O conto popular
O CONTO POPULAR (1879) MA das fórmas mais notaveis e mais importantes porque se manifesta a poesia popular, unica tambem porque se revela a arte primitiva é o conto. Mal sabiamos nós todos que quando crianças ouviamos das nossas amas, das mães pretas, como lhes chamavamos, ao serão, a nos acalentarem, essas historias que tanto nos divertiam, conhecidas por historias da carocha, mal sabiamos nós, digo, que ouviamos as primeiras manifestações da arte primitiva, de uma esthetica ante-historica, e mais, as tradições theologicas das velhas raças que, como acontece com o conto da gata borralheira, nos vinham desde os mais remotos tempos do berço historico da Humanidade, a India, atravessando innumeras gerações já mortas, até nós crianças perdidas na querida e meiga obscuridade do lar domestico! É uma historia interessante a daformação do pensamento primitivo, manifestando-se pelas diversas formas de umapoesia ainda balbuciante. Uma poesia, dissemos, porque a prósa, modo analytico já da linguagem, não nasceu sinão depois de um certo progresso intellectual.
É preciso, porém, não dar ápalavra poesia aqui empregada a mesma significação que tem hoje. A linguagem dos primeiros povos, metaphorica, homonimica, polyonimica e anthropomorphica, devia ser rimada de um modo que nos escapa, mas que a faz differençar da prósa e approximar da poesia, não tomando esta palavra no sentido moderno. Si ao mytho, quiça o primeiro producto da intelligencia humana não se póde assignalar uma dada fórma, ao conto ao menos, a transformação do mytho atravéz da tradição, póde-se sem grandes probabilidades de errar, dar como modelo isso que na idade média se chamava vulgari eloquio e que, segundo Littré, não era a prósa, mas poemas narrativos que não eram em estrophes regulares e rimas entrelaçadas. Todas essas concepções primitivas são theologicas como o estado a que pertencem. São todas um trecho solto da theogonia ou antes da mythologia dos povos cujas filhas são. Já se por esta verdade, a alta importancia do mytho que nas suas manifestações diversas—conto, lenda, etc. - é o que de mais antigo resta da infancia da Humanidade.
Antes de lascar a pedra, antes de lavrar os metaes, antes talvez de accender o fogo a maior, a mais importante, a mais fecunda das descobertas do homem a Humanidade contou alguns factos, verdades mal observadas e mal comprehendidas, revestidas de formas extraordinarias e sobrenaturaes pela imaginação simples O CONTO POPULAR 17 e grosseira de povos ou raças que não tinham ainda nenhumas noções d'essa sciencia que por muito tempo se chamou physica e que abraçava o conjuncto de todos os conhecimentos humanos até Aristoteles. D'esse periodo fetichista, em que os animaes representam um importante papel na vida do homem, em que foram successivamente o deus, o companheiro, o inimigo e o instrumento da Humanidade, ficaram no mytho e no conto popular as mais profundasimpressões. N'esse tempo dos animaesfalantes, época conhecida de todos os povosprimitivos, o animal, qualquer que elle seja, conforme o meio em que vive, symbolisa a força, o poder, o valor, a astucia, é quasi um deus, quando de facto não o é.
A verdade d'esta theoria, que os mais sevéros e perfeitos estudos de dia a dia mais reforçam, verifica-se tambem entre o nosso gentio nos mythos dojabuti e da mucura principalmente, e nas lendas que nos legaram os selvagens. Não vemos, como o Sr. Couto de Magalhães, no nosso mytho as lições de uma moral elevada e por vezes subtil que não podia ser producto de épocas de tão atrasada civilisação. Não nos parece justa a comparação que faz o illustre ethnologo d'esses productos litterarios (?) do selvagem brazileiro com as fabulas de Esopo e Phedro. Si é verdade que, em geral, essas fabulas têm origem nos primeiros contos populares, nos mythos primitivos não é menos certo, que só á philosophia hellenica, devem ellas isso que de boa mente eu chamarei os corollarios moraes que d'elles souberam tirar Esopo e Phedro, como o quer fazer agora o Sr. Couto de Magalhães, em- prestando assim aos autores dos velhos mythos um pensamento que elles não tinham nem podiam ter, porque dadas manifestações da moral só pódem corresponder a certo avanço do estado intellectual.
Assim é que nós, na semelhança que o Sr. C. de Magalhães pretende enxergar, entre algumas lendas indigenas e certas fabulas de Phedro, julgamos antes ver dous éccos perdidos de um mesmo mytho primitivo ou melhor duas concepções parallelas, geradas por condições identicas, do que a mesma manifestação da moral no selvagem brazileiro e na civilisadissima sociedade romana. Nem precisamos revestil-os de pretenções moralistas, que certamente não têm, para darmos importancia aos mythos do nosso gentio. Como ao illustre autor que de passagem criticamos parece-nos que esses mythos, si sob o ponto de vista litterario são inferiores e muito aos poemas de Homero, aos Niebelungen, e a outros poemas, debaixo do ponto de vista anthropologico são mais importantes, por serem um dos mais antigos vestigios que restam hoje do pensamento primitivo. Isto só basta para tornal-os notaveis e dignos do estudo dos mais illustres sabios.
