José de Alencar e o drama "O Jesuíta" Estudos de Literatura Brasileira: 3ª Série · Capítulo 8 de 14
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José de Alencar e o drama "O Jesuíta"

VIII JOSÉ DE ALENCAR E O SEU DRAMA «O JESUíTA » O Jesuíta, drama em quatro actos, por JOSé DE ALENCAR, nova edição, H. Garnier. Rio de Janeiro, 1900. I Esla peça do autor do Demônio familiar e de Mãi foi no seu tempo, ha quasi trinta annos, um acontecimento literário, quasi estou em dizer um escândalo literário. Não o provocou, porém, o puro interesse da literatura ou da arte. Comquanlo escripta bons doze annos antes, subiu á scena em plena effervescencia da questão religiosa, trazendo uma originalidade, ou uma singularidade escandalosa, qual a de fazer, contra o preconceito corrente, a opinião univer- sal, o exemplo de Eugênio Sue, enlão no resto da sua voga, de Rebello da Silva, e do quantos escriptores se aproveitaram dos jesuítas nas suas ficções, de um membro da malsinada o illustre companhia uma figura sympathica. O theatro tem a sua eslhetica especial, mais que a de qualquer outro gênero literário estreitamente determinada pelo gosto, pela opinião, pelo sentimento do povo que o freqüenta.

Dahi a sua relativa inlerioridailc comparada a outras espécies literárias que deixam ao artista mais independência, não só do inspiração e execução, mas ainda de processos c modalidades estheticas. Considerado em massa, o publico freqüentador de theatros, o mais esclarecido como o mais ignaro, tem uma opinião feita, preconcebida, stratificada, sobre certos typos históricos. O do jesuita é um desses, indelcvelmente lixado na mente popular. Apresental-o no theatro sob aspecto differente da sua imagem clássica, quando mesmo sob a nova feição fosse mais exacta, era uma audácia de artista de seguro mau êxito, pois que contrariava a concepção universal desse typo. Foi o que aconteceu com o drama de Alencar. Esta podia ser a razão geral do mallogro desta peça, independentemente dos defeitos que, como obra de theatro, pudesse ter. Mas a ella juntou-se uma outra, creadapelo momento JOSÉ DE ALENCAR 137 em que foi representada.

Era ao tempo em que o levanto de dous bispos contra as pretenções do regalismo constitucional sublevara primeiro os pretensos catliolicos, que á sombra do poder civil julgavam licito antepor os seus direitos de cidadãos ao seu dever de íieis, depois os espirites liberaes receiosos da acção ultramontana, como então se dizia, e dispostos a conlrastal-a. O conflicto que nas suas origens, uma mesquinha contenda sobre a compatibilidade das opas das irmandades com os aventaes dos pedreiros livres, — thema acaso adequado a um poema heróe-comico, — transformou-se cm luta aberta entre dous prelados do episcopado brazileiro de um lado, a maçonaria, os livres pensadores e o governo civil de outro.

Os jornalistas liberaes, e á frente delles o principal advogado da Maçonaria, Ganganelli, Joaquim Saldanha Marinho, os publicistas e parlamentares anti-clericaes, os membro de governo — um governo conservador—de então, seus parciaes ou assalariados, trouxeram para a luta todas as razões que o livre pensamento, e o lento progresso da humanidade para libertar-se de todo o jugo theologico, vem accummulando desde séculos: jurídicas, sociaes, históricas, scientificas, moraes e políticas.

Si em si mesma a mal appcllidada « questão religiosa » pouco valia, grande foi todavia a sua importância, menos pelas pro- porções políticas que tomou, que pelo movimento espiritual que produziu, promovendo a discussão geral da religião tradicional, dos seus dogmas, da sua disciplina, das suas relações com o Estado, estimulando o espirito leigo e anti-clerical, obrigando á leitura e ao estudo dos críticos, dos exegetas, e dos historiadores do cliristianismo e da igreja catholica, fazendo-nos travar relações com os Straus, os Doellingers, os Renans, os Littrés, e com as novas correntes do pensamento cliristão ou da philosophia scientiíica e leiga do século. Do ponto de vista social, a questão religiosa foi, com a guerra do Paraguay, e a campanha da abolição, um dos três ou quatro faclores principaes da evolução do Brazil nos últimos quarenta annos do Império.

