Os ídolos amazônicos Estudos Brasileiros (1877-1885) · Capítulo 8 de 14
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Os ídolos amazônicos

OSIDOLOS AMAZONICOS (1883) o meu estudo sobre a Religiãodos Tupy-guaranys, contestando a maior parte das asseverações correntes sobre as crenças religiosas d'aquelles selvagens, escrevi: «Idolo- a archeologia ainda não encontrou nem um que se possa aceitar não só como pertencente a qualquer das innumeras tribus em que se dividia a grande familia tupy-guarany, como que fosse n'ella objecto de culto e todos os chronistas e mais escriptores, sem excepção, são concordes em affirmar que não os tinham. «O Sr. Barbosa Rodrigues foi o primeiro entre antigos e modernos, que teve a felicidade de encontrar um grupo de pedra, de duas figuras, uma onça (felix) e umatartaruga ou jabuti (testudo) a que, baseado n'um periodo de Christovam da Cunha, chamou idolo amazonico de pescaria.

Incontestavelmente, como o demonstra o illustre botanico, aquelle idolo ESTUDOS BRAZILEIROS (chamemol-o assim) era d'aquelles de que fala o chronista da viagem de Pedro Teixeira, mas ainda assim não prova que o gentio do Brazil, o tupy-guarany ao menos, tivesse idolos, ou representações materiaes da divindade mesmo admittindo que os indios a que se refere o Padre Cunha, pudessem ser filiados áquella familia de selvagens brazileiros, porque elles viviam no Alto-Amazonas, nos actuaes limites do Brazil com o Perů, com cujo gentio tinham forte contacto, partilhando até os seus costumes como prova o uso da estollica, a arma dos antigos peruvianos. Além d'isso parece-nos ver na figura achada pelo Sr. Barbosa Rodrigues algumas semelhanças caracteristicas com outros especimens da arte transandina, sob cuja influencia ella poderia ter sido feita.» Tendo o Sr.

Barbosa Rodrigues dirigido-me uma carta de amigavel contestação, na qual, porém, parecia não ter attentido a que eu não negava absolutamente a authenticidade do seu achado, sinão que pertencesse elle a familia tupy-guarany, cujo sentimento religioso estudava, tive de ser mais explicito em uma nota que sobre o mesmo assumpto preparei para enviar aos Annales du Musée Guimet, na qual escrevi:

«O que não se póde negar-concluia é que essegrupo de pedra ou idolo seja authenticamente americano; e sómente este facto é bastante para dar-lhe um grande valor.» Do que fica exposto resulta: a) que eu negava á familia tupy-guarany idolos ou representações materiaes de suas concepções subjectivas, em materia de crenças religiosas; b) que não admittia que o idolo achado pelo Sr. Barbosa Rodrigues lhe pertencesse; c) que, sinão o dizia cathegoricamente, ao me- ESTUDOS BRAZILEIROS nos inclinava-me a crer que era um producto estrangeiro á região amazonica cis-andina e principalmente áquella parte em que foi achado, o Baixo-Amazonas. E n'esta convicção estava quando um fortuito e feliz achado de uma figura de pedra tambem, um fetiche analogo aquelle a que o Sr. Barbosa Rodrigues chamou Idolo Amazonico ', feito por mim, na minha ultima excursão pelo Amazonas (Novembro- 1882), veio trazer um novo documento a favor da opinião d'elle e fazer-me mudar a minha, ao menos quanto á ultima clausula.

Entretanto, o meu achado, por muito importante que seja, não resolve por si só a questão complexa levantada pelo folheto do Sr. Rodrigues, e, creio que agora, quando um novo documento apparece a confirmar o primeiro, halugar para volver ao assumpto, já tão proficientemente tratado por elle no seu citado opusculo. ¹ Idolo amazonico achado no Rio Amazonas porJ. BarbosaRodrigues -Rio de Janeiro—1875; com uma estampa representando o idolo. Eu prefiro chamarfetichequer ao objecto achado por mim, quer ao do Sr.Barbosa Rodrigues. O idolo traz logo ao pensamento a idéa de adoração; ora como o direi para adiante, nenhum d'estes era objecto d'ella, seu officio era o demeros talismans propiciatorios, o que faz que, a meu ver, mereçamantes o nome defetiches que o de idolos. Entretanto, como esta ultima denominação é a geralmente aceita, conservo-a reservando-me o direito de usar de ambas.

