O Sr. Joaquim Nabuco: a propósito de "Minha formação" Estudos de Literatura Brasileira: 3ª Série · Capítulo 9 de 14
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O Sr. Joaquim Nabuco: a propósito de "Minha formação"

distincla, não deixa por isso de ser uma das mais nobres tentativas do grande cscriptor em favor da nossa literatura, entre cujos servidores foi porventura o maior de todos. IX o SR. JOAQUIM NABUCO Minha formação, por JOAQUIM NABUCO. Rio de Janeiro, H. Garnier 1900 No meio do caminho da sua vida, achou-se o Sr. Joaquim Nabuco, como o Florcntino, violenlamenlo afastado do que seguia c que lhe parecia o único direito. Perdera-o, e uma selva se lhe anlolhava, escura c áspera, cnchendo-o do terror do desconhecido. A matta selvagem e forle, pondo-sc entre o seu passado, tudo o que elle amara e servira, com o enlhusiasmo de moço e a generosidade de paladino de uma bella causa, a sua fé de cavalleiro, a sua devoção de preux, e um futuro que elle linha o direito de esperar auspicioso, assombrou-o. Sentiu-se delido e preso ao Irajcclo já íoito, ligado ])or uma força superior á sua vontade, o seu 16'i ESTUDOS DE LITERATURA sentimento e a sua razão, á larga e formosa via que vinha percorrendo, quando aquella matta se llie atravessou na frente o o envolveu, cerrada e aterradora.

Alguma cousa de dentro delia e do dentro delle convidava-o a pencIral-a. Mas naquelle momento a espessa floresta lhe appareeia, aos seus sentimentos affrontados por ella, não só lobrega, mas sórdida e lubrica, intrincada e perigosa, sem saida para os descampados em que o ar é livre o são. Eu exageraria certamente dizendo que este seu livro, Minha formação, é uma revolta ou um protesto contra o facto brusco, mas natural, que o deteve em meio do caminho da sua vida c pol-o na contingência de parar nelle ou de compôr-se com o acontecimento que liro interrompia. Político no regimen subitamente derrubado, e seu servidor leal e convencido, seu bizarro cavallciro andanlo nos seus derradeiros dias, doeu-lhe fundamente a queda de instituições que lhe pareciam ligadas á própria fortuna da pátria, c da familia, sobretudo do seu velho chefe, que as encarnava.

Do seu intimo desgosto, nenhum conforto lhe pareceu porventura melhor que recordar no desalento presente as cousas passadas, e como ultima homenagem ao regimen (jue serviu, o ao mesmo tempo nova e cavalheirosa affirmação da sua fé, re- o SR, JOAQUIM NABUCO 165 compor para a sua gciilc a gênesis do seu espirito. Já então começaria porventura a sentir aquillo que só dez annos depois se llie aclarava no espirito; que sem ter « uma parcella do legilimismo, do direito divino » a sua « caracterização », o seu « accento tônico », era outro, « liberal, não no sentido passageiro, politico da impressão, mas no seu sentido humano, eterno », 1 a aspiração synthetica » da vida tinha que ser de se « não dissociar, qualquer que fosse a sua fôrma de governo;>, dos destinos do seu paiz. No momento em que o fez, o seu leal exame de consciência, a recapitulação raciocinada da formação do seu espirito politico e da sua crença monarcliica, só podia ser, poróm, a justiíicativa da sua abstenção, os motivos que a si mesmo e aos seus compatriotas dava da sua attitude perante o novo regimen.

« A abstenção, diz um dos mestres do seu espirito, é o destorço dos conservadores vencidos », e o advento da Republica fazia do Sr. Joaquim Nabuco, momentaneamente, um conservador. Justiíicativa igual, jamais homem publico entre nós a fez, já não direi com tanto talento, o que, sob o aspecto moral, é secundário, mas com tanta elevação e nobreza. O seu livro ó, sem embargo das divergências em que possamos estar com o autor c suas doutrinas, de um pensador poHtico, e, o que mais é, do ponlo de visla mais geral e mais alio da liloratura, de um dos nossos mais completos artistas literários. O Sr. Joaquim Nabuco, que em matéria artística e literária é um incontentavel, não se julga assim, e uma das melhores paginas do seu livro é a cm que se nega a si próprio aquclla qualiiicaçào, depois de uma analyse espirituosamente íina, de que entre nós rarissimos seriam capazes, da sua idoneidade de poeta: « Quando mesmo eu tivesse recebido o dom do verso, confessa elle, teria naufragado, porque não nasci artista.

