O Brasil naval: "Quatro séculos de atividade marítima" Estudos de Literatura Brasileira: 3ª Série · Capítulo 7 de 14
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O Brasil naval: "Quatro séculos de atividade marítima"

VII o BRAZIL NAVAL Quatro séculos de acUoidade maritima. Portugal e Brazil, por A. JACEGUAY e VIDAL DE OLIVEIRA. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1900. O livro dos Srs. Almirante Jaceguay e Gapiláo-Tenenle Vidal de Oliveira obedece ao conceito, posto cm tanta evidencia pelo celebre escriptor naval norte-americano, Gommandante Wahan, da inlluencia e importância do poder marítimo na historia. E' uma applicação, pôde dizer-se, desse juizo á nossa historia. Na parle que lhe coube escrever, a primeira do livro, trata o Sr. Vidal do Oliveira da origem da marinha de guerra portugueza, do nascimento da brazilcira, das lulas da independência c campanhas contra os rebeldes do Pará e Rio Grande e das guerras com as Republicas do 116 ESTUDOS DE LITEnATURA Prata. Mostra como foi a marinha que permiltiu a Portugal, não só adquirir, mas conservar os seus vastos dominios do Brazil, contra as investidas francezas, inglezas [e liollandezas, o seu papel na lula da independência depois em dominar os revollosos do extremo norte e do extremo sul, levantados contra o poder central.

Sem duvida, sem este começo de marinha, feito na maior parte cora navios, officiacs e tripulações portuguezas, e com mercenários inglezes, aliás do mais alto valor, e cheios de dedicação á causa que abraçaram, como o « indomável » Cochrane, Taylor, Greenfcll c outros, a integridade do Brazil teria acaso sido quebrada, naquelles ponlos últimos do paiz, e mantida com maior difficuldade nos pontos intermédios, como a Bahia e as províncias que a acompanhassem, desassombradas de quahpier aggressão immedíata, que só a marinha poderia fazer. Demasiado succinta, como é, a exposição do Sr. Vidal de Oliveira, si tem deficiências, que só um especialista poderia notar, é bastante para dar ao leitor commum uma idéa, suflicicntemenle precisa e exacta, da marinha porlugueza no seu apogêo e na sua decadência, do seu papel o influencia, da gênesis da brazileira, e da sxia funcção na nossa historia desde a independência até á campanha oriental. E é de admirar e louvar que o Sr.

Vidal de Oliveira o BUAZIL NAVAL 117 o tenlia podido fazer, e com tania proliciencia em lão poucas paginas, pondo nellas, parece, todo o essencial do seu assumpto. O Sr. Almirante Jaceguay, na segunda e maior parte do livro, occupou-se da guerra do Paraguay, tratando especialmente das operações combinadas da esquadra brazileira e dos exércitos alliados. Duas feições desta escripto o tornam singular na congênere literatura nacional: a primeira é que, sendo um depoimento pessoal de uma testemunha que soube ver e que sabe dizer o que viu, tem a animação, o vivido, a emoção, da cousa recontada por quem a presenciou e que ainda vibra ás sensações experimentadas; depois, o contador, sem embargo de cómmovido, conserva lúcida a sua intelligencia de teclmico, a sua sciencia de profissional, e ao mesmo tempo que faz desenrolar-se o drama aos nossos olhos attenlos e sôfregos, vai-llie misturando, a tempo D a propósito, as suas reflexões criticas, dizendo o seu juizo de marinheiro amestrado sobre a sua acção e cada um dos seus incidentes e peripécias.

