A religião dos Tupi-Guaranis
A RELIGIÃO DOS TUPY-GUARANYS (1881) EJEITANDO O famoso principio de que o homem é um animal religioso, a sciencia moderna recusou aceitar R a religiosidade como uma de suas caracteristicas. O homem póde viver e existe sem religião, si dermos a esta palavra o sentido estreito, mas historicamente verdadeiro, de culto prestado à divindade, com ou sem um certo apparato de orações, templos, sacerdotes e todo o ceremonial das differentes liturgias. Esse sentimento não nasce com elle, vem-lhe com a educação. «O autor de uma concepção religiosa, diz o eminente anthropologista Sr. Broca, põe em jogo faculdades activas entre as quaes representa principal papel a imaginação. Eis uma primeira especie de religiosidade activa, que entretanto apenas manifesta-se em pequeno numero de individuos. A maior parte, a immensa maioria dos homens, tem apenas uma religiosidade passiva, que consiste pura e simplesmente em crer o que se lhe diz sem mostrar necessidade de comprehender, e esta religiosidade, as mais das vezes, não é sinão o resultado da educação.
Desde a mais tenra idade a criança é educada no meio de certas crenças a que o seu espirito se afaz, sem que ella esteja em estado de discutir e raciocinar. Nenhuma intelligencia póde resistir á acção d'este ensino combinado e aperfeiçoado ha seculos. A criança submette-se sempre, e muitas vezes de um modo definitivo. Crê sem exame, porque não é ainda capaz de examinar, e porque, para todas as noções, religiosas ou não, se dirige cegamente pela autoridade de seus educadores. Nada ha n'isto que possa revelar-nos a existencia de uma faculdade, de uma aptidão ou de uma aspiração particular. Mas com a idade, com a experiencia e sobretudo com o estudo, este estado passivo do espirito dá, quasi sempre, lugar a umcertográo de scepticismo.Aprende-se a desconfiar mais ou menos da palavra de outrem. Não basta mais ouvir dizer uma cousa para acredital-a: exigem-se provas, e quando um individuo aceita sem exame tudo o que lhe contam, diz-se que elle é credulo como uma criança.
Este espirito de critica, cujo desenvolvimento marcha de par com o da propria intelligencia, applica-se primeiro ás noções materiaes, aos factos da vida ordinaria, e muitas vezes não estende-se além d'esta ordem de phenomenos; mas não poucas vezes tambem, e sem mudar de natureza, abrange as concepções metaphysicas e religiosas, de sorte que em todos os paizes, sobretudo n'aquelles em que o homem cultiva sua intelligencia, vê-se um crescido numero de individuos abandonar pouco e pouco uma parte ou todas as suas crenças. Esse pretendido caracter hu- A RELIGIÃO DOS TUPY-GUARANYS 35 mano, a que chamaes religiosidade, desappareceu então n'elles? Poreis na ordem dos brutos esses homens que muitas vezes tornam-se notaveis pela estensão do seu saber e força do seu espirito? Assim, pois, de qualquer maneira que encaremos a religiosidade, é impossivel consideral-a como um facto geral e inseparavel da natureza humana. A religiosidade activa, creadora das concepções religiosas, essa existe sómente em raros individuos.
A religiosidade passiva, que é apenas uma fórma de submissão á autoridade, da adhesão de uma intelligencia ao meio em que se desenvolve, está incomparavelmente mais espalhada, mas ainda longe de ser universal; si o fosse, os adeptos de todas as religiões não esbravejariam tanto contra os incredulos.>> I O primeiro e mais activo gerador das crenças religiosas foi o medo, que, segundo Tiele, domina de preferencia a outros sentimentos nas religiões animistas. Primus in orbe Deus fecit timor. Si houvermos, pois, de tomar a palavra religião na accepção estreita de um complexo de crenças, que ligam n'uma communidade de fé, por meio de um maior ou menor numero de dogmas positivos, dominados por um dogma principal o da crença em Deus, uma certa porção de consciencias humanas, teremos de limitar muito o sentimento que ella traduz, pois conhecem-se hoje innumeros povos que não a tem, e a mais numerosa das seitas do mundo, o Budhismo, começou por ser uma religião sem Deus. Concebida a religião assim, da familia tupy-guarany se poderia dizerque não a tinha. Apud A. Hovelacque, La Linguistique, p.
25, Paris, 1877. ESTUDOS BRAZILEIROS Mas esta concepção é, não ha negar, demasiado acanhada, e si foi boa nos tempos das religiões exclusivistas, em que, mais ou menos, cada pensador julgava a sua melhor, não deve perdurar hoje quando perante a sciencia, que estuda este phenomeno proprio ao conjuncto da humanidade, ellas não encontram sympathias nem preferencias, sendo julgadas antes pela maneira por que cumpriram a sua missão historica, do que pelos resultados d'isso que cada uma podia chamar a sua theologia. Preferimos, por isso, as definições de Tylor e do sabio professor hollandez Tiele: para o primeiro a religião é a crença em seres espirituaes ¹, e para o segundo a relação entre os homens e as potencias sobrehumanas, em que elle crê. 2 De ambos aceitamos tambem a designação de animismo para o conjuncto de crenças, que abrem para o homem, em religião, o periodo fetichista.
