Nova história das origens brasileiras: "Brasil" pelo Dr. Zeferino Cândido
NOVA HISTORIA DAS ORIGENS BRAZILEIRAS Brazil, pelo Dr. ANTôNIO ZEFERINO CâNDIDO, Rio de Janeiro, 1900. Os centenários dão sempre lugar a numerosas publicações commemorativas: umas orudilas, que estudam o fado ou o sujeito celebrado, outras apenas festivas, que o decantam, e ainda outras de que elles são apenas occasião e que não têm com elles propriamente relações direcias. O quarto centenário do descobrimento de nosso paiz, anachronicamente celebrado a 3 de Maio de 1900, suscitou também um numero relativamente crescido de taes publicações. Por via de regra a literatura dos centenários é mediocre, como em geral toda a literatura de occasião e de a propósito. Acode-me á lembrança o centenário de Camões. Condignas verdadeiramente do excelso poeta foram as grandes festas com que o celebraram Portugal e Brazil, mas não o foram por igual as pidjlicaíjões com que o commcmoram. Nenhuma é de faclo considerável; e si se publicaram algumas edições luxuosas e typographicamente nitidas do seu immortal poema, nenhuma é, sob o aspecto critico, a edição definitiva que os Lusíadas ainda esperam.
De quasi todos os centenários quasi se poderia dizer a mesma cousa. Por isso essas commemorações entraram já a fazer-se, na sua parle literária, de outro modo, mais proficuo á gloria do caso ou indivíduo celebrado e ã illustraçào dos contemporâneos. Si é ura escriptor, um sábio, um poeta que se solemnisa, publicam-sc-lhe as obras em edições criticas e esmeradas, estudase-lhes a vida, a obra, a influencia em trabalhos de segura e minuciosa erudição; si é um grande facto histórico, acha-se que a melhor maneira de celebral-o é publicar os monumentos históricos inéditos ou pouco sabidos que a elles se referem. Foi assim qne por occasião dos centenários de Colombo a da índia, as nações directa ou indirectamente interessadas na commemoração dos dous altos feitos, Portugal, Hespanha, Itália, Allemanha, e outras editaram preciosas collecções de documentos, cartas, memórias a elles relativas. Era o que NOVA HISTORIA DAS ORIGENS BRAZILEIRAS 89 deveríamos nós ter feito.
Nos nossos mesmos archivos o nos da Europa, ha ainda numerosos documentos inéditos c outros quasi inéditos, tal é a sua raridade, do mais alto interesse para a nossa historia. Nenhuma occasião mais azada para virem á luz, que esta em que commemoramos o nosso quarto século de existência histórica. As publicações do centenário, si nenhuma tem o valor, a importância, a significação e a utilidade que teriam essas, cuja falta é lastimável, não são todas sem valia. Antes algumas são, si não erro, beneméritas de attenção e apreço, como a do Sr. Zeferino Cândido, intitulada Bra::il e publicada pelo Instituto Histórico. O livro do Sr. Zeferino Cândido é como os seus precedentes trabalhos um livro de discusão; propriamente um livro de critica histórica. O autor tem-se ultimamente dado aos estudos da historia das navegações e descobrimentos começados no século XIV, e já trata estes asumptos com relativo conhecimento de causa; somente sente-se, lendo-o, que são feitos talvez ainda ás pressas, muito do occasião e que não têm, por ora, amadureza dos estudos aturados.
Livro de discussão, e desafiando a discussão, o que é um mérito, é este mais, o que lhe accresce o merecimento, um livro de suggestõcs, que não sei si não mereceria um exame mais delido do que eu, falho de competência e vagar, posso fazer-lhe. No primeiro capitulo da sua obra, tratando das grandes navegações, insiste o Sr. Zeferino Cândido, no conceito já externado no seu livro Portugal, sobre o que ha de lendário na importância geralmente altribuida á obra do infante D. Henrique o Navegador, e á pseudo-escola de Sagres, reivindicando para D. João II a autoria principal das grandes navegações portuguezas, dos séculos XV e XVI. Parecem pertinentes as caracterizações geraes, como lhes chama, da indole, do espirito, da significação e dos resultados que desses grandes emprehendimentos dá. Igualmente me parece boa a sua argumentação sobre os predccessores de Cabral, com a qual faz boa e inteira justiça das infundadas, inventadas ou mal apoiadas pretenções francezas e hespanholas, e mesmo portuguezas, como a de Ramalho em S.