Acredito ter recebido como escriptor, tudo é relativo, um pouco de sentimento, um pouco de pensamento, um pouco de poesia, o que tudo junto pôde dar, cm quem não teve o verso, uma certa medida de prosa rylhmica; mas da arte não recebi sinão a aspiração por ella, a sensação do órgão incompleto e não formado, o pezar de que a natureza rae esquecesse no seu coro, o vácuo da inspiração que me falta... » Não quero teimar com o Sr. Joaquim Nabuco, nem saberia oppor á sua concepção do artista uma dcliniçõo em (jue o fizesse caber; mas eu o tenho como tal, e talvez não erre dizendo que o ([ue ha principalmente nclle mesmo, sem a capacidade do verso e sem a « faculdade de representar, de crear a menor representação das cousas », mas com um alto e forte o SR. JOAQUIM NABUCO 167 instincto moral, é um artista, um diletante, quasi, por vezes ao menos, um virluose. Como escriptor, o Sr. Joaquim Nabuco tem o principal talvez dos attribulos do artista c do poeta, a imaginação.

Si se não pôde dizer que principalmente por imagens raciocina, póde-se, todavia, verificar que o seu raciocínio se soccorre mui freqüentemente dellas o o seu estylo é em.summo imaginoso. Não sei que se possa negar dons de artista a quem escreveu esse admirável capitulo Massangana, memória sentida dos primeiros"annos da vida no engenho daquelle nome. Custa-mc resistir á tentação de trasladal-o todo para aqui, fechando com elle estas linhas apagadas. Ha ahi notada, com peregrina finura e delicada emoção, uma sensação rara, mas profundamente verdadeira, a que se pôde exactamente chamar uma sensação de poeta e de artista: a saudade do escravo que desponta na alma dò abolicionista triumphanle, quando a escravidão desapparece: « E' que lanto (copiarei sempre esto trecho) a parle do senhor era inscientemente cgoisla, tanto a do escravo era inscientenienle generosa. A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brazil.

EUa espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu conlacto foi a primeira fôrma ({ue recebeu a natureza virgem do paiz, e foi a que elle guar- dou; ella povoou-o como si fosso uma religião natural e viva, com os seus mylhos, suas legendas, seus encantamentos; insuílou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pezar, suas lagrimas sem amargor, seu silencio sem [concenlração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte. E' ella o suspiro indefinivcl que exhalam ao luar as nossas noites do Norte. Quanto a mim, absorvi-a no leito preto que me amammenlou; ella envolveu-me como uma caricia muda toda a minha infância; aspirei-a na dedicação dos velhos servidores que me reputavam o herdeiro presumplivo do pequeno domínio de que faziam parte... Entro mim e ellcs deve ter-se dado uma troca continua do sympathia, de que resultou a terna e reconhecida admiração que vim mais tarde a sentir pelo seu papel.

Este pareceu-me, por contraste com o instincto mercenário da nossa época, sobrenatural á força de naturalidade humana, e no dia em que a escravidão foi abolida, senti distinctamente que um dos mais absolutos desinteresses de que o coração humano se tenha mostrado capaz não encontraria mais as condições que o tornaram possível, » Tem razão o Sr. Nabuco, nem Garrisson nem John Brown comprehenderiam esta sua nostalgia do escravo; para senlil-a precisa-se de um coração de poeta, de uma alma de artista. o SR. JOAQUIM NAI5UC0 169 Minha formação é pelo seu objecto um livro político, a historia da constituição de um pensamento político. No seu plano inferioi' (é delle proprio.a restricgão), o Sr. Nabuco foi, como elle diz,\ uma das mais consistentes íigurasde nossa política »; mas um político como jamais houve porventura outro no Brazil. Nascido de uma família que poderíamos, á romana, chamar consular, logo madrugou o seu espirito para a política. Ainda nos bancos do collegio, via seu pai, senador do Império, chamado ás mais altas funcções do Estado.