Nos selvagens do Brazil,entre os tupy-guaranys, ao menos, quemelhor conhecemos, a religiosidade era um sentimentovago, mal definido, difficil de comprehender, nascido, como na regra geral, da necessidade de explicação para os phenomenos natuLa Civilisation Primitive, trad. Barbier, Paris, 1, 491. 2 Manuel de L'Histoire des Religions, trad. Vernes, Paris, 1880, 1. A RELIGIÃO DOS TUPY-GUARANYS 37 raes, do medo do desconhecido, de factos mal observados, e vivendo pela utilidade e pelo terror uma vida ingloria, sem jamais elevar-se a uma concepção idealista mais perfeita, nem á manifestação qualquer de um culto. O Deus, si existia, nascera do pavor que inspira ao selvagem o relampago e o trovão, os mais espantosos phenomenos da natureza, para aquellas grosseiras intelligencias.
Todos os primeiros chronistas, portuguezes ou não, escrevendo livres da acção uns dos outros e interessados todos pela prova do consenso unanime dos povos a favor da existencia de Deus, são concordes em affirmar, de uma maneira por demais absoluta, que o gentio do Brazil não tinha nenhuma noção da divindade e nenhuma fórma de religião. O padre Claudio de Abeville, da expedição franceza que em 1612 veio ao Maranhão, acredita que só os tupinambás não tinham especie alguma de religião, pois não adoravam um Deus, celeste ou terrestre, nem o ouro e a prata, nem a madeira e pedras preciosas ououtra qualquercousa. I Os indios do Brazil, diz Simão de Vasconcellos, de tempos immemoriaes a esta parte não adoram expressamente Deus algum, nem temtemplo, nem sacerdotes, nem sacrificio, nem fé, nem lei alguma. 2 André Thevet escreve que elles eram sem fé, sem lei e sem religião. 3 Hist. das Miss. dospad. Capuchinhos na ilhadoMaranhão,p. 371, trad. do Dr. C. A. Marques, 1874. 2 Noticias cur. e nec. das cous. do Brazil, p. 291, Lisboa, 1668. 3Les Singularités de la France Antarctique, p. 134, ed.
Gaffarel, Paris, 1878. ESTUDOS BRAZILEIROS Gabriel Soares diz tambem que os tupinambás não adoravam nenhuma cousa. 1 Lery, havido como um dos mais conscienciosos escriptores de cousas do Brazil, affirma que elles não tinham nenhuma religião, não confessavam nem adoravam nenhuns deuses celestes nem terrestres 2, e Montoya dá esta preciosa definição da palavra tupã: nombre qui aplicaron a Dios3, que nos revela que o nome já existiamesmo antes de ser applicado á divindade. 4 Como? Entre todos os povos, ou pelo menos na maioria d'elles, os nomes que significam luz, céo, brilhante, fulgurante, etc., foram dados á divindade, cujo nome, em regra geral, procede de raizes com aquella significação. Assim a palavra -deus nas linguas aryanas foi ligada por um processo philologico de inteiro valor ás raizes sanscritas Dio e Dyu, cujo primeiro sentido é brilhar, scintillar, e d'estas nasceram mil outras formas, como Divya, celeste, e dêva, brilhante, no grego dios, no latim dies, dia, no germanico tiws, em grego zeus, em latimjovis e assim em todas as linguas do grande grupo indogermanico.
Entre os chinezes tambem o nome da divindade Thien significou primeiramente o céo, bem como entre os filanNot. doBraz., p. 275, na Collecção de not. para a hist. egeog. das nações ultr., tomo 3.º, Lisboa, 1825. 2Histoire d'un voyagefaict en la terre du Brésil, p. 59, II, ed. Gaffarel, Paris, 1880. 3Tesoro de la lengua guarany, ed. V. de Porto Seguro, Paris e Vienna, 1876, verbo tupa. 4 Puderamos acrescentar a esta lista Anchieta (Cartas), Nobrega (Ibid.), F. Cardim (Dos Ind. do Brazil) e outros (1889). A RELIGIÃO DOS TUPY-GUARANYS 39 dezes, onde o nome de Deus é Jumala, o céo, o lugar do trovão, dejuma, trovão, la, lugar. O mesmo facto se observa estudando o homem brazileiro, em cuja lingua a palavra tupã significou primeiramente trovão, como dizem Montoya, Lery, e quantos nos dão noticias d'elle até o Sr. Couto de Magalhães, que traduz tupá, raio. 2 E Lery diz positivamente que os tupinambás, entre os quaes se achou, ainda n'aquelle tempo (1557-58) não davam áquella expressão, que então traduzia apenas um facto natural, nenhuma significação religiosa.
Si lhes diziam que os francezes criam n'um Deus unico, creador do céo e da terra, elles, entre-olhando-se, soltavam uma de suas exclamativas -Teh! muito admirados d'aquillo; do mesmo modo, quando, ouvindo o trovão (Tupan), faziam-lhes ver que elle exprimia a voz de Deus, respondiam que visto que os espantava assim, Deus não valia nada. 3 Entretanto, o Sr. Couto de Magalhães, que é de lastimar não tenha tido um verdadeiro principio de critica scientifica que o dirigisse na concepção do seu precioso livro, imbuido aindadas idéas que forçosamente todo o povo ou raça, não importa em que periodo de seu desenvolvimento moral, ha de ter uma religião com um Deus Supremo, admitte, sem mais provas, para o selvagem brazileiro um principio superiorqualificadocom o nome 1 A. Lefèvre, Relig. et Myth. Comp., Paris, 1878. Max-Müller,Essais de Myth. Comp., et la Science des Rel., trad. Perrot e Dias, Paris, 1874 2 O Selvagem, II, p. 56, Rio, 1876. 3 Lery, Obr. cit., II. V. todo o cap. XVI.
de Tupan, a quem parece que attribuiam maiorpoderdo que aos outros, apezar de haver antes, no mesmo periodo, escripto que a idea de um Deus todo poderoso e unico não foi possuida pelo mesmo selvagem. Este principio superior, de que fala o illustre ethnographo, e a quem parece elles attribuiam maior poder, é o proprio trovão, que, como observou o intelligente e honesto Lery, elles não podiam ouvir sem tremer, sendo estranho que o Sr. Couto de Magalhães faça uma distincção, que não podemos aceitar sinão como meramente synonymica, entre Tupã e Tupá. Nada mais facil de comprehender do que a razão do phenomeno assignalado.
