Das condições da produção literária no Brasil Estudos de Literatura Brasileira: 3ª Série · Capítulo 4 de 14
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Das condições da produção literária no Brasil

IV DAS CONDIÇÕES DA PRODUGÇÃO LITERÁRIA NO BRAZIL I Num livro recente, Essats sur Vhistoire de Varú, o Sr. Emilio Michel, crilico de arle dos mais reputados de França, volta a indagar, após tantos outros, as condições da producção artistica. Náo se occupa o Sr. Michel sinão das artes propriamenle ditas, das bellas artes, da musica, da pintura, da esculptura, da architectura. Alguma fugaz incurs

Somente a historia nos poderá dar um conceito exacto da arte o das suas condições de producção como da literatura e das condições de producção que lhe são próprias, da sua natureza, das suas funcções, dos seus fins e até dos seus meios e das variações delles. Astheorias e as praticas, mais ou menos extravagantes, que periodicamente surgem em literatura e em arte, acham explicação, sinão excusa, na ignorância, ou irracional menosprezo, da historia da arte, ou da literatura. Desde que os conceitos subjectivos com que as pretendam justillcar se não apoiarem nella, ou estiverem em desacccôrdo com as suas lições, podemos, com segurança, tel-os por falsos. As idéas do S. Emilio Michel sobre a producção da obra de arte fundam-se, não só na historia dessa producção, mas no estudo comparativo dos seus productos.

Um methodo só e exclusivo em critica é, com effeito, por via de regra, perigoso e fallaz, e o único meio de esca- PRODUCCAO LITERÁRIA NO BRAZIL 49 par aos defeitos que llie são próprios será verificar os seus resultados [lor outros processos, sujeital-o a outras provas, examinar e estudar os factos a outra luz. Até bem pouco tempo o estudo directo das obras de arte não era fácil, e ficava sempre incompleto, pela defficiencia dos decumentos necessários, ou pela difficuldade de os haver. A esthetica nao possuía um numero bastante de factos em que apoiar as suas generalizações, ás vezes gratuitas ou precipitadas. Vagas indicações, exames incompletos o imperfeitos de um numero restricto de obras de arte, theorias preconcebidas, sem a verilicação pela confrontação dos documentos, bastavam á creação de theorias estheticas.

As facilidades de communicações e de estudos, a abertura de numerosos museus em todos os paizes de alta civilização, a sua accessibilidade, os progressos da sua catalogação executada com uma erudição exacta e minuciosa, as descobertas biographicas feitas nos archivos, os processos de vulgarização das obras de arte, a photographia, a gravura, as copias, as moldagens, espalhandoas largamente por toda a parle, a multiplicação das exposições publicas ou privadas, enfim uma larga publicidade feita á obra de arte de todos os tempos, deu a todos a possibilidade de conhecer, de estudar, de comparar a producção artística na sua totalidade e, ao mesmo tempo, de verificar as theorias que nella se apoiavam ou a explicavam. A mesma musica teve, na vulgarização dos thcatros c dos concertos, esta divulgação e publicidade benéfica á formação e educação do gosto publico.

De tudo isto devia necessariamente proceder uma esllietica mais precisa, theorias mais seguras e, sobretudo, um mais certo conhecimento das condições da producção artística, segundo os tempos e os lugares, e conforme o temperamento do artista e as influencias que sobre elle actuaram. Um dos maiores theoristas da arte do nosso tempo, sinão também de todos os tempos, Taine, attribuiu ao « meio », nas producções do espirito humano, a parte principal. Para elle essas producções, como as da natureza viva, só pelo seu meio se explicam. Sem insurgir-se completamente contra o conceito de Taine, nem em absoluto negal-o, acha-o, entretanto, o Sr. Michel exagerado. O seu estudo tem justamente por fim indagar si, no puro domínio das artes, a producção tem realmente o caracter fatal e de algum modo necessário que lhe attribuiram Taine e seus discípulos, ou si, pelo contrario, as obras mais eminentes creadas pela arte não são ao mesmo tempo aquellas em que a liberdade humana, por mais limitada que a supponhamos, apparece-nos com maior elo- PRODUCÇAO LITERÁRIA NO BRAZIL 51 quencia o brilho.

E' claro que na indagação do Sr. Michel está a sua resposta e que elle concluirá contra Taine. Não sei, porém, si o philosopho_ não acharia vã esta disputa e lhe não responderia que o seu critério não exclue por lorma alguma a personalidade do artista. Também em a natureza viva, absolutamente nas mesmas condições de meio, junto um do outro, crescem carvalhos differentes de fôrma, uns mais alterosos e robustos que outros. Si os críticos de arte que são mais philosophos que artistas, e é o caso de Taine, mais theoricos que technicos, podem extraviar-se nos seus conceitos estheticos, a verdade é que, om geral, o seu descortino é maior, a sua apreciação mais cabal, a sua concepção mais larga, o seu juizo mais agudo, a sua intelligencia mais comprehensiva que a dos críticos especialistas. O Sr.

Michel é evidentemente um sabedor em cousas de arte, a technica da obra de arte como as condições materiaes da sua producção são-lhe por igual sobejamente conhecidas; a historia da arte não terá para elle segredos, mas todos estes predicados não logram supprir a deficiência philosophica das suas theorias e de muitos dos seus modos de ver. Assim, elle oppõe á theoria de Taine o exemplo de Miguel Ângelo, « que alheio ás paixões que agitam seus contemporâneos, remonta o curso do tempo para ir pedir ao Danle o austero ideal ao qual quer ficar fiel ».

Mas quando, depois de nos recordar que « as figuras grandiosas que, nas abobadas da capella Sixtina ou ao redor dos túmulos dos Medicis, ostentam as suas altitudes altivas, esses gigantes desdenhosos da luta e cujas forças ficam sem emprego, essas tristezas que se náo querem consoladas, esses desesperos que reservam as suas forças, todas essas creações mysteriosas e potentes, parecem protestos reiterados de uma alma tomada do desgosto das baixezas deste mundo e que, procurando em vão evital-as, fica ainda demasiado commovida para lh'as não soffrer e demasiado altiva para se lhes não associar »; quando nos lembra « que como se lhe não bastasse a muda eloqüência das duas aries em que é mestre, Miguel Ângelo procura ainda exprimir o menosprezo do seu tempo, nos versos celebres, pungentemente amargos, em que inveja a fria insensibilidade do mármore por não ver mais os vicios que o affrontam e lhes escapar a vergonha, Grato ni'è il sonno, e piá Uesser di sasso Mentre che il danno c Ia vergogna dura somos naturalmente levados a retlectir que por tudo isso elle é do seu tempo, que o seu PRODUCÇÃO LITURAEIA NO BRAZIL 53 desgosto dellc, a sua revolta contra elle mostram ainda o seu interesse por elle.

