Castro Alves e o poema dos Escravos Estudos Brasileiros (1877-1885) · Capítulo 12 de 14
Obra Menu

Castro Alves e o poema dos Escravos

CASTRO ALVES E O POEMA DOS «ESCRAVOS» (1884) jo Brazil, onde não se pode dizer que haja espirito nacional, afogado que está elle pela preponderancia de elementos estrangeiros que ainda não fomos capazes de sobrepujar, é raro, é rarissimo e extraordinario mesmo que um escriptor, um artista, um poeta, seja amado, seja apreciado, ou simplesmente conhecido. De quantos homens d'esses n'este paiz já existiram, apenas um, Gonçalves Dias, logrou essa gloria, de ser conhecido e apreciado, sinão amado, do sul ao norte do imperio. E isso mesmo, convém notar, não o deveu elle ao seu real e incontestavel merecimento, nem ás suas poesias americanas, sinão, em primeiro lugar, á consagração que lhe deu Portugal pela voz do seu pontifice litterario Alexandre Herculano, depois pela sua morte tragica.

Estes dous factos são importantes, decisivos nahistoria da legitima aura que alcançou no Brazil o sublime poeta dos Cantos; si Alexandre Herculano não o tem sagrado grande poeta, fazendo com a sua, a opinião da escolha da nação e si, em vez de perecer mysteriosamente tragado pelo oceano sem deixar vestigios, houvesse morrido em sua cama como qualquer outro, Gonçalves Dias, seria tão conhecido dos brazileiros como o são Magalhães, Porto Alegre, Macedo, Alencar, Junqueira Freire, Bernardo Guimarães, Alvares de Azevedo e muitos outros de não menos valor. O que prova a verdade do meu asserto é que com o outro poeta que, depois de Gonçalves Dias, maior nome ganhou no paiz, Casimiro de Abreu, dá-se o mesmo facto; elle tambem teve a consagração portugueza, cujos editores ainda hoje lhe publicam as obras, elle tambem teve um fim desgraçadamente prematuro, que veio confirmar os seus tristes presentimentos de homem doente.

É profundamente deploravel e sobremodo contristador semelhante estado da consciencia publica; confessal-o envergonha, mas é dever de todo aquelle que présa, mais do que as conveniencias patrioticas, a verdade. E já que, incidentemente, toquei n'esta questão, entendo dizer todo o meu pensamento ácerca das de nacionalidade que por todo o paiz se tem agitado, e que, é força confessar, estão latentes no espirito da população. Considerando-as friamente pareceram-me sempre ridiculas as pretenções de absoluta autonomia de um povo que para ler os seus escriptores e os seus poetas, isto é, aquelles que melhor devem representar os seus desejos, precisa que elles lhes venham recommendados pelos CASTRO ALVES 185 como se isso fosse mesmos cuja preponderancia quereriam possivel abolir do pé p'ra mão. Antes da estupida pretensão do commercio a retalho, a mais atrazada e a mais tola das idéas que já poderam occorrer ao cerebro de um politico, havia, e ha, a crear a consciencia nacional, por uma boa educação, lenta e seguramente feita.

Sómente depois d'esse trabalho, o elemento brazileiro fortificado e apto para a lucta, poderia assimilar os elementos estrangeiros, concorrendo lealmente com elles em qualquer campo onde se pudesse manifestar a sua licita actividade, e não no das invectivas grosseiras ou das desarrazoadas pretenções. A litteratura é, em regra geral, de todas as manifestações do espirito de um povo, aquella por onde melhor podemos ajuizar da sua vitalidade; ora, não ha, dos povos civilisados ao menos, um que tenha em menos conta a sua litteratura do que o brazileiro, isto é, um que menos caso faça da traducção ou antes da reproducção escripta do seu proprio sentir e pensar. Este povo, pois, tão profundamente inconsciente, que mais parece uma simples agglomeração de gente do que uma nação, 1 Modifico hoje esta opinião. A nacionalisação do commercio a retalho que, creio, existe em alguns estados da União Americana- seria umdos meios de conseguir, pelo augmento das naturalisações, a diminuição do valor socialdos elementos estrangeiros. (1889).

