e praticas. O próprio clero brazileiro, e ninguém jamais poz com mais franqueza e verdade em evidencia este facto incontestável que o padre Júlio Maria nesta sua memória, soffre do mesmo mal e com o seu exemplo o aconselha e justifica. Mostra mais uma \ez o Sr.,lulio Maria, e reprova-o com toda a energia, ([ue o cloro do Brazil, melhor diremos, o clero brazileiro, foi sempre regalista e infenso sinão á Santa Sé, á Cúria romana e ás doutrinas conlomporaneamcnte chamadas ultramonlanas. A Igreja catholica sente-se agora sob a Republica, [iroclama-o o Padre Júlio Maria, em um período de auspiciosas esjjcranças uma espécie de lua de mel succcdendo á sua submissão regalista no Império. Esle período, declara o Sr. Júlio Mari, « não pôde ser ainda para a religião, como foi o colonial, o esplendor. » A observação indica uma esperança, quo respeitamos: mas a conclusão: « Não é também, como foi a do Império, a decadência.
E', não pôde deixar de ser, o período do combate » — exprime uma aspiração, legitima, não o negarei, mas prenhc de ameaças ao livre pensamento e á liberdade. Em um também longo artigo, diz-nos o Sr. Sylvio Piomóro, com o seu minucioso conhecimento do assumplo, a evolução da literatura brazileira.
Encontram-se neste seu escripto, e acaso exagerados, as qualidades e defeitos, mais do seu temperamento ([ue do seu gênio de escriptor: o amor das letras nacionaes, a capacidade, entre nós não vulgar, das generalizações, a familiaridade com as doutrinas das principaes correntes philosophicas, o ardor das convicções, a sciencia do seu objecto, a comprehensão dos phenomenos espirituaes na sua relação com os factos sociaes, e, do mesmo passo, a falta de proporções no ajuizar dos escriptores o dos livros, as idéas preconcebidas eos sentimentos apaixonados no aquilatar-lhes o valor, o abuso das classilicações, que o leva a contrariar os facto.s ou a forçal-os a entrar nas suas categorias, o exaggero no elogio ou no vituperio, em sunima os peccados próprios ao seu temperamento de ALGUNS LIVROS DE 1900 291 polemisla, que não escreve jamais sem imaginariamenlo eslar em luta não só com alguém, mas contra alguém. Penso ({ue cm uma memória desta natureza c ihn, é desapropositado o tom que lhe deu o Sr. Sylvio Roméro.
Mas ralhal-o por isso seria não comprehender que elle é o homem do seu temperamento, e que ao seu muito talento e cultura se mistura, com a paixão própria á sua Índole intellectual, uma absoluta incapacidade de soffrcr a conlradicçào. Não importa, o seu trabalho, mais completo e minucioso que porventura se requeria, o que, aliás, segundo o riíão, não o prejudica, é um útil resumo da nossa historia literária até este momento. Apezar de estar em moda, e de se encontrarem neste mesmo volume, e bem junto a mim, exemplos que me acoroçoassem, falarem os autores de si próprios, de seus trabalhos e da sua influencia, o Icilor de bom gosto me nao perdoaria, com razão, qualquer palavra minha respeito ás memórias sobre Instrucção e Imprensa. Ter eu achado que reparar na obra dos meus illustres coUaboradores neste livro, não insinua por fôrma alguma, digo-o em toda a sinceridade, que o meu trabalho nelle se approxime siquer da valia incontestável dos seus. Com lisura confesso que nesta leitura definitiva me pareceu como quer que seja deficiente. Que lhe não acharão outros?
Bom, na sua concisão, ó o do Si'. Oliveira Lima, que fora das competências e dos zelos, de alguma sorte mesquinhos, do nosso mundosinho literário, trabalha sempre. A originalidade da sua memória, justamente premiada, é o estudo das questões diplomáticas que o descobrimento do Brazil suscitou entre Portugal, Hespanha e França. O Sr. Oliveira Lima as expõe e resume com conhecimento certo dos factos e clareza, escrevendo assim, embora em esboço, o primeiro capitulo da nossa historia diplomática. Como a maioria das nossas publicações, é antes ume folheto que um livro a Via Crucis do Sr. Felix Pacheco, um folheto ao comprido, contendo, em outras tantas paginas, cerca de trinta sonetos. A idade e as tendências espirituaes, sinão só puramente eslheticas, fazem do Sr. Pacheco o que se chama um « novo ». Haveria um estudo curioso a fazer sobre a « novidade » em literatura. Náo me despeço de o tentar um dia. Novos, no fim de contas, foram todos os que poetaram ou escreveram, e que viveram. Denominação relativa, não ajunla de facto mérito aos que têm a ventura de merecela. Ventura!