D'aquelle facto meteorologico nascia o raio, a obra do trovão (tupà mberaba), que, fendendo a suas vistas pasmas as mais alterosas arvores, incendiando-lhes as cabanas e matando as creaturas fulminadas com a rapidez enorme, espantosa, inconcebivel, da electricidade, no meio dos medonhos estrondos do trovão das regiões equatoriaes, devia encher aquelles espiritos na infancia de supersticiosos terrores, d'esse horrivel e pesado terror do desconhecido, que faz ainda hoje, após todas as descobertas da physica n'esse campo, acender vellas bentas e rezar orações proprias a santos advogados contra as tempestades, a Santa Barbara ou a S. Jeronymo. O Sr. professor Hartt, espirito eminente e muito versado na ethnographia brazileira, deriva a palavra tupã, Deus, como se tem geralmente traduzido de tuba, pae, etymologia ethnographicamente falsa, porque no supernaturalismo tupy a noção de 1 Obr. cit., II, p. 122. A RELIGIÃO DOS TUPY-GUARANYS +1 gerador, creador, productor, é expressa pela palavra mãe (ci), e nunca pela palavra pae (tuba).
Ácerca d'este vocabulo escreve Montoya, na Conquista Espiritual: «Tupã, quando elles dizem, realmente ajuntam duas palavras suas- -tu epã; tutu, diz o homem quando pergunta sobre alguma cousa. D'essa maneira considerando elles sobre o ser incomparavel de Deus e sobre as suas obras, que nunca podem ser igualadas, comsigo mesmo pensando, chamam-n'o Tupã, isto é, oh! o que é isto?! e falando d'esta maneira dão o nome de tupã aNosso Senhor com uma admiração produzindo o seu nome.» Esta etymologia, cuja veracidade estamos, por ora, longe de admittir, serviria sem duvida para o vocabulo tupa, significando apenas trovão, porque se comprehende que diante de um tal phenomeno a primeira impressão do selvagem, toda de curiosidade, se traduzisse por aquella exclamação,interrogativa; mas d'ahi a tomal-o como a expressão de um ente superior, um Deus, havia um grande passo a dar, e que só veio a realisar-se depois da conquista, sob o influxo das idéas theistas dos primeiros colonisadores, como é nossa opinião. Já vimos, pelas citações atráz feitas, que não tinham ne1 Vid.
Annaes da BibliothecaNacional, vol. 6.º, fasc. 1.º atraducção do Sr. Dr. Baptista Caetano do manuscripto guarany, da Conquista Espiri tual, p. 107. No preciosissimo vocabulario dalinguaguarany, publicado no vol. 7.º dos mesmos Annaes, o sabio linguista americano aventa outras etymologias, das quaes sentimos discordar, tanto mais quanto é grandeoapreço quevotamos aos trabalhos hors ligne do Sr. BaptistaCaetano. Acreditamos, porém, que o illustre autor do Vocabulario não teve em vista aquillo que nós suppomos ser a verdade: que o nome tupãprimitivamente significou sómentetrovão, e como tal é que se devera indagar da sua etymologia. nhum culto, nenhuma d'essas mil manifestações exteriores, que servem para revelar em quem as usa a crença em uma entidade sobrenatural superior. As palavras oração, orar, igreja e todo o vocabulario que se póde chamar liturgico, são compostas pelos catechistas.
Oração é nemboe Tupà mongetá, aprender a falar com Deus; igreja é Tupà roca, casa de Deus, expressões nas quaes, por assim dizer, se está vendo o processo por que se formaram, pela necessidade que tinham os missionarios de usar d'ellas nas suas prédicas, o que obrigava-os a circumloquios improprios do genio da lingua e nem sempre felizes. Opage, tão adulterado empiága, pela irreflexão sinão ignorancia de romancistas e poetas, por elles transformado em sacerdote, era simplesmente o feiticeiro, o medico. Como tal o dão Lery e a maior parte dos chronistas, e em Montoya acha-se este unico significado héchisero. O Sr. Baptista Caetano traduz este nomeporaquellequedizofim, etymologia inteiramentede accordo com os factos ethnographicos. É, porém, de notar que elles não deram este nome aos padres christãos, a quem chamaram abauna, homem preto, por causa das vestes d'esta côr,pae abaré.
homem bom, verdadeiro homem, ou simplesmente pac, usando d'esta palavra portugueza, talvez porque a sua lingua se recusasse á pronuncia do [r forte, de padre, e do termo abaré, que entre elles designava o varão bom, forte, differente dos outros (abá-r-ete).I 1 Vide Annaes cit., vol. 6.º, fasc. II, p. 177. O Sr. Dr. Baptista Caetano tem duvidas sobre a origem d'esta palavrapae encontrada no guarany: será, como cremos nós, portugueza, ou de origem americana? A RELIGIÃO DOS TUPY-GUARANYS 43 Era a estes mesmos pages que davam tambem o nome de caray ou caraiba, que significa habil, astuto, qualificativos perfeitamente applicaveis aos feiticeiros. Idolo- a archeologia ainda não encontrou nem um que se possa aceitar não só como pertencente a qualquer das innumeras tribus, em que se dividia a grande familia tupy-guarany, como que fosse n'ella objecto de culto, e todos os chronistas e mais escriptores, sem excepção, são concordes em affirmar que não os tinham. O Sr.
