Do "Nacionalismo" na poesia brasileira Estudos Brasileiros (1877-1885) · Capítulo 13 de 14
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Do "Nacionalismo" na poesia brasileira

DO«NACIONALISMO» NA POESIA BRAZILEIRA NACIONALISMO, Mythos e Poemas por Mello Moraes Filho RiodeJaneiro, 1884 (1884) E algum tempo a esta parte o novo movimento intellectual brazileiro, iniciado pelo anno de 1873, manifesta uma pronunciada tendencia a desprender-se de mais em mais das faixas estrangeiras, principalmente luzas, que até aqui o têm trazido sopeado e contrafeito. Ainda bem; e tomára eu, tomáramos nós todos que devemos querer ser mais do que uma agglomeração sem nexo de individualidades entre si indifferentes, que essa tendencia se transformasse, como aliás hemos o direito de esperar, em uma corrente forte e seguida. Um facto, é certo, apoia e fortifica essa esperança; é que aqui, como tem mais ou menos succedido por toda parte onde se hão dado renovações litterarias, o movimento a que mais immediatamente me refiro foi precedido de um trabalho critico preparatorio, que lhe desbravou e abriu o caminho.

Com effeito, os trabalhos apparecidos de 73 para cá, sobre as nossas origens ethnographicas e historicas, sobre a nossa psychologia popular, sobre as nossas tradições e a nossa historia litteraria, não só aquelles como os dos Srs. Celso de Magalhães, Sylvio Roméro, Franklin Tavora, Tobias Barreto, Araripe Junior, Clovis Bevilaqua, intencionalmente criticos, mas ainda os que, pelo menos superficialmente encarados, menos tinham que ver com a litteratura propriamente dita como os monumentaes labores de Baptista Caetano, os de Barbosa Rodrigues, de Macedo Soares, de Couto de Magalhães, de Capistrano de Abreu e outros, todos concorreram conforme com a sua funcção para a manifestação de um nacionalismo novo, e, a meu ver, mais verdadeiro do que o antigo, na litteratura brazileira. Si por um lado os primeiros mostravam a inanidade das antigas pretenções indianistas, vasadas nos moldes soi-disant classicos da erudição litteraria luzo-brazileira, os segundos forneciam copiosos a prova da ignorancia do que era o meio cujo espirito elles pretendiam encarnar--a nacionalidade brazileira.

Este trabalho de erudição servindo de base á critica litteraria era indispensavel, não só para dar-lhe justeza como autoridade, que por ventura lhe faltaria si fossem propriamente suas, e portanto suspeitas, as grangearias de que se vae utilisando. D'essas acquisições a mais fecunda é quiçá a da comprehensão da nossa nacionalidade, resumida pelo Sr. Sylvio Ro- DO «NACIONALISMO» NA POESIA méro, si não me engano, n'esta frase concisa: um povo de mestiços. Essa noção, hoje não só incontestavel, mas indiscutivel, destruia pelos fundamentos o indianismo e o luzismo, que perdiam a sua razão de ser desde que ficava claro que nós não eramos portuguezes, nem tão pouco tupy-guaranys, sinão uma resultante social d'estes tres factores ethnographicos o portuguez, o gentio americano e o negro d'Africa. Cruzados, fundidos, amalgamados, misturados os sangues, as crenças, as linguas, as tradições, as lendas e todos os elementos mythologicos, os costumes e a esthesia d'estas tres raças, o producto fomos nós.

N'este producto, está claro e era fatal, predominou de muito o factor mais forte, ou o mais apto, para falar como os transformistas, que era o portuguez, o qual legou-nos aquillo que nos põe na mesma esteira dos velhos povos civilisados, a sua cultura, a sua lingua, as suas leis, os seus usos, etc. O sermos, porém, uma nação de origem portugueza, e portanto latina, não inhibe que sejamos um povo mestiço, por isso que os elementos da mestiçagem ahi se estão revelando a cada passo, já não direi nos caracteres physicos de mais de dous terços da população do Imperio, mas nas suas caracteristicas moraes, na sua linguagem, nos seus costumes, nas suas crenças e, principalmente, nas manifestações do seu pensamento e do seu sentimento, quando revestem uma fórma esthetica, na sua poesia popular. N'este novo caminho aberto pela critica, a que nos referimos acima, lançaram-se ardentes alguns moços escriptores an- ciosos e quasi certos da gloria que lhes traria a exploração d'este, incontestavelmente, riquissimo veio.

Acontece, porém, que na arte, ena poesia principalmente, além da comprehensão correctadas exigencias do meio, do momento, e das leis que devem guiar esse trabalho, exige-se tambem que o artista não seja sómente um convencido da sciencia ou da critica, sinão um devotado, tanto ao quanto inconsciente, ao culto da fórma em que opera. Em uma palavra, na obra d'arte é imprescindivel, mais do que a instrucção critica, a intuição esthetica, a vocação pelo assumpto, a inspiração especialisada, em summa. Comquanto eu esteja de pleno accordo com Augusto Comte affirmando que aos eminentes creadores de obras d'arte, Camões, ou Racine, ou Molière, ou Goethe, eram familiares os resultados geraes da sciencia do seu tempo, nempor isso deixo de ter por certo que no momento da creação das suas obras immortaes esses altivos espiritos apenas obedeceram a sua inspiração, influida embora ella pelas concepções da sua época e do seu meio.

