Os holandeses no Brasil: a propósito de "O Príncipe de Nassau" Estudos de Literatura Brasileira: 3ª Série · Capítulo 12 de 14
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Os holandeses no Brasil: a propósito de "O Príncipe de Nassau"

XII os HOLLANDEZES NO BRAZIL. O Príncipe de Nassau, Conde João Maurício, Governador do Brazil neerlandez. Ensaio biograpliico, por M. T. N. A. Este livro, publicado na AUemanha pelo Sr. Manoel Thomaz Alves Nogueira, dá mais do que promeLle. Não é um simples ensaio biogTaphico, como indica o lilulo, do illustre magnata, sinão um escorço da historia da Hollanda nas suas heróicas lutas contra o dominio hespanhol na Europa, e do Brazil hollandez, desde o começo das tentativas hollandezas contra esta possessão portugueza da coroa hespanhola até á expulsão do invasor. Era preciso um especial talento do syntliese para expor em 298 paginas, in-16, e typo grosso, tão largos e complexos acontecimentos sem sacrificar a cia- reza e a boa ordem do discurso. Esse sacrifício não o evilou o Sr. Tiiomaz Alves. A architeclura do seu livro é defeituosa, a sua contextura algumas vezes falha. Seu livro não tem siquer um Índice, cousa que hoje só se verá em um livro brazileiro.

Este foi alias impresso na Allemanha, e traz um retrato do seu heróe, em plena virilidade, que aliás bem pouco se parece com o da celebre pintura de Francisco Post. E' antes obra de vulgarização, e como tal, sem embargo daquelles senões, estimavel, que propriamente obra de erudição. O autor não justifica nenhuma das suas asserções com citações de fontes ou autoridades, o que só em obras puramente do vulgarização se admille, porque então so suppõc que não contem sinão o que ha do apurado e certo no assumplo. Não parece, aliás, que nesta haja novidades, que carecessem justificadas por citações. O autor, aliás, acede de antemão a este reparo, declarando o seu livro decc leitura popular « e resultado « da laboriosa investigação de eruditos ». Eu por mim lastimo que, tendo tudo o que SC precisa para dar um valioso trabalho de erudição sobre o- Brazil hollandez, se houvesse o sr. Thomaz Alves limitado a essa obrinha de vulgarização, aliás, sem embargo das nossas -divergências, boa c útil.

Essa historia, apezar dos meritorios trabalhos de Varnhagen, que os IIOLLANDEZES NO BRAZIL ainda são o quo de melhor temos sobre o assumplo, está deficientemente feila. Os fragmentos publicados pelo Sr. José Ilygino bastam para mostral-o, e pena realmente é (pie o Sr. José Hygino, com o vasto e profundo conhecimento que tem da sua parte inédita, que explorou nos Archivos hollandezes, e o seu saber da lingua hollandeza, nào nos dê a historia completa e certa do Brazil neerlandez. Em uma obra para leitura popular, não me pareceu bem a novidade de nmdar, sem nos'dizer porque, denominações consagradas, e que, si não mo engano, não são erradas. Assim porque casa de Orania, Guilherme de Orania, em vez de Orangc, como sempre se escreveu cm portuguez, e se escreve nas línguas latinas, e ainda em inglez, e que me parece o certo, pois o nome é francez, e vem, como sabe o autor pertinentemente, de um principado ao sudeste da França, antecedentemente um senhorio, existente já no IX ou X século, e que primilivamente, no tempo dos Romanos, se chamou Arausio?

