Os motins políticos do Pará, seu espírito e caráter Estudos Brasileiros (1877-1885) · Capítulo 14 de 14
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Os motins políticos do Pará, seu espírito e caráter

OS MOTINS POLITICOS DO PARÁ SEUESPIRITO E CARACTER MOTINS POLITICOS DO PARÁpor DomingosAntonio Raiol (Barãode Guajará)—4 vols. (1885) historia da Independencia do Brazil, sem obstaculo da mais volumosa do que exacta Historia dafundação do Imperio Brazileiro, do Sr. Pereira da Silva, está ainda por escrever. O Visconde de Porto Seguro ooperosissimo autor da Historia Geral, declara no final da ultima edição d'esta que tinha concluida a sua HistoriadaIndependencia; entretanto, vae por quatro annos que elle é fallecido e não me consta que essa obra tenha sido publicada. Não creio, porém, que este ultimo trabalho do illustre historiographo contentasse os espiritos educados nas lições dos modernos processos historicos.

Esse grande trabalhador, infatigavel e benemerito pesquisador das nossas antigas cousas, carecia dos requisitos que exi- gimos hoje de um historiador digno d'este nome, um Michelet, um Rancke, um Guizot, um Thierry, um Macaulay, um Buckle, ou mesmo um Henri Martin, ou um Alexandre Herculano, o senso historico, faculdade complexa resultante não só de uma intuição, uma especie de visão do passado, como da concepção philosophica dos factos e das multiplas causas que os provocam, que os explicam ou que sobre elles actuam, concepção não arbitraria como eram as da velha philosophia da historia, que cada um fazia a sabor seu, mas de accordo com a mentalidade contemporanea. Póde-se ser, como foi Varnhagen (Porto Seguro), um laborioso e intelligente historiographo e não ser-se, como elle não foi, um historiador consoante a elevada significação que a moderna critica liga hoje a este vocabulo. Não temos, pois, dizia eu, uma historia da nossa independencia, cujo periodo, a meu ver, não abrange menos que o longo espaço que vae de 1808 a 1840, isto é, desde a chegada de D.

JoãoVI ao Brazil até a maioridade de D. Pedro II, ou pouco além, e seria, por conseguinte, a historia do periodo organico da nossa nacionalidade politica, pois que a social começara a organisar-se com a conquista. Uma das muitas difficuldades que se antolhariam ao historiador de genio que se abalançasse a semelhante empreza seria certamente a falta de materiaes, sobretudo dos concernentes aos acontecimentos que se passaram durante essa época fóra do Rio de Janeiro-falta tanto mais para sentir que a independencia é por ventura antes obra das provincias do que da capital. Com effeito, aqui o terreno está por desbravar, ca- OS MOTINS POLITICOS DO PARÁ 203 recendo nós quasi absolutamente d'essas monographias historicas que em outros paizes de tanto soccorro são aos historiadores, e que para a constituição de uma grande obra são como os affluentes para os grandes rios ou como essas picadas de exploração que abrem os engenheiros antes de rasgar a estrada real.

Raras provincias pódem apresentar quaesquer trabalhos sobre o seu passado de hontem, como subsidios para uma historia geral d'essa época. Não admira isto, entretanto, em terra onde, para dizer como o velho épico portuguez: Ofavorcom que mais se acende o engenho Não no dá a patria, não... Graças ao Sr. Domingos Antonio Raiol, cujos serviços administrativos mereceram-lhe o titulo de Barão de Guajará, em o qual o governo trocou aquelle seu nome, o Pará póde contar-se hoje entre as poucas provincias que possuem uma historia particular, sinão de toda a sua vida, ao menos de uma parte d'ella, não da de somenos interesse, sem duvida. A obra, entretanto, não está concluida, faltando-lhejustamente uma das partes mais importantes, a referente ao periodo chamado Cabanagem e o remate ou historia da pacificação da provincia e sua reorganisação após o longo estadio de quatorze annos (1821-1835) de continuas sedições e motins. Todo escriptor que enceta uma obra do genero d'aquella do Sr. Raiol contráe com o publico uma obrigação moral de, salvo caso de força maior, leval-a ao cabo.