Havia muito que conheciamos os mythos dosjabutis, da mucura, dos macacos e outros da nossa não pobre mythologia zoologica, sem comtudo ligar-lhes a menor importancia, como acontece a nós todos que ouvimos em criança essas historias, sem indagar das suas origens. Quando, começando a estudar um pouco a nossa ethnologią, vieram-nos ás mãos o livro do Sr. C. de Magalhães e um pequeno trabalho do professor Hartt, O CONTO POPULAR 19 foi com verdadeira surpreza que soubemos quão preciosos eram esses contos que de muito conheciamos. Desde então temol-os lido e relido procurando encontrar n'elles um facto, um só, que provasse não serem esses mythos uma manifestação do pensar primeiro da Humanidade, mas um producto de épocas relativamente modernas, das que se succederam á conquista mesmo. Levava-nos a essa indagação a desconfiança, o medo de sermos illudidos por um enthusiasmo facil de explicar, apezar do alto conceito que nos merecem os autores citados. Entretanto, nada podemos descobrir, e quanto mais lemos esses mythos mais nos convencemos da sua originalidade.
A côr local abundante e profundamente verdadeira, o realismo das scenas, das comparações e das figuras, o conhecimento perfeito das minimas particularidades da nossa natureza, como o tempo em que florescem e fructificam certas arvores ou os costumes dos animaes, tudo ahi é pintado com tão rigorosa exactidão que afasta qualquer idéa que se possa ter de julgar esses mythos filhos de outros homens que não os que habitavam já esta região antes de qualquer das conquistas conhecidas. Não ha negar, pois, são verdadeiros mythos indigenas, na rigorosa accepção etymologica d'esta palavra. Estamos mesmo convencidos que muitos d'esses mythos, como o dojabuti, por exemplo, formaram já uma collecção de contos em que apparece uma certa unidade de pensamento e acção. Não são historias soltas, mas um conjuncto de historias reunindo-se em uma só em que o jabuti, a mucura, ou outro qualquer animal, figuram como protogonistas.
Cremos pois, que si fôra possivel encontrar aqui elementos para o nosso poema popular,não seria no canto popular, comojá disse, que os achariamos, mas na reunião dos nossos mythos, digo mal, dos mythos do selvagem d'esta parte da America. Poderse-hia assim compôr o Kalevala brazileiro,mais importante sem duvida do que o dos povos do norte pela sua fórma primitiva. Foi d'esses mythos, ou melhor, da mythologia cuja parte eram, que nasceu o nosso conto popular. Os mythos, como diz o Sr. Lefévre (Relig et Myth. Comp.) nasceram espontanea efatalmente como as palavras e as frases; representarameprimeiramente as sensações e as impressões do homem em lucta com os phenomenos, as cousas e os seres que o cercavam. Transformando-se pela tradição e pela acção dos meios os mythos tornaram-se contos populares ou lendas. É por isso que segundo o Sr. R. Koller, o conto popular é tão ou mais importante do que as inscripções, porque é depois do mytho a mais antiga traça do pensamento primitivo.
O conto popular brazileiro tem, pois, um antepassado indigena, ou antes é o mytho indigena transmittido atravéz das gerações, ganhando no seu caminharum ou outro episodio, uma ou outra frase, um ou outro pensamento. A mythologia da familia tupy-guarany, forneceu ricos e poderosos elementos para o nosso conto, na Mãe d'agua, no Matin-taperê, no Saci-sererê, no Mboitatá, no Curupira e em mil outras de suas figuras. Os mythos do jabuti e da mucura são vulgarissimos no Amazonas, onde todos os ouvem sem desconfiar da sua origem. As lendas, em algumas da quaes se mistura já o elemento colonial, fornecem tambem ricos elementos para a nossa collecção de contos nacionaes. O CONTO POPULAR 2I Todos os outros contos que ouvimos, o da Borralheira, o do Pequeno polegar, o do Principe Lagarto, e outros mais, são-nos completamente estranhos.
Essas composições vulgarisadas entre o publico europêo por Perrault e outros são, como a critica demonstra, éccos perdidos e degradados da mythologia aryana ou indica e chegaram até nós por esse lento mas proficuo instrumento de transmissão de idéas e pensamentos– a tradição. Vieram com as emigrações aryanas, indo-germanicas, atravéz da Europa, resistiram aos embates de todos os povos e de todas as crenças, atravessaram a idade média e sua confusão e por fim passaram com os conquistadores á America. Os contos dojabuti e as outras lendas indigenas assimiladas pelo nosso povo constituem hoje um thesouro, cuja exploração não deve ser abandonada. N'este ramo de poesia popular não duvidamos affirmar que somos nós um dos povos mais ricos. Aqui o facto é positivo e verificavel. Póde-se ouvir uma noite inteira um sertanejo contando, sem esgotar o assumpto.