João de Barneveldt, e não João de t31denbarneveldt, chamaram sempre os historiadores francezes e inglezes, e acosturaámo-nos nós sempre a lêr e a dizer na nossa lingua, ao l^rande Pensionario de Rotterdão, que tanta })arle teve na luta contra os Hespanhóes, embora vaibamos que elle se chamava van Olden-Bar neveldt. Que vantagem ha cm mudar, nesse livro de vulgarização, estas denominao-ões assentadas? No meu fraco juizo, porém, o defeito capital do livro do Sr. Thomaz Alves é a falsa luz a que elle viu o caso dos HoUandezes no Brazil. EUe lem pelos líollandczes umasympalliia,.uma preferencia, que lhe vicia o juizo e lhe não deixa ver que entre os contendores, luso-hespanhóes, como chama aos habitantes do Brazil, e o Hollandez invasor, expugnador da gente que occupava a terra, incendiario dos seus campos, perseguidor da sua religião, matador das suas mulheres e seus filhos, roubador dos seus bens, a justiça estava inteira e indiscutível com os do Brazil. Porque sympathiza o sr.

Thomaz Alves com os HoUandezes que na Europa souberam defender com tanto denodo e heroicidade a sua terra e a sua liberdade do ominoso dominiohespanhol? Porque elles defendiam essas duas cousas, e mais a sua religião, a sua tradição, a sua raça. Pois o mesmo faziam os Porluguezes, moradores ou nacionaes do Brazil, com a differença jurídica a favor destes que lá os HoUandezes cairam sob o dominio da Hespanha legitimamente, segundo o direito do tempo, aqui essas populações foram atacadas de surpreza, conquistadas com violência e tratadas segundo a barbara lei da guerra de então. os HOLLANDEZES NO DRAZII, 233 O Sr. Thomaz Alves tem o vulgar preconceito de ^que ao Brazil fora melhor vingasse a conquista hollandcza.

A um homem que é uma das nolabilidades scienlificas da Hollanda, physico dislincto, principalmente na especialidade do magnetismo terrestre, e demais sociólogo, autor de estudos e viagens na Auslralasia c especialmente na sua parte neerlandeza, e de uma viagem ao Brazil em dous volumes, que me disse quem a poude ler no original será o mesmo lempo muilo interessantctc e pouco agradável para nós, o Sr. RyckevorseJ, si lhe não erro o nome, communiquei eu uma vez esta opinião brazileira, que aliás sempre livc por errada, para não dizer mais. Respondeu-me elle que isso lisongeava o seu amor próprio nacional, mas que era um erro nosso. — Porque? — Porque si nós houvéssemos dominado o Brazil, expulsando delle os Portuguezes, os senhores não existiriam. Tomei a resposta por um rasgo de vaidade nacional, comprehondendo quizera elle significar que não haveríamos podido jamais conquistar a nossa independência. — Não é isso, disse-me elle. E' que nós não poderíamos viver e prosperar no Brazil. Não supportariamos o clima, degeneraríamos á segunda ou terceira geração.

— E as possessões hollandezas da Malásia? — São meras colônias de exploração. Nós não somos de facto um povo colonizador, no sentido que o são O Hespanhol, o Portuguez ou o Inglez. Em Java e em Sumatra são poucos os HoUandezes, e esses, por lei ou costume, regressam periodicamente á Europa para se refazerem. Os que não o fazem desapparecem em pouco tempo. — E perguntou-me: — Conhece o senhor aqui no Norte uma familia da Europa scptentrional, estreme de cruzamento, em segunda ou terceira geração? — Os HoUandezes cruzariam. — Não, não cruzariam, nem trariam mulheres. Fariam trabalhar á força a população indígena, como fazem no Extremo Oriente. Reproduzindo esta conversa, tenho certeza de não ter traido ou siquer alterado, de mais ou de menos, o cxacto pensamento do iliuslre hoUandez. Pelo mesmo tempo lera eu, cm uma revista franccza, uns artigos do publicista hollandcz Roorda van Eysenga, terríveis contra o regimen colonial neerlandez, que acrel-o era muito peior que o hespanhol.