Nunca desde as lutas dos colonos com os jesuítas por causa dos índios, ou desde o golpe decisivo de Pombal, este nome de Jesuíta voltara a ser dito como um anathema e a soffrer os apodos como agora que mações, liberaes, livres pensadores, governistas, regalistas, republicanos se alliavam no consideral-o o inimigo ou da pátria, ou da liberdade, ou da ordem, ou da sociedade civil, ou da mesma religião, que os accusavam de mal servir. Foi neste momento que um theatro do Rio de Janeiro levou á scena o drama de José de Alencar, cujo protogonista, um jesuíta JOSÉ DE ALENCAR de alta jerarchia na Sociedade, era nem mais nem menos que um palriola exaltado até o desvario, um precursor da indei)endencia nacional, um vidente da nossa liberdade e da nossa grandeza.

Numa cidade como Pariz, em que a opinião se faz funda e é enérgica, em que os freqüentadores do llieatro não consentem que lhes destruam as suas idéas feitas, os seus typos, os seus Ídolos, a peça de Alencar, em vez de ter caido pela indifferença ou fria iiostilidade do publico, teria sido retirada da scena pela lyrannia da platéa, sob uma vaia colossal, acompanhada talvez de vias de facto. Sobejam exemplos disto ali, desde as magníficas luctas do dram;i romântico contra o drama pseudo-classico até o lhermidoi% de Sardou, que é de hontem. E si a Inglaterra leve, pela grande voz e largo gesto de Irving, as primicias do Robespierre do mesmo autor, ó que o publico pariziense não deixaria, talvez, ir a peça até o iim, si um theatro se arriscasse a montal-a. Alencar não era de modo algum um philosoplio para conformar-se com a maneira por que o publico fluminense o acolheu a clle o á sua obra. Era um artista nervoso e nimiamente susceptível, um sensitivo, uma alma de uma impressionabilidade doentia, um delicado, apto a se offender de tudo.

Não fora assim, elle ESTUDOS DE LITERATUllA começaria por comprehender que o seu drama era um verdadeiro desafio ao senlimenlo da occasião, que não podia ser sinão mal recebido, e que só havia duas cousas a fazer, ou retiral-o por se furtar á dor de um desastre, ([ue a sua sensibilidade tomaria (juasi como uma affronta pessoal; ou ir bizarramenle com elle á scena, arrostando os preconceitos c os sentimentos do publico, sotopondo a sua arte aos juizes do vulgo, menosprezando de antemão o êxito, qualquer que elle fosse, sobrepondo a tudo a confiança na sua inspiração, a sua sinceridade de artista, a sua convicção de pensador, prompto finalmente a sorrir igualmente á victoria ou á derrota. Mas seria não conhecer os escriplores, os poetas, os artistas, os simples literatos, e, principalmente, seria desconhecer por completo José de Alencar, exigir tanto. Por mais que gritem o seu desprezo pela multidão,- por mais que proclamem o seu desdém pelo « vulgo vil sem nome », por mais que se encerrem na.

« torre de marfim » de poetas olympicos ou de intellectuaes refinados, por mais que digam que não trabalham sinão por amor de si mesmos, da sua arte, e de uma resumida escolha de iniciados, são homens, e homens mais cheios de vaidade que nenhuns outros talvez. E são todos, em maior ou menor grau, sensíveis aos applausos ou ás pateadas de uma platéa de néscios. JOSÉ DE ALENCAR 141 São como as mulheres, que nenhuma é insensível ao gabo da sua belleza pela boca mais Immilde. Louvo de coração José de Alencar por ter deixado representar o seu drama naquello momento, e sobretudo o louvo si cllo leve consciência de que fazendo-o affronlava direclamenlc a opinião, o antepunha franca e lisamente a sua concepção particular de um jesuita á concepção geral do jesuita, segundo o commum dos seus espectadores. Sempre louvarei os que, ao dominio espiritual, se insurgem com talento o sinceridade contra as idéas e opiniões feitas e correntes — mesmo que eu as tenha por verdadeiras.

Não louvo, porém, que se haja revoltado contra o desastre do seu drama e protestado contra elle numa carta publica, junta á edição da sua peça. Essa carta é sem duvida uma bella pagina de ira, de ironia, de orgulho de artista offendido, uma pagina nervosa e vibrante, um factum de eloqüência agoniada, de uma grande emoção sincera e sentida — mas, na sua inspiração geral, de um mau gosto lastimável. José de Alencar teve, mais que nenhum escriptor brazileiro, o empenho deliberado, a vontade firme, o propósito resoluto de fazer a literatura nacional. Será essa a principal significação da sua obra em a nossa historia literária. Havia decididamente nelle a intenção manifesta de ser o director de um movimento das nossas letras para a sua completa emancipação, um chefe de escola. Da sua capacidade para realizar, quanto de si só dependesse, esse intento, deu elle sobeja prova na sua múltipla e variada producção: contos, novellas, romances, poesia, comédias, dramas, chronicas, critica, além das suas obras de político e publicista.

