Gonçalves Crespo
GONÇALVES CRESPO (1882) NTRE quantos poetas actuaes conheço, poetando em lingua portugueza, este é, no meu entender, um dos mais distinctos. E si as encantadoras Miniaturas não bastassem para confirmar o meu juizo, ahi estão os luminosos Nocturnos, hapouco saidos do prélo em nitida e elegante edição, para comproval-o. Estou mesmo na crença de que Gonçalves Crespo merece NOTA. Talvez nãotivessem estas notas sobre Gonçalves Crespo o direito de figurar em umlivro exclusivamente consagrado ao Brazil. Não discutirei as razões com quepoderiajustificar-medereunil-as aosmeus outros trabalhos, basta-me pessoalmente consideral-o, pelas tendencias do seu espirito e pelo caracterde sua poesiamais genuinamentebrazileiro do que muitosdos nossos poetas nacionaes. um estudo critico, que nos revelasse todos os segredos e todas as variações do seu peregrino talento.
Esse estudo, não é talvez possivel fazel-o já: a litteratura portugueza tem o direito de esperar d'elle muito mais, não só pelas amostras dadas, mas ainda por que elle é um verdadeiro poeta, a quem o poetar é tão necessario, direi mesmo, tãofatal, como é ás aves o cantar. Para empregar uma figura sediça, mas que exprime bem o meu conceito, direi que só emudecerá quando a mão se lhe gelar sobre as cordas da lyra. É um temperamento profundamente poetico e uma alma profundamente sensivel, para versejar por desfastio; não, n'elle a poesia é a propria vida que lhe corre com O sangue nas veias.
Quem teve a gloria de vêl-o e tratal-o, na intimidade do seu lar, no seu microscopico gabinete de trabalho, cheio de livros de sciencia, d'arte e de litteratura, enfeitado e coquette, com as paredes cobertas de photographias de artistas e poetas, e o escutou nas palestras litterarias franco, singelo, enthusiasta sem pose, quasi ingenuo apezar do sorriso levemente ironico que lhe brinca continuamente nos labios grossos, comprehende que está diante de um poeta fatalmente votado ao perpetuo sacerdocio da arte: que ella, e só ella, é o seu amor, o seu culto, o seu destino, direi. E, francamente, é só d'esta fórma que eu posso comprehender os poetas, esses entes privilegiados, meios homens meios deuses, que passam falando emlingua que não nos é dado falar, e que nem sempre comprehendemos, mas que nos delicía e refresca a alma.
GONÇALVES CRESPO 75 Segundo a concepção romantica, desmentida embora na pratica pelo chefe da escola em França, o poeta devia sér um ente á parte, uma especie de bohemio de cabellos crescidos e menos cuidados, pallido, um pouco tysico, devorado por uma grande paixão, estragado pelas noitadas das orgias, pobre, proscripto, odiado da sociedade que o não podia comprehender. Byron, Musset, Vigny, foram, entre outros, os principaes typos em que a ignorancia romantica encarnou O seu ideal de poeta. Semelhante concepção de todo o ponto falsa e immoral, muito damno nos fez a nós brazileiros, que, graças a ella, perdemos Alvares de Azevedo, Aureliano Lessa, Junqueira Freire e outros e por fim Castro Alves- a mais promettedora esperança da nossa poesia que todos morreram da nostalgia de desgraça.
É talvez logico, mas em todo o caso fatal, que depois da chateza tranquilla dos ultimos tempos do clacissismo, surdisse a desordem romantica com todos os seus enthusiasmos theatraes, mas sinceros, cujo excesso viria a darno facto apontado: na exageração do sentimento que punha o poeta fóra da verdade e do mundo, fazendo d'elle, quasi que um ente á parte, eternamente atormentado por aspirações impossiveis. Aessaschimeras romanticasnãoescapouGonçalvesCrespo, mas é preciso não lhe conhecer o genio para ver que o levavam para ellas mais a inevitavel influencia dos meios do que o seu gosto artistico. Com a sinceridade que, segundo creio, é um dos mais bellos ornamentos do seu nobre caracter, elle confessa o seu ESTUDOS BRAZILEIROS romantismo, n'estes bellissimos versos para cuja cinzeladura chamo a attenção do leitor: O marjá metentou: aspirações fogosas Fizeram-me idear phantasticas viagens; Eu sonhava trazerde incognitas paragens Noticias immortaesás gentes curiosas.