Este incontestavel preceito de alta moralidade litteraria, não o desconhece o Sr. Raiol, devemos por isso esperar que breve haveremos a conclusão d'aquella que em tão boa hora emprehendeu. Esta obra, ou antes os acontecimentos n'ella contados, o seu espirito e caracter, pretendo eu estudar hoje, á luz de principios por ventura differentes dos que guiaram o honrado narrador. Sendo a sociedade considerada actualmente, graças aos progressos das sciencias physico-naturaes, como um organismo no qual se verificam factos pelo menos identicos aos da vida dos organismos estudados por aquellas sciencias, é prestadio o seu auxilio no estudo da historia, ou da evolução d'esse organismo. A ellas, pois, tomarei ensinamentos que me servirão de criterio no julgamento do conjuncto dos acontecimentos historiados pelo Sr. Raiol, e entre essas lições—a da hereditariedade das aptidões e tendencias.

E isto não é alardo de uma erudição trivial, sinão necessidade strictą, pois sem isso, como explicar que em dado momento davida de um povo surge um longo periodo de agitações continuas sem um movel determinado, sem uma direcção conhecida, sem um fim explicito, fazendo centenares sinão milhares de victimas, trazendo em commoção e sobresalto continuo dezenas de milhares de individuos, uma população inteira, a quem rouba vidas, a segurança, a fazenda, o socego, perturbando profundamente a ordem e, portanto, estorvando o progresso? OS MOTINS POLITICOS DO PARÁ Não pretendendo o Sr.

Raiol, segundo elle lisamente declara não só no prefacio de seu primeiro volume como em uma extensa nota do principio do terceiro, a gloria de historiador, sinão julgando-se pago, como o poeta seiscentista por haver provado que a sua terra amou e a sua gente, sendo seu unico incentivo são palavras suas o desejo de evitar que o tempo apagasse a memoria de acontecimentos tão graves, comoforam esses, que por muito tempo agitaram a sociedade paraense, afim de legal-os ás gerações vindouras não julgou talvez necessario remontar as causas remotas, nem perquirir si na historia anterior da provincia algum facto não ha que explique como individuos. que no fim de contas, segundo adiante mostrarei, não tinham merecimento de especie alguma, poderam provocar-e parece do livro do Sr. Raiol que foram elles que provocaram uns após outros acontecimentos como esses de que se fez historiador, creando um quasi estado de anarchia permanente. Assim o seu trabalho que apenas começa com a chegada ao Brazil de D.

João VI, fugindo a Napoleão, não se occupa d'essas indagações de causas e origens que são aliás a luz com que a historia se esclarece. Em consequencia, depois de havermos cuidadosamente, como elles merecem, lido os quatro tomos publicados chegamos ao fim sem comprehender perfeitamente, não cada um dos movimentos de que tratam e cujo desenvolvimento nos satisfaz, mas toda a época e, principalmente, como foram possiveis esses continuos movimentos. Atravéz dos factos que o historiador desenrola a nossa vista curiosa, adivinhamos, mais do que percebemos, a falta de um guia que nos illucide e esclareça o espectaculo contristador, sentindo que além do que vemos ha qualquer cousa que nos occultam. Taes movimentos, pensamos nós, pondo o nosso bom senso de accordo com a critica historica, não são possiveis quando não acham meio propicio para se desenvolverem, e relendo de novo e mais attentamente vemos, ou melhor, parece-nos ver, perpassar por entre as massas amotinadas um sopro de anarchia que vem de bem longe e que-reflectimos baixinho e apprehensivos-talvez ainda hoje perdure.