E' o próprio critico que nos diz que o artista, por mais que procure alheiar-se das baixezas da sua sociedade, permanece commovido demais para as não soffrer e por demais altivo para se lhes associar. Prevendo a objecção, o escriptor pergunta, em nota, si se pretenderá que os artistas reflectem também o meio em que vivem pelo contrasto que com elle offerecem suas obras. Porque não? Não lira alento e força o seu protesto da mesma cammunhão do artista com o meio e do modo especial por que este reage sobre elle? E mais, seria possível conceber Miguel Ângelo no seu tempo, em outro lugar que a Itália e na mesma Itália que a côrtc dos Medicis? Taine certamente exagerou a influencia do meio na producção artística; tem razão o Sr. Micliel quando mostra a parte grande da liberdade humana nessa producção, contra « a pressão do espirito publico que comprime ou desvia os artistas, impondo-lhes uma direcção determinada », segundo queria Taine.

Todas as condições da producçào da obra de arte, o meio, a hereditariedade, a educação, soffrem, aliás, excepções, sem que que por isso possamos razoavelmente negar essas condições. O Sr. Emilio Michel admitte entre as causas da voca- ção arlislica, como a mais importante, o nascimento, o exemplo e o ensino do meio familiar, e cita como demonstração: Raphael, os Bellinis, os Lippis, Ticiano, Paulo Veroneso, os Van Eycks, os Cranachs, Holbein, Van Dyck, os Teniers, os Ostades, Paulo Potler, os Cuyps, os Wauwermans, os Lenains, Jauvenet, Watteau, Bach, Mozart, Beelhoven, Weber, as dynaslias artísticas dos Luccas delia Robbia, dos Coypels, dos van de Vcldes, dos Brughels, dos Van Loos. Contra esta regra, entretanto, poude também citar: Giotto, Miguel Ângelo, Leonardo, Corregio, André dei Sarto, Rubens, Rembrandt, Poussin, Cláudio Loreno, Donatello, Hiiendel, Haydn, Schubert e outros, que não acharam nos seus antepassados ou no seu meio familiar nenhuma incitação para se tornarem artistas.. Poder-se-ia, porém, admittir, para a producção da obra de arte, que spii-itus flat ubi üult?

Penso que não, quaesquer que sejam as condições dessa producção, nós, sem talvez saber ainda defmil-as com toda a precisão, percebemos que ella» existem e mesmo que algumas dellas são, dada sempre a relatividade das cousas, necessárias. Não se imagina um artista verdadeiramente eminente, um creador, um igual dos maiores pintores, esculptorcs, músicos, poetas ou architectos da Europa culta nascendo na America e aqui se creando e de- PRODUCÇÃO LITERÁRIA NO BRAZIL 55 senvolvendo. Nenhum tem ella de facto, e os que de mais perto se aproximam daquelles — e lhes ficam Iodos ainda muito distantes — só têm de americano o nascimento: a sua inspiração, o seu talento, a sua technica, a sua sciencia artística, o seu estylo, a sua maneira são o resultado do estudo, da imitação, do exercício, da cultura da arte européa. As causas que, segundo o Sr.

Michel, podem influenciar na producção das artes, são as condições geographicas, o regimen religioso, político ou social, a herança psychologica,o nascimento, o meio familiar, a educação, a leitura, a sociedade, as viagens, a excitação provocada pelas outras artes. O autor analysa cada uma destas causas á luz, não só dos factos históricos e biographicos, mas também segundo o exame minucioso das mesmas obras de arte que o permittem, esboços, varies estados da obra, processos de trabalho do artista, influencias por elle confessadas na sua obra evidentes, fontes de sua inspiração, desenvolvimento dos seus themas, primitivos ou iniciaes,.sua technica. Não posso infelizmente, siquer resumir o interesante estudo que de cada uma daquellas condições faz o Sr. Emilio Michel. Ha nelle muito que aprender para um artista, para um critico, mesmo para um escriplor e até para o simples leitor curioso e intelligente. Reconhecendo e veriíi- 5G ESTUDOS DIÍ LITERATUIIA cando influencias exteriores na producção artistica, o Sr.

Michel não é, enlrelanlo, systematico, e, não obstante alguma superficialidade da sua philosopliia da arte, leva algumas vezes vantagem contra Taine e nos convence realmente de que é grande a parte pessoal do artista — ao menos do ai-lista verdadeiramente superior — na productjào da obra de arle. Não é de duvidar que os mais eminentes delles tenham antes reagido contra certas influencias do meio que as soffrido servilmente, somente me parece que já nessa reacção iiaveria alguma cousa do mesmo meio, pois que inconteslavelmente o homem é um producto do antepassado e do meio. A cultura, é certo, pôde modificar, e muito, esse producto, mas não é ainda capaz de destruir nelle os elementos com que a herança e o meio geographico, social c moral, o affeiçoáram. Alargada assim, e nem a posso comprehender sinão assim, a hypolbese do Taine parece-me ainda cxacta, e preciosa para entendermos a gênesis e a evolução arlistica. Seria talvez interessante applicar os conceitos do Sr. Michel á producção da obra literária, e especialmente da obra literária brazileira.

PKODÜCÇÃO LITEUARIA NO 13EAZIL 57 II Fora talvez um erro, ou um abuso de generalização, suppor que as condições da producção literária sejam absolutamente as mesmas que as da producção artística, no puro domínio das bellas-arles. Como ha fundas differenças de natureza entre taes artes e a literatura, não obstante os seus pontos do contado, ha também differenças notáveis nas suas condições de producção. Basta recordar, para proval-o, que si Iodos os povos em certo grau de cultura têm uma literatura mais ou menos notável pela quantidade ou pela qualidade da producção, raros são os que nas bellas-arles se achem em iguaes condições. Tomemos para exemplo a America — pela cultura, pela civilização, pela raça dominadora, pelas instituições jurídicas e sociaes, prolongamento, ramo das nações da Europa Occidental.

