Literatura e homens de letras no Brasil
LITTERATURA E HOMENS DE LETTRAS NO BRAZIL (1883) NDANDO um presidente d'esta provincia em excursão administrativa pelo interior, chegou a um lugarejo cujos habitantes se lhe queixaram do respectivo professor publico, taxando-o de desmazelado e inepto. O mestreescola não estava no lugar, mas em meio da viagem presidencial veio a bordo, e arguido por aquelle funccionario a respeito das accusações de que era objecto, contestou: mo --Ora, Ex. Sr., queixam-se de mim, só porque-disque eu não ensino analyse... E voltando-se para as testemunhas d'esta scena, um general victorioso e intelligente, e um digno empregado publico, que m'a referiu, interrogou-os com ar triumphante: -Digam-me, para que serve a analyse?... Eim? para que serve a analyse?
Ou eu não conheço o meio em que tenho aditade viver, ou estou vendo ou ouvindo- como queiram- muitissimos dos meus leitores—si os hei muitissimos -torcerem os respectivos narizes e murmurarem, para si: -Ora, para que serve a litteratura?…… Ignoro o que ao mestre-escola alludido disseram os seus interlocutores afim de o convencerem do prestimo da analyse; eu, por minha parte, sinto-me absolutamente incapaz de provar aos meus leitores qual a utilidade da litteratura. Dou, porém, como certo que entre elles ha alguns que não sejam da opinião do professor da roça nem da maioria dos seus companheiros na ingrata tarefa de lerem este artigo; é para esses unicamente que o escrevo. Suggeriu-m'o um livro que recebi do Rio de Janeiro com este titulo-Afesta litteraria por accasião defundar-se na capital doImperio a Associação dos homens de lettras do Brazil, livro que contém além das varias producções litterarias n'ella lidas, uma introducção da commissão organisadora da festa, dous soberbos discursos dos eminentes publicistas argentinos, os Srs.
Vicente e Ernesto Quesada a quem era offerecida, e, em appendice, os estatutos da referida sociedade. Livro tal, pelo motivo que o fez vir a lume e pelo assumpto que versa, não podia deixar de trazer a quem quer que o lesse umas reflexões, embora fugitivas, ácerca das condições das lettras no Brazil. Apezar da má vontade de alguns emperrados criticos portuguezes, hoje em dia não se discute mais sobre a existencia ou não existencia de uma litteratura brazileira. É para todos facto assentado, que pobre ou rica, não importa, ella existe. LITTERATURA E HOMENS DE LETTRAS 131 A sociedade novamente fundada no Rio não tem, portanto, nem podia ter, por fim trabalhar para a creação de uma litteratura nacional. O que ella quer, segundo o art.
1.° dos seus estatutos, é: «1.° animar a profissão litteraria, reunindo e utilisando, no interesse commum e das lettras, actividades intellectuaes que o isolamento traz dispersas, promovendo vantagens para os associados, e sustentando os seus direitos; 2.º soccorrer o associado quando este cahir em penuria; e, si vier a fallecer nas mesmas condições, continuar os soccorros á viuva e filhos.>> Esteprogramma, como outras partesdos estatutos sepresta a algumas observações. Antes, porém, de as fazer quero transcrever para aqui, por dar a este escripto algum sabor, as brilhantes palavras do discurso do meu illustre amigo, o Sr. Franklin Tavora, que lhe são como que o commentario:
Crear o leitor, ao menos nas capitaes das provincias; promover a fundação de bibliothecas exclusivamente americanas, e a troca de livros entre os centros litterarios da America latina; despertar o gosto pelo conhecimento das litteraturas visinhas, de sorte que a profissão do homem de lettras venha a ser o corollario logico d'essa agitação espiritual e internacional—eis, pela rama, a nossa tarefa... Tenho para mim, senhores, que si as lettras não prosperam entre nós, devemos este mal, em grande parte, á falta de propaganda.
«É necessario que empreguemos a propaganda em favor do livro nacional; pela imprensa, associações, conferencias e até simples palestras no seio das familias, como se faz actualmente com o café, o ingenuo desamparado, o escravo, porque, senhores, o livro nacional está verdadeiramente escravisado por mais de uma tyrannia, sendo a primeira a da concurrencia do livro portuguez, facil de exercer-se n'um mercado similar, como é o Brazil, onde se fala a mesma lingua, onde, porém, é muito cara a materia prima.» Resulta d'estas citações que o que pretenderam os escriptores reunidos na Côrte em saráu litterario no dia 30 de Agosto ultimo, foi segundo a frase concisa e explicita do meu amigo Tavora em carta que se dignou dirigir-me: crear a profissão de homem de lettras no Brazil. Da parte de escriptores, nada mais justo, nada mais louvavel, nada mais digno, pois conseguil-o é quasi que o mesmo que dotar o paiz de uma rica e brilhante litteratura, porque não pode haver litteratura que o primeiro d'estes qualificativos mereça, onde não ha escriptores, e simplesmente amadores litterarios.