Entre nós mal a nova evolução mental havia sido esboçada que, apoderando-se dos seus ainda indecisos resultados, seguiram-lhe os dictames mais talvez do que a propria inspiração, alguns escriptores aliás de fino espirito e apuradogosto. Não estava sasonado o fructo, e já se precipitavam a colhel-o, alguns mesmos sem ter por elle outra predilecção que a de um capricho de moda. Não é certamente d'estes ultimos comquanto talvez seja dos primeiros, o poeta que se iniciou no genero com OS DO NATURALISMO» NA POESIA 195 Cantos do Equador, e que acaba de publicar os Mythos e Poemas. Da actual cohorte, e com pouca legião, dos escriptores que procuram, a todo o transe, emancipar o pensamento nacional e dotar de uma fórma sólida e indiscutivel a litteratura patria, o Sr. Mello Moraes Filho, póde não ser o mais illustre, nem mesmo dos mais illustres, mas é, com certeza, um dos mais ardentes e um dos mais convictos e enthusiastas na peleja. Este elogio, digo-o sinceramente, a mim me bastaria.

As grandes cousas, são filhas dos grandes enthusiasmos; os homens de sangue frio nunca fizeram nada duravel. A vontade é só por si um grande elemento no successo, mesmo em litteratura. José de Alencar será eterno talvez menos por haver escripto dous ou tres livros primorosos do que por ter tido a vontade intensa e perseverante de romper com as tradições da litteratura portugueza e fundar a nacional. Nem é gratuito e mentiroso o elogio, que ahi estão para comprovar-lhe o valimento, além dos Cantos do Equadorjá citados, a Patria Selvagem (Escravos Vermelhos), copia de artigos de jornaes e revistas, agora os Mythos e Poemas, além dos inéditos annunciados: Patria Selvagem (Os ciganos, Os escravos negros) e outros. Já é uma soffrivel bagagem, n'este paiz. Passarei em silencio os Cantos do Equador, que não tenho aqui presentes, mas embora estas observações tenham sido provocadas pelo livro cuja epigraphe copiei sobre este artigo, tenho a peito dizer poucas palavras dos Escravos Vermelhos, cujo assumpto prende-se intimamente com o d'estas reflexões.

A mesma inspiração, ou, direi melhor, o mesmo fito que desde os Cantos do Equador guia o Sr. Mello Moraes Filho, o nacionalismo na litteratura brazileira, levou-o a escrever os Escravos Vermelhos, livro de trechos em prosa, 事em estylo imaginoso e poetico, sobre factos da historia da conquista e catechese dos indios no Brazil. Em falta de outro nome que lhe indicasse a indole, pois que não é poema, romance, historia, drama ou outra cousa facilmente classificavel, designou-lhe o autor o de Idealisação historica. Nunca denominação foi peor escolhida para um livro em prosa, porque a idealisação historica, qual a concebeu o autor, só cabe n'um molde, o verso. Não são outra cousa, sinão idealisação da historia a Lenda dos seculos de Victor Hugo, a Visão dos tempos de Theophilo Braga ou as soberbas télas de Gonçalves Crespo. Imaginem, porém, esses mesmos magnificos poemas postos em prosa, ainda a melhor; quem os suportaria? É o que acontece com os Escravos Vermelhos do Sr. Mello Moraes Filho.

Não que não haja ali verdadeira inspiração ou verdadeiro valor artistico, mas não ha prosa, por mais bella que seja, e a sua não está muito longe d'isso, que aguente concepções que só podiam viver emverso. Pegae-me uma delgada columna de fino marmore, feita para sustentar a ligeira cupola de um rendilhado kiosque arabe e collocae-m'a como pilastra de massiça ponte por onde corram pesados comboios, e dizei-me com pouco o que restará d'ella. N'uma obra,como aconcebeu e executou o Sr. Mello Moraes Filho, o estylo é tudo; não ponho duvida em reconhecer que o seu é, sinão um primor, que está longe d'isso, excel- DO «NACIONALISMO» NA POESIA 197 lente e adequado, o que é muito, mas, qual a obra d'arte que já viveu e perdurou apenas pelo estylo? O Sr. Mello Moraes Filho, tendo achado um excellente titulo e um excellente assumpto, para dotar a litteratura pela qual tão brilhantemente trabalha com um livro que d'elle só dependia fosse esplendido, deixou passar a occasião e deu-nos uma cousa falsa e insipida, sinão como fundo, pelo menos como fórma.