Tendo por guia o livro do Sr. Raiol experimentarei um estudo d'esses factos, não só dos motivos que o geraram, mas das causas que os tornaram possiveis, em uma palavra do seu espirito e caracter. Este trabalho apresso-me a dizel-o-não é, nem póde ser definitivo, pois que o livro do Sr. Raiol, em que elle se firma, comquanto utilissima e preciosa contribuição, não o é tambem. A historia colonial do Parágira toda ao redor d'este facto: a lucta dos colonos com a metropole, ou antes com as autoridades que a representavam, por causa dos indios que queriam para escravos e tambem por amor de certas prerogativas que reclamavam.

Ao redor d'este facto principal agrupam-se outros, causas ou effeitos d'elles, que, ou o explicam, ou o definem ou OS MOTINS POLITICOS DO PARÁ 207 o completam, como sejam a lucta com os jesuitas, as questões da supremacia do Maranhão, a desmoralisação do principio da autoridade, como natural consequencia das luctas com os governadores, as deposições d'estes por motins populares ou militares, politicos como hoje diriamos, nunca, como por ventura mereceram, convenientemente punidos pelo poder central sempre contente, comtanto que lhe mandassem a importancia dos direitos e dizimos. A anarchia da administração, como reflexiona em alguma parte do seu livro o Sr. Raiol, gera a desordem publica. A frouxidão da autoridade nos tempos coloniaes engendrou a anarchia em que mais ou menos viveu a capitania e depois o Estado do Grão-Pará n'aquelles tempos, acostumando apopulação ao tumulto, como mais tarde, graças á fraqueza do primeiro reinado e da regencia e consequente imbecilidade dos seus delegados, viria a acontecer á provincia do Pará, preparada por uma fatal educação de desordem.

O que é singular, porém, é que esse espirito anarchico, nasceu, por assim dizer, com a colonia. O seu primeiro capitãomór, o mesmo que a conquistou para Portugal ou antes para a Hespanha, a quem então pertencia aquelle reino, Francisco Caldeira Castello Branco, mal tivera tempo de lançar os alicerces da nova cidade (1616-1618) foi deposto e preso pela tropa e povo (?) amotinados. Com o quarto capitão-mór, Mathias de Albuquerque, a mesma cousa. O quinto é filho, como o segundo, de alevantes populares. O nono vive em lucta com os colonos que manifestam contra elle ao governador do Estado, o qual o manda suspen- der e ir ao Maranhãojustificar-se. O decimo segundo foge para ali, não se julgando seguro no Pará. O decimo quarto é refugado pelo senado da camara amotinado. O decimo nono, accusado pela camara, é chamado ao Maranhão, ficando esta encarregada do governo da capitania.

Depois segue-se uma lucta entre autoridades e facções contra a familia de Bento Maciel Parente, no fim da qual o procurador da camara, em nome do povo, requer que jamais sejam elles admittidos a emprego algum e que esta corporação dirija-se ao rei, pedindo-lhe que na exclusão fosse comprehendida toda a prole de Maciéis. Longe iria eu si continuasse a exemplificar, porque, mesmo fazendo-o summarissimamente, alongaria demasiado este estudo. Facil é a todos verificar ou em Baena ou em Berredo o facto por mim assignalado de que o periodo colonial foi aqui quasi um continuo motim. Quando, portanto, o paiz ia passar pela maior transformação que jamais soffrera, não admira, ao contrario, comprehende-se e explica-se que, favorecidos pelas mesmas causas, a tibieza dos governos e o desrespeito á ordem representada pela autoridade, surgissem os mesmos effeitos, que os factos coévos não eram quiçá sufficientes para explicar.

É que costumes e habitos da vida publica eram filhos legitimos do passado colonial, cujo temperamento, cujas tendencias, cujo espirito herdaram, pela iniludivel lei da herança psychologica. Como o filho do assassino ou do lypemano, si nenhum outro factor, como a educação ou qualquer boa disposição herdada da mãe ou provinda por atavismo, vier modificar-lhe a OS MOTINS POLITICOS DO PARÁ 209 tendencia, apenas se manifeste occasião e appareça uma causa, será criminoso ou louco, assim o povo que recebera dos seus antepassados a fatal tendencia á desordem, se amotinará desde que surjam as mesmas circumstancias que moveram aquelles a rebellarem-se. Essas circumstancias, como iremos vendo, sobejaram de 1821 a 1835.