Esta nota pessoal dá á sua narrativa um sabor picante e raro em historias similhantes. Na minha qualidade de pacifico, detesto a guerra e não tenho nenhum gosto pólos livros que a Iratam. Também é' menos que medíocre, é nulla a minha admiração pelos guerreiros. Um philosopho, que aliás encontrou nos militares brazileiros fervorosos c não poucos adeptos, mostrou, com a sua profundeza habitual, que a coragem pliysica, que é a commum da guerra, é apenas uma qualidade rudimentar. As partes que se podem admirar no homem de guerra sáo a energia moral, o sacriíicio ao dever, a abnegação de si próprio, a mesma intelligencia, embora ao serviço de uma tarefa de morte e destruição. Mas ha obras de paz, de civilização e de humanidade, em que é maior e mais difficil a manifestação dessas qualidades. Por ellas sobrelovam a todos os guerreiros, um Livingstone, um Nansen, um Tolstoi, — ou um desses missionários que vão sós, inermes, desamparados, levar o seu Deus ás gentes brutas e hostis, ofíerecendo-se impávidos á morte cruel e obscura.

Pezar destes sentimentos, não me pude furtar ao interesse de que estas paginas do Sr. Jaceguay me tomaram, como me não poderia esquivar á commoção que os mesmos combates nelle descriptos me causariam, si, mero espectador, os presenciasse. O autor não é só um marinheiro que deu todas as provas de valentia e de alta capacidade profissional, na paz c na guerra, um amoroso, um apaixonado do seu officio, é ainda, ou mais, para quem, como eu, não pôde avaliar em toda a sua extensão aauellas aualidades, um espirito o BRAZIL NAVAL 119 pouco vulgar nos que entre nós traiam armas. Lcmbra-me a surpreza admirativa com que os homens de letras lemos, ha uns cinco annos, a sua caria publica ao Sr. Joaquim Nabuco, O deve/' do morneiiío. Todos reconheceram nesse marinheiro um publicista o um cscriptor de raça, com Iodos os attributos que, cultivados, fazem os melhores.

Depois o seu livro sobre Organização naval, os seus artigos na lieoista Marítima e a sua interessante collaboração na Revista Brasileira recontando, com elegância e desembaraço, a Primeira missão brasileira, ü China, completaram e assenlaram essa primeira impressão. Conheccmol-o então, nas palestras desta Revista, como um cavalheiro, si esla palavra traduz o intraduzivel gentleman dos Inglezes, conversador dos mais agradáveis, variado, interessante, cheio de espirito e intelligencia, conhecendo não só o navio e a manobra, mas o ^gabinete de estudo, os salões, os livros, a poesia e as artes; um marinheiro forrado de um intcllectual, um soldado homem de sociedade c homem de cultura, com uma vasta erudição technica e geral, sabendo nas suas minúcias a historia naval do mundo, instruído por miúdo na de todas as grandes guerras, desde Alexandre a Joubcrl e Roberls, admirando alé o fetichismo o execrando Napoleão, cujas batalhas, como as de Nelson ou F^arragut, não têm para elle segredos.

R ni5o só a historia militar, sinào a política também, lhe ó familiar, e não somente a historia, e as sciencias e artes que mais lhe imporia saber como profissional, mas as literaturas antigas e modernas, Homero, Virgílio, Camões, os grandes poetas da navegação e do mar, c Shakespeare e Moliòre c toda a moderna literatura franceza. Cousa espantosa, conhece mesmo os nossos! Um dia appareccu com um volume de Gonçalves Dias; tivera uma questão com alguém sobre uns versos do poeta; levava o livro ao contender jiara jirovar-lhc que não tinha razão. Contava bem, sem postura, e, como homem de boa sociedade, sem o defeito commum a quasi todos os nossos profissionaes, civis e militares, de aborrecer o ouvinte leigo com o vocabulário, e ás vezes mesmo a giria, da respectiva profissão. Sentia-se, porém, nesse marinheiro a nostalgia do lombadilho e do mar.

Eram as cousas da marinha e da guerra maritima, todas essas invenções novas, elegantes e horríveis, que a sciencia moderna tem posto ao serviço da destruição do homem, os seus assumptos predilectos, que ellc tinha a arte de nos fazer não só supportaveis, mas interessantes. Não nos admira agora que, com todas estas qualidades, tenha o Sr. Jaceguay escripto essas paginas vivas e commovenles, relatando os ac- o BRAZIL, NAVAL 121 los du marinha brazileira na guerra do Paraguay. R.efere-os, já o disse, como testemunha perspicaz, ou como aclor excellente c convencido desse drama cruento, e analysa-os, o que se faz talvez peLi primeira vez no Brazil, com a sagacidade e competência de um estrategista naval.