Nas colônias da Hollanda, o indígena é de facto escravo, pois é obrigado a trabalhar em um gênero de cultura determinado, para o governo ou contracladores, por um salário miserável. Nesses artigos entre outras autoridades citavam-se os livros do Sr. Ryckevorsel e os celebres romances da vida colonial do famoso escriptor hollandez Mullaluli. Depois tenho lido mais sobre a colonização hollandeza, e vêm-me calafrios pensando o que os nossos os IIOLLANDEZES NO BUAZIL '>?..antepassados teriam soffrido desses duros calviiiistas fleugmaticos e demasiado convencidos da sua superioridade de raça. O que os Boers fizeram com os negros do Sul da África nos diz o que elles aqui teriam feito com os « pobres Brasis ». Quo seria dn ninioria desses Braziloiros que ainda hoje lastimam a sua expulsão, c cujos antepassados andariam bem perto do matio ou da senzala?

Nem se allegue a prosperidade econômica das colônias hollandezas; nem é tal essa prosperidade que oflusquo os vicies profundos dessa colonisação, nem penso que progressos materiaes, por grandes que sejam (e não é também o caso nessas colônias) sejam prova de verdadeira prosperidade, que só é a moral. Realmente, a sitpação das colônias neerlandezas nada tem de florescente, e de facto, no Brazil, salvo o caso e.Kcepcional e extraordinário de Maurício de Nassau, elles se mostraram colonisadores incapazes, de curtíssimas vistas, conquistadores inintelligentes. Nao ha maior erro do que julgar, pela administração desse grande príncipe, ou antes pelo seu alto e generoso programma de governo, incapaz de realizar, no curto período de seis annos, a administração hollandeza. Elle é uma excepção verdadeiramente singular, um espirito de rara cultura, e de larga envergadura e ambições de estadista, que commetteu o generoso erro de querei' governar uma colônia, segundo o pensamenlo dos seus donos, de pura exploração, com iniuilos de homem de Estado.

Assim a sua gloriosa adminislração, que aponlava a fazer uma Nova HoUanda, nunca de lacto agradou aos mercadores da Companhia das índias Occidenlaes, que, em má hora para elles, pensariam convencidos, cá o mandaram. Do seu estreito c venal ponto de vista commercial, a administração do príncipe foi desastrosa á Companhia, cujas rendas lá se iam em dilatar a conquista, em construir c cmhellezar o Recife, cm estudos scientificos do paiz, cm angariar os nacionaes. Aquelles tralantes, como então ainda diria algum antiquado portuguez, o que queriam eram bons dividendos e não podiam siquer, na sua sórdida cupidez, comprehender os escrúpulos de Nassau em não tosquiar alé á pello as ovelhas indígenas, em não forçar a arrecadação da sua divida para com a companhia, e em não augmentar os impostos. Dos seus compatriotas, dizia elle, no seu testamento pohtico deixado aos seus indignos substitutos no governo, que era preciso respeitar-lhes « a bolsa como um sanctuario; elles antes querem perder a vida do que perder o dinheiro ». E' legitima a admiração pela conde Maurício de Nassau.

Os seus dotes de político, as suas capacidades de homem de Estado, as suas con- os 11ÜI.LANDEZES NO BIÍAZIL 237 cepções de administrador, como as suas idéas de philosoplio, são de muilo superiores á dos governanlcs do seu lempo, c sobretudo dos governadores coloniaes da sua éra. O seu testamento polilico ou inslrucções deixadas aos seus successores são um documento demonstrativo das suas altas capacidades e dos seus bons sentimentos de estadista. E não são palavras mentirosas de programmas e promessas de politico, mas conceitos que foram por clle praticados durante o seu governo. Desse documento dá o Sr. Thomaz Alves o que chama t uma desbotada transcripção c resumo dos tópicos principaes x. Não lhe approvo o processo, tanto mais que, comparando-o com a traducção integral que delle deu na Revista do Instituto, tomo 58, o Sr. José Hygino, me pareceu de íacto « desbotada » e insuííiciente a transcripção do Sr. Thomaz Alves. Mesmo em um livro popular, fora preferivel que elle houvesse dado i/i extenso o precioso documento.