Maistarde desejei riquezas fabulosas, Um palacio escondido em múrmuras folhagens, Ondeeufosse occultar as candidas imagens Dasvirgens que evoquei por noites silenciosas. Mas tudoisso passou: agora só meresta Das chimeras quetive, uma visão modesta, Um sonho encantador, de paz e de ventura. É simples: uma alcôva, um berço, um innocente, E uma esposa adorada, envolta, a negligente! De umlongo penteador naimmaculada alvura... Apresso-me a dizer que estes versos são da segunda collecção, os Nocturnos, publicada em Março, isto é, pertencem a nova maneira, exprimem os sentimentos do poeta actualmente. Qual seria o romantico descabellado, odiando por systema a burguezia, que não riria do final d'aquelle soneto: um filho, uma esposa adorada, um viver de paz e de ventura... Fidonc... Parece-me que já ficou dito que Gonçalves Crespo é um artista, na mais nobre, na mais elevada accepção d'este termo: o ultimo terceto do soneto transcripto é uma prova.
Como GONÇALVES CRESPO poeta moderno, que elle é, os seus desejos são humanos e realisaveis, como artista elle os refina até o ideal, sem comtudo saír da realidade. É uma questão que divide os criticos, principalmente aquelles que não são dirigidos por um methodo positivo no estudo das creações artisticas, a de saber o que se deve entender por poesia moderna. Eu chamei acima Gonçalves Crespo um poeta moderno. Esta designação, para não ser tomada por gratuita, carece de explicações. O artista é tanto maior quanto menos indifferente fica ao seu meio, cujos sentimentos deve reproduzir com a maxima exacção, si pretende ser perfeito. Isto quer dizer que elle depende inteiramente das circumstancias, ou por outra, que a sua perfeição está na razão directa da maneira por que traduz o estado social do seu tempo. Ora, desde que, segundo esta concepção, que cremos legitima, o artista está subordinado ao seu meio, é claro que antes de classificar um artista deve-se indagar do estado social, cujo é filho.
Com a sua costumada profundeza, Augusto Comte submette o desenvolvimento das faculdades estheticas ao regimen intellectual, do qual tambem depende todo o progresso humano. O momento que actualmente atravessam todas as sociedades do occidente, profundamente divididas por crenças philosophi- cas de todo o genero, que geram ellas tambem os mais disparatados problemas, pondo em lucta todas as forças sociaes, e por assim dizer, embaraçando todas as soluções, não tem, nem póde ter, um só caracter que se defina em frase curta e precisa. Entretanto, é facil de ver, no meio d'esta confusão, um ponto para o qual convergem todas as aspirações e para cujo alcance a humanidade, representada pelo que ella tem de mais eminente (e aqui a qualidade sobreleva a quantidade) trabalha com todas as suas forças. Esse ponto, esse problema de cuja solução depende a unidade intellectual do futuro, é a concepção positiva do universo.
Assentada ella, a nova philosophia e para nós as diversas religiões não são mais do que varias philosophias - a nova philosophia, digo, se imporá a todos os espiritos, e d'esta vez, a crença universal não se baseará na revelação extra-humana, mas na demonstração experimental. É curioso observar que actualmente os philosophos que emancipados do jugo theologico conservaram-se deistas admittindo um creador sobrenatural para o universo, sujeitam-o á fatalidade das leis que elle proprio estabeleceu, isto é, fazem o Omnipotente theologico tão impotente para alterar as leis que regem os factos cosmologicos como qualquer de nós. Parece-me que a contradicção não póde ser mais clara. Volto, porém, á questão que me obrigou a esta digressão.