Para afinal dizer todo o meu pensamento sobre os seus Escravos Vermelhos lhe confessaria que de coração subscrevo o que ácerca do mesmo livro escreveu nos Lucros e Perdas um amigo seu, o Sr. Sylvio Roméro. Entretanto, parece que o Sr. Mello Moraes Filho pensa differentemente, pois na capa no seu ultimo livro annuncia a continuação do mesmo genero nos Escravos negros e nos Ciganos. Respeito muito a dignidade de um escriptor, principalmente a de um escriptor distincto e convencido, como é o Sr. Mello Moraes Filho, para aconselhal-o a que se submetta ás exigencias da critica que, póde bem ser, esteja em erro. Aguardo-me, pelo contrario, para julgar definitivamente a Patria Selvagem quando estiver toda publicada a trilogia de que se comporá. Porventura,vista no seu conjuncto, me parecerá melhor. Deixei dito que na litteratura ena arte não bastava a convicção critica, era ainda necessaria, imprescindivel a inspiração ou mais do que a inspiração, a vocação innatapor dada ordem de phenomenos artisticos ou litterarios, para produzir as obras duraveis.

Não basta e creio que dizendo assimdigo melhor não basta que o artista tenha a convicção de cabeça, feita pelo estudo proprio ou sob o influxo alheio, é preciso ainda, que elle tenha a fé do coração, o amor do seu assumpto e, ousaria dizel-o, que seja incapaz de fazer de outro modo. Não falta inspiração ao Sr. Mello Moraes Filho, mas sobeja-lhe a convicção, e´sente-se sem esforço que é uma these que elle trabalha e não um assumpto a que o levasse uma vocação irresistivel. A inconsequencia devia, pois, forçosamente apparecer aqui e ali e, com effeito, apparece. Em uma nota do seu livro diz elle que o idealcaboclo não éo ideal da nação e perfilha a condemnação de Gonçalves Dias pelo Sr. Eunapio Deiró. Estamos tanto mais de accordo que eu sou d'essa opinião desde 1877. Mas, pergunto eu, a que inspiração obedeceu o Sr. Mello Moraes Filho escrevendo a sua Lenda do Algodão, O palacio da mãe d'agua, A tapéra da lua, A lenda daspedras verdes e outras idealisações poeticas de mythos ou lendas do caboclo selvagem do Brazil?

Na minha opinião á mesma que fez Gonçalves Dias conceber com talento ainda hojenão igualado o seu sublime poema do Y-yuca-pirama. Todos aquelles poemas que citei são, não ha negar, tão indianistas como quaesquer outros iguaes de Gonçalves Dias ou de Magalhães. A fórma em que são vasados, póde ser outra si bem que, a meu ver, inferior á do primeiro—mas a materia prima é a mesma. Não haverá, porém, uma explicação para esta inconse- DO «NACIONALISMO» NA POESIA 199 quencia? Creio que ha na precipitação—perdoa-se-me a dureza do termo que emprego á falta de melhor- com que o Sr. Mello Moraes Filho atirou-se pela nova estrada á fóra; sem ver bem onde ella ia dar e sobretudo ser elle, além de poeta, ethnographo. Para homem de sciencia, falta-lhe essa suprema indifferença pelos resultados das indagações a que procede, apaixona-se, ao contrario, por elles, exige talvez que elles deponham a favor de uma opinião preconcebida, idealisa-os em summa. Diz o Sr. Sylvio Roméro que na palestra corrente não conhece homem mais calmo nem mais reflectido do que o Sr.

Mello Moraes Filho, mas que escrevendo não sabe de maior idealisador. Deve de ser verdadeira a observação, vinda de um amigo. Penso eu, que não tenho a honra de conhecel-o sinão de nome, que o amador da ethnographia leva para o seugabinete de estudo as preoccupações do poeta, o que lhe faz, como homem d'arte, sinão falsificar aquella, pelo menos dar demasiada importancia como assumpto de trabalhos estheticos ao objecto dos seus estudos ethnographicos, e em vez de ser, como era seu intento, e louvabilissimo, o primeiro dos nacionalistas vir a ser o ultimo indianista. Entretanto, devo declarar, que saindo d'essa via que o Sr. Mello Moraes Filho toma erradamente pela estrada real, abre-se um largo horizonte ao poeta que no mesmo livro tem A luz dos Afogados, A Endemoninhada, A novena, e, sobretudo, A romaria do Bom Despacho, uma joia. Não que eu condemne absolutamente a idealisação dos gestos e lendas do selvagem, longe d'isso; condemno-a sim nos poetas quejulgam ver n'esse campo a verdadeira e unica poesia nacional, ou nos que a censurando nos outros usam d'ella tambem.

A poesia tem um campo muito mais vasto do que qualquer arte, com excepção da musica, onde buscar assumptos para n'elles inspirar-se ou para idealisal-os, sem deixarpor isso de ser nacional. Demais na poesia a personalidade do poeta é por alguma cousa, um poeta de espirito profundamente nacional, será por força um poeta nacional, em qualquer assumpto que cante. E não será este um poderoso elemento para conseguirmos o perfeito nacionalismo da nossa litteratura sermos nós de espirito e coração profundamente nacionaes?

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