Tinha também a fé, a vontade, a sinceridade, a constância, a perseverança necessárias á sua obra de um instituidor espiritual, mas carecia das quahdades de apóstolo, das virtudes que só podem transformar as idéas em actos, os desejos em factos, os dons de communicaçào, a facilidade do commercio, a sympathia pessoal, a arte de se dar a todos, o espirito de confraternidade literária, o calor, a expansão, a effecluosidadeprompta nas relações espirituaes. Totalmente carecia da porção de charlatanismo necessária, talvez indispensável, a todo o êxito no dominio da acção pratica. Não havia nelle nenhum cabotinismo, mesmo quando abusava no falar de si e da sua obra, no queixar-se do publico ou da critica, no lastimar-se de que a literatura e os homens de letras no Brazil não tivessem o apreço que no seu fundo amor por ella — imaginava — deviam ter. Declara elle na carta, sobre o theatro brazileiro, escripta a propósito do Jesuíta, que certos enthusiasmos nunca os solicitou. JOSÉ DE ALENCAR 143 liem pretendia roqucslal-os jamais nas letras, como na politica.

Da política não direi, mas das letras seria de todo o ponto verdadeira a sua declaração, si paginas azedas o queixosas como essa não fossem indirectamenle, pelo protesto contra a indifferença publica á obra geral da literatura nacional, incluindo especialmente a sua, um appello áquello enthusiasmo. Mas, nesse mesmo reclamo, envolvido na sua queixa amarga, desdenliosa e sobranceira, tem-se prazer em reconhecer (jue nada se mistura de charlatanismo ou de interesse sórdido. José de Alencar foi honestamente, entre todos os escriptores brazileiros, um dos mais puros amadores das letras e da gloria literária. Desta elle tinha verdadeiramente sede — mas a gloria é no fim de contas o povo, a mesma multidão, quem a dá, e elle era de facto incapaz, pela arripiada delicadeza da sua sensibilidade de artista, de requestal-a. Não serei eu quem lh'o reprove. Gomprehendo e aprecio o que ha de alto e ligno na sua reserva aristocrática, de delicadeza pessoal na sua sensibilidade esquiva aos contados laceis e equívocos.

Com taes predicados, porém, não se é chefe ou director de escola ou de um movimento literário. Apenas se pôde, como elle fez com tanto valor e convicção, pregar pelo exemplo — pregação não de todo estéril, mas cuja eflicacia a falta de intel- 144 ESTUDOS DE LITEllATURA ligencia entre o apóstolo e o publico diminue e limita. Como todos os melaiicholicos — e José de Alencar o foi, é seu o informe, desde a adolescência — os retrahidos, os misanthropos, os sensitivos, Alencar acabou por julgar-se desconhecido, menosprezado, perseguido, talvez. Impressões dolorosas desle sentimenlo feriramlhe a alma já de si dorida e puzeram mais azedume no seu espirito. O desapreço com que o recebeu a sua terra natal foi-lhe com certeza fundamente sensível. A critica lhe era insupportavel. O seu espirito alormentava-se entre a aspiração da gloria, de uma popularidade a Hugo e a Herculano, e a instincliva repulsão, sinão desdém, dos que a dão, os seus confrades em letras, os jornalistas, os leitores, que todos formam em summa o publico.

A sua mórbida susceptibilidade de nervoso, augmenlada pelo seu isolamento de acanhado, pelo seu retrahimento de desconfiado, prejudicavam-lhe a visão exacta das cousas. Salvo pelos seus pares da pohtica que nunca o estimaram, pelo sentir convencido da sua superioridade e intimamente desdenhoso delles, ou somente por ser um puro intellectual, um artista desgarrado entre elles, o publico brazileiro, tanto quanto disso é capaz, o admirava e estimava. Não o amava, é certo; nem elle era, ou lhe parecia, amável. A moci- JOSÉ DE ALENCAR 145 (lade das escolas, posso dar o meu testemunho pessoal, lia-o fiel e assiduamenle, orgulhava-se de um tal patrício, procurava o ver, com a eterna curiosidade, que é uma fôrma de culto, de conhecer o homem illuslre. A sociedade do Piio de Janeiro lera mais os seus livros, os seus folhetins, as suas criticas do que hoje lô os mais-lidos dos nossos escriplorcs. Suas peças foram ouvidas nos theatros com assiduidade e interesse; O Demônio Jamilicn^ louvaouse proverbial.