Todos os povos americanos, quer os anglo-saxões, quer os latinos, ou melhor ibero-americanos, têm uma literatura digna já de consideração como expressão do seu viver e do seu sentir, quaesquer que sejam as suas falhas e os defeitos do seu pensamento, da sua esthesia, da sua fôrma, da sua technica. Todos ou quasi todos tèm poetas, romancistas, escriptores de theatro, e outros artistas literários relativamente notáveis. Nenhum tem músicos, esculptores, piirlores, com característicos differenciaes sufficientes para dar á arte nacional, como aquelles já dáo á literatura nacional, feições, embora ainda apagadas, que a distingam da arte estranha, e poucos possuem estes artistas, mesmo nesla condição secundaria. E que a expressão artisLica é mais difficil, mais complexa e mais exigente de condições especiaes de producção que a expressão literária, e que requer, muito mais que esta, condições particulares de tradição e do meio, moraes e materiaes, para realizar-se.

O próprio apparelho technico indispensável á producção da obra de arte', seja em musica, seja em pintura, seja em esculplura, seja em architeclura, 6 muito mais considerável e custoso que o preciso para a producção da obra literária. Um conjunto de condições sociaes, menos de rigor na producção desta, é quasi obrigatório na daquella; a existência de uma « cidade » e nella de uma sociedade bastante culta e opulenta e amiga do grande luxo, que empreguem o artista e lhe remunerem o trabalho, é a primeira e indispensável. Nas sociedades novas, de cultura ainda rudimentar, que por mil razões não têm, PRODUCÇÃO LITERÁRIA NO BBAZIL 5y nem podem ter, o gosto sincero e apurado das artes, pobres, mais preoccupadas com os problemas materiaes da sua existência que com questões de sentimento e arte, de vida insegura ou desassocegada, sem uma aristocracia, de raça ou não, mas culta e reíinada, como são, com pequenas differenças, as americanas, começa por faltar esta condição necessária.

Nem aqui encontra a vocação artística siquer as escolas, os mestres, os museus, as collecções com quem ou onde aprenda, se exercite, pratique, se instrua, se eduque, se inspire. Menos ainda acha o exemplo, a emulação, o estimulo fecundo. A arte literária tem sobre as bellas-arles a vantagem de dispensar condições materiaes de producçào indispensáveis áquellas — e de ser mais nativa, mais espontânea, e também mais fácil de realizar, que ellas. Que ella, até certo ponto, e em certo grau, dependa também das condições do meio, que na sua producção influam causas geographicas, históricas e moraes, como a tradição, a cultura, o nascimento, a educação, as viagens, a influencia das bellas-artes, a reacção da sciencia e da mesma literatura, as questões sociaes ou moraes, é incontestável. Gomo actuam e em que proporções actuam essas diversas causas, não é fácil dizer nem indicar. A analyse mais subtil não conseguiu ainda abranger e explicar Iodas as hypotheses e todas os casos que podem ser apreciados. Fica sempre uma larga margem ás excepções. Tomemos para exemplo o caso do meio geographico.

Todos Iheadmiüema inllucncia; mas até que ponto é possível determinar-lhe as condições, ninguém pôde dizer com certeza. Ao clima da Grécia, aos seus aspectos geographicos, allribue-se a magniíica ílorescencia do seu espirito, mas porque a Grécia, desde ({ue perdeu, na mão dos Piomanos, até boje, mais que a sua independência, a sua existência moral, nunca mais produziu nada digno de nota em arte ou em literatura, quando o seu meio physico não mudou? Os i)ovos meridionaes da Europa aflirmam e nós repetimos como um lugar commum, e assim o escreveu não ha muito um patrício nosso, expondo a literatura brazileira cm Lisboa, que o céu, a paizagem, a natureza dos nossos paizes cheios de sol e do luz, alegres, vivos, ruidosos, suscitam poelas. E a Inglaterra, e a França do Norte, e os povos scandinavos, e a AUemanha, c a Nova Inglaterra, nos Eslados-Unidos, não os terão por acaso, em tão grande numero e lão grandes como os meridionaes? Shakcspeare, Millon, Cowper, Burns, Wordsworlh, Goleridge.Byron, Shelley, Dante Rosscti, Tennysson, Klopstock, PUODUCn.VO I.lTEUAItlA NU BUAZII.

61 Wieland, Gojtlie, Schiller, Heiiio, Roíisard, Malhorbe, Corncille, llacine, Chateaubriand, Bouillet, Loní,'í'ellow, Bryanl, Lowel, Ibsen e Bjoerseii, o os modernos poolas, cm prosa ou verso, da Dinamarca ou da Suécia e Noruega, e os grandes creadores da írigida Rússia, todos do Norte, serão acaso inferiores aos que do Sul se pudessem citar? Ao contrario, o que os crilicos são unanimes em reconliecer é que a I poesia de Norte, com menos ardencia, sobretudo com menos eloqüência e menos brilho que a do Sul, é mais profunda, de uma emoção mais forle e mais intensa, de um sentimento mais intimo, mais sincero (jue aquella. As condições geograpliicas lèm na producçào da obra de arte apenas uma importância secundaria, e o Sr. Emilio Michel, que o nota, mostra que, I entretanto, podem oppor a certas manifestações esthelicas uma impossibilidade absoluta. A I Hollanda, por exemplo, não teve uma architectura peculiar, por falta dos materiaes de Iconstrucçào necessários, no seu solo.

Mas, jpergunta elle, porque a mesma Hollanda, Jque teve uma tão illustre escola de pintura, Inão gerou nenhum compositor, nenhuma lobra musical notável, tendo aliás seus costuImes, sua religião, seus usos, tantas affinidades Icom os da Allemanha, sua vizinha, e porque |esta, tão grande na musica, não teve uma grande escola de pintura, e porque, como observa Goelhe, a sua pintura devia, depois de Holbein e Diirer, morrer em flor? Estes exemplos mostram, como tantos outros idênticos que poderiam ser multiplicados, que a condição geographica por si só é secundaria. Salvo nas regiões estéreis, de vida por demais difiicultosa, e climas extremos de frio ou de calor, a producçao artística é possível em toda a parte, onde Ucão faltem também inteiramente outras das suas condições. O mesmo é certo da literatura, com a vantagem, já dita para esta, que a producçao da obra literária é menos exigente de condições materiaes e sociaes que a da obra de arte.