Paulo já por 1490 ou a de Duarte Pacheco Pereira pelo mesmo decennio. Piejeita calorosamente o Sr. Zeferino Cândido a parte do acaso na descoberta do Brazil. A sua argumentação neste ponto é uma das mais brilhantes do seu livro, mas não é por igual convincente. Elle próprio o sente, quando ao terminar o capitulo escreve: « Acaso? Talvez, no sentido de que Cabral não andaria NOVA IIISTOIÍIA DAS ORIGENS BRAZILEIRAS 91 ali procurando terra, mas vcnlos; insania, na inculca de que ali chegara e por ali andava perdido, ás cegas, não sabendo ás quaulas andava.» Esta observação tem a vantagem de pôr a questão no seu verdadeiro pé, de estabelecel-a de um modo positivo c certo. O sentido em que se diz, e é verdadeiro dizer, que o Brazil foi descoberto por acaso é, e não pôde com effeito ser outro depois dos novos estudos de assumpto, sobretudo depois deste do Sr.Zeferino Cândido, que Cabral não vinha com o propósito de achar uma terra, não a procurava, embora tivesse quasi a cerleza, segundo a convicção commum em Portugal, da existência de terras novas para oeste.
Com toda a procedência, mostra o Sr. Zeferino Cândido como depois de Barlholomeu Dias e de Vasco da Gama a viagem incumbida a Cabral se devia fazer segundo um plano perfeitamente assentado, com pleno conhecimento c segura sciencia dnquclla navegação e do caminho que ella devia seguir. Neste l)onto não haverá contestar a sua argumentação, Ibrtcmente apoiada na historia do tempo, e em irrecusáveis autoridades modernas.
Si, porém, Cabral não andou a tôa, não perdeu a sua rota, não foi arrastado por uma corrente oceânica, que de facto não teria força para isso, antes, consciente do que fazia, procurava, bolinando, o ponto de reversão ao seu rumo, determinado e previsto nas instrucções que teria, não é menos exacto, e o reconhece o mesmo autor, que apezar da bella navegação que fazia Cabral, com ventos ponteiros de nordeste ou de popa, inteiramente de feição, em monção favorável á montagem do cabo esperançoso, «a corrente equinocial puxava os barcos para oeste e esse afastamento, accrescido sobre a estimativa da navegação, trouxe Cabral a um ponto mais occidental do que lhe seria determinado pela única condição dos ventos». Ora, é a isto justamente que se chama acaso, fortuito, imprevisto.
Nem colhe contra a verdade material, digamos assim, do facto que trouxe Cabral a uma terra onde elle não pensava ir ter, qualquer que fosse a sua suspeita da existência de terras á direita, a razão de que a influencia daquella corrente s sendo constante, permanente, intransformavel, é forçoso concluir que, fosse Cabral, fosse outro, Portuguez ou Hespanhol, então ou hoje, o marinheiro, que saisse do Cabo Verde com a derrota com que saiu o descobridor do Brazil, este bello paiz tinha de lhe apparecer á boréste, quando o navegador bolinasse, á cata do ponto de reversão do seu premeditado rumo » E' incontestável; mas não o é menos que, não sabendo da existência dessa terra, nem vindo propositalmentc ou á aventura procural-a, esse navegador, que nella viesse dar por um imprevisto afasta- NOVA HISTORIA DAS ORIGENS BRAZILEIRAS 93 ineuto do seu rumo, a leria achado por acaso, fortuitameiUe.
E, embora saibamos que em Portugal havia Ibrles e fundadas suspeitas da existência nao de uma terra, mas de terras, o que não é precisamente o mesmo, a oésie; que Vasco da Gama por pouco escapou de ser o descobridor do Brazil, que, por assim dizer, costeou na sua celebro viagem para a índia, que o mesmo Gama, no seu roteiro, aponta indícios certos de terra na directjão de sudoeste, que era a do Brazil, e mais, que D. Manoel recommendava aos seus marinheiros lhe procurassem terras para este lado, emquanto se não provar, não com argumentos e raciocínios, mas com documentos, que Cabral trazia o fito, o propósito, de achar alguma terra nova a oésle, não se pôde sinão dizer que o seu achado foi de acaso, um imprevisto. Ou então as palavras perderam na nossa língua o seu sentido. Esta questão aliás não tem outra importância que a de mera curiosidade. O propósito da descoberta não levantaria o mérito de Cabral, de um dos grandes navegadores do seu tempo.
I Não lhe custaria mais a achar uma terra indicada ou supposta em dada dirccção, que refazer a viagem do Gama, atravessando de lado a lado o Atlântico. Antes acaso lhe custaria memos, sendo essa terra a porção meridional do continente que Colombo, também semconscien- cia completa do seu achado, descobrira. Entretanto esta questão de pouca monta desde meio século occupa os estudiosos da nossa primitiva historia. Começou em 49, no Instituto Histórico, com uma these proposta por D. Pedro II sobre o assumpto, e discutida por Norberto e Gonçalves Dias, que sustentou a parle do acaso, o que lhe valeu agora azedas corrigendas do Sr. Zeferino Cândido. O Sr..Zeí'erino Cândido, apezar do abuso, de que este seu livro está aliás cheio, de argumentação e de raciocínio, em que, principalmente, assenta as suas opiniões, apezar da incoherencia ou contradicção que afinal se lhe descobre neste capitulo, foi talvez de todos quantos da questão até hoje se occuparam o que viu melhor nella ou pelo menos o que a estabeleceu em melhores termos.