Póde-se afoitamente affirmar que, nào foram os annos do sábio governo de Maurício de Nassau, a occupação e dominio dos Hollandez no Brazil não teria durado os curtos 30 annos que durou. K o havel-os os luso-brazileiros repulsado de uma vez, quando aliás minguados e mesquinhos eram os soccorros da metrópole, que quasi os abandonou, basta como prova, na ESTUDOS DE MTEIlATUilA occasião e naquella conjunctura, da sua superioridade sobre os Hollandezcs. Nào me turva o entendimeiiLo nenhum preconceito patriótico, que nenhum lenho; mas convenço-me de que com a preconisada colonização holhmdeza não seriamos a nacionaHdade que somos, uma das mais compactas e homogêneas da America, pelo cruzamento physico e moral que aqui fizeram as raças que a formaram. Que deixaram, aliás, os Hollandezes, mesmo Nassau, depois de mais de vinte annos do dominio? Sei que o espaço é pequeníssimo para se lhe exigirem signaes da sua passagem por aqui; mas nem vestígios, por mínimos que fossem, logrou a erudição nacional encontrar.

De sorte que verdadeiramente o dominio hollandez tem apenas na nossa historia uma importância indirecta, reflexa, si assim posso dizer: a de ter sido a provocadora do sentimento nacional no Brazil. Foi ao impulso da resistência ao invasor estrangeiro que os Brazileiros se sentiram uma pátria e, si não me engano, é dahi que data para nós essa cousa e essa palavra. Todas as raças que no Brazil concorriam para a formação de uma nação, tomaram parte nessa luta, sem embargo da frouxidão da metrópole, « desobedecendo ao rei para melhor servir ao rei. » índios, Negros, Portuguezes e Brazileiros os HOLLANDEZES NO I3RAZIL bateram-se conscientemente com igual denodo pela mesma terra, que todos consideravam sua; e si o bom procedimento de Nassau com os nacionaes, si quanto empregou para angariar a sua bemquercnça, logrou desarmal-os por algum tempo, nunca de facto lhes venceu a vontade e a resolução de não serem da Hollanda. Mal partido elle, a revolta recomeçou, e desia vez para a reconquista definitiva da sua terra, da sua religião, da sua liberdade.

Esses insurrectos Henrique Dias, Camarão (que nao sei porque o Sr. Thomas Alves escreve, ao contrario de toda a gente, Gamaram), Vidal de Negroiros, João Fernandes Vieira, Barreto de Menezes, seus cabos e seus soldados eram os nossos gueux, balendo-se por uma causa tão justa como a por que se baliam os da Hoilanda. Nem outro pôde ser, e não será o critério do verdadeiro historiador, mesmo Hollandez, como não é, por exemplo, o do historiador ingiez (veja-se Goldwin Smith, dos mais illuslrcs, por exemplo) recontando a luta da independência das colônias da Nova Inglaterra, hoje Eslados-Unidos. A falsa luz em que se pozo Sr. Thomaz Alves, fel-o não comprehender o facto hollandez no Brazil, e á conta da sua justa admiração pela HoUanda, terra de scicncia e cultura, refugio da liberdade de consciência, e pelo Conde de Nassau, considerar a tentativa neerlandeza no Norle do Brazil sob um aspecto inexaclo. Ninguém escolhe seu pai, o que só por si torna pueril esta desarrazoada nostalgia de não lermos provindo do Hollandez. O erro do Sr.