Procurar, pois, crear-se uma profissão, é, da parte dos homens de lettras, procurar emancipar-se, para, em lugar de serem amanuenses das secretarias ou guarda-livros tornarem-se pura e simplesmente escriptores. Nada mais justo, repito; mas, pergunto, o conseguirá a nova sociedade? Duvido. E duvido porque, em primeiro lugar, não creio na efficacia dos meios artificiaes para a resolução de problemas puramente moraes, e sujeitos á evolução social, e, em segundo lu- LITTERATURA E HOMENS DE LETTRAS 133 gar, porque sou profundamente sceptico quanto ao espirito de união e de perseverança dos homens de lettras, aos quaes cabe sempre o conhecido verso de Horacio: Genus irritabile vatum... Não nego o prejuizo que nos traz a concurrencia dos livros escriptos ou traduzidos em Portugal; estou longe de contestar o que nos vem da estupida indifferença da imprensa pelas obras nacionaes, que limitam-se a annunciar com o conhecido chavão do Recebemos e agradecemos...
não me recuso mesmo a culpar o isolamento systematico dos homens de lettras, como concorrendo para as tristissimas condições em que vegetam a nossa litteratura e os nossoslitteratos; mas,paramim, acausaprincipal, a causa primordial d'isso é que nem uma nem os outros têm aquillo que para ambasé como o arquerespiramos osleitores. Independentemente dos factores que chamarei moraesas tradições, a historia, os costumes o que faz uma litteratura são os litteratos, -da mesma fórma que quem faz os sapatos são os sapateiros; para que haja escriptores, porém, é preciso que haja leitores, porque ninguem escreve só pelo prazer de ler a sua prosa ou as suas endeixas, e para que existam leitores -perguntem ao Sr. de Lapallisse é preciso que exista quem saiba ler.Ora, o Brazil é, em definitiva, um paiz de analphabetos; como querer-se, pois, ter leitores? Me redarguirão, estou certo, que não ha falta de leitores, e dar-me-hão como prova o acharem os livros portuguezes lei- tores bastantes no Brazil.
A isto respondo que, em regra geral, quem lê os livros portuguezes são os filhos d'aquelle paiz que naturalmente procuram n'elles as lembranças queridas da patria distante. E oslivros portuguezes, convém ainda acrescentar, que se lêm são os romances, principalmente os peores, e as pessimas traducções do indigesto Escrich ou de qualquer Ponson du Terrail francez ou hespanhol. No Brazil sobre haver pouco quem leia, os poucos que sabem ler não amam a leitura. Lembro-me que em 1874 fazendo uma viagem no paquete americano South America notei que rarissimo era o homem da tripolação que não aproveitava os seus momentos de repouso na leitura; tenho depois viajado em diversos vapores brazileiros, e garanto que a cousa mais difficil de encontrar n'elles, depois do aceio, é um livro.
Entre quasi todos os povos civilisados a bibliotheca, ou mais castiçamente, a estante de livros cheia d'elles, é em uma casa de familia um movel tão indispensavel como a guarda-roupa; entre nós, contam-se as casas, a não ser a de algum medico que tem os seus livros de medicina e a de algum advogado que tem os seus livros de direito, que possuam meia duzia de volumes. E a respeito de homens formados direi de passagem que, segundo me têm communicado os livreiros d'esta capital, são elles os que menos livros compram. Os doutores, parece, têm horror á lettra redonda. O corajoso batalhador pela Litteratura do Norte me dirá sem duvida que eu bato em falso, por isso que elle foi o primeiro a declarar que iam crear leitores, ao menos nas capitaes das provincias. É certo que, com muito criterio, o disse, mas LITTERATURA E HOMENS DE LETTRAS 135 eu é que não vejo os meios que empregarão para isso, a menos que não se resolvam a crear escolas primarias e a dar livros de graça.
E a dar livros de graça, digo, porque ainda a pequena minoria que não desestima de todo a leitura e que em geral pertence ás classes pobres, não póde com os exhorbitantes preços dos livros brazileiros. Ainda outra circumstancia ha que torna pouco vendaveis esses livros: é a sua pessima impressão, o seu máo papel e peor encadernação. Nas producções da industria moderna o publico exige, além da solidez, a elegancia, o bomgosto, a arte da confecção; o livro, que, como volume, é, não ha negar, um producto industrial como um ferro de engommar, não se póde furtar a esta lei. O livro brazileiro, esse, está inteiramente fóra d'ella; de que se queixa, pois? Um sujeito entra, por exemplo, n'uma livraria; vêno mostrador dous livros, um é o Curso da litteratura brazileira do Dr.