Seus romances tinham quasi todos segundas edições, e de cada um delles se j)óde dizer sem exagero que foi um successo literário. E' certo (jue moços como Joaquim Nabuco, Franklin Tavora, Sylvio Pioméro e não sei si Tobias Barreto o atacaram, o negaram. Esse ataque deveria ter-lhe sido expecialmente alTliclivo — cUe o tomaria como uma ingratidão por aquelle ({ue punha toda a sua intelligencia e todo o seu esforço espiritual em fundar a literatura pátria segundo ura molde determinadamente brazileiro. A nccrarão desses moços, porém, vinha não só da propensão natural aos moços, sobretudo numa gente incapaz de veneração ou siquer de admiração, como somos, de se insurgirem contra as reputações e glorias consagradas, mas do equivoco que a altitude de José de Alencar creara entre elie e o publico. Haveria ainda nclla a imitação do que em Portugal se passara pouco antes na revolta dos moços — então ainda se não dizia novos— contra o que um dos opusculos destes chamou as Iheocracias literárias.

Nós não éramos então, e não somos ainda agora, para compreliender e supportar a postura, de todo em todo natural e dcsarliíiciosa, de um escriptor que por temperamento evitava a popularidade banal, dava os seus livros, mas recusava a sua pessoa, e mantinlia-se aristocraticamente longe não só da multidão, mas ainda da confraria literária, e cujo orgulho, ás vezes impertinente, nem sempre tinha o bom gosto de se esconder. Um dos prazeres mais saborosos do homem ó derrubar os Ídolos. Nesse prazer revela elle a sua eterna e legitima aspiração pela igualdade, comprehendendo instinclamenlequetodaa espécie de superioridade é para ella uma ameaça e um perigo. Os jovens cscriptores, os moços que chegavam para as letras, imaginavam em José de Alencar uma hostilidade, sinão também um obstáculo. Sem o conhecerem nem o experimentarem talvez, consideravam-no ou adverso ou indifferente aos seus ensaios e aspirações. Em todo o caso, não sentiam nelie protecção e apoio, mas desdém o frieza.

Não duvidariam acclamal-o por chefe, levantal-o em grito enthusiaslico no concavo dos seus escudos, mas entibiava-se-lhes o ardor presentindo a sua recusa. JOSÉ DE ALENCAR 147 Para os políticos, os homens graves — gente que na nossa terra foi sempre hostil á alliança das Iclvas com as altas cousas da governança do Estado — a macula de Alencar era ser, sobretudo, um literato; para a mocidade das escolas, para os jovens escriptores, a mancha que o cnnodoava era ser um político e viver entre políticos. E como e-ssa mocidade era quasí toda liberal, livre pensadora, republicana, não lhe perdoava ser conservador, e conservador da velha escola, apezar das suas origens revolucionárias. De fado o Conselheiro, o Ministro de Estado, o adversário da emancipação dos escravos esfriava a admiração, a estima, o enthusiasmo da mocidade pelo autor do Guarany e da Iracema.

Ella teria acaso descoberto no dramaturgo do Jesuita um reaccionario contra a corrente liberal que, com razão ou sem ella, não questionarei, fez do Jesuita o prototypo do inimigo de toda a liberdade e de todo o progresso na ordem espiritual. Também José de Alencar nada fez jamais para desmanchar o equivoco entre elle e o publico, para fazer-se amado dos seus leitores, (juerido dos seus admiradores. Não o tentou a popularidade do Macedinho. Não saiu da sua « torre de marlim » para mostrar-se ás massas, armar á sua bemquerença, excitar o seu enlhusiasmo; mas por uma dessas contradicções que enchem a vida humana, por uma incoherencia que o seu nervosismo e a sua scnsibiUdade explicam c desculpam, lá denlro porventura deplorava, com azedume e dôr, ([ue o não viessem tirar delia para o acclamaremecelebrarem, numa homenagem que emíim saciasse a sua sede de gloria tangível, certa, fora de toda a duvida. II Na « advertência » anteposta á edição do seu drama, Alencar declara que ([uando « consentiu que o Jesuíta fosse levado á scena, bem sabia que o entregava á indifferença publica ».