Pena é que tenha começado pela proposição capitulando de Lenda do acaso a opinião de que o descobrimento do Brazil foi fortuito, pois, como creio haver mostrado, no cabo do seu capitulo elle mesmo reconhece que o foi. Num artigo sobre o descobrimento do Brazil, publicado a 3 de maio de 1900, no Jornal do Commercio, e que julgo poder attribuir á penna autorizada do Sr. Capistrano de Abreu, se pergunta com razão, a propósito desta controvérsia « si Cabral, em vez das condições favoráveis de vento e corrente, encontrasse ventos e correntes contra- NOVA HISTORIA DAS ORIGENS BRAZILEIRAS 95 rias, insistiria na derrota que o trouxe avista do monte Paschoal? Vasco da Gama insistiu, na primeira viagem á índia; Cristóvão Colombo insistiu na ultima á America; Cabral teria insistido? » O Sr. Zeferino Cândido é um iconoclasta terrível, um destruidor de Ídolos, de noções e de lendas. A crel-o, a nossa primitiva historia está cheia dellas e assenta em documentos, dos quaes muitos são falsos, apocryphos ou duvidosos e pouco dignos de fé.
Já vimos como contrastou as pretenções dos precursores de Cabral, os Hojedas, os Pinzons, os Cousins. Contra a opinião dos melhores sabedores da nossa historia, Varnhagen, Cândido Mendes, Rio Branco, Capistrano de Abreu e outros, contesta a expedição ao Brazil de 1501 e o seu commando por André Gonçalves, como contesta que este fosse quem levasse a Portugal a noticia do descobrimento, e ainda que Américo Vespucio fizesse parte dessa expedição ou de qualquer outra que viesse ao Brazil; contesta mais que D. Nuno Manoel commandasse armada alguma aqui vinda. Nega a autoria do Roteiro do Brazil por Gabriel Soares do Souza. Declara falsas as descripções do Brazil de Vespucio, falso o roteiro da navegação de Cabral, de Grineu e Ramusio, publicado pela Academia das Sciencas de Lisboa, falsa a caria de D. Manoel aos reis de Hespanha, noliciando-lhes o descobrimento. 96. ESTUDOS DE LITERATURA A argumentação do Sr. Zeferino Cândido, sob apparencias de convincenlo, é freqüentemente casuística e especiosa. Elle, repilo, abusa do raciocinio.
em casos que não podem sempre ser decididos com simples inferencias lógicas, como são por via de regra as questões históricas. E, ás vezes, arrastado pela sua veia argumentadora, perdôe-se-me a expressão, desarrazôa, como quando, a paginas 140 e 141, tira conclusões extravagantes da carta de Caminha a favor da sua these contra o que chama, indevidamente, a Lenda do acaso ao descobrimento do Brazil. Verdadeiramente o Sr. Zeferino Cândido parece abusar dos argumentos de razão nas suas discussões, principalmenie na dos documentos cuja authonticidade ou valor contesta. Não sei si uma critica mais competente que a minha e mais senhora dos processos de censura histórica lhe aceitaria sem restricções os processos seus predilectos. Quer no aceitar, quer no refusar documentos taes, requer-se muita e igual discreção. Lembremo-nos que a caria de Caminha, que é para o Sr. Zeferino Cândido, e para nós todos, um evangelho, um erudito Argentino a declara apocrypha.
Trata e discute este livro outras questões, como a do povoamento da America, da ancoragem de Cabral, do nome dado á terra, do indio, do reconhecimento da terra. Sobre a ethnolo- NOVA HISTORIA DAS ORIGENS DRAZILEIRAS 97 gia brazileira me pareceram incompletos e deficientes os seus estudos. Ha hoje, depois dos últimos trabalhos de Ehrenreich e outros, muito mais a dizer, mesmo a respeito do passado. C-onlra o seu parecer, penso que Varnhagen Icm razão negando a existência de uma naçào tapuia. Havia, certo, numerosas Iribus, que os Índios impropriamente chamados lupis appellidavam tapuias, mas não havia nação, um grupo ethnico, ou siquer um conjunto de tribus, com caracteres communs, a que se desse ou pudesse dar aquclla denominação coUectiva. Com toda a certeza se pôde affirmar que tapuio era para o Tupi, que creou a denominação, tudo o que não falava como lingua própria a lingua delle, chamada também, impropriamente, tupi pelos navegadores que com ellê se puzeram em contacto.