Era pohtica a atmospliera caseira, como o eram as tradições da família. Tudo o votava, pois, á política. Mas além da feição que todas estas circumstancias iam imprimindo ao seu espirito juvenil e do nascimento prematuro das suas ambições de moço, havia nelle uma imaginação ardente, como um sentimento esthetico, que lhe fez não ver na política somente a fria e burocrática governança do Estado, as competências pessoaes, a conquista do poder, as intrigas dos partidos, os manejos eleitoraes, mas um drama capaz de interessar e commover, um nobre exercício do espirito, uma digna occupação da intelligencía. O exemplo de seu pai, político de gabinete, mais tlieoríco que pratico, mais jurisconsulto que estadista, homem de pensamento c de estudo, haveria dado essa primeira direcção ao seu espirilo. Os primeiros livros que medilou, ou apenas leu, o manliveram nella; eram ojjras de poetas, de artistas, de literatos polilicos, Laraeiinais, Lamartine, Pelletan, Esquiros, Quinei, Hugo, Thiers, Mignet, Luiz Blanc.

Basta ver esta lista para imaginar quaes seriam as idéas em formação do adolescente que os lia. A só escolha destes autores já revela quaes as inclinações do seu espirito. E' certo que lera também José de Maisire c D. Donoso Cortez, mas podomos garantir que com muito menos interesse e nenhuma sympathia. Talvez o não fizesse sinão para refutar em um ensaio do precoce publicista, « com a infalhbilidade dos dezesele annos », a infallibilidadc do papa. Não precisa mais dizer que era em política um liberal, do partido ao qual seu pai, liberal de espirito e de temperamento,' acabava de adherir, deixando o conservador. Será necessário declarar que no joven jornalista liberal da Academia de S. Paulo havia um matiz republicano? Não se lèm naquella idade aquelles poetas, pensadores, historiadores, publicistas sem se ficar tanto ou quanto republicano. As idéas do Sr. Nabuco fiuctuavam então, é elle quem nos diz, entre a monarchia e a republica, sem preferencia republicana, talvez somente—confessa-o elle próprio—por causa da tradição da família e da fácil carreira política que tudo lhe augurava.

o SR. JOAQUIM NABUCO 171 Um livro, segundo elle affirma, devia liral-o desta oscillação, a Constituição inglesa de Bagehot. A esse pequeno volume, de facto hoje fora de voga, mas realmente notável, deveu elle o que chama « a minha fixação monarchica inalterável ». Por via de regra, um livi^o só em nós inílue, decidindo-nos entre tendências oppostas, quando ha já em nós disposições sympathicas aos seus ensinamentos, quando nos achamos previamente em correspondência de idéas com o autor. Si a influencia de Bagehot no animo do Sr. Nabuco poude ser tamanha que, segundo confessa, delle tirou, transformando-a a seu modo, toda a ferramenta com que, salvo na abolição, trabalhou em política, foi porque já o achou preparado para aceitar os ensinamentos do eminente pensador inglez.E, justamente comaquellas duas razões que elle lisamente confessa, devia ter tido grande influxo na sua determinação pela monarchia o geito aristocrático da sua Índole.

Esta feição do seu temperamento, que na juventude o devia afastar da Republica, que os seus jovens collegas, como o vulgo, imaginariam consoante á sua casa descomposta de estudantes, o regimen das liberdades incommodas e das promiscuidades desagradáveis, havia mais tarde de ser, na monarchia menos ou mais que democrática, vulgar, anti- eslíielica; sem corte e sem cerimonia, e nos nossos parlidos sem ideal, sem inlelleclualidade, sem maneiras, sem outro ardor que não o eleitoral e o da conquista do poder, motivo de ser ello como que um corpo estranho na nossa política. O que sem duvida lhe infundiu Bagehot, com a admiração pelo regimen inglez, foi a veneração pela Inglaterra, o gosto das cousas inglezas, a estima á vida ingleza, o apreço da aristocracia ingleza, liberal, esclarecida, aberta, culta e superiormente distincta de todas as outras aristoci'acias, pela sua comprehensão do regimen moderno e sua adaptação a elle.