Pela vez primeira aqui, elle submette á critica actos dos chefes e factos da guerra, mostrando, ao (pie parece, aos não especialistas, como o escriplor destas linhas, á melhor luz uns c outros, o fazendo-os melhor comprehender certos aspectos daquella campanha e avaliar melhor as condições em que ella se fez, porque se prolongou por tanto tempo, c, respeito especialmente á esquadra, a importância do seu papel nella, os seus elementos de guerra, a sua força e valor real, e como os seus chefes os souberam aproveitar. Na sua relação destacam-se, com o relevo singular dos grandes pintores navaes, os quadros das duas grandes batalhas de Riachuelo e de Humaytá. Nem a critica de que acompanha a narrativa, arrefece-lhe a viveza e o ardor. Sob a penna do historiador critico fulgura ainda a espadíi do guerreiro. O seu períil de Barroso, a explicação do procedimento, em Fiiachuelo, do velho marinheiro e a defesa que dello faz, toda a exposição dessa batalha emfira, c, na sua concisão, o que de melhor, si não de único. possue a nossa lileralura no gênero.

Só se lhe emparelham alguns rápidos quadros, mais digressões verdadeiramente que quadros da guerra do Paraguay, feiLos pelo Sr. Joaquim Nabuco no livro da vida de seu pai. E é curioso que de uma critica que tira a Barroso uma parle da sua gloria lendária, saia entretanto o velho chefe de mar mais engrandecido, a uma melhor luz. Destruindo a flotilha paraguaya, a batalha do Riachuelo limpou o rio Paraguay, do Passo da Pátria a Humaytá, de um inimigo que podia crear á acçáo dos alliados naquelle rio difüculdades maiores do que já se lhes deparavam; mas sem a passagem de Humaylá difficilimo havia de ser aos alliados levar a guerra ao centro das operações do inimigo, dominal-o nos reductos da sua defesa.

Uma opinião preconcebida em toda a America Meridional, e especialmente nos paizes interessados lia guerra, tinha por inexpugnável aquella fortaleza, posta a,cavalleiro da estreita curva de um rio, varrendo com os seus 90 canhões Iodos os seus pontos, e cujo poder de ataque e resistência era augmeníado por grossas correntes lançadas através do rio, e por uma i^êde do torpedos nelle mergulhados. O próprio commandante em chefe da esquadra que devia tentar a arriscadissima operação, por muitos profissionaes desaconselhada como de antemão falha, participava da- o BRAZIL NAVAL 123 quelle preconceito, e, prova-o exuberantemente o Sr. Jaceguay, náo foi sinão obedecendo aos reclamos insistentes de Caxias, general em chefe das forças alliadas, e do governo do Rio de Janeiro, que se abalançou a emprehendel-a. Sinto deveras náo poder pôr toda aqui a narração desse memorável aclo da tragédia sanguinolenta do Paraguay, feita pelo Sr. Jaceguay, que nollo íoi magna pars. O Sr.

Jaceguay diz-nos que « o drama da passagem deHumaylá desenrolou-se em três actos separados por intervallos que a historia ha de fixar,, a despeito da confusão intencional dos faclos com que a operação foi descripla nos documentos officiaes da época, interessados em attribuir-lhe a unidade que ella não teve. Houve três passagens de Humaytá, na madrugada de 19 de Fevereiro de 1868: a primeira foi a do Barroso com o seu consorte o Rio Grande; a segunda foi a do Bahia, escoteiro, desenvencilliado do do Alagoas, e do Tamandárê, irmanado com o Pará; a terceira foi a do Alagoas só, abandonado pelo seu par que lá ia águas acima a toda força e por uma esquadra, chamada de protecção, que flcou petrificada águas abaixa pela inércia de seu chefe, uma esquadra em que Gonçalves commandava um navio, e onde havia outros valentes Gommandantes que, como aquelle, teriam voado em ESTUDOS DE LITEUATURA auxilio de seu bravo companheiro periclitantc ».