É evidente que emquanto a humanidade não tiver uma crença principal, que embora admittindo divergencias de detalhe, unifique quanto á concepção do mundo, todas as intelligencias, e por conseguinte todas as consciencias, o sentimento GONÇALVES CRESPO 79 esthetico fluctuará á mercê das crenças individuaes, e a critica não poderá estabelecer regras fixas para julgar as suas manifestações. Ser-me-ia facil provar, citando os nomes dos grandes artistas da Grecia no periodo do seu florescimento, de Roma, nos aureos tempos da Republica e nos primeiros do Imperio, de todaaEuropa occidental, na época brilhante daRenascença, que da homogeneidade do estado social depende a homogeneidade d'aquelle sentimento, e ninguem, creio, negará que o estado social depende inteiramente do estado intellectual. Isto tudo vem para dizer que quaesquer classificações que a critica estabeleça entre as obras d'arte são relativas.
Si é verdade, como não se poderá contestar, que o periodo theologico, com todas as concepções e modos de sentir que elle acarréta e comperta, passou completamente, não ha negar tambem que a época positiva e não tomem esta palavra sinão no seu mais largo sentido ainda se não assenhoreou do campo, onde a metaphysica, envergonhada e renegando-se a si mesma, continúa a sua obra negativa. Chamando eu a Gonçalves Crespo um poeta moderno, quiz dizer que a sua consciencia e a sua esthetica, livres ambas das pêas theologicas, nem por isso o estão das fluctuações da consciencia moderna, batida entre o dogma positivo e o sentimento religioso, tão arraizado e tão forte, principalmente nas almas, como as dos poetas, em que as faculdades affectivas predominam sobre as outras. Ora, si o estado social, não só em Portugal, onde Crespo escreve, mas em todo o occidente, é este, Crespo, cuja consciencia é uma reproducção microscopica d'este estado, é um poeta moderno. Estou vendo que me objectarão que em Portugal mesmo ha poetas, como o Sr.
Teixeira Bastos, que, completamente emancipados, estão em plena positividade de espirito, e que portanto são mais merecedores do epitheto de modernos.Assim seria com effeito, si o estado social contemporaneo fosse o mesmo do espirito d'esses poetas, que estão portanto além do seu tempo; agora, si na verdade, é que não nos é dado affirmar, porque seria arriscada qualquer inducção sobre a arte do futuro, e eu, mais do que ninguem, não me atrevo a fazel-a. O primeiro livro de versos de Gonçalves Crespo traz este titulo: MINIATURAS, por Antonio Candido Gonçalves Crespo, naturaldo Rio deJaneiro; e a data de 1871. Esse livro quasi desconhecido n'esta parte do Brazil, onde geralmente se pensa que a borracha é por si só bastante para a vida de um povo, foi recebido no Sul com o gráo de enthusiasmo compativel com o nosso amor pelas boas lettras.
De facto, era um livro delicioso, uma pequena mas esplendida galeria de quadrinhos, de miniaturas onde sentia-se o pincel delicadissimo de um artista da Renascença, ou de um d'esses mestres que levaram comsigo o segredo de pintar n'uma concha toda uma scena, cheia de expressão e de vida. Accrescia ainda em favor do livro a idea de que o poeta era um filho d'esta terra, um brazileiro, que pouca gente conhecia, e que de Coim- GONÇALVES CRESPO 81 bra, onde estudava, nos mandava um livro que, si não rasgava novos horisontes á poesia patria, apresentava-se ao menos como quem podia tomar n'ella um dos primeiros lugares. Para os criticos o livro tinha, sobretudo, um caracter brazileiro, que lhe formava o maior merecimento. Abundavam n'elle os pequenos quadros da nossa vida, admiravelmente descriptos, impregnados da saudade do poeta. Na Roça, Ao meio dia, Canção, e até a formosissima miniatura que traz por titulo A bordo, o diziam altamente, na sua nota sentida e saudosa, que, como acontece em geral com os versos d'este poeta, nos deixavam uma scisma vaga e deleitosa.