Barbosa Rodrigues foi o primeiro, entre antigos e modernos, que teve a felicidade de encontrar um grupo de pedra de duas figuras, uma onça (felix) e uma tartaruga ou jabuti (testudo), a que, baseado n'um periodo de Christovão da Cunha, chamou idolo amazonico da pescaria. Incontestavelmente, como o demonstra o illustre botanico 2, aquelle idolo (chamemol-o assim) era d'aquelles de que fala o chronista da viagem de Pedro Teixeira; mas ainda assim não prova que o gentio do Brazil, o tupy-guarany ao menos, tivesse idolos, ou adoran idolos, que fabrican con sus manos, attribuyendo aunos el poder sobre las aguas, y assi les ponen por divisa un pescado en lamano, a otros escogen por dueños de las sementeras, y a otros porvaledores en sus batallas... y quando salena hazer sus pesquerias, echan mano de aquel a quien tienen entregado el dominio de las aguas.. Nuevodescobrimiento delgran rio de las Amazonas in Mem. para a Hist. do Extincto Estado do Maranhão, publicadas pelo Sr. Candido Mendes de Almeida, 2.º vol., p. 98. Rio, 1874.
2Idolo Amazonico achado no rio Amazonas, I folh., Rio deJaneiro, representações materiaes da divindade, mesmo admittindo que os indios, a que se refere o padre Cunha, podessem ser filiados áquella familia de selvagens brazileiros, porque elles viviam no Alto-Amazonas, nos actuaes limites do Brazil com o Perú, com cujo gentio tinham forte contacto, partilhando até os seus costumes como prova o uso da estolica, a arma dos antigos peruvianos. Além disso parece-nos ver na figura achada pelo Sr. Barbosa Rodrigues algumas semelhanças caracteristicas com outros especimens da arte transandina, sob cuja influencia ella poderia ter sido feita. É, pois, para nós fóra de duvida que a familia tupy-guarany, como todas as outras familias de indigenas brazileiros, já estudadas, antes do seculo XVI não tinha nenhuma noção, sinão positiva, ao menos verificavel, da divindade, isto é, de um ente sobrenatural, dominando não só os homens e as cousas, mas ainda os espiritos secundarios.
Essa noção veio-lhes com os primeiros exploradores da sua terra n'aquelle seculo, e sem difficuldade, porque, segundo a justa observação de Lery atrás citada, elles não podiam furtar-se a tremer ouvindo o trovão. No seuespirito debuxava-sevagamenteumaentidade sobrenatural, que se manifestava d'aquella maneira estrondosa e algumas vezes horrivel; os recemchegados falaram-lhes emum deus creador, que se revelava por aquella voz formidavel, apontaram-no, deram, por assim dizer, corpo á vaga e indecisa figura que elles tinham na sua imaginação infantil e exaltada: tupá, 1 V. adiante Os Idolos Amazonicos. A RELIGIÃO DOS TUPY-GUARANYS tupa, nomem, numem. Podeis vós, que chegais depois, perguntar-lhes si elles acreditam em um ente supremo; si o céo trovejar raios por ali, elles vos responderão tremulos de medo: Tupã.
No periodo fetichista muito atrazado, a nova creação não podia, porém, receber nem ao menos um culto polytheista, quanto mais uma veneração monotheista; d'ahi as continuas queixas dos missionarios á vista da frieza, da pouca devoção dos neophytos e de suas continuas deserções de um culto, cujo sentido não podiam comprehender. A sua pobre mythologia era composta de algumas entidades sobrenaturaes, geradas pelo medo e sob a influencia da curiosidade para a explicação de certos phenomenos naturaes, como os sonhos, ás quaes não prestavam outro culto que não o do terror supersticioso, o mesmo que ainda hoje prestam os espiritos crendeiros ás almas do outro mundo. Para o meio d'estes espiritos foi lançado Tupã, sendo para notar que, ao envez do que se poderia esperar, ficou representando no seu supernaturalismo um papel secundario, de verdadeiro intruso, máo grado todos os esforços dos jesuitas para collocal-o no lugar que lhe competia. É que na religião tupy-guarany Tupã é uma creação recente, devida antes á influencia christã, do que ao sentimento espontaneo do selvagem que adoptou-a.
ESTUDOS BRAZILEIROS O homem primitivo, como é natural, teve a curiosidade de tudo conhecer e o desejo de tudo explicar, e, na procura das causas e dos porques, chegou a crear um grande numero de idéas ou noções, que pelo processo do anthropomorphismo tornaram-se em outros tantos deuses. A esta lei não se furtou a mais numerosa das raças, que povoavam o Brazil na época da descoberta, e, comovamos ver, ella tambem creou o seu não pequeno numero de entes sobrenaturaes. A estes entes não prestava nenhum culto sinão o já dito, o qual, parece-nos, não pode ser qualificado como culto, sendo que este facto, que temos por perfeitamente verificado, vem destruir o que possa ter de absoluto a proposição de Tylor, considerando o animismo uma philosophia antiga e largamente espalhada, que tem por theoriaa fé, e por pratica a adoração.