Qualquer que seja o valor da nossa poesia, não pôde deixar de sorprender a quem a estuda, a florescência da poesia no Brazil, desde o século XVII. Gomo numa região, que quasi se não pôde ainda chamar um paiz, inculta, mal saída da selvageria, escassamente habitada por uma gente silvestre e boçal, não muito numerosos negros não menos broncos, e a gente Ínfima, lambem em numero pouco avultado da raça colonizadora, inteiramente votada ás cousas materiaes da vida, á veniaga e á chatinagem, e antes preoccupada com assenhorear a terra, dominar-lhe o gentio, relugar o estrangeiro e assentar o seu domínio e morada, que PRODUCÇÃO LITERÁRIA NO BRAZII, 6S de qualquer assumpto espiritual (pois da catliechese só cuidavam deveras os jesuítas), como é que em tal terra c em taes condições nasceu e vingou uma poesia relativamente rica e brilhanle? Que a natureza brazileira não teve nisso sinão uma parte insignificante, si alguma teve, é evidente. A primeira poesia brazileira é apenas uma reproducção da portugueza, e o será ainda por dous séculos.

Si um poeta, como Botelho de Oliveira, nos fins do século XVII, mostra enthusiasmo pela terra do seu nascimento, e, como diz Cosia e Silva, apresenta alguns rasgos de colorido local, si elle próprio, na dedicatória do seu livro, observa que « mal se podia esperar que as musas se fizessem brazileiras nesta America, inculta 'habitação antigamente de bárbaros indios » e onde, « como a doçura do assucar é tão sympathica com a suavidade do seu canto » se acharam tantos engenhos poéticos, si esse poeta lhe canta já as bellezas, os aspectos e os produclos, a sua poesia é ainda pela inspiração, pela fôrma, pelo sentimento poético, por todos os seus caracteres intrínsecos e extrinsecos, portugueza, conformo será a de Gregorio de Mattos, seu contemporâneo. Quem poderá descobrir em Bento Teixeira vislumbre siquer da influencia da natureza brazileira? E só isto bastaria acaso para afastar a idéa de ser possível que elle fosse o autor, tão 64 ESTUDOS DI3 LITERATÜUA impressionado pela nossa terra, dos Diálogos das gr^andesas do Brasil.

A causa desla nossa florescência poética não foi a terra, nem essa belleza exagerada que lhe empreslou o nosso nativismo, do que mui Los poetas nossos foram os cantores conscientes e enthusiastas, e que se systematizaria, é quasi um dever de patriotismo reconhecer, cm Iloclia Pitta. Foi a herança portugueza, a tradição literária c poclica de um povo cuja poesia, no século da conquista, era das mais illustres da Europa. Nem se pôde dizer que a cultura jesuitica a favorecesse proposital e directamentc. Essa cultura, sobre ser toda clássica, votada lochi, nos seus graus mais elevados, á ornamcntaçào da memória, com os autores latinos e sagrados, foi sempre antipathica á cultura nacional portugueza, podemos dizer, á literatura portugueza tradicional. Não se encontra nos documentos que de si e do seu ensino no Brazil deixaram os jesuítas, cartas, annuas, informações, chronicas, historias, nenhuma referencia ou allusão a este aspecto da nossa balbuciante vida nacional, eé singular (jue no maior dcllcs, o padre Antônio Vieira, senão ache.

em tocha a sua obracopiosa, signal de commercio com a literatura da sua pátria, uma citação, ou siquer uma referencia. Afora talvez uma a João de Barres, que me PRODUCÇÃO LITERÁRIA NO BRAZIL 65 não é possível verificar agora, só uma vez se me deparou nelle uma allusão a Camões, quando no sermão pelo bom successo das armas portuguezas, pregado na Bahia, em 1640, pergunta: « Para que abrimos os mares nunca dantes navegados? » E tanto mais de admirar é esta falha em Vieira, quanto é elle nimiamente citador, não só da Biblia e dos autores sagrados, mas dos poetas e escriptores profanos, antigos e modernos. Foi, pois, a herança de um povo de grande tradição literária, de um povo que madrugou para as letras mais cedo que outros que ao depois o deviam sobrclevar nellas, que lançou os germens de uma literatura aqui. Essa literatura é já de si, e com a só excepção de um Gregorio de Mattos, insigniíicativa, incaracteristica, sem personalidade, palaciana, longe de inquietar os governantes, os poderosos, se fazia ministra da sua grandeza, glorificadora dos seus feitos, aduladora do seu poder.

Seguindo também uma tradição da metrópole, lhe davam aquelles a sua protecçào, ás vezes, e com as nossas idéas de hoje, humilhante, paga com sonetos, acrosticos, discursos acadêmicos, dithyrambos, elogios poéticos, dedicatórias, epithalamios, poemas, odes, e outras varias fôrmas da Musa ao serviço da Lisonja. A primeira manifestação do engenho brazileiro no domínio espiritual, a insipida P7'oso/30jOéa de Bento Teixeira, é um producto dessa alliança e daquelles sentimentos. O nosso meio geographico não foi obstáculo ao desenvolvimento dos germens aqui postos pela herança portugueza. A' costa brazileira, onde elles foram lançados, abrolharam e se desenvolveram, comquanto quente, não cabe a qualificação de um clima de extremo calor, que é ali moderado pólos ventos marítimos, pela humidade das florestas e dos numerosos, e alguns consideráveis rios, que as cortam.

Gente do Sul da Europa, como a portugueza, ali se acclimaria, como se acclimou, facilmente, e prolificando com o gentio e com o negro daria o mestiço, fundo da nossa nacionalidade, donde justamente sairiam os representantes mais eminentes da nossa intelligencia nacional, nas artes, nas letras, na política. Si é certo que, em.regra geral, os climas médios são os mais convenientes á producção artística e literária, no Brazil, entretanto, esta regra soffre uma excepção, ao menos na producção literária. Aqui a producção artística na musica, na pintura, na esculptura, na architectura é mais notável no Sul que no Norte; o padre José Maurício, Carlos Gomes, o pai, o irmão e o sobrinho, os mestres da chamada Escola Fluminense de pintura, os nossos mais distinctos pintores, esculp- PRODUCÇÃO LITERÁRIA NO BRAZIL G7 tores o architectos vivos, Almeida Júnior, talvez o mais talentoso dos nossos pintores, são do Hrazil meridional. A literatura brazilcira, ao contrario, é principalmente norlisla.