Ainda nos mesmos versos puramente lyricos, sentia-se, na ardentía do sentimento e da expressão amorosa, o sangue do mestiço, elevando a nota apaixonada, já de si aguda, que é um dos caracteristicos da poesia subjectiva brazileira. Vejam, para exemplo, os versos intitulados Sara. Este ar brazileiro, desvanece-se, sem desapparecer, no outro livro do poeta. Portugal fel-o deputado, e consagrou-o seu filho. Elle lá ficou, e nós o perdemos. Entretanto na sua obra poetica ficaram sempre visiveis as duas feições do seu estro: a feição brazileira e a feição portugueza; aquella por ventura mais intensa, mais caracteristica do que esta. O poeta disse-me de uma vez que, apesar de ter ido d'aqui criança ainda, tinha a visão perfeita do Brazil, e confessou-me ter saudades dos lugares por onde lhe correu ameninice. Taes sentimentos, que resaltam nas Miniaturas, apenas se lobrigam nos Nocturnos. O amor de uma mulher illustre e distincta, que é hoje sua esposa, a influencia do meio artistico em que vive, o tempo que tudo faz esquecer, apagaram do seu espirito as fortes impressões de infancia.
Isto quanto aos versos em que a intenção de brazilianismo é evidente, mas si estudarmos profundamente o seu sentimento poetico, acharemos na sua predilecção pelas cousas amorosas, na volupia doce e languida que, talvez máo grado seu, lhes mistura, no tom voluptuoso dos seus versos, um indicio de que a sua primeira patria deixou no seu talento uma impressão que ainda dura. E o poeta, que á pagina 141 dos Nocturnos, escreveu este verso: Ah! quempóde esquecer o seu paiz natal! o sente talvez melhor do que eu não sei exprimir. O livro de versos que deu motivo a estas apreciações, que não critica, de um artista por quem tenho toda a sympathia, já os leitores sabem que se intitula Nocturnos. É um elegante in-8., primorosamente impresso em magnifido papel, e encadernado em panno, com muito luxo e esmero. Um verdadeiro bijou, um escrinio como convinha que tivessem as perolas que encerra. O poeta pensa, eu o sei, e pensa bem, que um livro de versos deve ter a elegancia e o mimo que podėm faltar em um livro de prosa.
Elle não publicaria os seus, estou certo, si não achasse um editor que o quizesse fazer com luxo. Isto, que parecerá uma puerilidade aquelles que não compre- GONÇALVES CRESPO 83 hendem as finas delicadezas de uma alma de artista, serve para desenhar melhor o caracter de Gonçalves Crespo, o poeta delicado por excellencia. Entre a publicação das Miniaturas e a dos Nocturnos medeiam onze annos; tempo mais que sufficiente para apreciar o gráo de perfectibilidade do poeta, e um dos primeiros deveres de quem aprecia um novo livro é de comparal-o com os que o precederam e indagar si essa comparação é ou não favoravel ao artista. No caso presente ouso affirmar que o é; no fundo e na fórma. No fundo, desapparece, ou antes desvanece-se o subjectivismo lyrico que é o escolho dos poetas modernos, ainda os mais possantes, e o é porque na transformação que soffre o lyrismo a subjectividade poetica é a negação do movimento.
Esse progresso é tão evidente em Gonçalves Crespo que ser-me-ia difficil exemplificar o contrario, tanto é escasso nos versos da sua nova collecção, a menos que não citasseosvinte e quatroNumerosdoIntermezzoparaphraseados de Heine, e onde portanto a inspiração é alheia. O poeta voltou-se mais para o mundo exterior, e se não entrou plenamente na natureza, essa mestra fecunda e prodiga a todos que a sabem comprehender e amar tentou-o ao menos a historia e a legenda. E para o poeta é Victor Hugo quem o affirma- O aspecto legendario não é menos verdadeiro do que o historico. Nas Miniaturas, é verdade, esta tendencia do genio de Crespo já se deixa presentir nos versos como os de Nero e Transfiguração, mas o que ali era um accessorio aqui é o principal, não só pela quantidade sinão pela qualidade. N'esse genero conto eu, sem querer estender a minha classificação a outras como o poderia talvez fazer, nada menos de treze peças, as melhores, a meu ver, de todo o livro.