OS IDOLOS AMAZONICOS 99 Antes de entrar nas considerações que suggerem os dous fetiches que pretendo estudar, acho de bom aviso, não só para clareza da questão, mas ainda para pôr o leitor em estado de julgal-a—fazer a descripção de um e de outro. «O conjuncto do idolo-diz o Sr. Barbosa Rodrigues descrevendo o seu é uma allegoria baseada em costumes de animaes e na crença da mãe dos mesmos.

Procurando achar analogia entre esta e a de algum outro animal, não encontrei, o que faz-me crer que a phantasia guiou a mão do artista, que na figura da onça não desprezou caracteres que a tornam bem conhecida. Tanto a phantasia guiou a mão do artista, que além do enfeite que mencionei, ainda ornou o pes- ΙΟΟ ESTUDOS BRAZILEIROS coço da mesma tartaruga com uma coleira, enfeitada de uma grega. A forma da cabeça é alongada, plana na parte inferior e semi-convexa na superior, afilando-se para o focinho.

Se afasta-se no comprimento a maxilla, a fórma, porém, dos dentes caninos e mollares caracterisam o carniceiro. «Tão exacto foi o artista ahi que até deixou na maxilla superior o lugar vasio onde se implanta o canino inferior. Um descuido teve, comtudo, nos incisivos, marcando só quatro em vez de seis. A fórma das narinas, a posição das orelhas, a collocação dos olhos e mesmo a fórma do pescoço se aproximam dos do terrivel habitante das selvas. A posição do corpo e das extremidades angulosamente trabalhadas aproxima-se da dos quadrumanos, tendo porém as mãos como as dos carniceiros com as suas cinco garras. O aspecto geral é o de uma onça, Yauaritédos indigenas. A cauda infelizmente partida, pela porção que existe, mostra ter sido levantada. «Apezar da incorrecção do desenho, e da phantasia do artista, vê-se que era habil e observador da natureza.

O cos- T A N L F B O R R A OS IDOLOS AMAZONICOS ΙΟΙ tume que têm os carniceiros do generofelix, de virem annualmente, no mez de Setembro, época em que estão ao cio, ás praias devorarem as tartarugas levou o artista a escolhel-o para o symbolo do deus de suas pescarias, procurando a mãe da onça, como mais poderosa para subjugar a das tartarugas, que da pesca são as mais productivas, por lhes fornecer não só a carne, como os ovos, a gordura e o casco, que então até para ferramenta servia. Tal é, fielmente descripto, o idolo amazonico do Sr. B. Rodrigues, proveniente da costa do Perú, namargem esquerda do Amazonas, a oito ou dez milhas na direcção geral de O da cidade de Obidos, onde estava em uma casa particular quando foi por elle adquirido.

N'esta cidade achava-me eu em Novembro do anno passado, quando, indo a passeio á ilha de Maria Thereza, na foz do Trombetas, adquiri o que hoje está em meu poder ¹, pelo mais feliz dos accasos. Deu-m'o um portuguez, morador n'aquella ilha, chamado 1 Actualmente no Museo Nacional do Rio de Janeiro. Vem tambem descriptono 6.º vol. dos Archivos d'aquelle Museo Domingos José da Motta, que o fez por lhe eu perguntar, mostrando-lhe um machado de pedra, que no meu passeio pela mesma obtivera, si não possuia qualquer objecto degentio como aquelle, por exemplo. Disse-me que tinha um acará bararoá de pedra, mas não sabia bem onde estava; comtudo, a instancias minhas, foi procural-o e dentro em pouco voltou com o objecto que vou descrever. É um peixe do genero mezonauta, um acará de uma argilite (schisto argiloso) vermelha e dura, abundante nas cercanias de Obidos, de om,135 de comprimento e om,103 de maior altura, e uma espessura maxima de o™,02. O trabalho artistico d'esta peça é, relativamente, perfeitissimo, e, como o da encontrada pelo Sr.