Mello Moraes Filho, uma recopilação de prosa e versos de autores nacionaes, mal impresso, em pessimo papel e desageitadamente encadernado, o outro é os Nocturnos do meu nunca assás lamentado amigo Gonçalves Crespo, n'uma edição luxuosa e elegante; por aquelle pedem-lhe 5$000 réis e por este 4$000, e elle que o que quer é um livro, seja qual fôr,leva o portuguez e deixa o brazileiro. Nos seus casos eu, confesso francamente, faria o mesmo. Bem diz, pois, o Sr. Tavora que são graves e multiplos os problemas que a nova Associação tem que resolver; estas ligeiras observações que de passagem vou fazendo o provam. Quando a Associação houver creado leitores, tem de trabalhar pela baratesa dos livros, quando ativer conseguido, tem de empenhar-se pela sua perfeição typographica, pelo seu bem acabado como producto industrial, e quando haja conseguido tudo isso ainda tem, para a completa realisação do seu nobre empenho, de luctar contra os preconceitos do publico a respeito do escriptor. Um finissimo espirito portuguez, que, ai de nós!
é um dos mais terriveis concurrentes dos folhetinistas nacionaes Ramalho Ortigão, constatando o menospreso em que é tido, principalmente nas altas classes, o escriptor no seu paiz, explicava este phenomeno pelo despreso inspirado n'aquella sociedade pelos poetas do seculo XVII e XVIII, que andavam de palacio em palacio a trocar dythirambos e epythalamios pelo jantar dos criados da casa. Até certo ponto, esta explicação serve tambem para o nosso caso, porque aqui tambem os homens de lettras, a não ser uma excepção gloriosa como a de Gregorio de Mattos Guerra, andaram sempre a adular os grandes e a fundar soporiferas academias para louvarem os governadoresEu, porém, além d'esta razão, aponto outra, por ventura mais immediata, para explicar a nenhuma importancia de que quer em Portugal, quer aqui, gosam os homens de lettras: a profunda e inegavel ignorancia das altas classes de ambos os paizes («Quem não sabe a arte não n'a estima,» disse Camões) e a ainda maior das baixas. Deixemos de lado Portugal e falemos do Brazil.
Desde o extremo norte ao extremo sul do Imperio, a aristocracia---e eu penso com Littré, que uma sociedade não póde LITTERATURA E HOMENS DE LETTRAS 137 viver sem ella- si é que aristocracia se póde chamar á classe que entre nós occupa as mais elevadas posições publicas ou simplesmente sociaes é tudo o que pode haver de mais bronco. Os estupidos argentarios norte-americanos, edificam palacios, que ornam com télas ou estatuas de grandes mestres, fundam academias, dotam sociedades sabias, mandam expedições aos pólos, ao Brazil, á Africa; aqui, os que morrem com mais de dous mil contos de fortuna... mandam em testamento que se lhes rése algumas centenas de missas pelas almas, como si as tivessem! Isto quanto á aristocracia das finanças; a da politica não está mais adiantada, o que não admira porque a politica, como carreira é, de regra, no nosso paiz, o refugio das mediocridades ambiciosas. Á mais bella organisação litteraria que ainda tivemos, José de Alencar, fizeram-lhe sempre do seu unico merecimento, o ser um escriptor de raça, um tropeço para as suas aspirações politicas.
Na nossa burguezia, o mesmo despreso. Não ha empregado publico prevaricador, taberneiro ladrão, juiz venal, industrial velhaco, que se não permitta denegrir todo o homem de lettras, todo o rabiscador, segundo o termo usado, como si elle só tivesse a restricta obrigação de ser honesto. É até um proloquio, com fóros de aphorismo, dizer-se que todo escriptor é safado. Safado escrevo, porque é a fórma consagrada. Eis os enormes obices que tem de remover a recém-creada Associação dos homens de lettras do Brazil, a quem o facil espirito de alguns humoristas fluminenses alcunhou de Lyra de Appolo. Esperemos que ella não merecerá a cassuada e que consiga o que, torno a dizer, duvido crear a classe dos homens de lettras no Brazil, deixando ás demais classes que por ahi existem o direito de despresal-os e de, egoisticamente, monopolisarem o de……. não serem honestas.