No animismo, ou, particularisando, no polydemonismo tupy-guarany, falta completamente caracteristica da adoração: ha a crença, mas não ha o culto, principalmente o culto interno; quanto ao externo, manifestava-se ás vezes por poucas praticas exorcistas, como veremos, nas quaes nada indica adoração. Na familia selvagem, cujo sentimento religioso estudamos, 1 Obr. cit., II, 495. A RELIGIÃO DOS TUPY-GUARANYS 47 como em todas aquellas, onde a familia ainda se não constituiu sobre bases positivas, a mãe é a origem unica do filho, ou pelo menos a mais immediata, e, como o homem faz o seu deus á sua semelhança, os tupy-guaranys basearam a sua mythologia sobre a crença de que tudo tem uma mãe, ci. 1 Por isso o sol foi considerado a mãe do dia e chamado Uaraci2, como a lua a mãe dos vegetaes, ou paci.
De facto é o sol que faz o dia (ára), ou antes que o divide da noite (pituna), como é o orvalho da noite, que, regando as plantas (vá), dá-lhes o aspecto viçoso da manhã; ou tambem, e esta interpretação não tem menos visos de verdadeira, como a lua servia-lhes para marcar o que nós chamamos mezes, nos quaes mais ou menos abundava dada especie de fructos, que sazonavam n'um d'aquelles periodos, era ella a mãe dos fructos (ra). Sente-se bem o fetichismo que nasce de uma observação exacta, é verdade, mas mal comprehendida, o que faz desviar um phenomeno natural para o supernaturalismo, e, passe-se-nos a expressão, o primeiro vagido da concepção theologica do mundo. Aqui não havia ainda sentimento nenhum, a que possamos chamar religioso.
O sol apparecia no horisonte, este nosso sol tão cheio de luz, e dissipava as trevas da noite com sua claridade vivida; era, pois, elle que fazia o dia, que o gerava, como uma 1 Apalavraci, vel-o-êmos adiante, nãosignificasómentemãe,masn'este caso é como deve ser traduzida, é como a traduzem os tapuios do Pará e Amazonas, onde a mesma crença ainda existe, e sem duvida n'esta accepção é que era empregada. 2 Guaracie tambemaraci. ESTUDOS BRAZILEIROS mãe gera o filho. De manhã as plantas appareciam mais viçosas e rociadas das gotas frescas e brilhantes do orvalho da noite, a vegetação toda acordava verde, forte, trescalando aromas puros de matta, humida de sereno produzido sem duvida pela lua; era, pois, ella que vivificava as plantas, como a mãe com o leite de seus seios vivifica os filhos.
N'aquelle mez, n'aquella lua, como elles diziam, os maracujás derramavam-se em pencas amarellas por sobre a copa das arvores que circumdam a taba, o abacaxi elevava com graça a sua corôa no meio symetrico de suas franças; foi ella, a lua, que os trouxe, como de outra vez que brilhar á noite no alto céo estrellado, trará outras e depois outras, e assim successivamente. Nós poderiamos ainda hoje usar das mesmas expressões, n'um sentido figurado, por uma metaphora, elles não; para elles os dois astros eram verdadeiramente os geradores immediatos d'estes dois filhos, o dia e a planta, como a mãe o é da sua prole. Dava-se apenas o anthropomorphismo, como em todas as crenças dos selvagens, em que qualidades humanas são attribuidas a causas impessoaes e até imaginarias, por uma metaphora inconsciente. O Sr.
Couto de Magalhães, entretanto, não o entendeu assim, e dá-nos um systema geral de theogonia tupy, em que o sol, a lua e um outro ente, Rudá, de que falaremos adiante (além do duvidoso Tupan), são os tres deuses superiores, a cujas ordens serve a multidão de pequenos deuses, como Cu1 Yaci é lua e mez em tupy-guarany. Na maioriadas linguas dá-se o mesmofacto. A RELIGIÃO DOS TUPY-GUARANYS 49 rupira, Jurupari, etc., tal qual como na mythologia grega. Mas não é assim, e o proprio autor não tem perfeita convicção do que escreve, porque n'esta parte do seu notavel livro o verbo parece repete-se à saciedade, revelando uma hesitação que prova que o autor não tem inteira confiança ou nas noções que colheu entre os selvagens, ou na sua opinião. Organisada, como elle quer a theogonia tupy-guarany, esta raça deixaria de ser fetichista para ser polytheista, o que é um absurdo, não só porque tudo prova que elles eram fetichistas, do que não discorda o Sr. C.
de Magalhães, e até estavam no fetichismo primordial, monosyllabico, como diria Max-Müller, não tinham deuses e apenas creações sobrenaturaes, nascidas do anthropomorphismo, a quem não prestavam outro culto sinão o do medo; mas tambem porque no periodo da civilisação, em que se achavam, periodo essencialmente animista da idade de pedra, os povos são todos fetichistas. Para provar que os tupy-guaranys tributavam ao sol ou Uaraci um sentimento de veneração igual ao que tributamos ás nossas mães, serve-se o Sr. Couto de Magalhães de um argumento a priori, de nenhum valor, principalmente quando applicado a estes assumptos. «Qual o sentimento natural, pergunta elle, para aquelle que nos creou a nós pela mesma fórma por que nossa mãe nos cria? Não é necessaria outra prova para concluir que o sentimento que os tupys tributavam ao sol devia ser até certo ponto identico ao que tributavam a 1 Obr. cit., IIparte, p. 124.