D'essas, para citar, escolho a Ceia de Tiberio, com a sua magistral discripção das pompas da Roma decadente, A resposta do Inquisidor que com a Morte de D. Quixote, eu considero as melhores cousas do livro e duas das mais bellas poesias portuguezas contemporaneas, No jogo das cannas, um soneto delicioso, O cura Santa Cruz, uma historia tocante e horrivel de Daudet, posta em versos com admiravel mestria, etc. D'entre todas estas que cito, e que desejaria poder transcrever aqui como peças justificativas do meu conceito, peço permissão para occupar-me com A resposta do Inquisidor. Todos conhecem a accusação que pesa sobre Felippe II de Hespanha de ter mandado matar seu filho D. Carlos. Foi este facto, exploradojá por outros poetas, como Schiller, que forneceu a Gonçalves Crespo, como poderia fornecer a um pintor, o assumpto de seus esplendidos versos, onde os sentimentos das duas personagens que figuram no seu quadro, o rei e o inquisidor, são admiravelmente apanhados e reproduzidos.
El-rei medita sósinho n'uma sala apainelada e fria, de cujo muro pende por sobre a real cadeira um Christo mesto, livido, nú, ferido e ensanguentado. O seu olharturbado, Vibrairrequietaluz, parece allucinado. GONÇALVES CRESPO 85 Um negro pensamento afflige o espirito real, elle desconfia do filho, acredita-o capaz talvez de arrebatar-lhe o throno; pensa em livrar-se d'elle; em matal-o. Mas matar o filho é um crime, é mais do que um crime, é um peccado; diz-lh'o a sua consciencia catholica amargurada com esta idéa. Um peccado! Que terrivel pesadêlo para o rei que por amor de Deus consentia que lhe queimassem milhares de subditos! Uma idéa, porém, acode-lhe: consultar o inquisidor-mór, obrarde accordo com o seu parecer. Pois não é verdade que o que elles ligarem ou desligarem na terra será ligado ou desligado no céo? Si elle consentisse que allivio! -mataria o filho, e que sobre a cabeça do Padre caísse a cólera celeste, si é que a cólera celeste póde attingir um Padre! Acóde aquelle ao real chamado.
Aqui não me posso furtar a transcrever o retrato do Padre; Velasquez não o faria melhor! Curvára, aoentrar, o monge atremulaestatura: Mãos dispostas em cruz no largo peito ancioso, E humilhada a cerviz na asceticapostura. Ecomtudo esse frade humilde e respeitoso, De olhos fitos no chão, tão fragil comoumvime, Na presença de um rei, deum Cesar poderoso, É fanatico e audaz; com mão debronze opprime O Solio, aEgreja, o Lar e os coraçõesdos crentes; Flagellaa sombrae o amor, condemna a luz, e o crime! Quando elle vae passando, as timoratas gentes Benzem-se compavôr e param deimproviso As cançõesjuvenis nas aleas rescendentes. Nuncanos labios seus florira o alegre riso, Tem cem annos,jámais beijárauma creança, E crê subir, talvez, morrendo, ao Paraizo! NaHespanha, no Perú, em Napoles, naFrança Paira como o sinistro espirito do Mal, Onegro inquisidor, feroz como a Vingança. Sixtoquinto, o cruel, fizera-o cardeal, E aHespanhapôde ver com assombroso espanto Junto do rei-panthéra o inquisidor-chacal.
E o rei disse-lhe: Tu que falas com Deus, e és Padre, e és bom, e és santo diz-me, cardeal, se é umvil, se é um precito () rei que éjusto e mata o filho que é traidor... O astuto frade penetrou o designio do rei um era digno do outro e versado nas subtilidades da casuistica religiosa, GONÇALVES CRESPO 87 escondeu elle tambem o seu pensamento: a resposta que lhe põe na bocca o poeta é, digo-o já, uma obra prima: Óprincipe, e apontava o lividoJesus, Paraacalmar dos céos a coleraimplacavel O Eternofez morrerseufilho n'umacruz! Este final, subjectivamente verdadeiro, interpretando com uma fidelidade historica admiravel os sentimentos d'aquelles dous homens e da sua época, é de um prodigioso effeito poetico que nos arranca, ainda lido no isolamento do nosso gabinete, uma expressão de admiração. A Morte de D. Quixote, que eu quizera poder tambem analysar, não é porventura menos bella e está de accordo com a nova exegése do famoso livro de Cervantes. Isto quanto áquillo que para mimfórma o fundo dolivro; direi agora da fórma.