Sim, mas que, apezar da petulância da juventude, se não aprecia sináo quando passou. E' também relativa, segundo o fallivele insolenle juizo humano e até conforme aos lu- ALGUNS LIVROS DE 1900 203 gares. No Brazil, por exemplo, comera-se a sei« novo » muito cedo, e so deixa de o ser também muito cedo. Como a desbotada rosa de Mallierbe, a « novidade » aqui dura apenas 1'espace ciun matin. Os que começaram hontem, 'com novidades também de esthelica, de estylo, de ideaes, Coelho Netto, Bilac, Alberto de Oliveira, já não são « novos »; só o sào os que principiaram agora, ha bocadinho, Em França, donde nos vêm os nomes e as cousas, as ostheticas e as gravatas, os « novos -D tem, por via de regra, quarenta annos, que a physiologia, a psychologia e a estatística demonstram ser a idade da força, da virilidade, da boa fecundidade intellectual. Aqui têm de quinze a vinte; aos trnita já entram a envelhecer, para os «. novos » que vêm atrás, suffocando de gênio e sôfregos de gloria. Bemavenlurada natureza a nossa!
Vista de perto e de dentro, a nossa vida literária, por tantos aspectos ridícula e desprezível, assemelha-se a esse jogo de empurra, que os nossos meninos, apertando-se em um mesmo banco uns contra os outros, jogam esforçando-se ])or fazer pular fora um dos companheiros. Poderiam responder-me que esse brinco não é seu privilegio; que em summa não é mais que o mesmo jogo da vida. O Sr. Felix Pacheco é, por ora, um « novo », tem o temperamento de moço, o ardor, o en- thusiasmo, as illusões, as ambições, [que tão bem licam á juventude. Nào serei eu quem o ralíie por isso. Ilfaut que jeunesse se passe... Piamente creio que, feitos os sacrifícios rituaes á mocidade, o que ha no Sr. Pacheco de verdadeiro talento, sem as demasias que o lemj)0 e o estudo hão de forçosamente aparar, queira-o elle ou não, nos promette um poeta. Digo de industria um poeta, som qualificativo. São tantos os que por abi os trazem cm penca, como as nossas moças os dixes c bcrloqucs em moda... O Sr.
Felix Pacheco possuo já a forma poética, o verso, o rytlimo, a harmonia; tudo ainda precisando de desbaste e polimento, como um bloco do mármore, onde se já lobriga a eslatua, onde se pôde já 'adivinhar uma deusa ou um ephcbo, mas que carece ainda do esforço e tempo do artista para vir a ser uma obra d'arte. Que haja nelle também as qualidades, mais essenciaes a meu ver, da creação poética, a emoção, o dom da representação, o sentimento interior, o capacidade symbolica, não contesto, ou siquer duvido; somente mo parecem menos evidentes que aquellas da pura fôrma. E' certo que não são esses os attributos da juventude, sinão da plena mocidade e damadureza. Si não faço injuria ao espirito do Sr. Pacheco, estou daqui vendo que lhe não aprazem talvez de to- ALGUNS LIVROS DE 1900 295 do esles reparos. Preliro crer que não, que elle tem inlelligencia bastante para lhes avaliar a justeza. Em um nosso livro inocente, leio que Goelhe, falando de um escriptor allcmão, disso: « Elle ensinou-me que a belleza é simplicidade e repouso, do que se segue que nenhum joven pôde tornar-se um mestre.
» Certo o Sr. Felix Pacheco não terá a pretenção de ser um mestre (de tornar-se, é justo que tenha), nem eu a de ensinar-lhe uma verdade que só a ignorância presumida pôde desconhecer. Justamente « simplicidade e repouso » não ha na poesia do Sr. Pacheco. E impertinencia fora exigir-lh'as. Ao contrario dessas qualidades da perfeição daquella pura belleza que a arte grega realizou c que o grande AUemão buscou com afan, o que ha nos versos do nosso joven poeta é o seu temperamento enlhusiasla, exuberante, incontinente. E' uma das leições mais frizantes do symbolismo, a simplicidade, ás vezes mesmo rebuscada, a expressão suave, mesmo dos sentimentos mais vehementes, das emoções mais intensas. Não ha sinão ler os mestres dessa poética em França ou Portugal para verifical-o: Vcrlaine, si elle é de facto um symbolista, Mallarmé, Samain, Régnier ou outro qualíjuer, Antônio Nobre, A. de Oliveira ou Eugênio de Castro. Por esse aspecto, não \)ev- tence o Sr. Felix Pacheco á escola; não ha nenhuma suavidade, nenhuma simpücidade, nenhuma ingenuidade na expressão da sua emoção poética.