Os que lêm as edições especiaes dos jornaes do dia 15 de Agosto sabem que o humilde escriptor d'estas linhas professa mediocre admiração pela data que assignala o facto material, digamos assim, da independencia da provincia e pelos sujeitos dados em geral como factores d'essa obra, na qual não acha motivos siquer para o foguetorio com que patriotas como a si mesmos se chamam-mais ruidosos que esclarecidos armam ao effeito publico, e o povo, eterno carneiro de Panurgio-celebra com enthusiasmo mal empregado umfacto cuja historia redondamente ignora. Das provincias que durante os tempos coloniaes gosaram de alguma importancia, o Pará, que foi uma d'ellas, é, do meu conhecimento ao menos, das poucas que jamais tenham dado qualquer signal, o minimo, de independencia. De facto, ella se não póde orgulhar com o Maranhão de uma revolta de Beckmann, ou como Pernambuco de um movimento qual o dos nobres de Olinda, que quando foi da guerra dos mascates quizeram fundar uma republica ad instar da de Veneza; ou como S.

Paulo, com os alevantes que produziram o mytho historico de Amador Bueno; ou como Minas e Rio de Janeiro, a primeira com a Inconfidencia, a segunda com o Dr. Maciel. Aqui nenhum movimento semelhante; pelo contrario, estando mais perto de Portugal que nenhuma outra provincia, e tendo mais faceis communicações com ametropole do que com o Brazil, o Pará foi, ainda após a independencia, quando todas as suas relações não só commerciaes como particulares eram antes com Portugal que com o resto do Brazil, o Pará foi, digo, mais adstricto ao reino que á patria commum. E isto se comprehende sabendo-se que o elemento portuguez foi sempre aqui dominante, como e deve envergonhar-nos a simples asserção d'este facto o é ainda agora, graças aos capitaes que quasi exclusivamente possue. Si n'aquelle tempo levava a provincia a brigar com seus capitães-mores e governadores, era por amor de interesses particulares, muitas vezes mesquinhos, questões de primazias, sem que isso jámais obstasse a sua perfeita fidelidade a Portugal.

Com inteira razão e verdade poderam, pois, os signatarios do officio de 31 de Março de 1821 da junta provisoria á regencia portugueza dizer: «Estes acontecimentos (a acclamação de D. João VI, das Côrtes e da Constituição de 20) foram mandados immediatamente ao conhecimento de El-Rei Nosso Senhor, de cuja Paternal Bondade esperamos que annúa graciosamente aos votos legitimos do seu povo do Pará, que portuguezmente o ama.» Não se acredite, porém, que negue eu haverem no Pará pessoas que pensassem em independencia, quer antes quer depois dos acontecimentos que, na rhetorica official, se resumem no brado do Ypiranga. Certamente, sinão antes, ao depois as havia, porém entidades isoladas cuja opinião estava longede con- OS MOTINS POLITICOS DO PARÁ 2II stituir a da provincia e com a qual apenas o historiador póde contar para melhor pôr em relevo a opinião dominante. Nem ha que envergonhar-nos demasiadamente d'isto, pois salvo a excepção memoravel dos Patriotas de 1817 em Pernambuco, o resto do Brazil jazia no mesmo estado.