Não se devem tomar muito ao pó da letra, nem acredital-as piamente, estas confissões.de escriptores, dos poetas o artistas sobretudo. Alencar desmentiu-se a si mesmo no desabafo amargo, elo(juente e commovido com aue respondeu áquella indifferença do publico. Ha nessa bella pagina, bella pela paixão sincera que a inspirou e lhe deu as excellencias raras de expressão que a exornam, máculas deploráveis de idéas errôneas e faltas de gosto. Si a cólera fez vibrar a penna do prosador com accentos da lyra indignada do poeta, empanouIhe também a nitidez da visão e até do discer- JOSÉ DE ALENCAR 149 nimenlo do pensador o do arlisla. E apezar de se não illudir sobre o motivo principal e puramente esthetico do mau successo do seu drama — o seu antagonismo com o critério predominante no theatro e com o sentimento commum do publico — o attribuiu Alencar á falta de patriotismo dos Brazileiros, á hostilidade do elemento portuguez, e, sobretudo, a uma cabala maçonica.

Reduzida a outros termos a questão, e bem entendida cada uma destas causas sociaes de que o dramaturgo fez factores da desfeita que soffreu, não contesto que tivesse razão. Lamento apenas que, tendo-a, a perdesse pelo exagero, pela desproporção, pela excesso, pelo mau gosto, em summa, da sua indignação e das suas queixas. Somente o escusa que elle não era um simples escriptor, exercendo o seu officio sem outra preoccupação que a puramente artística ou literária de fazel-o bem, mas se dera a si mesmo o papel de creador de uma literatura que mui sinceramente sentia alcançada pelo desastre de sua obra. Um nativismo apoucado, que a esse tempo já tinha acabado o ainda não renascera no Brazil, se infiltra no nacionalismo de Alencar, e elle reclama para a obra de arte a protecçào do patriotismo, um patriotismo de rua, que a gente se assusta de ver convocado por tal espirito a manifestar-se, nos theatros e livrarias, como ao tempo se' manifestava nas igrejas e sacristias nos dias do eleição.

O que o punge no seu desastre, não é — poder-se-ia suppor — o desconhccimenlo, a indifferença do publico por uma obra literária, leila com amor e sinceridade e onde oUe poz, na fôrma mais bella que lhe foi possível, o seu sonho de belleza, mas que o « publico hybrido desertou da representação de um drama nacional, inspirado no sentimento patriótico, para affluir aos espectaculos estrangeiros ». E mais adiante rcflecte ainda: — « Si a corda do enthusiasmo patriótico vibrasse no seio das nossas platéas, bastariam para enclier um drama e animal-o, os anhelos do Brazileiro pela independência de sua terra natal, um século antes desse acontecimento. » Como é que Alencar, espirito tão altivo perante a multidão, temperamento delicado e ílno, verdadeira alma de artista, poude pensar sinceramente e escrever de boa fé similhanle desacerto? A arte se rebaixaria si descesse a taes esperanças e a taes solicitações; si contasse para os seus triumphos com a excilação, sinão a exploração, dos sentimentos previstos do publico.

Que parte ficaria, demais, ao artista si ao successo da sua obra bastasse para encliela e animal-a o enthusiasmo patriótico das platéas? Sem pensar, o dramaturgo do Jesuíta tocou aqui naquella inferioridade do theatro, JOSÉ DE ALENCAR i51 posta em evidencia pela historia literária, a sua submissão não já ao objecto, mas ao publico, ao resultado favorável que é preciso, mediante concessões e transacções com o seu gosto, obler. Certamente ha sempre na arte uma parte que é da tendência, do espirito do tempo, uma porção institucional, como diria um novo historiador da esthetica literária, de concepções, de idéas, de eslylo, que não pertencem de próprio ao artista. Não fora assim, a arte não seria social, não definiria a vida, não seria a expressão da sociedade. Reconhecel-o — e quem o desconhecerá? — não amesquinha de modo algum a personalidade do artista, que, si elle é grande, pôde permanecer distincta e superior ás determinações do seu meio e educação, sem embargo de lhes soffrcr a influencia.

Mas seria um mofino artista o que para o successo da sua oJjra contasse de antemão com o sentimento do pu])lico. Magro e demeritorio Iriumpho seria o seu. Alencar, felizmente, não c desses artistas- não foi um revolucionário, sinão no seu propósito desarrazoado de romper com a litcralura portugueza, c nas suas rebeldias sem êxito contra a mesma lingua de Portugal, mas foi um artista pessoalmente independente e sobranceiro a especular com as disposições favoráveis das lurbas. Com o mallogro do seu ultimo drama, elle sentiu-se individual- menle perseguido '-— senümento natural num nervoso e solilario, qual elle era. E a cabala se lhe afigurou organizada conlra o escriptor que mais que nenhum se empenhava na completa emancipação da literatura nacional, e que agora na peça em má hora representada celebrava a ideada independência de sua pátria e ao mesmo tempo, conlra o senlimento geral, fazia de um jesuíta um typo generoso e benemérito.