P^oi no Norte que ella começou, com Bento Teixeira, Euzebio e Gregorio de Mattos, Botelho de Oliveira, desde o principio do século XVII, c ao Norte restringiu-se até melados do secuio XVIII. Dali são, da Bahia e de Pernambuco princi[talmente, todos os poetas, aliás na máxima parte sem nenhum valor, e os prosadores, como Frei Vicente do Salvador, padre Antônio de Sá, padre Nuno Marques Pereira, Rocha Pitla, desse primeiro período da nossa historia literária. Não é que houvesse no Norte uma virtude favorável á producção literária. Mas aquella foi a parte do Brazil primeiro colonizada e civilizada, onde primeiro, com a fundação do Governo Geral da Bahia, houve uma sociedade, condição indispensável á producção literária, relativa cultura, facilidade de vida e tranquillidade. Quando o Rio de Janeiro passou a ser a capital do paiz o residência doVice-Rei, em 1763, a vida literária se deslocou da Bahia para cá, e a poesia, que parecia um privilegio do Norte, deu a florescência única dos poetas mineiros, incluindo nestes Basilio da Gama, Santa Piila Durão e Silva Alvarenga.

A literatura e a arte são, no bom e no mau 68 USTUDOS DE LITERATURA senlido, cortezãs. Precisam de uma sociedade polida que as aprecie, estime e acolha, e, emquanto o publico não começou a pagar os seus labores, precisaram também de quem as protegesse e patrocinasse. Esses erão os reis, os príncipes, os magnates; e aqui no Brazil, os vice-reis, os governadores, os fidalgos portuguezes com alguma alta funcção, os bispos. A' imitação de Portugal, ellcslhenão faltaram com a sua protecção, amparando os poetas e promovendo a creação de academias, que presidiam. Dahi o caracter áulico da nossa literatura em todo o período colonial, e ainda depois quando, com a revivescencia literária do romantismo, olmperador se fez decidido proteclor das letras nacionaes. Felizmente não havia nelle o gosto da cortezanice e do aulicismo, e pouco zeloso da sua magestadc, não soube ou não quiz fazer uma corte de poetas e literatos, acaso com despeito de alguns delles.

Desde o estabelecimento do vice-reinado do Brazil, no Rio de Janeiro, até á maioridade, é no Sul, isto é, no Rio de Janeiro e Minas Geraes, que éprincipalmente vivida a vida literária brazileira. Entretanto, dá ainda a Bahia Jaboatão, Itaparica. bom chronista aquelle, ruim poeta este. Porém depois, passa de novo ao Norte a producção literária: Gonçalves Dias, Sotero dos Reis, João Lisboa, Flavio PRODirCÇAO LITERÁRIA NO RIIAZIL 69 Reimar, Joaquim Serra, Henriques Leal, José de Alencar, Pedra Branca, Franco de Sá, Junqueira Freire, Maciel Monleiro, Castro Alves, TobiasBarreto, Alexandre Rodrigues Ferreira, Victoriano Palhares, Visconde de Cayrú, Bruno Seabra, Agrário de Menezes, Alves Serrão, Odorico Mendes, Abreu e Lima, Theophilo Dias, Arruda Gamara, Celso de Magalhães, Cândido Mendes, para só cilar os morlos e os mais notáveis, são do Norte.

É do Norte também a maioria dos homens políticos, estadistas, jurisconsullos, parlamentares de mais nomeada no segundo reinado: Monte Alegre, Montezuma, Abranics, Caravellas, Olinda, Paranhos, Visconde de Albuquerque, Rebouças, Teixeira de Freitas, Nabuco, Souza Franco, Gonçalves Martins, Zacarias, Cotegipe, Tavares Bastos, Saraiva, Gosta Ferreira, Dantas. E não ha negar que, com excepção do Rio de Janeiro, que exerce a funcçãode mediador entre o Norte e o Sul e de apagar as differenças regionaes, é no Norte que a nossa vida literária é mais viva e também mais intensa. Nem sombra de bairrismo ou de regionalismo, que a ambos sou profundamente alheio, determina este juizo. Apenas verilico um facto. Qual a razão desta preponderância espiritual do Norte, não a saberia explicar em poucas palavras. Quero somente notar que no Brazil é justamente na ESTUDOS DE LITERATUnA região mais quente delle que é mais numerosa, sinão também mais notável, a producção literária.

Talvez houvesse uma explicação para aquelle facto: é que si ha um espirito brazileiro, é acaso ali que elle se conservou mais forte emais estreme. Talvez se pudesse também dizer que o Norte, apezar de sua pobreza, tem uma sociabilidade mais fácil, tem mesmo mais sociedade que o Sul, exceptuando o Rio de Janeiro. Ha mais no nortista, com maior sensibilidade, maior emotividade, imaginação mais prompta e mais viva, maior confiança em'si, mais petulância, mais audácia. O Norte tem ainda a maior antigüidade da cultura. Uma sociedade é condição indispensável para a producção literária, e a historia da nossa literatura mostra que ella justamente floresceu nas épocas em que houve para ella essa condição: na Bahia dos Governadores geraes, no Rio de Janeiro dos Vice-Reis, em Minas Geraes, quando numa espécie de pequena côrle de governadores faustosos, o acaso reuniu um grupo de homens de engenho e cultura, no Maranhão quando, rica enião a província com o trabalho do negro, possuia uma sociedade qüc foi sem duvida uma das mais civilizadas e luxuosas do Brazil.

A vida social aqui não foi jamais completa. Salvo talvez no Maranhão e no Rio, faltou-lho sempre, para inteiral-a e aperfeiçoal-a. PRODUCÇAO LITERÁRIA NO BRAZtL 71 O concurso da mulher. Segundo o velho costume portuguez, a mulher era syslemalicamente apartada da convivência social, na sua própria casa. Quando havia visitas, as senhoras não vinham á mesa, e uma conversação entre ellas e homens, que não fossem parentes ou amigos Íntimos, não era quasi possível. E' o que notaram todos os viajantes, principalmente o exacto Saint-Hilaire, e que os provincianos de mais de quarenta annos ainda conheceram. Resta deste costume o uso, não de todo acabado, mesmo > aqui, de numa reunião, num saráo, num jantar, destacarem-se os dous sexos, cada um para seu lado. Eu creio que muitos dos nossos romancistas conhecem mais a mulher do romance francez que a brazileira. Dizendo-o, aponto mais um defeito da nossa literatura: a sua ausência—perdôem-mo o que a frase terá de pedantesco — de objectividade.