Tliomaz Alves leva-o a tentar justificar mais uma vez a traição de Galabar. Que pensaria o Sr. Nogueira de um gucux da HoUanda que por preterir o dominio hespanliol ao governo nacional se bandeasse com os castelhanos, pondo-sc a seu soldo contra os da sua terra'? A ninguém acudirá negar a superioridade de civilização, de regimen político, de força c prestigio da Inglaterra sobre as republicas africohollandezas. Seria ou não um traidor o Bôer que, assim pensando, abandonasse as fileiras onde batalhava pelos seus e se passasse aos Inglezes? Si o Sr. Thomaz Alves e os que pensam como elle fizessem taboa rasa da noção de pátria, de familia, de língua, de tradições, de raça, de religião, eu os comprehenderia; não, mesmo assim não os comprehenderia; porque mesmo um Kropotkine, um llcclus, já não digo um Tolstoi, si escrevessem dos Hollandezes no Brazil, seriam pelos nossos. Galabar é um traidor em toda a força do termo, com as idéas de então c com as idéas de hoje. Foram vis e infamantes os moveis que o fizeram bandear-so com os Hollandezes.

Mostrou-o Varnhagen, e o repetiu ha tempos o mais sa- os IIOLLANDEZES NO BKAZIL bedor dos estudiosos da nossa historia, em uma das suas eruditas Revistas históricas publicadas no Jornal do Commercio. E' estupendo que uni homem do saber e juizo do Sr. Thomaz Alves escreva destes conceitos: « Tornava ainda mais lugubre este especíaculo (a guerra feroz que se faziam em 1635 Portuguezes e Hollandezes) a associação de dous elementos estranhos a uma e a oulra parcialidade e alheios ao sonlimenlo chrislão; os Africanos, entre os quaes não tardou a sobresair Henrique Dias, pugnavam em ambos os campos em prol tia escravidão da própria raça; os Índios, cujo chefe mais saliente foi Poty (Anionio Philippe Gamaram), persistiam na estulta pratica de ódio reciproco, quando unidos Tupinambás e Tapuyas poderiam recuperar a primitiva autonomia e varrer do solo avoengo antigos e novos vindiços. » Como?

Haverá quem, não ignorando de todo a historia do Brazil, e a historia geral, imagine que uma alliança daquelles broncos selvicolas, no mais baixo período de selvageria, armados de arcos e flechas, pudesse expulsar da sua terra Porluguezes e Hollandezes, e naturalmente constituir aqui um Estado lloresccnle que por intuscepção, tirasse de si mesmo uma civilização rigorosamente indígena? Onde, om que tempo, em que paiz já aconteceufacto igual? Nunca o jacobinismo nativista atirou a barra tão longe. E' um erro do Sr.

Thomaz Alves só falar cm população porlugueza quando traia dos habitantes do Brazil, que tào denodada e pertiiiazmente se oppuzeram ao domínio liollandez; não só Porluguezes como Ferdandes Vieira, Barreto de Menezes que fizeram do Brazil sua terra, que por ella desde moços batalharam, que aqui edificaram, cultivaram, fizeram familia, morreram, mas brazileiros, como Vidal de Negreiros, Luiz Barbalho Bezerra, Mathias de Albuquerque, sem falar em Gamarão e Henrique Dias, que todos se irmanaram no mesmo sentimento de oppugnação ao estrangeiro, que para todos era, sem dislincção alguma, o Hollandez, todos se sentiam de uma mesma pátria. Bem andou Varnhagen chamando sempre aos luso-brazileiros « os nossos ». O mais pensador dos nossos historiadores, João Lisboa, tratando da invasão hoUandeza no Maranhão, tem também a mesma' concepção de que, combatcndo-a, a população combatia pela pátria, e que atinai melhor foi para nós a victoria dos Portuguezes sobre os Francezes e Hollandczes. Ha ainda no livro do Sr.