A maçonaria, « essa puerilidade de homens barbados », como admiravelmenlo lhe chama, composta em sua maioria de Portuguezes, estaria á frente da cabala, que se realizava no theatro, cuja platéa era também em maioria portugueza. Diantp deste facto, que a sua sensibilidade exagerava, a cólera do Alencar explodiu nessas paginas, que são um documento do mais alto interesse para a sua psychologia e para a nossa historia literai'ia. A cólera, porém, é má conselheira, e alterou a sanidade do espirito do escriptor a ponto de lhe fazer escrever esta frase: « E' certo que não appareciam os dramas originaes; mas por culpa do Governo. Mais por diante, quando occupar-me do misero estado de nosso theatro, direi o modo, aliás muito simples, de termos excellentes autores dramáticos. » Similhante afiirmativa basta para mostrar quanto a sua funda paixão pela literatura nacional, excitada pelo desgosto do desastre JOSÉ DE ALENCAR do seu drama, lhe turbou a clareza do espirito.

A despeito das épocas de opulencia literária indevidamente appellidadas pelos nomes dos soberanos que as presidiram, Pericles, Augusto ou Luiz XIV, sáo os governos absolutamente impotentes para promover o apparccimento de « dramas originaes » e ainda mais para crear « autores dramáticos excellentes ». De todos os factores que podem iniluenciar directamente no progresso de uma literatura, ó seguramente a administração publica o menos considerável, sobretudo desde que um povo se faz mentalmente adulto. Si o drama O Jesuíta caiu redondamente ante aindifferença ou má vontade do publico, a critica foi-lhe em geral mais propicia que desfavorável. A imprensa não fez o silencio em torno delle, que é a maior injustiça ou a maior affronla que possa fazer a uma obra do valor. O próprio Alencar não desconhece a sympathia com que o trataram uma e outra.

Um dos críticos mais apreciados do tempo, Luiz Leitão, espirito enthusiasta da literatura nacional de que Alencar quizera ser o creador, não hesitou em chamar ao Jesuíta « uma das concepções mais grandiosas do cérebro humano », e pol-o acima do Frei Luís de Souza, de Garett, que aliás emparelha com o Calabar, o Fronteiro da África e o Gonzaga. Não merecia o drama 15'i ESTUDOS DE I.lTERATOriA de Alencar, ni cet exccs cVhohneur iii cette indignité — nem aquella hoslilidade, nem esles louvores desmarcados. Na obra dramática de Alencar ntão é a melhor, mas é porvenlura a mais forte, a mais trabalhada, aquella em que o autor deu mais de si, cm' que é mais evidente o seu esforço de fazer uma grande obra de theatro. O que vale como tal, confesso, não sei dizer. A minha impressão, porém, é que lhe faliam qualidades thealraes e que somente adores de grandes capacidades scenicas lhe poderiam dar o relevo, a vida, o movimento que as condições especiaes do theatro exigem. Si esta minha impressão é exacta, explica-se por metade a deserção do publico das suas poucas representações.

E si dissermos que, com patriotismo ou sem ellc, não havia no Ilio de Janeiro publico para ouvir o apreciar um drama literário, simples, sem apparato nem complicações melodramáticas e demais antipalhico pelo protogonista ao seu commum sentimento, quasi não precisamos para explicar-llie o desastre da cabala maçonico-portugueza. Apenas cila, e não nego que a houvesse espontânea, natural, sem premeditação, nem calculo, lhe daria o i'esalto e a significação que Alencar exagerou. Da indifferença do povo brazileiro pela suas JOSH DE ALENCAR 155 cousas, principalmenlc por aquoUas, como a literatura, cuja importância e interesse escapam ainda por completo d sua intelligencia rudimentar e á sua cultura incipiente, todos nós que escrevemos nos temos queixado ou nos queixamos. Mais discreto seria vcriíicar o facto e mesmo lamental-o, que nos queixarmos de nós mesmos, compreliendendo que não seria avisado esperar de nós outra cousa. Não é do nosso estádio de civilização c cultura que poderiamos esperar mais.