A gloriosa emancipação da grande colonia ingleza da America do Norte, a vinda de D. João VI para o Brazil, e talvez, mais do que tudo, o vento de liberdade que soprava por toda a Europa no principio do seculo, como a ultima lufada do bemfazejo furacão da Revolução franceza, mal extincto pelo Congresso de Vienna, naturalmente acordaram no Brazil, sinão na massa da população, ao menos em alguns individuos, as idéas, não com certeza de completa independencia, mas de um estado menos sujeito e avexado do que era a colonia, qualquer cousa como o Canadá ou a Australia ingleza actualmente. Sem duvida não foi d'outro espirito que nasceu o Brazil-Reino. Não fora a reacção que se deu nas Côrtes portuguezas contra as pretenções do Brazil, este não teria tão cedo proclamado a sua independencia; pois na época em que foi feita não ha um só, ainda entre os seus pseudo-patriarchas, como os Andradas e outros, que a quizesse a despeito de tudo, simplesmente por amor de ver livre a terra da patria.

Esta é a nua verdade, e como as mesmas causas produzem os mesmos effeitos, o que se deu no Sul passou-se, com insignificantes modificações, no Pará. Recebida a noticia da nova constituição portugueza, eleita uma junta constitucional de nove membros, jurada a dita con- stituição e tomadas outras disposições consequentes, mandaram d'aqui dois emissarios a Lisboa afim de significarem á regencia do Reino a adhesão da provincia ao movimento liberal da metropole. D'esta commissão eram membros o alferes de milicias Domingos Simões da Cunha e uma original figura dos primeiros tempos da nossa provincia, uma especie de doido, Felippe Alberto Patroni Martins Maciel Parente. ¹ Patroni, em cumprimento de sua missão, proferiu perante as Côrtes um discurso bombastico protestando a adhesão dos seus committentes á constituição, acabando por assegurar que seria mais facil converterem-se em sangue as aguas do Amazonas oureduzir-se o Pará a cinza, pó e nada, do que baixar de novo a cerviz ao sacudidojugo.

2 Ojugo a que se referia Patroni, é quasi uma simplicidade dizel-o, era o da monarchia absoluta: applaudindo o movimento que acabava com ella, os paraenses· asse་ gura Patroni no mesmo discurso -queriamfazer um e o mesmo corpo com os luzitanos. Entretanto, eram menos favoraveis ao Brazil os desejos das Côrtes, ciosas de chamarem ao seu antigo papel a colonia que, facto singular na historia, passara quasi que a metropole. Semelhante intuito bem está denunciando a myopía politica dos homens, aliás de grande valor moral, que dirigiram o movi1 Não é sem fundamento que chamodeumaespeciededoidoaoDr.Patroni: para merecer este diagnostico de qualquer alienista avisado ahi estão as obras porelle publicadas, os seus discursos na camara dos deputados e um caderno manuscripto que d'elle possuo superabundante de symptomas. 2 Motins, vol. I, 6-18. OS MOTINS POLITICOS DO PARÁ 213 mento de 20 em Portugal, pois que importava na cabal ignorancia das condições de desenvolvimento dos povos. A acção dynastica das Côrtes produziu naturalmente reacção contraria no Brazil a favor da independencia.

O reinado de D. João VI aqui mostrara a nossa capacidade para viver sem tutella, e puzera-nos em condições de avaliar os nossos proprios recursos. Infelizmente não tivemos um Washington, um Franklin, um Bolivar, ou um San Martin, sinão alguns aulicos, que a contragosto viam e acompanhavam o movimento liberal do reino, de sorte que foi facil a espertesa saloia de D. João VI de mãos dadas com o espirito aventureiro e de nenhum modo escrupuloso do principe D. Pedro, empolgar para a sua dynastia um Imperio que forçosamente lhes escaparia, armando ao mesmo tempo a alguns milhões de cruzados que nenhuma necessidade tinhamos de pagar... e que não pagámos. Como quer que seja, foi para os dois um excellente negocio, o melhor porventura que reis de Portugal jámais fizeram. Reflectem, porém, espiritos ponderados, que para nós tambem foi assim melhor, pois sinão cairiamos na anarchia da republica, como as republiquetas que nos cercam... Consolemo-nos, pois; si não gloriosa, foi commoda e pacatamente feita a nossa independencia.