Thomaz Alves outras asserções no meu parecer errôneas ou exageradas, como a que « data da esclarecida administração do Conde de Nassau o verdadeiro descobrimento do Brazil » e frases destas, pura rhetorica, sem realidade objcctiva: « O terreno os HOLLANDEZES NO BRAZIL 243 cm que devia irradiar esta luz, (o espirito de Nassau) era cuidadosamente amanhado, o ensinamento do povo effectuava-se pela acção benéfica da escola, pelo influxo salutar da imprensa livre. Assim despertou-se nas terras de Pernambuco a especulação scientifica, o gosto das artes, o culto da natureza. » Nao é exacto. Muito confundiu o autor no seu panegyrico do príncipe as suas boas intenções com os seus actos. Nem elle teve tempo o vagar para fazer tanta cousa, apezar de ter feito muito, e ler sincera vontade de fazer mais. E' duvidoso que fundasse escolas ou pelo menos que essas tivessem realidade. Qual seria a população escolar e quaes os mestres '? Que os Hollandeze? não introduziram a imprensa no Brazil é hoje certo, e a frase do Sr.

Thomaz Alves indicaria que havia alé jornalismo no Recife, ou em Mauricia, como elle prefere se continuasse a chamar á velha cidade de Duarte Coelho. Nem o avisado governador despertou nas terras de Pernambuco a especulação scientifica, e o mais que enumera o autor. Elle ti'ouxe comsigo uns scienlistas o artistas, que trabalharam sobre a terra, mas alheios a ella,que não fizeram discípulos, não crearam imitadores, e cujo íito era somente o de informar a Europa da nova natureza. São eminentes os seus serviços á sciencia, e ao conhecimento de certos aspeclos do Brazil, mas ficaram desconhecidos e inúteis para o Brazil de eníílo. Gomo se pôde dizer que^ iiouvesse Nassau despertado em Pernambuco « a especulação scienliíica, o íJOSIO das arles, o culto da natureza? » Que provas ou documentos lia disto? Nenhuns, somente elle e a sua meia dúzia de sábios e artistas, em toda a colônia, entre Hollandezcs e Portuguezes, se occuparam de sciencia, de arte, da natureza.

Os seus outros patrícios, como os nossos, apenas chatiNáo nos illudamos sobre os beneíicios que acaso nos poderia trazer o domínio hollandez. Esse domínio, em primeiro lugar, só se poderia firmar com o sacriliclo completo da nossa gente e da nossa nacionalidade incipiente, e não se consolidaria jamais sinão por um férreo regimen militar dominando o indígena, c os poucos moradores de origem portugueza, que ainda restassem, e uma larga importação de escravos africanos. De 1621 a 1624, conta-nos o Sr. Thomaz Alves, a importação dos Africanos em Pernambuco pelos Hollandezcs foi de 15.430. E desde a conquista de S. Jorge da Mina, na Costa d'África, por elles, em 1637, Pernambuco importava annualmente « para mais de o.000 escravos ». E' quasi certo que no pouco tempo que estiveram no Brazil importaram os Hollandezcs relativamente mais escravos do os IIOLLANDEZES KO DRAZIL que os Porluyuczes.

Não se podendo aclimar na região torrida por elles aqui occupada, não podendo, pelos seus preconceitos de raça e de puritanismo religioso, cruzar com o indígena o menos com o negro, só restava aos Ilollandezcs fazer disto, como de todas as suas possessões intertropicaes íizeram, uma colônia de exploração: uma enorme escravaria negra, e o indígena, sinào exterminado, ou de direito escravizado, de facto captivo, como em Java, pela obrigação do occupar-se em um trabalho determinado pelo governo, por um salário menos de mesquinho, e sujeito ao bel prazer dos feitores. Tal seria rigorosamente a sorte de Brazil sob o dominio hollandez. O Conde do Nassau, creatura excepcional — e digo-o sem ignorar as restricções que se podem fazer ao retrato demasiado favorecido do Sr. Tliomaz Alves — era ao cabo um utopisla, não sei si não diga um romântico, e a sua administração aqui não mereceu o louvor, e menos o apoio dos seus concidadãos. H. cm 2 3 4 unesp" 7 9 10 11

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