não tem direito, sinão por uma aberração de espirito, de falar em nacionalidade. D'este espesso e symptomatico indifferentismo para as coisas nacionaes, parece, no emtanto, ter ultimamente escapado tambem um poeta de subidos meritos, Castro Alves. Com effeito, depois dos dous poetas citados, Gonçalves Dias e Casimiro de Abreu, nenhum escriptor n'este paiz já foi mais lido e mais apreciado do que Castro Alves. As suas Espumas Fluctuantes têm já cinco ou seis edições diversas, o que n'este paiz é extraordinario; o seu poema A Cachoeira dePaulo Affonso já tem duas, o seu drama Gonzaga achou tambem editor e os seus versos soltos, principalmente as Vozes d'Africa e o Navio Negreiro mereceram por varias vezes edições especiaes. Aqui, é verdadeiramente assombroso. Este enthusiasmo, porque o ha, por Castro Alves é justo e merecido, não porque elle seja um poeta mais genuinamente nacional do que qualquer outro, mas por ser um dos maiores, quiça o maior, da ultima geração de poetas.

Sim, elle não tem nada de caracteristicamente nacional que o fizesse amado por esse lado, mas nenhum poeta da sua geração talvez sentio vibrar com mais viveza dentro de si a alma moderna, e é esta a sua verdadeira grandeza. Ajunte-se a isto, a fórma quasi nova--Victor Hugo, seu mestre, só podia ser conhecido pelos que lêem o francez- de seus versos, a infelicidade de sua vida e o seu fim prematuro, e ter-se-ha completa a explicação d'este phenomeno singulara sua popularidade no Brazil. O Sr. Serafim José Alves, editor no Rio deJaneiro, acaba CASTRO ALVES 187 de prestar um bom serviço ás lettras patrias publicando em edição barata Os Escravos, poema de Castro Alves. ¹ Este poema, confirmando si elle precisasse de confirmação—o meu juizo sobre Castro Alves, dá-me ensejo de occupar-me com um poeta que sempre me foi singularmente caro.

Alma de poeta e alma talhada de molde a comprehender as aspirações e sentimentos modernos, Castro Alves é o primeiro poeta que, sem ser incidentemente, fez vibrar as cordas da sua lyra a favor dos escravos n'este paiz, e apezar de ter muito amado e de um amor romantico, é ainda assim tambem o menos subjectivista, como diria um critico allemão, dos nossos poetas dos ultimos tempos. A adoração deVictor Hugo, o prodigioso lyrico, inspiroulhe um ideal humano que teve a sua mais bella encarnação no poema dos Escravos, n'esse grito verdadeiramente sentido de um peito de poeta em pról do mais miseravel dos entes: Serescravo―é nascerno alcouce escuro Dos seios infamados da vendida... Filho da perdição no berço impuro Sem leite para a boca resequida... É mais tarde, nas dobras do futuro, Não descobrirestrella foragida... Évêr-viajante morto de cançaço– Aterra sem amor!...semDeus-o espaço. ¹OS ESCRAVOS, poema brazileiro dividido em duas partes: I A Cachoeira de Paulo Affonso- -II Manuscriptos de Stenio, precedido dabiographia do poeta, por Mucio Teixeira.