Vem esse vicio da decadência da literatura portugueza, quando perdida pela reacçáo culleranista a tradição nacional de Gil Vicente e Camões, caiu-se ali no classicismo e pseudo-classicismo e triumpharam as Arcadias. E' do nosso tempo a questão da «arte pela arLe », mas si ha quem a tenha praticado são os arcades, que versejavam por puro amor de versejar, sem se lhes dar do thema, da inspiração, da emoção.Tudo lhes servia de assumpto e occasiáo de fazer versos, e punham nessa tarefa 72 ESTUDOS ÜE LITEllATURA lodo O seu cuidado e Ioda a sua gloria. Não ha, por isso, poesia mais incaracterislica que a dos arcades. Um ou oulro poela de verdadeiro engenho, como Garção, que porventura se ache perdido cnlre elles e desvairado por elles, não consegue ainda assim livrar-nos da impressão da banalidade arcadiana.

Nas arcadias ou academias brazileiras, sobe de ponlo essa banalidade, porque os pobres vates indígenas, a maior parle sem talento real, não são mais que pallidos imitadores dos da metrópole, e, todo entregues ao pseudo classicismo, íicam inteiramente estranhos á nova natureza, ás novas cousas, aos novos aspectos que os rodeiam, Quando se verifica que, salvo algumas não muito vulgares excepções, a nossa literatura não perdeu nunca, não perdeu ainda, esta falta de caracter, esta ausência de um pensamento, de uma inspiração, de um objectivo, somos naturalmente levados a crer numa influencia hereditária da rhetorica arcadiana. De facto, que caracteres dislinctivos, que significação, que feição própria é possível descobrir em a nossa poesia actual, feita porventura com uma rebuscada perfeição métrica, ás vezes mesmo com exellencia de fôrma, mas sem idéa, sem real emoção, sem representação?

Que signal já deu ella, e toda a nossa literatura actual, de que lhe não são es'tranhos os problemas, as questões, os mais PRODUCÇÃO LITERÁRIA NO BRAZIL 73 graves interesses humanos e sociaes do tempo presente? Nisto, aliás, é ella talvez, representativa, porque de facto a sociedade em que se inspira, em que se alimenta e de que vive, e que define, lambem não tem nenhuma preoccupação dessa ordem. E uma sociedade incaracteristica não pôde produzir sinão uma literatura incaracteristica. Resta, porém, saber si a nossa sociedade é totalmente indistincta e apagada, e si o talento verdadeiro não conseguiria descobrir nella aspectos novos, signilicativos e interessantes. III As fôrmas de governo por si mesmas não lêm nenhuma virtude- intrínseca no que respeila a producfão literária. Republicas e monar. chias são por igual propicias e adversas ás letras.

Na organização social, qualquer que seja a fôrma política que tome, toda a questão das suas relações com as letras resume-se no grau de cultura geral, no estado mental de governantes e governados, e na liberdade espiritual existente, menos na lei escripla que nos costumes. Fora destas condições, apenas se poderia notar que a aristocracia, salvo o caso oxcepcio- nal e único do Alhenas, o talvez, cm menor grau, da Florença dos Mcdicis o da França moderna, é mais fãcil ás arlcs e ás leiras, e em geral ás preoccupações espirituaes que a democracia. Ella tem para isso molivos especiaes: vagares e ocios que lhe permittem o estudo ou simples gozo das obras do espirito, que.ficaram sendo um ornamento de solares c de senhores, desde que a influencia da mulher e uma paz relativa transformaram a fortaleza feudal em paço senhorial, e que o cavalleiro poude cessar a sua vida constante de guerreiro. Protegendo os cantores, os artistas, os poetas, os cantadores, os escriptores e philosophos, que eram também ornalos das suas côrles, os reis induziram os seus grandes vassallos a imilarem-nos.

Si já nào houvessem existido Pericles, Mecenas e Augusto, podíamos deste facto originar o patrocínio das leiras pelos melhores da cidade, mas é ainda assim dellc que, no mundo moderno, deriva o apoio que ellas encontraram universalmente nas aristocracias. Em Portugal, onde havemos de ir buscar o motivo e a explicação de nossos factos sociaes, a literatura não só saiu da íidalguia de espada ou de beca, da aristocracia clerical ou administrativa, mas dellas viveu. Apenas se acharia entre os seus cultores ali escriptor ou poeta.que não fosse fidalgo de linhagem ou ennobrecido PRODUCÇÃO LITERÁRIA NO BRAZIL 75 por alguma das funções que então levantavam o burgucz, c mesmo o villão, a par do nobre.

Póde-se, aliás, notar ali—o não sabemos dizer si só ali—que, quando do povo entrou a sair maior numero de homens de letras, aos quaes o talento e o estudo não desbastaram da rusticidado primitiva, se começou a prezar mais a arte que o artista, mais a escripta que o oscriptor Aceitavam-se-lhes as obras, com as suas dedicatórias louvaminheiras aos poderosos, de que ainda agora aqui mesmo se encontrarão exemplos, festejavam-se-lhes as producções, admirava-se-lhes o engenho, mas o seu lugar, afinal, era mais cnlre a domeslicidado que entre as visitas c os convivas de palácio. E' de notar que esta decadência do lileralo na estima da nobreza coincide não só com o augmento dos homens de letras do povo, mas ainda da decadência da aristocracia, já lambem incapaz de entender e prezar as obras excellentes. Bem antes dos poetas parasitas das Arcadias, de José Agostinho e consortes, dos Bocages e dos Tolentinos, lastimava Camões que só em Portugal se não achasse «um Ibrte capitão que não fosse também douto e sciente», como entre os Bomanos, eque só ali se não prezassem as letras O verso e rima.

76 KSTUDOS DE LITERATURA Porque quem não sabe a arte não a estima. Para que nascessem as letras no Brazil c se desenvolvessem, foi preciso que encontrassem a protecção dos que pela sua própria cultura e gosto dellas, e por imitação do que na Gôrle se praticava, a podiam dar. Não existia ainda aqui uma sociedade de cujo seio saíssem e no qual se alimentassem. A protecção dos governadores e vice-reis creou-lhes artificialmente esse meio de producção e estimulo, nas suas assembléas, nas arcadias e academias, que á sombra dclles e sob seus auspícios se crearam. Não. havia liberdade para os largos e desimpedidos vôos do espirito, mas lambem esses poetas não pensavan em soltal-os. Tinham a liberado do que careciam e que lhes bastava. Gregorio de Mattos abusou mesmo delia, mas não consta que o mandassem surrar ou matar. As suas satyras seriam ainda agora possíveis? A liberdade espiritual é indispensável a,uma producção literária, forte c digna. Essa necessidade, porém, entende-se sempre relativa ao meio e ás exigências dos próprios escriptores.