Assistamos ao primeiro acto: « A's 9 horas e 45 minutos como estes ainda não apparecessem e a lua nascente já mostrasse a sua claridade, por trás da matta do Chaco, o Commandante do Barroso mandou por um ofticial scienliílcar ao Almirante que, retardados os seus companheiros, estava noemtanto prompto a avançar, com a máxima pressão na caldeira dos dous navios, Nesse entrementes distinguiu-se uma luz movendo-se sobre a água: devia ser de um dos retardatarios. O Barroso poz-se logo em movimento sem parar siquer para receber o official que voltava da capilanea, o qual difíicilmente conseguiu atracar ao costado do navio mediante um cabo (jue se lhe lançou. O Almirante reiterava a ordem de esperar, mas o Barroso não mais se deteve e investiu o passo só com o Rio Grande. Eram 3 horas. Os Paraguayos contavam, provavelmente, que, a realizar-se o ataque, os navios se apresentassem a meio rio; o Barroso, porém, prevalecendo-se da grande enchente, surgiu-lhes perto da Ponta de Pedras, de onde fez rumo a manter-se tanto quanto possível próximo ao barranco.

Não tardou um minuto o logo rolante de todas as baterias sobre os dous navios, sem demora respondido pela esquadra de protecção. A primeira bala que feriu o Barroso na face o BRA.ZIL NAVAL 125 de vanle da casamala, trazia tamanha energia accumulada, produziu choque tão violento, que dir-se-ia ter sido lançada com a intenção de fazer o navio estacar. O homem do leme atordoado abandonou a roda de governo por alguns segundos; a trepidação da muralha encouraçacki cm que se dou o impacto do projectil foi tão forte que causou uma contusão no braço que o Commandanto tinha apoiado no batente da portinhola de vante, por onde dirigia o navio com o pratico. Em certo sentido a metaphora favorita das ordens do dia do Almirante—abobadas de balas — podia-se applicar aos dous navios exploradores, porque elles progrediam incólumes na sua rota, cruzando-se por cima delles toneladas de projeclis arremessados das baterias inimigas e dos encouraçados que as canhoneavam.

« No meio do troar de mais de 300 canhões em acção, onvia-se de bordo dislinctamente o estrepito das balas que devastavam a floresta do Chaco., E' possível que o clarão das gigantescas fogueiras que, como por encanto, se accehderam na margem do Chaco para illuminarem o passo, e bem assim os reflexos do fogo que pareciam abrazar o superfície das águas, tivessem prejudicado a visão dos artilheiros paraguayos, de modo a poder-se explicar tão grandes erros üe pontaria. O que é certo é que, depois de quasi exlinclas as fogueiras, com uma luz mais suave, cllcs acertaram a valer nos navios que passaram mais tarde. No Irajecto do Barroso e Rio Grande, desde a altura da Ponta de Pedras até o canal junto do barranco, apenas seis balas tocaram os dous navios. « Em menos de 15 minutos estavam debaixo da bateria Londres, a pequena distancia do barranco. Foi o momento critico do trajecto, até então prodigiosamente feliz dos batedores da divisão avançada.

Chegados ao ponto em que deviam manobrar para contornar o barranco, o fio mais intenso da correnteza apanhou-lhes a proa e a acQão do leme tornou-se impotente para vencer a inércia da dupla massa impollida em sentido contrario. Continuando a seguir avante, em poucos minutos encalhariam de proa contra o barranco; parando ou andando para trás, iriam ensaccar-se nas rovessas da enseada formada pela Ponta de Pedras, de onde difficilmente poderiam sair; mas, graças ao tubo acústico, disposto entre os dous navios, o Commandante do Barroso ponde manobrar coma promplidão que o caso difficil exigia, mandando parar e logo funccionar para trás as machinas do monitor, as do seu navio sempre trabalhando para diante, a toda força, conseguindo assim, sem immobilisar-se um só instante, aproar a correnteza e em seguida fazer rumo normal ao o BUAZIL NAVAL 127 meio das cadeias.