Tapuyo ou tapuio quer dizer em abaneenga ou tupi do Paraguay, segundo a autorizada opinião de Raptista Caetano, « a multidão das choças, o vulgo das choças, a plebe; os escravos ou prisioneiros de guerra, os inimigos, os selvagens, a turba dos apanhados (na guerra) ». Monloya no seu Tcsoro dá á palavra, além da significação de cousa comprada, geração, a de escravo, e accrescenta: y assi llamacl guarani á Ias demas naeiones. O faclo é o mesmo na Costa entro os Tupis, que tratavam de Tapuios Iodos os Índios que não G pertenciam a sua nação oü não falavam a sua lingua, como os Gregos e Romanos appellidavam de Bárbaros Iodos os povos que não eram da sua estirpe e civilização. Póde-se falar, embora ainda com impropiiedade, de uma nação tupi, não se pôde, porém, sinão com grave incongruência, falar de uma nação tapuia. Os Tupis tinham, pelo menos, a dar-lhe tal ou qual unidade, uma lingua commum e costumes communs, além de què é muito provável tivessem todos os mais caracteres etlmologicos communs.
Não é possível dizer o mesmo dos Tapuios, entre cujas tribus se não podo affirmar a existência de nenhum traço de união como os que verificamos nas chamadas tupis. E, neste sentido, teve razão Varnhagen negando a existência de uma nação tapuia. Tupis e Tapuios aliás, como de regra os povos selvagens, se não denominavam a si mesmos. Os nomes que têm na nossa ethnographia, são, como viu também Varnhagen excellentemente, alcunhas recebidas de outras tribus. O gentio que se deparou a Cabral teria insuperável difPiculdade de dizer-lhe o próprio nome, pelo não ler. Os nomes com que ficaram na nossa historia, dados por tribus vizinhas e de ordinário contrarias, fixaram-nos os primeiros chronistas e escriptores das nossas cousas. Denominar-se um povo a si mesmo já indica um estado de civilização a NOVA HISTORIA DAS ORIGENS BRAZILEIRAS 9!) que o selvagem brazileiro ainda não chegara. Sobre a queslão controversa da graphia do Inome do nosso paiz, decide-se o Sr. Zeferino Cândido, a meu ver com razão, pela fôrma BRAZIL.
Desprezada por falsa a elymologia de I brasa, ainda assim as fôrmas mais antigas desta palavra, existente desde o século XII, como denominação de certa madeira de tinturaria e nome geograpliico, com a graphia verzino, verzin, versi, brasi, òeraZ, pormetathese,bersile, nomes de lugares, i?7Y, BerzileBj^asilvecommendam a graphia com s. E' certo que lodosos primitivos escriptores das cousas brazileiras, Porluguezes, Hespanhóes ou Francezes, escreveram o nome com s. Não podiam,porém, escrever de outro modo: tendo-se já lirmado a metathcso notada, vedava-lh'o a indolo orthographica da lingua em que escreviam que, por influencia do latim, lhes determinava o emprego do s com o som de s entre vogacs. Não ha, pois, motivo para respeitarmos a sua orLhographia, « contraria á etymologia histórica e geographica »; tanto mais que este respeito não prevaleceria contra a tendência manifesta da nossa lingua de abandonar, com toda a razão, o emprego desnecessário do s entre vogaes substituindo-o pelo signal s, com o seu valor natural.
Desde muito, aliás, que a graphia Brazil é, não sô a popular, mas a official. Acha-se assim na nossa legislação, e desde mais de meio scculo, nas nossas moedas, nos nossos aclos ofíiciaes. Escreve assim o Instituto Histórico desde o seu inicio, escreveu assim o grande mestre da nossa historia, Varnhagen, e assim escreve a maioria dos que a escrevem. Toda a reacçáo, mesmo fundada em boas razões, contra este modo de graphar o nome da nossa terra, seria, pois, inútil. Pelo estudo que mostra, pelas questões que levanta, pela novidade de muitos de seus conceitos e apreciações, pela originalidade e independência de opiniões, pela controvérsia que abre em numerosos pontos da nossa historia, o livro do Sr. Zeferino Cândido ó um livro de não vulgar merecimento. Si sujeito a uma critica mais capaz que a minha, houvéssemos de aceitar-lhe as conclusões, poderíamos sem exaggero dizer que desde Varnhagen nenhum livro se publicou sobre as origens da historia brazileira de tanta importância como este.
Alguma cousa, infelizmente, o desmerece: é não só os grandes defeitos da sua composição, mas o tom de chalaça, de pulha, de chocarrice em que está escripto; a linguagem plebéa, e não popular, as fôrmas chulas, que íórmam a trama do estylo do autor — o que eu poderia documentar extensamente.