ESTUDOS BRAZILEIROS sua mãe natural.» Infelizmente nós não sabemos exactamente qual era o grao de sentimento, de respeito que a sua mãe votavam elles; sabendo, porém, que a moral varia conforme o estado da civilisação do homem, e que ha equilibrio mais ou menos constante entre as manifestações psychologicas e aquelle estado, podemos concluir que o tupy-guarany não tinha por sua mãe esse amor, em que vae uma porção de veneração que o homem mais civilisado consagra á sua, e quando o tivesse, não é justo tomal-o por termo de comparação para conhecer do sentimento que elle podia votar áquelle astro; primeiro, porque o amor filial não nasce do simples facto de ser gerado, e sim da vida extra-uterina, da alimentação, educação, da vida, emfim, que se deve aos carinhosos cuidados e á terna e previdente solicitude d'aquella que nos deu o ser; e segundo, porque o sol ou a lua não eram considerados como mães d'elles, tupy-guaranys, e por isso não podiam tributar-lhes sentimentos filiaes.
Devemos tambem notar que a palavra ci, comquanto n'este caso deva ser traduzida em portuguez por mãe, pois assim a traduzem tupy's, falando esta lingua, não tem sómente a significação de animal femea que concebe e gera o filho, mas ainda a de fonte, manancial, cousa geradora, o productor. Para elles era verdadeiramente o sol que gerava o dia, como a mãe gera o filho, mas d'ahi ao aproximarem da mulher a quem elles chamavam che ci (minha mãe), ia ainda um grande passo, que elles não deram. A concepção de Rudá ou Perudá, o deus da reproducção ou do amor, tal como está, é evidentemente falsa ou não pertence ao grupo tupy-guarany, em cuja lingua não se nos offe- A RELIGIÃO DOS TUPY-GUARANYS 5པ་1 rece meio de traduzir este nome. Este deus é uma invenção polytheista, e muito adiantada; não podia, pois, viver em um meio fetichista. O Sr.
Couto de Magalhães é o primeiro, do nosso conhecimento ao menos, que fala n'essa entidade da mythologia tupy-guarany, e por isso não temos d'ella sinão a noticia, que elle nos dá, de um guerreiro que reside nas nuvens, e cuja missão é crear o amor no coração dos homens, despertar-lhes saudades e fazel-os voltar para a tribu, de suas longas e repetidas peregrinações. Depois cita a estrophe de uma invocação, que a virgem opprimida de saudades do amante devia cantar ao pôr do sol ou ao nascer da lua: Rudá, Rudá Iauacapinaié Amãnareçaiçu Etc., etc. da qual elle não entende a palavra pinaié, a qual, sem duvida por uma reminiscencia da oração catholica do Padre Nosso, traduz por que estaes, que junto á palavra iauaca (céo) fórma a phrase inteira d'aquella oração. Si não soubessemos quão melindrosas são estas questões e quão espinhosas são as interpretações etymologicas, nos atreveriamos a traduzir assim: Rudá, Rudá, gavião do céo que gostas da chuva, etc., porque o gavião (inaié) vôa muito alto e parece aprazer-se em fender os ares quando chove. Este mesmo deus tinha ás suas 1 Obr.
cit., II parte, p. 139. ordens uma serpente que reconhecia as moças que se conservavam virgens, devorando as que houvessem perdido a virgindade. Julgamos de bom aviso pôr de quarentena este mytho até novas informações. Áquelles dois primeiros mythos do sol e da luajuntam-se outros que constituem a crença fetichista da familia tupy-guarany. Añanga, ou Anhangá, como se tem escripto, era o que o nosso povo chama alma penada, pois compõe-se de duas palavras aña, correr, e anga, espirito, sombra, que traduzem aquella expressão popular. Segundo a versão do Sr. Couto de Magalhães, seria um veado branco, de olhos de fogo, que enlonquece ou torna doente o que, perseguindo um animal que amamenta, o encontra no seu caminho.
¹ Caápóra, o morador do matto, era representado (e aqui todas as representações são subjectivas) por um homem grande, pelludo, triste e taciturno, montado em um enorme porco, gritando de vez em quando para impellir a vara, e tornando para sempre infeliz quem o visse, d'onde procedem os termos, já com direitos de cidade em portuguez, de caipora, caiporismo, encaiporar, no sentido de ¹ As versões que aqui damos sobre estes differentes typos do animismo tupy, sempre que não citarmos outro autor, devem-se tercomo extraídas da Obra cit., do Sr. Couto de Magalhães. Devemos declararque, embora não duvidando da veracidade d'ellas, estamos longe de crer na constancia dos moldes, em que a imaginação do selvagem vasava as suas creações. É mais provavel que esses typos variassem infinitamente, não só de tribu atribu, mas até entre os proprios individuos de uma mesma taba, como aliássenota em todas as concepções animistas, desde as mais grosseiras até o demonismo catholico. A RELIGIÃO DOS TUPY-GUARANYS 53 infeliz, infelicidade, e tornar desditoso.
Em um mytho selvagem elle apparece simplesmente como um ente muito grande e de muita força, um gigante, mas que se deixa ludibriar pela astucia de um jabuti. N'essa lenda nada justifica aceital-o como uma divindade, e o seu papel é ridiculo, evidentemente sacrificado. A floresta tinha ainda um outro espirito, o Curupira, pequeno tapuio de pés virados para trás, sem orificios para as secreções indispensaveis á vida, que castigava os que estragavam inutilmente as arvores, fazendo-os errar pelos mattos, sem atinar com o caminho da casa. Segundo Anchieta, este nome era geralmente dado aos espectros nocturnos ou antes demonios. Elles, refere o mesmo Padre, atacavam muitas vezes os indios no matto, batiam-lhes, maltratavam-nos e matavam-nos. Para livral-os dos seus sortilegios costumavam os selvagens deixar nos invios caminhos que percorriam, pennas de passaros, abanadores, flexas, á guisa de oblação propiciatoria. 1 Cartas inéditas do PadreJosé de Anchieta, in Annaes cit. da Bib. Nac., vol. I, fasc. 2.º.