E' um lyrico enthusiasla — e de propósito repilo o termo que me parece bem o quahíica — vibrante, cuja Hngua poética émais eloqüente que propriamente poética. Cada um dos seus sonetos é um grito, um brado, uma interjeição, nma prosopopéa; elle é fecundo, discursivo, hyperbolico. A sua lyra tem a sonoridade argentina de uma trompa. Esta é que, no momento, me parece ser a dominante do seu lalenlo poético, sem personalidade destacada ainda, mas porventura com virludes para vir a tel-a. Ha livros que são como as fortalezas, ou esses encouraçados modernos, eriçados de armas de defesa, cuja approximação nos amedronta. Assim o do Sr. Mello Moraes Filho. Vemol-o protegido por um tal apparelho de defesa, cm estudos, prefácios, introducções, appendices laudatorios, que nos arreceiamos de percorrer com olho menos devoto as })aginas a que a critica e o noticiarismo entoaram tão pias loas. Temos a sensação de constrangimento que sentimos penetrando num templo em cujo deus não cremos; o vago receio que nos commove ao entrar numa praça de guerra.
Alguma cousa ali nos opprime o espirito, tirando-llie a liberdade ALGUNS HVUOS DE 1900 297 de apreciação. O mesmo nesses livros que começam e acabam entre recommenclações e louvores. Francamcnle não acho boa esta maneira de suggestionar o leitor o, como quer que seja, de forçar-lhe o juizo, para não destoar dos introductores e louvadores mais ou menos illustres. E embora justificado e legitimo em alguns casos esse costume, cuido que não se deve abusar delle. Um livro de versos, ao menos, penso eu, bem pôde dispensar a transcripção do que delles disseram os jornaes. Acabem, porém, esses receios; também nas praças de guerra se dansa, entre trophéos doarmas morlifcras. Deixemol-as ás suas panoplias decorativas; não olhemos sinão ás mulheres, ás flores, aos risos. Assim no livro do Sr. Mello?kIoraes, além dos prefácios e postfacios, ha versos, bons e maus, mas versos. Chamou elle definitiva a esta nova edição, em que penso reuniu com escolha toda a sua producçào poética até esta data. O que tirou ou o que accrescentou ao que já delle conheciamos, não sei.
E' natural ([ue não haja coUigido sinão o que tem por melhor. Tivemos liontem a edição definitiva das poesias do Sr. Alberto de Oliveira, temos hoje a do Sr. Mello Moraes e teremos amanliã (já não é indiscreção publica-lo) a do Sr. Machado de Assis. Que ouiros poetas os imitem e achem editores, são os meus votos. Tanto mais os de- 298 ESTUDOS DE I-ITEUATURA sejo vêr realizados, quanto mesmo, nos melhores dos nossos poelas, ha muilo que refugar, graças á nossa precoce producção literária, so.bretudo poética. Os poetas e as letras ganharão com essa escollia, si eUa fôr feita com critério e desprendimento. E si alguém tem de a fazer, melhor é sejam elles próprios que a façam. Em três parles se divide a coUecção do Sr. Mello Moraes, Sertões e florestas, Nocturnos e fantasias e Poemas da escravidão. A primeira é a mais característica, e a melhor. Si o Sr. Mello Moraes não é um poela de grande inspiração, si não se distingue por nenhuma excoUencia notável de iorma, possue, entretanto, uma feição própria, que o não deixa confundir com o geral dos nossos poetas dos annos de 1870 para cá.
O Sr. Mello Moraes é, conscientemente, propositalmenie, um nacionalista. Era proventura bom ensejo para uma dissertação sobre o nacionalismo, e especialmente o nosso nacionalismo na literatura, c não é sem custo que me forro á vontade de repelir o essencial do que mais de uma vez escrevi a respeito. Não pela vaidade de reproduzir-me, mas por amor de corrigir alguns conceitos que julgo hoje errôneos c dizer, somente em preito á boa fé, como na questão evolveu o meu juizo. Num dos escriptos a que alludo —peço desculpa desta citação — a propósito mesmo do Sr. Mello Mo- ALGUNS LIVROS DE 1900 290 raes, disse eu que o seu nacionalismo era por demais inlencional, o producío de uma convicção erudita, para que, com a espontaneidade, lhe não faltasse a sinceridade artística da emoção. Devia ser isto que disse, nem tenho vagar para o veriíicar; c accrescentei que na arte não hasta a convicção critica, era imprescindível tamhem a inspiração, a vocação por dada ordem de assumptos, para produzir as ohras duráveis.