A nossa mesma sociedade chamada culta ainda não entende os nossos interesses espirituaes, ou não os sente siquer. Não cogita ao menos da sua existência ou ainda da sua possibilidade de existir a massa popular, na máxima parte ignara. Que de estranho ha, pois, que não acuda o nosso povo ás peças nacionacs, sobretudo si ellas são literárias e fora do alcance da sua percepção? Não lhe façamos de todo injustiça. EUe foi com assiduidade e prazer e, posso accresccntar — com patriotismo — ouvir as tragédias de Magalhães, as farças de Martins Penna, as peças de Macedo e do próprio Alencar. Nunca o theatro brazilciro foi tão florescente em autores e peças e, si posso dizer, em espectadores, como no período que vai da sua fundação com os dous primeiros á sua decadência, depois dos dous últimos escriptores. Já algures disse, quaes me pareciam, as causas deste phcnomeno (1). Não vollarei a indagal-as, mas o 1'acto da existência de uma época mais brilhante do nosso theatro que a dos annos de 1870 para cá me parece incontestável.

Si o Brazileiro, como o accusa José de Alencar nadefezado seu drama, não corre ao theatro nacional, não applaude incondicionalmente a peça nacional e lhe prefere a estrangeira, isso é antes com o seu gosto que com o seu patriotismo. Por mais rudimentar e grosseiro que seja o seu gosto, fundar-se-á cm razões ou terá causas que nós, eu ao menos, não saberemos talvez peneirar. A psychologia do gosto e das predilecções do publico é, com effeilo, difficil de acertar com ella. O patriotismo, e direi melhor, o sentimento nacional, cousa mais intima e mais funda que a virtude política chamada patriotismo, entra por certo nella, mas as condições e proporções em que entra e em que age, escapam talvez a uma apreciação exacta. Parece-me, porém, um erro que precisamos expurgar, trazer para as prcoccupações e questões literárias e artísticas o patriotismo. Com a sua significação política, é um sentimento anti-esthelico, e pôde ser em arte uma virtude negativa. Foi com elle que (1) V. Martins Penna e o theatro brasileiro na segunda serie dos Estudos de literatura brasileira.

JOSÉ DE ALENCAR 157 Pariz durante aiinos recusou ouvir as obras de ^^'ayner, e é com elle quo dramaturgos sem laleiilo conseguem em toda a parle triumphos quo envergonhariam sempre a um verdadeiro artista. E' um recurso ao alcance de todos, ainda dos mais mediocres, para commover as massas. Ainda ha pouco a critica franceza — e os Francezes são os proüssionaes do patriotismo — quasi unanimemente reparava que o^ Sr. Rostand se houvesse tanto delle ulihzado no seu Aiglo/i, diminuindo assim o valor da emoção que a sua obra produzia, e sobretudo a qualidade dessa emoção. Deixemos em literatura e arte o patriotismo de lado. Não quero dizer que elle não possa ser um elemento esthetico, como qualquer paixão ou virtude humana, mas ao artista cabe fazel-o tal. Tarefa aliás difíicil, justamente pela facilidade com que elle se presta a esse emprego. Mas sobretudo é preciso banil-o da apreciação literária — e não cair no erro de José de Alencar. Ser patriótica é dos últimos merecimentos de uma obra de arte literária, e é certamente o minimo do Jesuíta.

Cumpre-nos estudar a nossa literatura com amor, mas sem nenhuma preoccupação desse gênero. Estudal-a com a mesma indifferença dos resultados, com que estudaríamos outra qualquer, não já das maisillustres, sinão das some- 158 ESTUDOS DE LITEKATUIIA nos, e procurar julgal-a com imparcialidade o justiça, apenas de um ponto de vista de extrema relatividade, sem esquecer o que somos ethnica, histórica c moralmente, sem perder de vista a insigniíicancia da nossa cullura e as possibilidades, forçosamente limitadas, do nosso espirito. A mim, é certo, ellame interessa mais que nenhuma outra; mas não como expressão emotiva geral,, ou fonte de belleza eslhelica — e como tal bem pouco me interessaria — mas como a expressão, a definição, a representação da minha terra e da minha -gente.