Entrando na política, não somente com a sua carta de bacharel, mas cheio de leituras, de idéas e de ambições mais altas que as dos primeiros lugares que ella lhe poderia dar, o Sr. Joaquim Nabuco entra do mesmo passo no jornalismo partidário. Felizmente para elle, o partido de seu pai estava na opposição, lugar do qual, mesmo um homem de partido pôde ter idéas e publical-as. Diz-nos elle, ecremol-o,que « a vida, a sociedade, o mundo, as letras, a arte, a philosophia mesmo » eram-lhe de maior encanto que a política. No Brazil, os parlidos constitucionaes quando fora do poder, por um singular phenomeno de mimetismo, tingiam-se de matizes republicanos. O Sr. Joaquim Na- o SR. JOAQUIM NAIÍUCO 173 buco não sairá de S. Paulo do todo cm todo estreme de qualquer traço republicano. Não é a tòa que se é moço, americano, e se lêm assiduamento os escriptores francezes alras citados. Na Reforma, jornal do seu partido, escrevendo sobre a primeira viagem do Imperador, aconselhava-o a que, « em vez de ir á velha Europa, fosse Ájoven America ».

Este artigo era, como elle reconhece, « quasi republicano. » Bagehot fora como quer que seja eclipsado por Laboulaye—um dos oragos do liberalismo do tempo. Na liguagem desse artigo dos 21 annos « encontra-se, dil-o elle próprio, um minimum de monarchismo e um maximum de republicanismo. ■» Isto era em 71; em 73, « instinctivamente, pela voz do sangue », elle se acha francamente contrario á idéa que já tinha um grande órgão na imprensa, a [Republica, contra a qual sustentava a superioridade da fôrma monarchica sobrearepuWicana. « Dessasidéas, escreve agora, eu não devia sair mais, como se verá; não são como as de 1871, arrastamento, I enthusiasmo, paixão; são dessas fôrmas de espirito que não deixam mais a intelligencia tomar outra fôrma; tèm para ella a transparência, a clareza da evidencia, como si fossem, e realmente são, primeiros theoremas de geometria política. D O que subseqüentemente impressiona I o espirito do Sr.

Nabuco, viagens pela Europa, visita á Inglaterra, uma estação nos EsladosUnidos, o estudo dos livros, e o commercio dos homens, sensações de literatura e de arte, o espectaculo dos acontecimentos, tudo concorre para assentar e confirmar este sentimento. Em 1879 a sua formação monarcliica, e, contemporaneamente, não haveria no Brazil fé monarchica mais raciocinada que a do Sr. Nabuco, era completa. E o que a fortificava, parecendo assental-a em bases indestructiveis, era que nelle a crença política se casava admiravelmente com o sentimento monarchico com que nascera para a vida publica, e que a impressão da Inglaterra, ao mesmo tempo liberal e aristocrática, desenvolveu. O republicanismo não podia ser nelle sinão uma flor ephemera da sua imaginação, excitada pelo seu liberalismo innato, um fructo peco da literatura Vepublicana franceza. O Sr. Joaquim Nabuco só seria verdadeiramente republicano nas republicas da Renascença italiana.

Foi confessadamente, e o será ainda, no Chile, nos Estados-Unidos e em França, mas porque nesses paizes ha, ao seu ver, razões especiaes, históricas e sentimentaes, para esse regimen, e mais, porque o fundo da sua constituição social ficou monarchico, e em França o no Chile, aristocrático. Político no sentido commum da palavra e na pratica geral da COUSí< no Brazil, elle não o foi jamais. Nem o podia o SR. JOAQUIM NABUCO 175 ser; o seu temperamento é evidentemente político; a preoccupaçào politica, a predominante, a tônica, como ellc diria, do seu espirito; mas a politica para elle é apenas um thema literário o esthetico, um thema constantemente presente, um thema ahsorvente, querido, insubstituível, mas um thema para cogitações pliilosophicas, observações, criticas, gcnerahzações e construcções imaginativas. Para este artista, este diletante, a politica é o único assumpto possível para a sua poesia, a sua literatura, o seu sentimento das cousas humanas.