Em regra geral os reis e os grandes a toleraram melhor, mesmo nos seus abusos, que os governantes da democracia e ella própria. Os escriptores e poetas do i^einado absoluto e despotico de Luiz XIV e Luiz XV seriam impossíveis durante a Republica, o Consulado e o Império. E sob PHODUCCAO LITERÁRIA NO BRAZIL 77 aquelles dous reis absolutos, o na sua côrle brilhante, espirituosac culta, pliilosoplios, poetas, romancistas, sabedores prepararam a emancipação do mundo moderno. Havia, é certo, as lettres de cacliet, mas a mesma Bastilha servia a Voltaire de gabinete de trabalho. A democracia francoza de hoje quasi assassina a Zola por defender Drcyfus, a aristocracia íVanceza do século XVIII foi o mais precioso auxiliar do múltiplo e versátil autor do Díccionario Philosophieo quando clle reclamou, com tanto ardor o vehemencia, a revisão dos processos dos Galas e de Sirvens.

A hleralura ainda é possível com, a falia de liberdade simplesmente política, mas quando pelo predomínio de uma classe ou pela tyrannia de um déspota, ou da massa popular, falta a liberdade espiritual, mesmo no puro dominio philosophico, ella não é mais possível. No Paraguay de Francia, mesmo que o povo não fosse por completo illetrado, não poderia haver producçào literária. A insipidez da literatura norle-americanaa té bem pouco tempo póde-se talvez attribuir ao velho espirito puritano, hostil ás artes e ás letras. Toqueville mostra admiravclmonlc como esse espirito creou ali uma atmosphera asphyxiante para certa ordem do producçõcs literárias, o de manifestações de pensamcnio, No Brazil houve sempre a liberdade espiritual compalivel com as nossas necessidades, o ale com os nossos desejos. O Código Penal prohibia, é certo, se negasse a exislencia de Deus e a immoiialidade da alma. Essa velliaria ridicula foi sempre letra morla e ninguém fazia de facto caso da prohibição anachronica e impertinente.

Salvo para fanáticos de certa espécie, o não poder ser enterrado aqui ou ali, ou o não casarse legilimamente sinão segundo esta ou aquella fôrma, nào constituo propriamente falta de liberdade espiritual. Para o verdadeiro livro pensador são formalidades secundarias, que lhe não offendem as crenças, desde que elle se submette a ellas como se submette ao imposto, por obrigação legal. Na expressão literária foi absoluta a nossa liberdade espiritual. Aliás, o mais desconfiado dos governos não acharia que dizer da sua perfeita innocuidade. Só a poesia nos últimos annos do Império seinflammava cm estrophes rej)ublicanas, socialistas, revolucionárias, materialistas, da «idéa nova», por via de regra ruins. Nem os governantes, nem o povoas liam, e os poetas catechisavam-se entre si. Os primeiros tempos de um novo regimen que se quer ilrmar o fazer-se defmilivo, são sempre mais ou menos intolerantes, e desconíiados da liberdade. A republica no Brazil confirma esta regra; senliu-se com ella um retrahimento daquella liberdade.

As letras, porém, que na sua indiffe- PRODUCÇÃO LITERÁRIA NO BRAZIL 79 rença e allieiamento arcadicos da vida nacional, quasi nada delia exprimem, não revelam esse phenomeno, sinão pelo accôrdo geral de todas as vozes. Não ha poetas monarchislas, restauradores, reaccionarios contra a republica como os havia contra a monarchia. Os mesmos socialistas emmudeceram, receiosos talvez não fosse o seu socialismo considerado uma dissidência. Si algum escriptor, como o autor do Inoejado, do Imperador no Exilio, de Minha filha, canta numa nota discordante, isso não commove o governo, nem diminue o apreço publico pelo escriptor. Em livro, eu creio ha aqui a liberdade para dizermos quanto quizermos, porque o livro, pouco lido, não tem repercussão em o nosso meio. No jornal é outro caso; mas, salvo circumslancias cspeciaes, ainda ahi é grande a liberdade espiritual, sobretudo si não se abusa delia no estreito dominio da política praclica e do dia. As dissertações doutrinárias passam absolutamente incólumes — talvez pelas mesmas razões que o livro: não temos estômago para as lêr.

Os povos de cultura latina o educação catholica lèm muito pouco. O mesmo francez lê menos que o inglez, o allemão ou o americano. Laveleye attribuiu a maior capacidade de leitura dos povos protestantes ao habito que estes ganham, desde a infância, de ler a Bíblia. Nainfancia os cathohcosnão lêm nada, e nesses povos a literatura infantil, tão rica nos protestantes, é escassa, desvaliosa ou apenas uma mesquinha imitação da dos anglo-saxões e germanos. Leu-se sempre, c ainda hoje, pouquíssimo cm Portugal. A mulher raro sabia ler, e a leitura lhe era desaconselhada pelos seus confessores e pelos moralistas. Na sua Carta de guia de casados aconselha D. Francisco Manoel de Mello: «Ainda fico com escrúpulo sobre a lição cm que muitas (mulheres) se occupam. O melhor livro é a almofada e o bastidor; mas nem por isso lhes negarei o exercício delleS. Estas que sempre querem ler comédias, e que sabem romances dellas de cór e os dizem ás vezes entoadas, não gabo. Outras são mortas por livros de novellas; taes pelos de cavallarias. Aqui é mais perigosa a affeição que o uso.

Bem vejo que se lhes pódc permittir este desenfado: mas seja com maior cautela áquellas que excessivamente se lhe entregarem; visto que podemos temer se ama nelle antes a semelhança dos pensamentos que a variedade da lição ». D. Francisco Manoel, com ser um dos fidalgos portuguezes mais intelligentes e allumiados do século XVII, homem viajado e culto, não faz sinão exprimir o conceito da sua gente sobre as leituras das mulheres, e afinal, esse conceito, cheio de desconfiança e restricções, mesmo no espirito esclarecido do mal aventurado escriptor, se PRODUCÇÃO LITERÁRIA NO BRAZIL resume na sua frase: « O melhor livro é a almofada 0 0 bastidor...» As nossas avós, na máxima parle, não sabiam ler,e o numero de analphabetos no Brazil, em 1890, set^undo a estatística olticial, era,' em uma população de 14.333.915 habitantes, de 12.213.356, isto é, sabiam ler apenas 16 ou 17 em cem brazileiros ou habitantes do Brazil. Difíicil será, entre ospaizes presumidos de civilizados, encontrar tão alta proporção de illelrados.