E si nos compendios officiaes da historia patria ha um capitulo com o titulo de 1 Vide Oliveira Martins, Portugal Contemporaneo. Guerra da independencia é isso um méro abuso da hyperbole, de nenhum modo offensivo aos bons costumes. Creio eu que n'essa guerra comprehendem os historiadores a expedição de Grenfell ao Pará. Eis o caso: Proclamada a independencia nasceram naturalmente aqui, como nas demais provincias, duas facções, que partidos não eram, sendo uma pela metropole outra pela nova fórma, que ia tomar o Estado. Esta era, sem duvida, pela indicada falta de raizes na provincia a menos fórte. A portugueza si não tinha a superioridade numerica, tinha a de representar o elemento conservador (não confundir com o partido, que não existia) da provincia, isto é, além dos funccionarios e negociantes portuguezes, os proprietarios, capitalistas, negociantes e empregados administrativos brazileiros aos quaes nenhuma confiança inspiravam os agitadores como Patroni, Baptista Campos e outros.

Estas duas parcialidades, uma não teve força para fazer a independencia sem Grenfell; outra não a teve para obstar que elle a fizesse. Antes, porém, de contar a farça representada pelo marinheiro inglez, devo dizer para mostrar em que mãos se achava a causa da independencia paraense, de um movimento que a precedeu tentado pelos directores do partido a elle votado. Após repetidas reuniões e conluios em casa do italiano Balbi (havemos de ver que os forasteiros estranhos á provincia, especie muito encontradiça em tempos de anarchia, abundaram no periodo que estudamos) os conjurados resolveram romper de vez no dia 13 de Abril de 1823. Uma força de cem homens de cavallaria e infantaria tomaria o quartel. Dous fogue- OS MOTINS POLITICOS DO PARÁ 215 tes annunciariam a victoria. A este signal o resto da cavallaria iria juntar-se com os dous regimentos de infantaria, cujos officiaes, como os do esquadrão, eram conniventes na revolta. Juntos que fossem tomariam outras medidas que as circumstancias aconselhassem afim de obterem o triumpho da causa da independencia.

' Até a conquista do 3.º regimento tudo correu pelomelhor. Ahi, porém, deu-se um caso caricato-é o adjectivo que lhe convém. Chegando em frente do regimento formado no largo das Mercês, o Capitão Boaventura da Silva deu vivas ao Imperador D. Pedro I e á independencia, sendo estes vivas enthusiasticamente correspondidos por todos. Vejamos agora como esses que tão enthusiasticamente, segundo assevéra o Sr. Raiol, corresponderam aos vivas, se comportaram momentos depois. «O major Francisco José Ribeiro escreve o Sr. Raiolvendo tão solemne pronunciamento até nas fileiras do 3.º regimento, voltando-se para os seus camaradas lhes bradou em altas vozes que nunca elles deviam desprezar o pae pelofilho, pelo contrario, deviam conservar-se semprefieis a D. João VI. A taes palavras succedeu breve silencio e isto bastou para que elle decla- " rasse com arrogancia que o 3.° regimento não queria a independencia do Brazil! E nem o Capitão Domiciano Cardoso, nem o ajudante Manoel Lourenço de Mattos, nem o Alferes 1 Motins, vol. I, 46. 2Ibid, 46.

José Maria Martins, que tão bem tinham disposto este regimento a favor da revolução, se animaram a fazer reviver o` enthusiasmo amortecido.»> Tudo isto é typico, e o facto de um major que não era siquer o commandante do batalhão, abafar com algumas palavras sandias o tal enthusiasmo, prova bem o que elle valia. Mas ainda não é tudo. Diante da referida attitude do 3.º regimento, Boaventura da Silva mudou de rumo na direcção do quartel da artilharia. No dia 14 estando os revoltosos preparados para a resistencia em frente ao quartel, appareceram na vanguarda do 1.º regimento o governador das armas e os Coroneis Villaça e Barata. Estando elles ao alcance das peças, um cadete, Bernal do Couto, quiz lançar fogo á peça que enfrentava a rua de Santo Antonio pela qual surgiram. «A metralha, diz o Sr. Raiol, destroçaria-os infallivelmente; mas o Capitão Boaventura, que era o commandante em chefe dos revoltosos, oppôz-se, declarando não querer que se derramasse uma só gotta de sangue; com os braços crusados esperou a força inimiga.