Barbosa Rodrigues, revela no artista um singular talento de observação, e no povo cujo era adiantado estado de civilisação. Nem um dos caracteres do peixe foi olvidado. Os operculos das branchias desenham-se perfeita e regularmente, as natatorias dorsaes, ventraes e caudaes, são muito bem indicadas por traços perpendiculares abertos com um instrumento qualquer de ponta aguçada e fórte, nas saliencias que o artista de proposito deixou para indicar aquellas partes; a boca fende-se proporcionalmente; os beiços estão bem definidos, e as natatorias peitoraes pegadas, como a saír de sob os operculos das guelras, revelam o mesmo cuidado de exactidão por parte do artista, que cavou circularmente os olhos, cortados a meio pela linha imaginaria que se tirasse do fim da abertura dos operculos á extremidade da boca. As pupillas fingiu-as elle com uma materia (resina vegetal?) OS IDOLOS AMAZONICOS 103 preta, vidrenta, que a pessoa a quem devo este importante exemplar destruío, com curiosidade de ver o que seria, segundo confessou-me.

Entretanto, no do lado esquerdo ainda ha uma pequenina porção da tal massa. Tambem está destruida á faca e pelo mesmo individuo, a parte extrema da natatoria dorsal e do dorso junto á cauda. O peixe, como era natural, apresenta o mesmo aspecto de qualquer lado que se o considere, sendo que tem o direito mais achatado do que o esquerdo, em virtude, certamente, de ser aquelle sobre que esteve, quem sabe por quantos annos, sinão seculos? deitado. Olhando perfeitamente de frente, não menos bem acabado se mostra, observando-se então quanto é regular o desenho da boca e o traçado dos operculos branchiaes. Ha, no entretanto, n'elle alguns traços phantasistas que não sei absolutamente explicar, nem pertencem ao animal do qual é copia, e tanto mais difficeis de comprehender que não guardam a mesma harmonia ou symetria das outras partes.

Assim os do lado esquerdo descem paralellamente e em curva do centro das natatorias dorsaes, começando em cima com uma separação de om,018 e inclinando-se para a direita onde vão acabar depois de formar um com o appendice voltado para a direita, com a largura 0,003. As duas linhas que formam este J são, porém, cortadas em partes, principalmente a inferior, que o é em dous lugares, pelos buracos circulares de que falaremos mais adiante. Os do lado esquerdo figuram como as metades de duas ellipses sendo uma maior e outra menor dentro d'esta. O eixo da segunda que occupa (a semi-ellipse) exactamente o centro da parte superior do peixe não pode ser maior de om,32 e o da maior, cujas linhas descem da parte frontal da natatoria dorsal de um lado e dos limites do dorso com a cauda de outro, até quasi a barriga do peixe, deve ter (a medida não póde ser absolutamente exacta) om,85. O que querem dizer estes traços? Ha n'elles alguma significação symbolica ou são méra e ociosa phantasia do artista?

Confesso-me incapaz de responder a qualquer d'estas interrogações, que não póde deixar de fazer quem considerar com a attenção que merece este fetiche. Quando o recebi na ilha de Maria Thereza, o que mais impressionou a minha attenção foram os dous furos circulares que tem abertos no centro com um diametro de om,010. Com effeito, havia razão para isso, porque taes furos faziam-no similar perfeito do outro achado pelo Sr. Barbosa Rodrigues, e indicavam que o que eu tinha a ventura de descobrir era, como aquelle, um fetiche de pescarias. Si a materia de que são fabricados é differente, o que nada importa, os caracteres artisticos são os mesmos, e basta considerar um e outro para ver que, sinão saíram ambos do mesmo buril, procedem todavia de uma mesma escola- -perdûe-se-nos o atrevimento da expressão—artistica. OS IDOLOS AMAZONICOS Como se devêra esperar, o fetiche achado por Barbosa Rodrigues, não passou despercebido na Europa, e, além de outros, occupou-se d'elle o professor Henrique Giglioli, de Florença, nos Archivio per l'Anthropologia e l'Ethnologia. Acreditando, como o Sr. B.