Assentado este faclo,verillca-se logo que á literatura aqui falta a condição da cultura yeral, ainda rudimentar e, igualmente, o leitor e consumidor dos seus productos. Dous milhões de leitores bastariam em um paiz do Norte de gente amiga da leitura, como os Scandinavos, os Allemãcs, os Hollandezes, os Anglo-saxões para sustentarem uma literatura; em um paiz cathoHco-latino, o sobretudo, latino-americano, são de lodo o ponto insuflicientcs. Falta-lhe pois, para viver a atmosphera indispensável, que são os leitores que lhe fazem, e não üca sendo sinão uma literatura de poucos, interessando a poucos. Os escriplores, de facto sem communhão com o seu povo, com a sua nação, são forçados também a viver espiritualmente fora delia, no commercio quasi exclusivo, não direi só da literatura, mas do mesmo pensamento, da mesma emoção allieia. Aos salões, á conviveijcia da mulher, attri- buem os críticos, não só francezes si não estrangeu^os também, a florescência, o brilho, a riqueza da lileralura de França e ainda o seu caraclor de sociabilidade.

Mas os salões literários, si bem nascidos e prosperados em França, não são uma cousa exclusivamente franceza, a Allemanha, a Inglaterra, a Itália, a mesma Rússia os tiveram, no tempo em que a sua acção foi mais necessária e mais útil, quando elles faziam a sociedade indispensável á producção literária, e os tem, com menos efflcacia c brilho, ainda hoje que, nesses paizcs, a socicciade geral, feita de todos, porventura dispensa essa sociedade particular. Também esta condição faltou á nossa literatura. Substiluiram-na mal e imperfeitamente as arcadias e academias, que aliás tiveram a vantajem do approximar os homens de estudo e estimulal-os. O Instituto Histórico, por exemplo, foi um bom elemento de producção literária no momento da sua fundação e ainda por annos depois. Mas essas associaçãos literárias não são entretanto a sociedade e acabam por estreitar os espiritos dos seus habituados, quando o effeito da sociedade é alargal-o pela multiplicidade e diversidade das impressões intellectuaes e das emoções moraes, pelo encontro e opposição das idéas, dos sentimentos, dos juizes.

Ella é ao demais, e só ella o pôde ser, o campo de observação do PRODUCÇÃO LITERÁRIA NO BRAZIL 83 poeta, do romancista, do philosoplio, do psycologo, o meio de onde todos os que pensam e escrevem podem receber impressões, lições,. sensações, estimules, vibrando nelle e por ello. Os contados literários foram poucos na literatura brazileira, a falia de sociedade, as enormes distancias e as difficuldades de communicação os obstavam. Começaram-se a fazer mais eíTicazmente quando o Rio de Janeiro tomou definitivamente a funcção de nossa capital intellectual. Os exemplos de Villa-Rica e do Maranhão não provam contra a impossibilidade das literaturas locaes. Taes literaturas não têm reaes condições de vida em mesquinhas cidades provinciaes. Só uma grande capital lh'as offerece. E' o facto histórico que o desapparecimento do localismo literário allemão, nos últimos vinte annos, vem mais uma vez comprovar.

Desde que a xVllemanha se unificou e teve uma capital, a sua literatura tendeu a concentrar-se nessa capital, como a ingleza em Londres, a franceza em Pariz e, hoje, a italiana em Roma, como a hespanhola em Madrid, e a portugueza em Lisboa. Ahás a Allemanha e a Itaha, e a mesma Hespanha, historicamente federações, mais regiões geographicas que nações, não eram exccpção á regra, pois antes da sua unidade política a sua literatura vivia nas capitães dos seus 8Í ESTUDOS DE LITERATURA differentes paizes. Em uma federação como a brazileira, sem vida e menos espirito local, cujos estados carecem inteiramente das condições necessárias á producçào literária, vã é a tentativa da existência de literaturas locaes. O Rio de Janeiro tem fatalmente de absorver tudo. E' o que já começa a passar nos Estados Unidos onde, embora federação mais natural que a nossa, e apezar de grandes centros intellectuacs como Philadelphia, Baltimore, Chicago, Boston, Nova York se faz de facto a capital literária o artística do paiz.

No Brazil, mesmo no Rio de Janeiro, não encontra ainda o escriptor a reacçáo das bellas artes, os contactos estlieticos que lhe podem ser úteis estimules e lições ao seu pensamento e á sua fôrma. A sua cultura puramente esthetica íica assim falha, si elle não pôde viajar, ver e estudar os grandes mestres. As viagens são para a producção da obra de arte uma condição ou, pelo menos, uma causa efílciente delia. Os artistas do norte da Europa têm lucrado immensamente em ver o sul; a Itália foi a mestra confessada não só dos grandes pintores, esculptores e architectos do norte, mas de escriptores como Goetlie, Shelleyou Ruskin. Que não devo este á cathedral de Reims e a Veneza, a toda a arte gothica franceza e á pintura italiana? Raro será nos Estados Unidos o poeta, o escriptor que não PRODUCÇÃO LITERÁRIA NO BRAZIL haja visitado a Europa; muitos ali estudaram, cursaram ou simplesmente freqüentaram as uivcrsidades, as grandes lições de Oxford, de Cambridge ou da Sorbona ou do Gollegio de França e de instituições similares da AUemanha.

Si isto pôde nos fracos diminuir a originalidade nativa, nos fortes antes as realça pelo augmento da cultura, pela visão das cousas novas, pelo próprio confronto dellas com as deixadas na pátria. Exemplo: — Longfellow c Gonçalves Dias. Não viajara, porém, somente fora do paiz, mas nelle próprio; conhecem-no, assimilam-lhe o gênio por todo elle esparso, isto não só os norte-americanos, mas os europeus. Em nação como a nossa, cm que o conhecimento da nossa historia, dos nossos costumes, da nossa vida, ó tão difíicil, mais necessário se torna o conhecimento directo do paiz, que poderia ser causa de uma sensação mais completa de nós mesmos. Qualquer que seja, porém, o valor destas condições, causas e incentivos da producção literária, aqui ou alhures, não pôde esta ser valiosa sem que no escriplor haja, além do talento, cultura que o fortifique e fecunde, idéas e sentimentos que o valorizem, c a sciencia de cxprimil-os. cm unesp' 10 11

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