Sem a menor resistencia aproximou-se esta, e ao chegar ao largo de Santo Antonio, aproveitando-se do estado de adormecimento d'aquelles, o Coronel Barata deu vivas a El-rei D. João VI, os quaes correspondidos, deram o ultimo golpe na revolução.» Ao parecer, correspondiam a todos os vivas. 1Ibid., 46. 2Ibid.,47. OS MOTINS POLITICOS DO PARÁ 217 Taes eram ou pelo menos taes resaltam do livro do Sr. Raiol os patriotas paraenses de 1823; e foram os seus nomes, ligados a tão tristes exemplos de imbecilidade e covardia, que a nossa geração achou para escrever nos cunhaes de toda uma série de ruas d'esta capital e fazer d'elles lemas de inscripções patrioticas! Façamos votos, todos os que não temos o senso moral pervertido, para que os nossos filhos nada queiram aprender d'elles. A mallograda rebellião de 14 de Abril, não achou ainda écco seis mezes depois do Brazil independente-na opinião publica, ou antes no povo. Os seus, em tudo infelizes promotores foram presos, e diz o Sr.

Raiol que só escaparam á morte graças a uma indicação do futuro arcebispo da Bahia, o padre Romualdo Antonio de Seixas, presidente dajunta provisoriaparaense e dedicado á causa portugueza. Um dia d'estes leremos o seu nome entre os dos patriarchas da nossa independencia, como já lemos o de Baena. N'essa indicação, ou melhor, memorial, o padre Seixas, depois de affirmar os seus conhecidossentimentos constitucionaes, qualifica successivamente a mal sortida, mal e indignamente dirigida, mas em summa generosissima e nobre tentativa de independencia, de intento criminoso, aggressão enorme, crime horroroso e reprovado, vertigem de dissidencia coberta com o especioso veo de pretendidos direitos, scisma politico, movido porseita contagiosa (já alludiria á maçonaria?) hydra monstruosa, execrando attentado, acabando por chamar seus autores defreneticos e miseraveis. Oh! como estas, sim, miseraveis palavras d'este padre, teriam posto em sobreexcellente relevo aquelle movimento e seus fautores si estes se tivessem mostrado na altura de apostolos de tão nobre causa!

Mas não; elles foram de umatão rematada sandice e de uma covardia tão repulsiva, que apenas nos deixam lugar para a compaixão, sinão para o despreso. N'este entremente chegou ao Pará a nova da dissolução dasCôrtes portuguezas e conseguinte restabelecimento do antigo regimen. Conforme bem nota o Sr. Raiol, tres principios iam disputar-se a primasia: o restaurado absolutismo condemnado pelo espirito publico; o systema representativo portuguez, que supplantado ficava, podemos dizer, fóra de questão, ao menos para a colonia e a independencia do Brazil, que prolongava aqui o constitucionalismo da metropole. «Não existia, portanto, motivo algum-diz ingenuamente o Sr. Raiol- que pudesse justificar qualquer disposição hostil á independencia.» ¹ Esta declaração do historiador obriga-me a perguntar: E si assim não fosse? Si houvesse esse motivo, isto é (si não percebo mal), no caso de continuar o constitucionalismo portuguez, haveria razão para hostilisar a independencia? 1 Ibid., 61.