1-88 ESTUDOS BRAZILEIROS Em toda a primeira parte d'este poema a unica que realmente lhe pertença—ha bellezas inextimaveis, que não reproduzirei porque dislocal-as-hia do seu lugar proprio; mas em nenhuma das outras obras do poeta manifesta-se melhor que elle era menos um poeta nacional do que um poeta moderno. O entrecho do seu poema é completamente falso; o drama não se passou, não se podia ter passado no Brazil, onde aliás o poeta, si não fôra a sua demasiada tendencia romantica, teria encontrado na sombria vida da escravidão aqui mais de um facto verdadeiro para assumpto do seu poema. O poeta, porém, preferio idealisar e em lugar de fazernos um quadro da escravidão no Brazil, deu-nos uma pintura, forte sem duvida, da escravidão em geral, principalmente de uma escravidão- e aqui está o seuponto fraco --que não houvesse conseguido degradar o escravo, uma especie da escravidão dos escravos dos Burgraves de Victor Hugo, cuja reminiscencia me parece evidente n'este poema.

Os escravos escolhidos por Castro Alves, Lucas e Maria, são duas bellas figuras de epopéa, convenho, mas inteiramente dislocadas no meio em que as collocou o poeta. Acho eu que mais nos interessaria elle pintando-nos os escravos taes quaes são, profundamente degradados e profundamente bestificados pelo captiveiro, do que fazendo-nos d'elles uns heroes impossiveis, como o seu Lucas, uma especie de Spartaco negro. Tenho para mim- e quero repetir esta idéa——que a somma de positividade que enriquece hoje os espiritos modernos, torna mais sympathica a realidade do que a idealisação da desgraça. CASTRO ALVES 189 Assim de todos os trechos do poema dos Escravos o que mais nos toca, o que mais nos commove é o da Tragedia no lar, em que elle descreve a scena d'antes vulgarissima no nosso paiz, da separação da mãe, vendida a um terceiro, de um filho menor. Apezar da idealisação do poeta essa scena ficou verdadeira e a sua verdade, banal e corriqueira, é mais forte do que, por exemplo, as magnificas scenas finaes da Cachoeira de Paulo Affonso, onde a impressão da maneira hugoana é evidente.

A Tragedia no lar pertence aos Manuscriptos de Stenio, que vêm como segunda parte do poema, ao qual aliás só se prendem pelo motivo que os inspirou. É n'esta parte que estão tambem as conhecidissimas e bellissimas poesias As vozes d'Africa e o Navio Negreiro (tragedia no mar). Eu considero-as como as melhores que o poeta haja escripto, principalmente a primeira, Vozes d'Africa, tenho-a como a sua obra prima. Pelo seu vigoroso colorido, pela accentuação dos seus tons, pela idéa e pela fórma verdadeiramente poeticas que a inspirou e que a revestiu, não duvido-eu que sou inimigo d'estas classificações de primazias-de collocar essas soberbas estrophes no primeiro lugar entre as modernas poesias brazileiras. Nunca, talvez, a musa brazileira teve um grito tão forte, tão expontaneo e tão sentido. Vou concluir. O notavel poeta Mucio Teixeira conclue o elogio biographico com que precedeu este poema por estas palavras:

A historia reserva-lhe um lugar de honra entre os nossos poetas: para o povojá elle é um dos primeiros; para mim é o maior de todos.>> Não é d'esta opinião um atilado critico brazileiro,o Sr. Sylvio Roméro, que no prefacio dos Dias Noites do Sr. Tobias de Menezes, considera este superior a Castro Alves. É-me mais facil concordar com o Sr. Mucio Teixeira do que com o Sr. Roméro, cujo franco espirito me perdoará a franqueza de pensar que, como poeta, o Sr. Tobias não póde almejar siquer um lugar ao lado de Castro Alves—ao menos julgando-o pela collecção de versos citada. Não sou, porém, inteiramente do parecer do poeta dos Prismas e Vibrações; não sei si Castro Alves era um genio; o que elle nos deixou indica-nos, porém, que era um prodigioso talento poetico, que a morte, pilhando-o aos 24 annos, não deixou completamente desabrochar. Foi, entretanto, e é esta a minha conclusão, a mais esplendida promessa da poesia brazileira contemporanea.

1/1
Menu

Fazer anotação