Rodrigues, na sua origem amazonica, eis como a respeito se exprime o professor Giglioli: «Il signor Dr. Rodrigues é altamente justificato nel credere che l'idolo da lui illustrato non fosse peruviano; ho avuto sott'ochio centinaia di idoli del Peru e non vidi mai nulla di simile fra essi. Ma debbo peró far notare la singular somiglianza che fassa fra l'idolo Amazonico e certe scolture rinvenute nel Messico, in Nicaragua e specialmente sulla isola Zapatero e Pensacola che sono rozze figure umane scolpite in pietra e sormontate da effigie di animali carnivori in atto di divorar lor la testa, precisamente come fa il yaguar alla testutine (molto anthropoideo) n'ell'idolo braziliano. Ultimamente n'ello fogliare la stupenda opera de Bancroft (The Natives races ofthe Pacific States ofNorth America) ritrovai al principio del quarto volume le figure di alcune di quegli idoli degli antichi nicaraguensi.

Questo augmenta anzi ché diminuire l'importanza d'ella scoperta del signor Rodrigues, portanto assai più all Oriente de quanto si sapeva la tracie di quelle civiltà che illuminarono le corte occidentali del Nuevo Mundo dal Messico al Chile.>> Como se vê, o Sr. Giglioli não põe em duvida, antes aceita, a origem amazonica do idolo do Sr. Barbosa Rodrigues, embora traga exemplos de typos analogos encontrados em outras partes da America, acreditando talvez, e quiçá com razão, que o artista que o fabricou descenderia porventura da mesma gente que esculpturou os da ilha Zapatero e de Nicaragua, da qual um ramo ou uma tribu poderia ter emigrado e vindo fixar-se nas margens do Amazonas. Estas comparações do archeologo italiano influiram, creio eu, na maneira de pensar do Sr. Barbosa Rodrigues, de primeiro demasiado exclusiva, como vimos, quanto á localisação do seu idolo, porque communicando-me ojuizo transcripto do Sr. Giglioli, escreveu-me: «Com effeito, mais tarde tive occasião de ver na mesma obra á pag.

40 um idolo de Zapatero representando uma onça (Yauarité) que, posto não esteja devorando animal algum, está assentada sobre um pedestal na mesma posição em que está a do meu idolo e á pag. 49 e 50 outros dous idolos da ilha de Pensacola dos quaes o segundo, que representaumjacaré devorando um homem, tem tambem a posição do idolo amazonico, principalmente a dos braços e dos pés. Esta semelhança e identidade de pensamentos entre dous povos mui distantes, parece querer provar, e justifica que razão tenho eu em crer que a civilisação amazonica veio do Norte da America e da Europa(?). Os habitantes das ilhas Pensacola e Zapatero em Nicaragua procuravam a onça e o jacaré para dominar o homem, como os do Amazonas a onça para dominar a tartaruga; não teriam o mesmo pensamento?» Deixo de parte as considerações ultimas do Sr. Barbosa OS IDOLOS AMAZONICOS 107 Rodrigues, por não me caber discutil-as n'este lugar, e volto ao interessante estudo dos dous unicos fetiches ou idolos de pedra até hoje achados no Brazil. Em primeiro lugar notarei que nem o Sr. Barbosa, nem o Sr.

Giglioli, dizem si nos similares por elles vistos na obra de Bancroft do idolo pelo primeiro descoberto, havia os dous furos que se acham quer no do Sr. Barbosa, quer no meu, e, infelizmente, não possúo, nem sei que aqui exista, aquella estupenda obra, como bem lhe chama o Sr. Giglioli, pelo que não, o posso verificar. Parece-me, entretanto, que um tão caracteristico signal, a meu ver o mais importante para a classificação d'estas duas peças e de outras analogas que por ventura venham a apparecer, não teriam escapado sinão ao professoritaliano, ao menos ao naturalista brazileiro que d'elles se serviu, como vimos, para classificar o seu. Si duvidas poderiam levantar-se, e eu mesmo as levantei, sobre o habitat permitta-se-me dizer assim do idolo do Sr. Barbosa Rodrigues, essas duvidas, penso eu, devem cessar com o apparecimento do que tive a felicidade de adquirir e que motivou este estudo.