OS MOTINS POLITICOS DO PARÁ 219 Nenhum movimento significativo a não ser a deliberação pacata de esperar ordens de El-rei-realisou-se, até que no dia 10 de Agosto chegou o Capitão-tenente John Pascoe Greenfell, no brigue de guerra Maranhão, com um official de lord Cockrane e outro dajunta d'aquella provincia, exigindo todos que o Pará adherisse á independencia, affirmando Greenfell que atraz de si vinha uma esquadra, com o que houveram muito medo na cidade. Ajunta paraense tomando de tudo conhecimento decidiu por grande maioria aceitar a independencia imposta, exarando na acta da respectiva reunião que era de suppor que os interesses de D. João VI se conciliassem com os de D. Pedro I. ¹ Este final si não fosse a expressão inconsciente de uma simpleza quasi boçal, seria um dos mais soberbos epigrammas da historia. «Era de esperar, disseram os consules, que os interesses de D. João VI se conciliassem com os de D. Pedro I.» Não commento. Resolvido isto, foi no dia 15 jurada a independencia e dois dias depois eleito o governo civil de accordo com os decretos do primeiro Imperador.

Vera e succintamente exposta é esta a historia do famoso 15 de Agosto, segundo a narração do Sr. Raiol. Confesso não enxergar n'ella vislumbre siquer das condições que o bom senso exige das épocas que havemos de glorificar. Adherindo á independencia, a provincia apenas dava um passo naturalissimo, nem 1 Ibid., 64. ao menos benemerito de louvor, pois que o contrario seria uma traição, uma deserção vergonhosa. Entretanto, podia fazel-o a despeito da resistencia do elemento portuguez, combatendo-o e vencendo-o, e então seria gloriosissimo o seu acto. Infelizmente assim não foi; ella não fez a sua independencia nem siquer de motu e por esforço proprio adherio a do Brazil. Fizeram-lh’a e obrigaram-n'a a acompanhar as suas irmãs ameaçando-a com forças chimericas, e ella no seu amor pelo reino consolou-se na idéa verdadeiramente filial que os interesses de D.João se conciliariam com os de D. Pedro e vice-versa.

Ella soffrera todos os vexames dos dominadores, ella protestara por mais de uma vez pela boca de seus filhos mais illustres a sua devotação a Portugal, ella vira impassivel os seus deploraveis martyres da já referida jornada de 14 de Abril a sua passagem para a cadeia escarnecidos e apupados pelos partidarios da metropole, alguns dos quaes chegaram até a expôr aopu-` blicopalmatorias e chicotes dependurados dasjanellas de suas casas ouvira um de seus filhos, padre, futuro bispo, taxar de attentado execrando o facto unico pelo qual, victoriosa ou derrotada, comtanto que soubesse como o rei francez salvar a honra, ella poderia entrar gloriosamente na historia-passára por isto tudo antes de aceitar a imposição de um Capitão-tenente da marinha ingleza ao soldo do Brazil. Qual a moralidade que ha de tirar de tudo isto o histo1 Motins, volI, 59. OS MOTINS POLITICOS DO PARÁ 221 riador que acima de todas as considerações, de qualquer ordem que sejam, põe o que julga ser a verdade?

Que a independencia do Pará, com a do Brazil, foi um logro seguido de uma transacção, e debalde procurará n'essa época um elemento emmocional com que fazer vibrar as cordas do patriotismo. Apenas encontrará frases ôcas de uma rhetorica relaxada pelo uso que quando muito poderão accender um enthusiasmo ficticio, ephemero como os rastros dos foguetes com que o manifestam. Não ha duvidar, a dominação portugueza tirára tudo de nós, o nosso ouro, as nossas riquezas, o nosso brio, e quando por ultimo pareciamos querer affirmar o nosso direito a uma existencia livre e forte, ella ainda zombou de nós, enforcando os gloriosos rebellados de Pernambuco em 1817 e dando-nos para rei um principe seu em 1822. Em 15 de Agosto de 1823, o Pará fez apenas o papel de méro figurante e ainda assim, sinão a contragosto, um pouco obrigado na comedia politica que se representava no paizcomedia pela qual não tenho a minima admiração, como tambem não a tenho quer pelos protogonistas, quer pelos comparsas. 1 Este estudo está, como vê-se, incompleto.

É de crer, entretanto, que o seja e venhaaconclusão afazer parte de novos estudosbrazileiros.

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