O lirismo brasileiro Estudos Brasileiros (1877-1885) · Capítulo 4 de 14
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O lirismo brasileiro

O LYRISMO BRAZILEIRO (1879) FASTANDO-NOS da opinião do illustre professor de litteraturas modernas no Curso superior de lettras, de Lisboa, o Sr.Theophilo Braga, quederiva a comprehensão do lyrismo brazileiro do facto ethnico das tendencias lyricas da raça turaniana, da qual acredita elle descendem os nossos selvagens, nós fazemol-o simplesmente filho das raças cruzadas, producto importado, com os cantos populares, da peninsula e do archipelago açoriano rejeitando, porfalta de dados positivos, acreditar na existencia do elemento lyrico entre a raça tupy-guarany. Aqui prende-se a questão, que para o escriptor portuguez parece resolvida e que para nós é uma simples hypothese, da descendencia turaniana dos nossos indigenas. Por isso, nós não podemos aceitar a theoria do Sr. Theophilo Braga e continuamos a derivar a comprehensão do lyrismo brazileiro,não deum facto ethnico, mas de um facto historico a conservação das fórmas tradicionaes da poesia popular portugueza entre nós, mesmo quando estavam já perdidas na metropole. Este facto, o mesmo Sr. T.

Braga reconhece e a elle mais immediatamente attribue a formação da nossa poesia lyrica, que se revelou primeiramente na modinha, não obstante acreditar que havia aqui, no selvagem, um poderoso elemento lyrico herdado da raça turaniana. Não duvidamos que o futuro converta em theoria o que reputamos hoje uma simples hypothese¹, mas, ainda assim, podemos acompanhar a marcha do nosso lyrismo, sem necessitarmos d'esse criterio, fornecido pelas descobertas ethnologicas. Um povo que se fórma com tres elementos diversos, uma natureza esplendida, um canto popular em plena florescencia, são condições bastantes para produzir um genero de poesia que como a lyrica, é a mais espontanea das fórmas da poesia, mesmo porque é a mais individual.

A poesia épica é filha de determinadas circumstancias sociaes ou philosophicas, emquanto a fórma lyrica, espontanea e pessoal, apparece em todos os tempos entre todos os povos sem precisar de outra condição externa, sinão a consciencia de um homem o poeta impressionado por qualquer sentimento mais profundo provocado, ou por manifestações sensualistas, como o amor; ou por manifestações physicas, como o bello; ou psychicas como o bom, a gloria, ou o grande. Em geral, nos priHoje abandonada completamente (1889). O LYRISMO BRAZILEIRO 27 meiros periodos de civilisação, sómente as impressões sensualistas - profundamente individuaes ou subjectivas actuam sobre os poetas. Com o progredir dos povos, o poeta entra como um elemento da vida popular, recebe a influencia do seu meio, traduz-lhe as aspirações, e o lyrismo despe-se das fórmas estreitamente individuaes como que primitivamente se reveste para, não deixando de ser pessoal, tornar-se objectivo.

E no Brazil esta lei, si não se verificou com tanta precisão, por causas que diremos, não deixa comtudo de ser verdadeira, como se póde ver comparando o lyrismo antigo de Gonzaga e seus contemporaneos, ao lyrismo moderno de Gonçalves Dias para cá. A Marilia de Dirceu, a mais notavel producção do nosso lyrismo, é eminentemente subjectiva, completamente individual, como são as composições de Claudio Manoel da Costa, Alvarenga, e de todos os vates da Arcadia brazileira. Porto Alegre, com Gonçalves Dias, com Magalhães começaram a revolução, melhor disseramos o motim, que abriu mais largos horisontes ao nosso lyrismo. Mas por uma lei de atavismo, o velho defeito que a critica nota estudando a historia da litteratura portugueza, appareceu no Brazil- opoeta estava separado do povo. Por isso, esse movimento de que falamos não teve as consequencias que eram para desejar.

Afastados do elemento popular pelo elemento official, a cuja custa viviam, a inspiração saíra-lhes sempre atrophiada pelo convencionalismo classico, tão do gosto dos litteratos portuguezes, que a elle não escapou Garrett na sua tentativa do Cancioneiro Nacional. A historia litteraria reconhece que nenhuma época de ver- dadeiro renascimento artistico póde provir da protecção official e constata o facto de que essa protecção é fatal sempre, desde que é directamente feita. Foi isso que afastou a litteratura portugueza do movimento das idéas, como fez que, entre nós, os reformadores ficassem em meio do caminho encetado. Gonçalves Dias tão bem estreado com a Canção do exilio e outras composições, menos tupys, mas com certeza mais brazileiras, que revelavam um poeta verdadeiramente nacional, abandonou cedo esse caminho para caír na maneira, como diria Goethe, ou para cantar o tupy, sem ver que cantava uma raça que era para nós menos ainda do que os portuguezes.