Esta crença existe aindaviva no Pará e Amazonas, entre as raças oriundas da indigena, ao lado da crença catholica. Não ha muitotempo que um amigo nosso, moço brancoeintelligente,masqueesteve na infancia em contacto com famulos mamelucos, nos contou o seguinte: estando em um seringal a passeio, saíu um dia á caça, e perdeu-se oujulgou-seperdido na floresta cortada por um verdadeiro labyrintod'essasestreitas picadas chamadas estradas de seringa, que mais o confundiam do que auxiliavam. Por fim fazia-se tarde, afadiga prostrou-lhe o physico e atacoulhe o espirito, e elle não se pôde furtar a uma impressão de medo, logo acompanhada pela reminiscencia das historias do Curupira, a ponto que, quasi sem consciencia do que fazia, fabricou umacruz com dois galhitos de O Jurupari, ou pesadelo, era o espirito que perseguia, á noite, durante o somno, apertando a garganta a quem dormia, suffocando-o; foi assim que o selvagem, ignorando que os sonhos são um phenomeno physiologico, os attribuiu a um máo espirito.
Uma avezinha de um cantarmelancolico, que faz ouvir durante uma noite inteira, com uma monotonia desesperadora, o seu fino assobio triste, foi tambem tomada por um espirito nocturno, que se chamou entre os guaranys Saci-cererê, e entre os tupys Mati-taperê, sons que ella parece repetir no seu lugubre canto, e representada por um pequeno tapuio de um pé só, que a invasão de outras raças transformou em um negrinho, e deu-lhe um barrete vermelho. O Mooi-tatá, cobra de fogo, segundo o Sr. Couto de Magalhães, protegia os campos contra os que os incendeiam, e era figurado como uma pequena cobra de fogo que vivia n'agua, e que transformava-se em uma arvore em brasas (méuan) para queimar os incendiarios. A gente dos nossos sertões conhece o facto vulgarissimo das jararacas atirarem-se ao fogo que lavra nos campos e mormatto e collocou-a no chão como um esconjuro ao demonio tupy. Parece que lhe valeu, porque o nosso amigo ganhou com pouco abarraca onde se alojava.
Anchieta acreditava no Curupira e nos seus maleficios, dos quaes foram testemunhas, segundo refere, Padres da Companhia, queviram algumas vezes os mortos poraquelle demonio. Um annotador dacartacitadadesculpa esta crença do Padre, mas censura-a fortemente no selvagem! 1 O Sr. Couto de Magalhães traduz esta palavrapor tirar dabocca,ou mãosobreabocca; e o Sr. Bap. Caetano porserque vem ánossarede.V. Oselvagem, II part., p. 126, nota 16. A RELIGIÃO DOS TUPY-GUARANYS 55 rerem ahi em contorsões violentas, cercadas das chammas, a que talvez queriam fugir, procurando o buraco que lhes serve de escondrijo: d'este facto podia ter nascido aquelle nome e com elle aquella crença. Anchieta dá uma versão differente da do autor do Selvagem. Segundo elle, o Mboi-talá, vivia a maior parte do tempo junto do mar e dos rios; apresentava-se como um facho scintillante correndo d'aqui para ali, accommettendo de subito os indios e matando-os. Chamando a isto demonio, confessa que não se sabia o que fosse. Cumpre notar que póde bem ser que o espirito, de que fala Anchieta, não seja o mesmo Mboi-tatá.
Elle escreve Bae-tatá, e o traduz por res ignis, oque étodofogo, o que faz suppor que o nome, adulterado por elle, seria Mbae-tatá, mbae, cousa, tatá, fogo. N'este caso seria mais um espirito a inscrever entre as creações do animismo tupyguarany. I Vrutau ou Uirá-tau, passaro phantasma, era uma ave nocturna, que ainda hoje o nosso povo tem por agoureira. Outro passaro tambem, o Uirapuru, nome que o Sr. C. de Magalhães traduz porpassaro que não épassaro,passaro emprestado, e Montoya por ave que se sustenta de caça, era considerado como um talisman para attraír a felicidade a quem o possuisse, crença que passou ás raças mestiças descendentes dos tupyguaranys. 2 A Uyára, Yára, Vauyára ou Oyára, que de todas estas maneiras se têm escripto 3, é a mãe d'agua, especie de 1 Cartacit. 2 A maioria d'estes espiritos fazemparte ainda das crenças do povo do Pará e Amazonas. V. ScenasdaVidaAmazonica, Introducção. Uyára temos sempre ouvido dos tapuios do Amazonas. nympha dos igarapés, representada pelo bôto que amava as mulheres no banho, ou vinha dormir com ellas, transformado em um rapaz.
Cremos que este espirito é o mesmo de que trata Anchieta sob o nome de Igpupiára, que mora n'agua, e eram demonios que afogavam os indios quando estes atravessavam um rio nas suas pequenas canôas. A differença da versão não importa dissemelhança do objecto, porque o caracter do animismo é justamente esta fluctuação constante das crenças, emquanto ellas não são definidas por isso que podemos chamar o dogma. A Bór-açú, cobra grande, residia no fundo dos lagos, tinha olhos de fogo com que se mostrava á flôr d'agua, e era objecto de supersticioso terror. Em uma das lendas recolhidas pelo Sr. Couto de Magalhães, Bór-açú apparece como o autor do genesis tupy. Esse mytho, que tem o titulo de como a noite appareceu, resume-se assim: Uma filha de Bói-açú casara-se, mas não queria dormir com o marido por não haver noite, pelo que este, a conselho d'ella, mandou ter com Bóiaçú a buscar noite, que este (na lenda é masculino) lhe enviou fechada em um caroço de tucuman (Astrocarium tucuman), recommendando aos portadores que o não abrissem.