De uma vez que conversavamos de livros e autores, Gonçalves Crespo mostrou-me o formoso livrinho do nosso Luiz Guimarães Junior, Sonetos e Rimas. A elegante brochura tinha uma dedicatoria autographa na qual o poeta, si a memoria me não trahe inteiramente, chama Crespo o Benevenuto Cellini do verso portuguez. A comparação é justa e eu aproveito-a e a faço minha. Ha, com effeito, na maneira porque Gonçalves Crespo trabalha o verso alguma cousa do estylo do cinzelador, o relevo vivo, o rendilhado delicado e fino, o traço fugaz, mas energico. E versos ha seus, sonetos principalmente (vide Fervet amor, O relogio, etc., nos Nocturnos), que nada têm a invejar a um cabo de punhal cinzelado para uma marqueza qualquer pelo famoso florentino, tal é o apuro da fórma n'este poeta. E a fórma não é, na arte, na poesia principalmente, um accessorio; pelo contrario é, sinão tudo, quasi tudo, e eu comprehendo a ingenua admiração do grande Flaubert por ella.
Goethe, o poeta de mais vastos e fundos conhecimentos que jamais existio, o autor do Fausto e um dos precursores de Darwin, chamava-lhe a divina fórma. Eu sei que contra ella ha duas accusações, ou antes duas objecções, ambas graves. É a primeira que serve para encobrir a pobresa do pensamento, como nós vimos acontecer em Portugal com a escola de Castilho e no Brazil com a dos seus imitadores, Magalhães, Porto Alegre e outros; e a segunda a sua variabilidade, que prova que na obra d'arte apenas salva-se o fundo. Esta objecção é das duas a mais séria, porque á primeira basta responder que as unicas victimas da adoração exclusiva da fórma são os seus idolatras. Que ella varía, é verdade que varía como tudo o mais, porém isso não inhibe que a perfeição do artista, julgado ao ao menos no seu tempo, dependa do gráo de perfeição a que GONÇALVES CRESPO 89 a leva. A difficuldade em trabalhal-a, porém, é enorme, para muitos insuperavel. A cada passo d'esse formidavel trabalho o artista encontra escolhos e estorvos: a affectação, o purismo, a maneira, o guindado, e mil outros.
É preciso ter levado dias a pensar n'uma frase, para saber quanto custa a fazel-a, principalmente quando se não quer sacrificar o fundo. A poetica de Crespo tão delicada e tão rica, levou a fórma a uma perfeição, sinão inexcedivel, invejavel. O seu verso é, como disse, cinzelado e brunido, não ha n'elle asperezas, a palavra, colorida e vivaz, exprime sempre exactamente o que o assumpto exige, a rima é rica, sem affectação de difficuldades. Sem temer que me acoimem de louvaminheiro, direi mesmo que o seu vocabulario quasi quelhe pertence. As palavras de que usa, usa-as de modo que parecem creadas por si. Por um processo qualquer artistico cujo segredo desconheço, elle as apropria, e faz d'ellas cousas suas. Francamente adoro-lhe a fórma. Leiam o soneto Animal bravio. É um presente que o poeta traz a uma menina: um animal felino que seu braço victorioso subjuga, segundo elle o diz: Tiveartes de o amansar: eil-o sereno! Acode à minha voz, e ao meuaceno, Comoumjaguar ávoz de um saltimbanco... Vamos, soneto! aprumo! ajoelhe, presto!