Ama-a profundamente e verdadeiramente, mas apenas talvez como um estimulo, um emprego da sua intelligencia, um assumpto que lhe é familiar e, por herança, o prefere a todos. Em politica a sua'ambição foi, de facto, toda « de ordem puramente inlellectual, como a do orador, do poeta, do escriplor, do reformador ». Toda a occupação da sua àctividade em politica tomará sempre o aspecto de um thema esthetico e literário,,de um exercício intellectual. A mesma sua brilhante e fervorosa campanha da abolição não escapa a esta lei do seu espii'ito. Leiam-se neste livro as paginas que lhe consagra, e ter-se-á comprovação. Aquelle sentimento da nostalgia da escravidão, da saudade do escravo, é o do artista que vê acabada e prompta a deixar-lhe para sempre a officina, a obra a que dera com amor o melhor de sua vida, da sua alma, do seu lalento. Só elle no Brazil poderia escrever este conceito: « A política, felizmente para a intelligencia que nasceu com essa diathese, lem lados ainda mal defmidos que confinam com a arte, a religião e a philosopliia...

» São esses aspectos que o tentaram e interessaram na política,, o que bastava para effectivamente o excluir delia, ao menos aqui. Elle é, sobretudo, um intelleclual; nada lhe parece mais nobre que o exercício das faculdades intellectuaes, principalmente no dominio das occupações desinteressadas do espirito.Mas o seu pensamento éque « não ha em regra nada mais ingrato, mais futil, do que a producção que o indivíduo tira toda de si, e é o que acontece quando o talento não tem uma profissão literária séria. » E, referindo-se aos nossos escriptores, precisa o seu pensamento: í O material em que trabalham os nossos homens de letras, são os costumes, a sociedade, quando são romancistas ou dramaturgos; as leituras, quando são críticos; a própria vida ou impressões quando são poetas. O material preferido é, como se vê, todo elle pouco consistente, epliemero, em parte grosseiro, em parte imprestável ou insufficicnte, e assim a producção é quasi toda fácil, improvisada, sem trabalho anterior, sem investigações, sem esforgo, sem tempo, sem o SR.

JOAQUIM NABUCO 177 nenlium elemento, que revele continuidade, ambição. Faltando a disciplina c a emulação de uma especialidade, que acontece? A intelligencia contráe o habito da dissipação, da indolência, do parasitismo; o talento relaxa-se, perde todo o peso especifico. Temos por isso uma literatura desoccupada, o nosso campo literário é composto áejlaneurs ». Para o Sr. Nabuco a política foi apenas o objeclo da sua «profissão literária», o «material s em que ellc trabalhou. E não sendo sinão isso, admitiria que elle lhe desse tanta importância, si não soubéssemos que um signal dos verdadeiros artistas é o amor e o interesse, ás vezes exaggerados, pelo seu assumpto. Crendo comprehender os intuitos do Sr. Joaquim Nabuco roferindo-nos minuciosamente a sua Ibrmaçòo política, não lh'o desculparíamos, si lhe não conhecêssemos o seu profundo amor de escriptor e de artista pelo objocto constante da sua imaginação creadora e mais si o não houvesse feito pela maneira verdadeiramente superior por que o fez.

A sua formação política oumonarchicadefactonosnão interessa, mesmo a nós, seus admiradores e amigos. Nem o Sr. Nabuco chegou a representar na política brazileira um papel sobre o qual a sua formação especial tivesse tal effeito que valesse a pena • conhecel-a. E que houvesse representado, isso ESTUDOS DE HTnUATURA não mudaria de figura. Que imporia a formação política deum Vasconcellos, do um Paraná, de um Zacarias, de um Colegipe? A sua obra vista de cima é ao cabo secundaria. Só a dos estadistas constructores de povos, transformadores do seu tempo, merece que se lhes descubram os Íntimos motivos de acção, as inspirações, crenças, estimules a que obedeceram. E ainda entre esses é preciso distinguir. Sob o aspecto pyscliologico, um Bismarck é mais interessante que um Washington. Não é a formação política do Sr. Joaquim Nabuco que nos interessa no seu livro; é elle mesmo, e é mais a forte belleza do livro. Ce quefaime en DOUS, Madame, cestvous même. O Sr. Joaquim Nabuco é um dos Brazileiros mais interessantes, sinão o mais interessante, do seu tempo.