Elles, não podendo resistir á curiosidade, abriram-no, e a noite logo appareceu, sendo elles, por castigo, transformados em macacos. Eram estes typos vagos, superstições mal cridas, como disse Gonçalves Dias, que constituiam o fundo das crenças do Comparar este Bói-açú com o Mbae-tatáde Anchieta, citado acima. Obr. cit., Iparte, p. 162. A RELIGIÃO DOS TUPY-GUARANYS supernaturalismo tupy-guarany. Comovemos, a crença religiosa. apenas balbucia, não é ainda uma religião que ligue os espiritos entre si em uma concepção do mundo, homogenea e logica. Estas mesmas noções que acabamos de resumir não merecem inteira fé. O Sr. Couto de Magalhães, em cujo livro as fomos beber, não as recolheu de tribus virgens de qualquer contacto comgente deoutraraça,européa ou africana; mas achou-as até confundidas com crenças christãs, ou em grupos, dominados por ellas. Como já notámos, esta parte do seu livro está cheia da expressão parece, o que revela hesitação em affirmar, ou falta de confiança no que se affirma.
Os antigos chronistas, o Padre Abeville, Gabriel Soares, o Padre Cunha, que escreveram do gentio d'après nature, nada dizem das pretendidas divindades citadas. André Thevet fala apenas no Anhanga, que elle escreve acertadamente Agnan, e tambem em outro Houioulsira (Uiusira), que seria uma profunda corrupção de Curupira. Lery cita tambem o Anhanga ou Aygnan, como elle escreve, que tomava fórmas diversas para perseguir encarniçadamente os indios, e que, diz elle, era tambem chamado Ihaagerre (Caápóra?). Ainda uma opinião do Sr. Couto de Magalhães, que não nos parece justificada, é que os espiritos do supernaturalismo tupy-guarany eram todos bemfazejos, ao envez do que se tem observado no mesmo periodo religioso, por toda a parte.
O escriptor, esquecendo-se que o unico terreno seguro, principalmente n'estes estudos, é o relativo, e que aprimeira qualidade do naturalista, do homem de sciencia, quer elle estude a ESTUDOS BRAZILEIROS pedra inerte ou o animalcheio de vida, aplanta ou organismo social, éa calma da indifferença ¹,julgou o caracter d'estes mythos como homem civilisado (e o que peor é, interessado em realçar a raça que estudava) capaz das subtilezas e argucias das distincções metaphysicas, e procurou provar que da necessidade, que tinha um povo que vivia da caça de protegel-a contra os abusos dos caçadores pela intervenção de uma divindade, nasceu o Caápóra, e assim para os demais objectos, os peixes, o campo, etc., que todos tinham sua mãe ou divindade protectora. Não negamos que o homem civilisado, hoje, possa considerar aquelles typos mythicos como divindades protectoras, o selvagem, porém, era incapaz de semelhantes distincções. Para elle o que o impedia de caçar era um mal, o espirito protector de qualquer cousa era máo, um inimigo que tinha.
Vimos acima n'um mytho do Jabuti e o gigante, o papel ridiculo distribuido ao Caápóra. Aqui, sim, cremos poder ver uma intenção: a de deprimir o espirito que os perseguia no matto, o qual elles, com justos motivos, consideravam seu inimigo. O proprio demonio biblico,- e o Sr. Couto de Magalhães gosta de citar a Biblia,-- o proprio demonio, si interpretarmos assim as suas acções, é, no fim de contas, um ente bemfasejo, porque o medo de caírnas suas garras não concorre pouco para afastar ocrente do peccado. Mas o facto apontado como uma descoberta pelo autor do Selvagem, vae ainda de encontro a theoria resultante 1 E. Lesigne; Du rôle de l'expérience dans les anciennes conceptions du monde,in Rev. de laPhilos. Positive, t. 22, p. 189. A RELIGIÃO DOS TUPY-GUARANYS da pratica constante entre todos os povos sob a religião do animismo, onde, segundo escreve Tiele, os máos espiritos recebem em regra geral mais homenagens de que os bons, os espiritos inferiores mais do que os superiores, os espiritos de localidade mais do que os afastados, os espiritos particulares mais do que os geraes.
¹ Estaregra, o estudo que acabamos de fazer parece dar-nos o direito de assim concluir, esta regra tem inteira applicação no animismo tupy-guarany, que era, ainda para empregar a expressão de Tiele, um verdadeiro polydemonismo. O selvagem não raciocina como quer o Sr. Couto de Magalhães, e si o fizesse, os seus deuses seriam creações conscientes a proposito d'isto ou d'aquillo, o que é inexacto. É verdade que o homem crêa os seus deuses mais inconscientemente, porque é justamente quando está na infancia, no seu estado selvagem, influenciado pelo terror de todos os grandes phenomenos naturaes que o cercam, e, portanto, incapaz ainda de empregar um methodo positivo qualquer na critica de suas concepções, que elle os crêa, ou melhor, que elles nascem no seu espirito; e é por isso que Vico teve razão de dizer que os deuses nascem da credulidade e não da impostura, o que seria falso no caso presente, si fosse real a observação do Sr. Couto de Magalhães. 1 Obr.cit., pag. 14.