E dizia eu mais, em termos que me não lemhram, a questão não é tanto do assumplo como da índole do poeta, cuja personalidade entra por muito (não se poderia dizer por quasi tudo'?) na obra cujo ó o creador. Um poeta de espírito profundamente nacional será, em qualquer assumpto que cante, um poeta nacional, que vale o mesmo que nacionalista. Entre os nossos artistas literários alguns conheço que são politicamente brazileiros extremes, que são nativistas, jocobinos, patriotas até o chinezismo, mas que não são de modo algum nacionaes, em cuja obra se não percebe, senão sente essa cousa, acaso indefinida mas real, que é o íntimo e o inconsciente sentimento nacional, íeilo com os instínctos elhnographicos, com os instínctos históricos, com os instínctos geographícos, com os instínctos tradícionaes, que nenhuma cultura, que nenhuma aspiração cosmopolita consegue destruir ou síquer apa- gar. Não negarei este sentimento assim comprehendido ao Sr. Mello Moraes, somente me parece que é menos elle que a vontade do poeta que o poz no caminho que em nossa poesia tomou.
Aceitando concepções ethnographicas e criticas, próprias ou alheias, e antes que ellas houvessem alcançado aquelle grau de generalidade que só as torna aptas para o uso da arte, o Sr. Mello Moraes pol-as, por assim dizer, em verso como os glosadores fazem aos mottes que lhes dão. E é curioso que, atacando o indianismo e especialmente Gonçalves Dias, não fizesse outra cousa, na parte mais característica da sua obra, que os repetir anachronicamenle e, respeito a Gonçalves Dias, com menos lalenlo. Que são, com effeilo, pergunto eu, a Tapera da lua, a Lenda do algodão, a Boia-Assú, as Ut/áras, a Lenda das pedras verdes, sinão restos do indianismo do grande poeta brazileiro? Certo misturou-lhe o Sr. Mello Moraes alguma cousa de novo e de seu, como já o fizera Gonçalves Dias ao indianismo de Basilio da Gama e de Durão. Mas a mesma nota já puramente mestiça, que mais se destaca no Sr. Mello Moraes, sôa no poeta de Leito de folhas verdes, de Caxias, do Gigante de pedras, da Mangueira, da Mãi d'agua para não sair das Poesias americanas.
E' exactamente da mesma inspiração de Marabá que procedem as lendas ver- ALGUNS LIVROS DE 1900 siíicadas pelo Sr. Mello Moraes. Nem lhe eu faria carga disso, si o Sr. Mello Moraes não contrapuzesse o seu ideal poelico ao do cantor de Y-Juca-pyrama, e si crilicos nimiamenle condescendentes lhe não aceitassem apresumpção. Si, do ponto do vista eslhelico, é secundário o valor da obra })oelica do Sr. Mello Moraes Filho, sob o aspecto da historia literária, seria um erro não lhe enxergar, sinào o valor, a significação. Depois dos poetas como Alvares de Azevedo e Castro Alves, que abandonaram, com o indianismo, o veio nacional trabalhado com tanto afinco e resultado por Gonçalves Dias e Alencar, o Sr. Mello Moraes intencionalmente retomou o trabalho interrompido. Não se pôde siquer dizer que os seus methodos, a sua ferramenta, sejam absolutamente outros. Si alguma differenea ha é contra elle, contra o seu muito menor poder de creação e de idealização.
Em todo o caso, porém, a sua acçáo, si foi nulla no desenvolvimento posterior da poesia brazileira (e, salvo em algum provinciano obscuro, ninguém será capaz de a mostrar)^ não o foi no do nosso naturalismo nacionalista. Sendo um dos que faziam com mais ardor a campanha iTacionalista, não só os seus versos, mas toda a sua obra poética ou critica, serviram proficuamente a esse movimento. Não duvido da legitimidade dessa campanha, nem do valor dos seus resul- 302 ESTUDOS DE LITERATUnA lados; mas, confesso, náo tenho mais a mesma fé na necessidade delia, nem a mesma estima pelo {{Lic deu.