Eá doce Eugeniado sorriso honesto, Afimbria oscúle do vestido branco! O final é de um primor, de uma gentileza que ninguem contestará. Para exemplo d'esta pureza de fórma que uma extrema e fidalga elegancia caracterisa, eu poderia citar todo o livro, o que é impossivel. Peço, porém, ao leitor que leia com cuidado O Minuête, As Ondinas e a já citada Morte de D. Quixote. São os documentos comprobatorios que escolho, e fio que o publico será do meu parecer. A esta suprema elegancia de fórma se allia nos versos Nocturnos uma delicadeza de expressão e de sentimentos, uma melancolia um pouco ironica, que nos deixa no espirito a mesma scisma vaga e doce em que nos quedamos quando ouvimos um dos Nocturnos de Chopin. Rara é a sua poesia que acaba com o ultimo verso; quasi todas, ao contrario, parecem prolongar-se ainda, como o derradeiro som perdido de um instrumento que se afasta, como as ultimas e expirantes vibrações da corda de uma harpa que, prolongando-se, prolongam tambem não já nos nossos ouvidos, mas no nosso espirito a melodia divina que acabou.
É assim a poesia de Gonçalves Crespo, e isso prova que elle attingiu o verdadeiro fim do poeta, impressionar a alma por meio do bello ao serviço de qualquer causa. Prolongar essa impressão é ultrapassar a méta. Não se pode ler a Morte de D. Quixote (creio que é a quarta vez que a cito) sem repassar na lembrança toda a vida do altivo heróe Manchego tanto aquelles inimitaveis versos nol-a trazem á memoria, com as suas peripecias cuja alegria não exclue o pezar que nos GONÇALVES CRESPO 91 infunde a doce loucura do immortal typo creado por Cervantes. Outras vezes um verso só dá-nos para reconstruir toda uma historia, como o ultimo do bellissimo soneto OdordiFemina. Eraaustero e sizudo; não havia Frade mais exemplar n'esse convento; Noseu cavado rosto macilento Um poema de lagrimas se lia. Umavez quena extensa livraria Folheavao tristeum livro pardacento, Viram-n'o desmaiar, cahir do assento, Convulso, e tôrvo sobre a lagea fria. Deque morrera o venerando frade? Em vão busco as origens da verdade, Ninguem m'a disse, explique-aquempuder.
Constaqueumbibliophilo comprára Olivroestranho e que, ao abril-o, achára Uns dourados cabellos de mulher... Creio que o leitor não me dirá agora que eu exagero; convencido, elle procura talvez reconstituir a dolorosa historia d'aquelle frade que apezar da sua austeridade não soube matar no coração um grande e humanissimo sentimento, cuja his- toria passou-lhe rapida e dolorosamente pelo espirito como um punhal que brilha diante de nossos olhos e nos fére incontinente o peito, ante Uns dourados cabellos de mulher... Ao concluir estas ligeiras notas sobre o cantor dos Nocturnos estou já prevendo que os que as têm lido me arguirão de antes elogiador do que critico, e aquelles que vinham com o espirito aguçado para a maledicencia litteraria, me quererão mal por os ter desapontado, achando n'um poeta só o que louvar. Têm razão esses que assim pensam, a critica não é nem póde ser só o louvor, mas as suas censuras me furto declarando, como já o fiz, que não é precisamente critica esta desambiciosa apreciação de um grande poeta, provocada pelo seu ultimo livro de versos.
Nós todos temos por um dado sujeito uma predilecção especial, uma queda, uma sympathia que muitas vezes não sabemos explicar, e que outras vezes até―ó miseria humana!- não nos atrevemos a confessar. O mesmo se dá com quem trata cousas de livros. Ha sempre um autor, um poeta, por quem tem a gente uma predilecção que torna impossivel a critica sevéra, rigorosa, mais propensa a descobrir defeitos do que bellezas. Talvez seja este o meu caso com Gonçalves Crespo; a admiração que voto ao seu talento do- GONÇALVES CRESPO mina quiça o meu juizo, que este, porém, seja infundado e sem o que este artigo, parece-me, nega completamente. Raras vezes affirmei um facto, sem exhibir prova sufficiente. Entretanto repito: não pretendi mais do que apresentar ao publico paraense um poeta que elle quasi não conhece e que muito merece ser por elle conhecido. A nenhuma valia do introductor, espero, não será tomada em conta para julgar o apresentado.
Quanto a eu não lhe fazer censuras, já disse o que, talvez, me tirou a liberdade de fazel-as; a unica, porém, que me occorre afinal é d'elle não ter querido ser, n'esta geração, sinão o primeiro, um dos primeiros poetas brazileiros.