Alencar resumiu e explicou com vagar e amor o seu drama, e chegou á conclusão de que elle lhe K saiu tão felizmente urdido no seu contexto que as mesmas figuras secundarias são indispensáveis.», Quando um autor tem da sua própria obra uma opinião tão lirme, a critica se lhe torna de todo impertinente, e elle a rebate com explicações que forçosamente hão de exceder os limites da modéstia c do bom gosto. « A obra de arte deve dispensar commentarios do autor, e a intbrmação condescendente do que lhe quiz pôr. Ao publico incumbe aprecial-a e descobrir quanto ella encerra, sem que lhe soprem os seus juizos, ou que procurem dictar-lhe a sua admiração. » Esta reflexão applica-a o Sr. Emílio Michel á obra das bellas artes; com maioria de razão me parece cabível ás da arte literária. JOSi; DE ALENCAR 159 cujos meios de expressão são mais vastos. Explicando o seu drama, Alencar excedeu a sua funcíjão de arlisla, e fez-se o critico de si mesmo, critico forçosamente suspeito de demasiada parcialidade.

Vale a pena ler o drama; ha nelle pelo menos duas qualidades notáveis: simplicidade e força, além das qualidades literárias do autor. Afora as suas praticas systemalicas no escrever a lingua, a sua tem nesta obra uma sobriedade, uma energia, uma elegância e uma limpidez quasi dignas de um Garrett. Não se deve, creio, levar á sua conta senões como « eu lhe amo » e que taes, poucos, e que se não repetem. A construcção e o boleio da sua frase são porluguezes de lei, apenas com as indefectíveis modiíicações do tempo e do lugar. O próprio drama, á leitura ao menos, é bem construído, a sua urdidura, como elle próprio notou, bem feita. Mas, á leitura, e talvez o seja menos na representação, não é empolganle, falla-lhc virtude communicativa, e emotividade; a sua força, que a tem, é por assim dizer, toda literária. Mas a originalidade, a distincção do drama está na sua concepção mestra, fazer de um jesuíta um precursor da independência do Brazil, na metade do século XVIII.

Foi a pedra de escândalo de uma parte da critica e do publico, cuja opinião ordinária sobre o jesuíta se exa- gerava e confirmava com os aconlecimenlos do momento. O escriplor, porém, tinlia o jus de fa/el-o, e de conceber um jesuíta inflammado dos mais generosos sentimentos patrióticos e de independência nacional. Que laes sentimentos podem caber na alma de um jesuila, ahi está o exemplo do padre Antônio Vieira a moslral-o. Quem mais patriota, quem mais amigo da independência da sua pátria que clle? Mas para ficar na realidade, e o fim declarado de Alencar era não sair delia, cumpria que o seu jesuíta fosso patriota e liberal na medida em que o pôde ser ura jesuíta, em que o poude ser Vieira, por exemplo.

Para tornar verosimil o seu jesuíta, duas maneiras se offereciam a Alencar de concebel-o; fazer delle um falso jesuíta, que apenas se quízesse aproveitar da influencia e poder da ordem para a causa a que votara a sua vida e intelligencia, fazendo-a seu instrumento, ou imaginal-o como um jesuila convencido, sonhando, como os seus irmãos do Paraguay, um Estado jesuitico, uma nação que elle creasse ad majorem Dei gloriam. Alencar o concebeu como um jesuíta perfeito. O Dr. Samuel (chama-se assim o seu jesuíta) « ó a companhia personificada ». Não me parece. Vieira era um patriota, mas queria que a pátria fosse a grande estância do jesuílismo, e que nella tivesse em tudo a companhia preponderância, e JOSÉ DE ALENCAR 161 por isso alreveu-se a lutar com a Inquisição e a escrever as paginas generosas em prol dos judeus e da mesma liberdade de consciência e de cultos, paginas alias de polilico qu& via que taes medidas dispensavam a Inquisição dominicana e entregavam aos jesuítas o dominio espiritual pelos dominicanos exercido.

Vieira ardia pela independência de sua pátria, quando o hespanliol a dominava, mas com um príncipe affecto d companhia e devoto seu. Na sua fé e ardente apostolado elle não separava a pátria da sociedade de Jesus. A linguagem que Alencar empresta ao seu protogonisia, não nos deixa suppor que esses fossem os seus sentimentos; elle fala como falaria Tiradentes; não ha sombra da doutrina especial e nilida dos jesuítas nas suas palavras, nem na sua emoção. Os.seus pensamentos e a expressão que lhes dá, não são da sua época, nem do seu instituto, mas modernos e leigos, do um patriola ardente, si quizerem, mas em quem, si não nol-o dissesse o dramaturgo, se não descobriria vislumbre de uma alma de jesuíta, agindo segundo as inspirações da sua doutrina, para gloria de Deus e bem do seu instituto, do qual jamais se esquecia mesmo quando mais estranhos a elle pudessem parecer as suas vontades e actos. E', ao meu ver, a falha essencial do drama de Alencar; mas essa obra, em todo o caso

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