O que nós chamávamos aqui « nacionalismo » em litoraLura era evidentamcnte uma concepção estreita!e apoucada; o « nacionalismo » quando náo é o que ha de mais intimo, de mais consubstanciai e de mais subtil lambem, na alma de um povo, e que seus escriptores e artistas traduzem nas suas obras, qualquer que seja o assumpto; ([uaiido não é esse sentimento indelinivel, nms vivo, qüe faz que Chateaubriand, fazendo indianismo americano, seja francez, que Sliakespcare dramatizando a vida romana seja essencialmente inglez, e que Goethe permaneça allemão, mesmo quando o seu grande anhelo é ser grego, apenas pôde ser uma feição, um aspecto, um gênero numa literatura, jamais toda a literatura. K verdade que sem aquella espécie de nacionalismo, quasi impossível de existir em povos em formação como nós americanos, não pôde porventura existir também literatura. Haverá quando nmito escriptores, livros, literatos, poetas, poesias, obras em todo o gênero, mas literatura, como expressão e deliuição de um povo, c difíicil que haja. Não é isto um grito de desanimo, sinao mera verificação de um facto.
Consolemo-nos, porém; são aquelles—escriptores e poetas, com seus li- ALGUNS LIVROS DE 1900 303 vros e obras, — que lidando, trabalhando, lutando, acabam por destacar da massa ainda informo e heterogênea, sinào uma alma já formada, o principio do que podo vir a ser uma alma — si não são ellcs também que lh'a insufflam, na esperança generosa de a receberem complela e vivaz. Presentemente quasi se não escrevem propriamente livros; fazem-se de preferencia collecções de artigos, semi-livros, como lhes chamou um escriptor celebre que os fez numerosos. OuLra feição da producção espiritual dos nossos tempos é que raro é o livro, mesmo as obras mais inteiriças c homogêneas, que não tenha, parcial ou totalmente, duas publicações, uma na imprensa periódica, revistas, magazines, jornaes especiaes, o até na imprensa diária, nas gazetas de informação e noticias, outra em livraria. Deste fado, que não sou certamente o primeiro a nolar, não quero tirar nenhuma conclusão-; apenas reparo nellc para observar que num paiz como o nosso, mais natural e justificado é.
Aqui, onde a vida espiritual não tem base material, onde se é forçado a ser homem de letras de horas vagas, amador, não ha lugar e lazeres para as longas meditações, os atura-dos estudos, e as demoradas e trabalhadas composições, que as obras de unidade e de fôlego exigem. O Sr. Sylvio Ilomóro, queé um dos nossos mais operosos e valenlos escriptores, não conla talvez na sua oljra copiosa, com lal caracter, sinão um livro, a sua Historia da literatura Bra:;ileira. Esse mesmo, e é talvez o seu principal senão, e motivo das muitas repetições e incoherencias que lhe notam, é composto de fragmentos ulterioi'menle accommodados para formarem um conjunto, cujas partes se não ligam cabalmente e em que é facilimo descobrir as emendas e junturas. E salvo uma ou outro excepção, rara, a producçào literária nacional é nos últimos vinte annos quasi toda assim fragmentaria, na maior parte de meioslivros. Na mesma novella abundam mais as collecções de contos que os romances. Deu-nos agora o Sr. Sylvio Romérodous novos volumes.
Umensaio critico sohveMartins Pennaevarios Ensaios de Sociologia e Literatura. Aquelle, comquanto um opusculo, tem a unidade de um livro; este é uma rccolta do artigos diversos, ligados, sempre, é verdade, polo pensamento do autor. A parte, a meu vêr, mais interessante e considerável do primeiro, são as considerações moraes e sociaes que a vida c a obra do famoso comedista provocam á penna nervosa, alternadamenle pessimista e optimista, apaixonada, batalhadora do Sr. Sylvio Roméro. Os Ensaios ALGUNS LIVROS Di; 1900 305 de Sociologia e Literatura conlôm, cnlre outros, dous excellentes estudos, o Haeckelismo em sociologia c Classificação dos plienomenos em sociologia. No primeiro, combato o Sr. Sylvio Roméro, a meu vêr com muita procedência, boa loyica e seguros fundamentos, a lei sociológica que o Sr.