Ficou e foi sempre estranho á nossa poesia popular, cuja importancia desconheceu porque, como já dissemos,¹ a sua educação em Coimbra foi-lhe perniciosa e as aguas do Mondego afogaram o que aquelle talento tinha de nativo. D'essa educação veio-lhe o demasiado respeito pelos moldes classicos e a sua veneração por Filinto Elysio. Sente-se que a Arcadia ainda o impressiona. Pinheiro Chagas diz, muito bem. Gonçalves Dias tem duas feições distinctas, a do poeta americano, e a do poeta europeu. A primeira adoptou-a, não porque a isso o chamassem as tendencias do seu genio, mas porque estava intimamente convencido que devia abrir o exemplo e fundar ou procurar fundar a poesia nacional. A primeira manifestação do romantismo no Brazil, tambem pela causa apontada acima, falseou completamente os prin1 PrimeirasPaginas. V. esse estudo reproduzido n'este livro. O LYRISMO BRAZILEIRO 20 cipios originaes d'essa escola.

Ao contrario do que aconteceu na Europa, elle foi aqui convencional e classicamente erudito, e antes um esforço de vontade, uma questão de imitação, do que um movimento espontaneo da inspiração poetica impressionada pela nova evolução das idéas, contra os moldes acanhados e convencionaes de um classicismo em completo antagonismo com o progresso do gosto, da arte, da esthetica, na humanidade. Foi das nossas academias, ou d'entre moços que a ella se filiam pelo estudo e aspirações-meio cheio de vida, de ruido, facil de impressionar e ávido de cousas novas, foi d'ahi que o romantismo saíu, já solto das pêas tradicionaes. Foi ahi que elle foi recebido com soffrega sympathia, nos livros de Hugo, Byron, Dumas, Musset, Gautier e outros. É d'este meio que sáem successivamente Alvares de Azevedo, Dutra e Mello, Junqueira Freire, o monge, Varella, Laurindo, Casimiro de Abreu, Castro Alves, e outros quasi todos mortos cedo pela illusão em que estavam de que não se podia ser poeta sem fronte empallidecida nas noites de insomnia, passadas entre o amor, o vinho e os prazeres.

Levaram a imitação, de Byron e Musset principalmente, até a copia da personalidade, estragavam-se em uma descrença sem fundo, em um desgosto da vida que nada motivára e fanaram-se, sem coragem para luctar, de uma verdadeira nostalgia de dôres, que não conheciam, mas que tinham vontade de conhecer. Essa tendencia morbida dos nossos poetas, até agora elegiacamente chorada pela critica, deve ser combatida e ridicularisada como fatal ás lettras, aos costumes e á moral. No nosso estudo sobre a formação e destino da litteratura brazileira, dissemos: O nosso genio meridional, ajudado pelo clima e pelas nossas condições sociaes, não deixou que os poetas brazileiros tentassem com vantagem, um genero de poesia mais sevéro, e mais difficil tambem, do que o lyrismo todo pessoalquefórmaa principalfeição do caracter litterario dos nossos poetas. Hoje podemos acrescentar. Recebendo inconscientemente da modinha o deleixo da fórma e a lascivia do sentimento, alheio á alma popular, o lyrismo brazileiro, brilhante embora, não tem a importancia de um elemento constitutivo da nossa nacionalidade.

As feições que caracterisam o nosso canto popular bem como a modinha, que se pódem descobrir na serranilha galleziana, d'onde descende a nossa poesia popular, encontram-se no nosso lyrismo, não que elle as estudasse e comprehendesse, mas por um processo inconsciente de assimilação, a que foram estranhos os poetas. Essa tendencia para a paixão, para a volupia, para a sensiblerie emfim, vae felizmente desapparecendo. Entretanto não vemos, no momento presente, um poeta que traduza perfeitamente o nosso sentimento nacional. Falta-nos esse sentimento ou falta-nos o poeta? Tinhamos isto escripto, quando lemos o livro de um intelligente moço brazileiro, que vive em Portugal, sobre este assumpto. O Sr. José Antonio de Freitas, no seu livro O Lyrismo Brazileiro, chega quasi ás mesmas conclusões que nós. Estudando o nosso lyrismo desde suas primeiras manifestações no O LYRISMO BRAZILEIRO 31 canto popular, na modinha, o Sr. Freitas, aceita a opinião do Sr.

Theophilo Braga, da origem turaniana do nosso selvagem, da existencia entre elle da tendencia lyrica peculiar áquella raça e serve-se d'este principio para explicar a florescencia lyrica do Brazil. Entretanto, reconhece a grande influencia da Serranilha sobre o nosso lyrismo e, servindo-se de um processo de critica recommendado por nomes illustres que o tem usado, faz um interessante confronto de varios trechos tirados do Cancioneiro da Vaticana com outros não só das nossas modinhas, como dos nossos lyricos. O trabalho do Sr. Freitas revela-nos a existencia de mais um bello talento, que se applica, o que entre nós é raro, ao estudo critico das nossas cousas, inspirando-se nos novos methodos d'essa nobre sciencia.

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