Proseguia o Barroso com a extraordinária velocidade que o seu liabil machinista sabia imprimir-lhe em laes occasiões, e já estava próximo ás cadeias, quando uma bomba de grosso calibre, explodindo ao cair n'agua, entre a proa do monitor o o costado daquelle, levantou immensa columna liquida que alagou o convez de ambos. Só o Commandante e o pratico Ecliebarne, que tinham os olhos cravados para a frente, attribuiram á sua verdadeira causa aquello espectaculoso cffeito; para os demais tripulantes tora um torpedo, e, no pânico de que muitos se possuíram, indifferentes ás balas, surdiam das escolilhas e porlinholas acreditando que os navios iam se submergir. O valente Antônio Joaquim saiu da torre do seu monitor 'para a tolda pela estreita portinhola do canhão, o que elle mesmo dizia nunca ter, antes, imaginado, fosse possível paru um homem de sua corpulencia. « Alguns minutos mais e o foguete lançado pelo Barroso indicava que as cadeias tinham sido "transpostas e que não havia em Humaytá obstáculos insuperáveis para a divisão avançada. Eram 3 horas c 30 minutos da manhã.

» O commandante do Barroso, que rompera o encanto de Humaytá, era o mesmo official que hoje nos roconta, com sobriedade de bom gosto, a sua façanha, c a quem o povo, acompa- nhando o poeta, deu o titulo pitoresco e expressivo de Barão da Frente. Os governos são porvia de regra anti-estheticos; o imperial deu mais tarde um titulo nobiliarchico ao primeiro que passou Humaylá, mas pejou-se de coníirmar-lhe aqüelle, que linha ao menos o mérito da espontaneidade e o saineto da originalidade. Vejamos, porém, o ultimo acto do drama terrível: « Resta narrar, prosegue o Sr. Jaceguay, a passagem do Alagoas, o epilogo da odysséa, resumida em algumas horas, da divisão avançada. Quando elle, depois de ter sido levado pela corrente até a retaguarda da esquadra de protecção, fundeada abaixo do Humaylá, orientou-se de novo águas acima, ao passar próximo á capitanea, o Almirante deu-lhe ordem de fundear. O Gommandante Maurity,' porém, seguiu avante a investir o passo na retaguarda da columna que nellejá se achava toda empenhada. A esquadra então acclamava delirante o signal do Barroso.

Em sua primeira communicação ao Ministro da Marinha, datada de 21 de Fevereiro, bem como na que dirigiu ao Marquez de Caxias dons dias depois, deu-se o Almirante como desobedecido, mas applaude a desobediência estabelecendo o simile de si mesmo com Parker e do Gommandante do Alagoas com Nelson, no conhecido episódio da o BRAZIL NAVAL 129 batalha de Gopenliaguc. Em sua segunda parle mais minuciosa, ao Ministro da Marinha, de 28 de Fevereiro, o Almirante admilte a hypotbesc de não ter sido ouvida a sua ordem, julgando, porém, de qualquer modo, a acção altamente louvável. O Gommandante em sua parte nào alludc ao incidente; mas, segundo a tradição, elle ouviu distinclamente a voz de commando do Almirante.

Quaesquer que tivessem sido as conseqüências da resolução do commandanle do Alagoas, de não fundear e proseguir avante, ninguém poderá deixar de admirar o nobre impulso que a diclou, tanto mais quanto, si a intenção do Almirante era a do impedir que o monitor fosse procurar o seu lugar na linha da divisão a que pertencia, essa intenção não se tornava manifesta por uma simples ordem verbal de dar fundo, articulada á distancia no meio do fragor do combate, Além da possibilidade de não ser ouvida, a ordem podia ser interpretada como um commando incidente, sem o alcance de uma deliberação definitiva de desligar o navio da fracção da esquadra de que fazia parte. Justamente naquelle momento o Alagoas dava uma guinada que o approximava do Hercal, ao qual abalroou, felizmente sem maiores conseqüências; podia, pois, o commandante ter entendido que o Almirante, mandando-lhe dar fundo, tinha tido em menlc ijrevenir o choque que todos viam iniminenle.