Sem necessidade por ora, de applicar a esses contos os principios da critica que julga ver na maioria d'elles um trecho solto das primeiras explicações astrologicas, para o que, tambem, sabemo-nos inhabilitados, pedimos licença aos leitores para Contar-lhes a lenda da Velha gulosa ou Ciuci: «Um dia estava um moço pescando de cima de um mutã, a velha gulosa que vinha pescando pelo igarapé, avistou-lhe a 1 Especie de palanque de sobre o qual esperam a caça no matto ou o peixe ábeira d'agua. sombra, cobriu-a com a rêde de pescar (puçá), mas não apanhou o moço, que quando viu aquillo riu-se de cima da mutà. A velha disse: É ahi que estás? Desce para o chão, meu neto. O moço respondeu --Eu não. A velha disse:- Olha que eu mando lá as cabas (vespas). E mandou-as. O moço quebrou um ramo e matou as cabas.A velha tornou:- Desce meu neto, quando não mando as tocandêras (formigas). O moço não desceu e a velha mandou as tocandêras que o puzeram n'agua. Avelha atirou arêde e apanhou-o. Levou-o para casa, deixou-o no terreiro (ocára) e foi fazer lenha.
Atraz d'ella veio a filha que estranhou que ella não contasse, como de costume, qual a caça que havia morto, e quiz ver o que era. Desembrulhando a rêde viu o moço que pediu-lhe que o escondesse. A moça assim o fez e untou um pilão com cêra, embrulhou-o com a rêde e deixou-o no mesmo lugar. A velha voltou do matto e acendeu fogo debaixo do muquen ¹. O pilão esquentou-se, acêra derreteu-se e a velha aparou-a. O fogo queimou a tarrafa e appareceu o pilão. Então a velha disse à moça: -Si não me mostrares a minha embiára (presa) eu te mato. A moça com medo mandou o moço cortar folhas de assahy para fazer panacús (paneiros), que viraram-se emanimaes diversos quando a velha foi atraz do moço. A velha gulosa comeu todos os porcos,antas,veados em que se viraram os paneiros(cestos). Omoço viu que ella não se contentava fugiu e fez um matapi, onde caío 1 Assadouro ou grelha, geralmente de fórmatriangular,feita de madeira ondeassam (moqueam) peixe ou carne. O CONTO POPULAR 23 muito peixe. A velha entrou no matapi. O moço apontou um páo de marajá em que a velha feriu-se quando comia o peixe.
A velha ferida fugiu. Então a moça disse ao moço: Quando ouvires um passaro cantar kankan, kankan é minha mãe que anda perto para te pegar. Quando elle ouviu aquelle canto, correu para onde estavam uns macacos fazendo mel e pediulhes que o escondessem. Os macacos metteram-no dentro de um pote vasio. A velha chegou, não encontrou o moço, passou adiante.--·Os macacos mandaram o moço ir-se embora.O moço andou, andou, andou. Ouvio o canto do passaro, chegou a casa do surucucú (Crotalus mutus) e pediu-lhe que o escondesse. O surucucú escondeu-o. -A velha chegou, não o encontrou, foi-se.--De tarde o moço ouviu o surucucú conversando com a mulher. Tratavam de fazer um muquen, assal-o e comel-o. Quando faziam o muquen, o moço ouviu cantar uma acauan(Falco cuchinans), foi ter com ella e contou-lhe onde estavam os dois surucucús. O acauan comeu os dois surucucús. O moço passou para a banda do campo,onde encontrouumtuyúyú pescando e pondo o peixe em um uaturá ¹. O moço pediu-lhe que olevasse comsigo.
O tuyúyú quando acabou de pescarmandou-o entrar no uaturá levantou o vôo e deixou-o sobre uma grande arvore. De cima o moço viu uma casa. Desceu da arvore e foi lá. Quando chegou á beira da roça viu uma mulher ralhando com as cotias que lhe comiam a mandióca. A mulher levou-o para casa e lá perguntou-lhe d'onde elle vinha. O moço 1 Cestoindigena. contou o que lhe acontecera desde que estava pescando á beira do igarapé quando veio a velha gulosa. Ainda era menino então, hoje estava velho. A mulher lembrou-se d'elle e conheceu que era seu filho. O moço entrou para sua casa.» Simplicidade, abundancia e côr local, perfeito conhecimento dos habitos dos nossos animaes e dos costumes indigenas, e até um melancolico fim--são qualidades que não se pódem negar a este conto, que os leitores poderão melhor apreciar na traducção litteral e minuciosa que d'elle dá o Sr. Couto de Magalhães.
Como esta lenda muitas outras abundam no nosso sertão, taes como a da Yára, a de Mani, que conta como appareceu a mandioca, a do Muirakitan e a bellissima do Yacy Uruá, onde se vê a virgem tapuia subir á lua pela corda formada das flexas do seu arco successivamente despedidas e presas umas nas outras. É incontestavelmente um campo de explorações digno de occupar talentos mais robustos e mais esclarecidos do que o do obscuro escriptor d'estes ensaios.