Em primeiro lugar elle serve de contraprova ao outro- e todos sabem quão grande é o valor de uma contraprova n'estes assumptos- e testemunha mais que aquelle, como elle mesmo, devera haver pertencido áquelles indios que, segundo o Padre Christovam da Cunha (Christoval d'Acuña), adoravam idolos «que fabrican con sus manos, atribuyendo a unos el poder sobre las aguas, y assi les ponen por divisa un pescado en la mano; a otros escogen por duenos de las sementeras; y a otros, por valledores en sus batal- las»>'; em segundo lugar testifica que, seja qual fôr a procedencia do artista que os creou e da gente que em suas virtudes acreditava, pertencem ambos ao Amazonas porque, si a onça ou a tartaruga se encontram fóra do grande rio o peixe acará-bararoá é—cuido eu-exclusivo d'elle. Este duplo resultado, parecia dever bastar-me para com elle fechar este já um pouco estirado artigo, mas não posso resolver-me a dal-o por findo sem indagar até que ponto vem elle prejudicar as minhas conclusões sobre a religião dos tupy-guaranys.

Quando mesmo houvessemos por certo terem estes idolos pertencido áquella familia selvagem, ainda assim as minhas. conclusões mantinham-se no mesmo pé. Em verdade, havendo eu escripto que «no animismo ou, particularisando, no polydemonismo tupy-guarany faltava completamente o caracteristico da adoração; havia a crença, mas não o culto, principalmente o culto interno, sendo que o externo manifestava-se ás vezes por poucas praticas exorcistas, nas quaes nada indicava adoração» estou ainda de accordo comquanto dos indios a que pertenceram estes fetiches, diz o Padre C. da Cunha: «....no usan, escreve elle na sua preciosa relação, de alguna ceremonia para adorar-los, mas antes les tienen olvidados en un rincon hasta el tiempo que lo han menester; y assi ¹ Nuevo descubrimiento delgran rio de las Amazonas, etc., no Tom2.º, pag. 98 das Memorias para a historia do extincto Estado do Maranhão, por C. Mendes de Almeida, Rio deJaneiro, 1874. 2 V. suprapag.46.

OS IDOLOS AMAZONICOS 109 quando han de ir a la guerra, llevan en la proa de las canoas, el Idolo en quen tienen puestas las esperanças de la vitoria, y quando salen a hazer sus pesquerias hechan mano de aquel a quien tienen entregado el dominio de las aguas; pero ni en unos, ni en otros fian tanto, que no reconozcan puede aver otro mayor.» Si, porém, pertenceram ou não a familia tupy-guarany, não sei, nem me aventuro a manifestar-me por qualquer d'essas hypotheses, que serão discutidas n'um outro estudo sobre a antiga civilisação amazonica. O fetiche por mim adquirido foi achado pela pessoa de quem o houve, no porto da cidade de Obidos, posto todo a descoberto pela extraordinoria vasante d'aquelle anno de 1879. Vê-se que não ficava muito longe (apenas uma duzia de milhas) do lugar de onde provém o do Sr. Barbosa Rodrigues, o que circumscreve, por ora ao menos, os limites do dominio territorial da gente a que pertenceram ambos, e cujas pescarias favoreceram amarrados com uma embira á prôa da ligeira ygára depesca. 1 Obr.cit., pag. 98.

2 Agente amazonica, directa ou indirectamente oriunda do antigoselvagem que dominou pelas margens do grande rio e de seus affluentes, conserva até hoje esta crença. Ha ainda muito pescador que leva á prôa da canôa de pesca, ou ávista ou occulto sob o fogão, um pé de tajápurá(aroidea)plantado em um cestinho, acreditando que elle lhe traráfortuna. Entretanto, nenhum culto professam por essefetiche, e desde que voltam a casa, com a canôa vasia ou cheia de peixe, não importa, atiram-no para um canto sem nenhum, não direi respeito, mas cuidado.

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