Estivessem as machinas e o apparelho de governo ào Alagoas funccionando com regularidade que, cm sua investida desacompanhado, com o reduzido alvo que apresen- o «RAZIL NAVAL lava, extenuados como deviam estar os artilheiros paraguayos depois de cerca de três horas de combate, inutilizadas, como era provável que se achassem, muitas pecas, já pela celeridade do próprio fogo, já por eíTeito do canhoneio do inimigo, a sua passagem deveria ter sido a menos accidentada de Iodas naquella noite; mas um gcnio mau parecia obstinar-se em desarranjar-lho os delicados engenhos de mareaçtão e os motores; ou os deuses, como nas lides homericas, dividiam-se entre os contendores: si era Minerva que o amparava com sua égide invulnerável, Vulcano, o divino mecânico, se teria declarado contra elle. Quando já havia montado a Ponta de Pedras, desgovernou virando a proa águas abaixo, perdendo assim grande parte de caminho feito para a frente. Mareado para a sua terceira investida, conseguiu avançar em zig-zag sempre desobediente ao leme, até á altura das cadeias: já clareava o dia.

Súbito pararam as machinas motoras por causa de uma avaria. Nos 10 minutos que foram necessários para reparal-a, o monitor foi levado pela corrente até próximo á Ponta do Pedras. Felizmente foi esta a ultima alternativa de retrocesso forçado; da quarta investida foi direito até acima das cadeias c poz-se fora do alcance das ultimas baterias. Continuando a romper águas acima, nenhum dos nossos navios avistava pela proa. Seu cliefe e companheiro o deixara entregue a si mesmo, quando elle já não tinha siquer para protegel-o contra a sanha das baterias inimigas as sombras da noite, sem, ao menos, procurar collocar-se cm posição de poder observar como terminaria o duello do monitor com a fortaleza. Mais de 200 balas de vários calibres attingiram o casco do monitor, sua torre o suas superslrucluras. Estas ficaram completamente devastadas. Na couraça, porém^ os projectis só produziram mossas e depressões mais ou menos profundas: uma única das chapas da torre foi perfurada junto á aresta superior. Havia muitas cavilhas da couraça abaladas.

As obras vivas, com o martellar de tantas balas na couraça, sentiramse, e o monitor chegou a fazer de 1 1/2 a 2 pollegadas de água por hora, á sua chegada ao Tagy« O constructor Levei tinha motivo para oi'gulhar-se de sua obra; o Alagoas passara por uma prova de resistência quasi levada ao ultimo extremo, na qual se mostrara superior ao poder offensivo das baterias de Humaytá; e a prova tinha sido levada a effeito em condições a muitos repeitos similhantes ás dessas experiências que se fazem em polygonos de tiro, para conhecer a efficacia de uma chapa de couraça de nova fabricação; com a differença essencial, o BRAZIL NAVAL 133 porém, que o alvo do Alagoas levava em seu bojo, como o cavallo de Tróia, um punhado de impávidos guerreiros. E o Almirante Inhaúma, de bordo de sua capilanea^ assistia ao cruento confronto, impassível como Agamemnon presidindo aos jogos athleticos celebrados como ultima homenagem aos manes de Patroclo. » Têm este caracter e esta animação quasi todas as paginas da narrativa do Sr. Jaceguay. O seu livro é uma contribuição preciosa para a nossa historia.

O quo elle refere da acção da esquadra brazileira cm frente a Assumpção, é singular. Certo, a sua contribuição histórica vai levantar discussões e protestos; elle, porém, me parece bem informado e documentado para sustentar as suas affirmativas, destoantes da liistoria ofíicial. Aliás a historia da guerra do Paraguay está por fazer, não obstante numerosos volumes que pretendem o contrario. Esta era a impressão que eu tinha, equeo trabalho do Sr. Jaceguay confirmou. cm unesp' 10 11

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