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O vago om que tem licado laes classificações, ainda as mais bem aceilas e invcnladas pelos melhores espíritos, me deixa um pouco descom fiado c sceplico sobre o seu mérito, respeito íi verdade e sobre a sua utilidade para o progresso dos conhecimentos do espirito humano. Como quer que seja, a tentativa do Sr. Sylvio Homero me parece uma das mais felizes, pelo menos uma daquellas (jue menos me têm repugnado ao entendimento. Somente observo que nas creações sociológicas da humanidade muitas originariamente se confundem e por longos períodos vivem e desenvolvem-so confundidas, assim a religião, a moral, o direito, a esthetica e a mesma política, sinão lambem a sciencia. Para podermos separal-as em classes distinctas, precisamos talvez abstrahir desle facto histórico primordial e não considerar estes phenomenos sinão como já tendo experimentado a differenciação a que o progresso os obrigou. Com esta reslricção, não tenho duvida, repito, em aceitar a classificação do Sr.
Sylvio Roniéro; fica-me, porém, sempre a duvida, não o esconderei, da utilidade, da vantagem, mesmo theorica, de taes classificações. E' um trabalho literário, não de lodo despido de mérito, o novo romance do Sr. Xavier Marques, escriptor bahiano. E' o terceiro livro delle que leio, e dos três ainda o melhor no meu ALGUNS LIVROS DE 1900 307 dcsautorisado conceito é Janna e Joel. Este, Holocausto, embora inferior a esse, vale muito mais que Piiidorama, o seu segundo livro que li, e de que acima me occupei. Não o contarei ao leitor, porque, sendo uma historia simples, sem uma acção verdadeiram^ente interessante, receio que o meu resumo atraiçôe o livro. E' o caso (já que é preciso dizer assim, tratando-se de romances) daherança da íisica. Os principaes personagens pertencem a uma família de tisicos, e o romance tira o nome de que um dellcs, já tocado do horrível mal, e amando ardentemente uma prima e sendo porella amado com igual paixão, pretexta uma viagem do saúde á Europa, coma certeza de por lá morrer, e fugir a um casamento que seria a desgraça dos dous. O Sr.
Xavier Marques não teve a arte bastante para evitar quanto convinha o aspecto clinico do assumpto, mas também não se o pôde accusar de haver abusado delle, Eu achei este seu livro menos natural, e perdoem-me dizer, atlenuando a significação do termo, mais pretencioso do que (si não erro completamente a sua psychologia de escriptor, que apenas pelos livros conheço) o seu talento nos faria esperar. O seu trabalho de psychologia literária, por demais evidente neste livro, não lhe deu resultado nenhum. Não ha nenhma ügura ali que se destaque, e algu- mas, como o jornalista Vanique, o Barcellos e Villarim, são de para convenção. Ao romance lambem falia isso a que os pintores chamam ambiente, e justamente no sentido em que lhe chamam. A sua lingua neste livro tem defeitos, que se não encontram nos Praieiros e em Pindorama. E' menos correcla, sobretudo menos pura, cheia de francezismos escusados, á moda de Lisboa. Não sei si não pôde ser taxado de ridículo o Iratamenlo á franceza dos titulares, do Sr. de Villarim, á Sra. de Barcellos.
Ignoro si na Bahia é de uso, em todo o Brazil que conheço nunca o ouvi. Nos últimos annos do Império, os velhos do Senado, que gostavam ás vezes de rir, introduziram ironicamente nos seus discursos esto tratamento, com intenção maliciosa, e diziam: o Sr de Cotegipe (creio que foi com elle que a graça começou), o Sr. Disto ou o Sr. Daquillo. Mas o que vinha da troça, a troça matou. Não ha revivel-a, quando os titulares se vão extinguindo, o a expressão tonia um ar de facecia. Depois não ignorará o Sr. Xavier Marques porque em França, e em outros paizes, a partícula supre o titulo, que c até de bom tom não usar. No eslylo do Sr. Xavier Marques, por ora incaracleristico, o que principalmente desagrada é a mistura incongruente' de fôrmas archaicas e mesmo obsoletas, com gallicismos e ALGUNS LIVROS DI3 1900 francezismos absolutamente desnecessários, neologismos inúteis e o uso de termos teclmicos. E' curioso e de sentir que estes defeitos não se llie notavam nos seus anteriores livros, nem os desculpa neste ser um romance de vida mundana.
N.ão é no dialoí^-o que somente apparecem, mas na mesma narração do autoi', em paginas exclusivamente suas. Mas, em summa, si o seu romance a mim me não despertou um interesse grande, não me parece que seja isso razão para que os outros não lli'o achem. Tem sympathia, tem sinceridade, e lem dous ou três episódios commovedores. cm unesp 10 11