Homem de letras, homem de estudo, homem de arte, homem de imaginação, poeta, critico, elle foi também — creio poder empregar o passado — homem do mundo, homem político, orador parlamentar, tribuno popular, agitador de idéas e um dos chefes mais brilhantes, mais puros, mais convictos do mais considerável movimento social que nunca leve o Brazil. E tudo isto foi com rara distincção, com talento, com graça, com superioridade — e com uma ponta de vaidade que não ia mal, antes os realçava, aos dotes encantadores do seu espirito e da sua o SR. JOAQUIM NADUCO 179 pessoa. Com Ioda a sua vida exterior de mundano e poliLico, de propagandista da abolição, houve sempre nelle a capacidade da vida interior: o trabalho mental appiicado ás cousas mais elevadas das letras, da arte, da política, da sociedade, a preoccupação dos problemas sociaes, o sentimento grave das responsabilidades humanas. A grande inferioridade da nossa literatura é a falta de pensamento interior que nella ha, pela carência de vida interior nos seus cultores. Toda a obra do Sr. Nabuco revela essa vida, de que está clxeiü.

Minha formação. E é ella que lhe dará o lugar especial que virá a occupar nas nossas letras, porque este livro inspirado por um pensamento político é, pela emoção que contem, uma obra literária. A formação política do Sr. Nabuco é acompanhada sempre de elementos literários e moraes, que são como que a argamassa da sua construcção monarchica. Sob o aspecto intellectual, o seu espirito se formou da mistura de elementos philosophicos e literários diversos, predominando talvez a influencia de Renan. Esteve em moda, por seguir a Taine, metter á bulha o eclectismo de Gousin; que somos nós todos, agora, mais, que é possível ser, sem cair no dogmatismo positivista, sinão eclecticos? Renan, fortiíicando-o no seu liberalismo congênito, foi talvez o systematizador da sua tole- 180 ESTUDOS DE LITERATUIIA rancia. A tolerância, virtude das épocas de pouca fé, como disse fina e acertadamento um papa, é iim dos fundamentos da philosopliia pratica de Sr. Nabuco.

EUe tem, entretanto, a fé calholica dos seus pais, a fé da sua infância que em Londres, na sua segunda estadia na Europa, sentiu despertar, primeiro « aos vibrantes açoites do Padre Galhvay, na escondida igreja dos jesuitas, cm Farm Slrcct, depois no oratório de Brompton, respirando aquella pura e diaplian;i atmosphera espiritual impregnada do halilo de Faber e deNewman. » A sua visita ao Vaticano annos depois o accordaria de todo para ella. Convencidamente persuadido da incompossibilidade absoluta do liberalismo com o catholicismo, não acho no meu espirito elasticidade bastante para entender a composição que faz o Sr. Nabuco das suas crenças catholicas com o seu liberalismo orgânico e irreductivel. Equiyocar-se-á ellc próprio? Quem sabe? Somos muitas vezes ludibrio da nossa consciência no que nos parece mais sincero das suas manifestações. O Sr. Joaquim Nabuco é seguramente um espirito religioso; que seja um espirito catliolico, tenho duvidas. O que é catholico nelle, como de Chateaubriand dizia Sainte-Beuve, é a imatrinacão.

No catholicismo, o que talvez mais que tudo o impressiona, o que principalmente o com- o SR. JOAQUIM NABUCO 181 move, o que mormente o prende, é o lado esthetico, a longa e gloriosa tradição histórica, a arte das cathedraes e das basílicas, a lenda agiologica tão cheia de poesia e depalhelico, a situação especial e única do papado, os mestres immorlaes da Renascença, a epopéa de Danto e do Tasso, o esplendor das cerimonias, a belleza soberana de toda a construcção catholica em vinte séculos de duração e de governo. E por isso elle poude, com pureza insuspeitavel, crer-se liberal e catholico, admittir Renan e São Thomaz, tentando de boa fé para seu uso uma alliança que o papado já condemnou nos Lacordaires, nos Lamennais, nos Monlalemberts e em mil outros. u cm unesp 10 11

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