A poesia popular brasileira Estudos Brasileiros (1877-1885) · Capítulo 11 de 14
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A poesia popular brasileira

MIT APOESIA POPULAR BRAZILEIRA CANTOS POPULARES DO BRAZIL colligidospelo Dr. Sylvio Roméro. Acompanhados de introducção e notascomparativaspor Theophilo Braga, -Lisboa, 1883. 2 vol. (1884) precedencias em trabalhos litterarios fossem titulos á estima ou ao favor publicos n'esta provincia, me pejaria eu sem duvida de recordar, a proposito do livro cuja epigraphe copiei em cima d'este artigo, que fui o primeiro a occupar-me aqui do estudo da poesia popular do Brazil -tarefa que muitos terão por indigna de um espirito sério. Com effeito, si não me engano redondamente, o primeiro trabalho que sobre semelhante objecto n'esta provincia se escreveu, foi o por mim publicado em folhetins do Liberal do Pará de Janeiro, Fevereiro e Março de 1879. Esses trabalhos passaram, como quiçá o mereciam, despercebidos, sinão menospresados; indifferença ou menospreso que me não fizeram móssa porque cá estou cu outra vez com elles, a proposito do livro cujo titulo copiei em cima d'este artigo.

N'esta provincia onde o espirito nacional está quasi suffocado sob a pressão de elementos estrangeiros, e onde, por conseguinte os seus altos interesses, como a litteratura, são completamente descurados, não são muitos os que conhecem o operoso colleccionador dos cantos populares, editados, á falta de quem o quizesse fazer no Brazil, por Carrilho Videira em Portugal e prefaciados pelo Sr. Theophilo Braga. Não é agora que farei a critica da personalidade litteraria do Sr. Sylvio Roméro, para o que não me faltará occasião, mas entendo desde já dizer que si não é um dos mais perfeitos é ao menos e grande elogio é este em terra de tanta indolencia um dos mais laboriosos escriptores brazileiros de todos os tempos. Hoje limitar-me-hei a discutir a supracitada collecção de cantos e uma ou outra idéa do Sr. Theophilo Braga, no seu prefacio, ou do mesmo Sr. Roméro no seu notabilissimo trabalho sobre a Poesiapopular do Brazil publicado na Revista Brazileira.

Antes, porém, de encetar este estudo convem-me lembrar o que sobre o mesmo assumpto encontrei entre os meus papeis, e que não é sinão, ligeiramente modificado, o que appareceu no Liberal do Pará de 19 de Janeiro de 1879. A POESIA POPULAR BRAZILEIRA 141

É verdade que Claudio d'Abbeville e outros autores, narrando os sacrificios que os vencedores faziam dos vencidos, falam em seus cantos, sem comtudo demorarem-se a tratar d'elles, o que nos faz suppor que não mereciam a attenção dos que os ouviam. Os viajantes modernos, Bates, Hartt, Agassiz, Orton, Moutinho, F. Penna, Barbosa Rodrigues, não falam tambem da poesia entre os selvagens.Ella, entretanto,devia existir,não só porque é, talvez, amanifestação primeira da palavra na humanidade, como porque na lingua d'essa raça encontramos o verbo cantar nêen- gari, derivado de nêen falar. No emtanto, não podemos crer que si aquelles escriptores e viajantes tivessem encontrado a poesia como uma manifestação do pensamento ou do sentimento do selvagem habitante no nosso sertão, a houvessem despresado; hoje principalmente que a poesia popular é um poderoso elemento para os estudos de philologia e particularmente de paleontologia litteraria. A que attribuir, pois, essa falta que se nota nos livros dos citados viajantes modernos e dos antigos autores?

A sua pouca curiosidade por esse ramo de estudos ou á carencia da fórma hymnica entre os selvagens do Brazil? Parece-nos que não pode ser aceita a primeira razão, pois sabemos que a attenção de Hartt, Bates, Barbosa, e outros foi chamada para o estudo dos mythos ou lendas do selvagem, não devendo, portanto, escapar-lhes a fórma hymnica d'essa poesia de que fazem parte os mythos. Por isso, até este momento, attribuimos essa falta, sinão á carencia de tal fórma, o que, a ser verdade, provaria a extrema pobreza da poesia indigena, ao menos a sua completa extincção no periodo de civilisação do selvagem da conquista para cá.

A POESIA POPULAR BRAZILEIRA 143 tenso é sobre os mythos indigenas, tratando dos cantos é breve, brevissimo, contentando-se com citar alguns poucos versos em tupy que serviam para a invocação de Rudá, o deus do amor. É notavel que conhecendo, como conhece, uma multidão de tribus selvagens, só d'esses poucos versos faça menção, versos que, convém notar, não foram recolhidos do proprio gentio, mas communicados por uma senhora velha de Santarem, de origem tupy. «O que nos parece evidente é que no tempo da descoberta do Brazil, o indigena não podia ter poesia sinão tão rudimentar, que a conquista afogou sem esforço como matou tambem a rudimentar civilisação da raça habitadora d'esta região. N'essa época já elle possuia o mytho ou a lenda, é certo, mas não conhecia, ou apenas ensaiava, o canto, o hymno.

Apenas aqui na região amazonica, onde mais do que em outra parte a influencia tupy se faz sentir, encontra-se, em algumas raras canções populares, a mistura do ñêengatu com o portuguez, como n'esta muito conhecida no Pará, e citada pela Sr. Couto de Magalhães: Vamos daradespedida Mandúsarárá Comodeu opassarinho Mandúsarárá. Etc., etc.

Não queremos dizer com isto que devem ser despresados esses velhos romances portuguezes, corrompidos já pelo nosso povo, julgamos mesmo que prestaria um serviço quem os colleccionasse, pois seria occasião de estudar sobre dados positivos os processos da transformação lenta por que passam as concepções estheticas de um povo quando são transplantadas para um meio differente d'aquelle em que nasceram. Para nós, porém, que estudamos apenas o caracter da nossa poesia popular, para d'ahi concluir sobre o caracter esthetico da nossa raça, esses romances não têm nenhum valor, porque são inteiramente extranhos á nossa vida.

Ás vezes, porém, apparecem- nos alguns especimens que revelam uma brilhante efflorescencia da inspirada e desconhecida poesia popular. É quando a musa do povo se eleva á inspiração incontestavelmente sublime de trechos como esse da longa canção do Boi Rabixo. «O desafio, das festas campestres de Portugal, passou para os batuques e caterêtês dos nossos sertanejos, guardando sempre a sua fórma e intenção ironica, como se vê n'este trecho citado pelo Sr. Moutinho na sua Noticia sobre a provincia de MattoGrosso:

É isto A POESIA POPULAR BRAZILEIRA 147 que acontece geralmente, e até em versos em que a linguagem synthetica e quasi obscura parecia deixar suppor uma creação do nosso rude meio popular, até lá, digo, encontra-se apenas uma variante degradada de alguma velha cantiga portugueza, consoante o prova esta, citada pelo Sr. Couto de Magalhães como producto expontaneo da nossa poesia popular: Obichopediusertão; Opeixepediufundura; Ohomempediuriqueza; Amulheraformosura. que é a variante d'esta estrophe que encontramos no Cancioneiropopulardo Sr. Theophilo Braga: O marpediuaDeus peixes, Os peixes a Deus altura; Os homens aliberdade As mulheres aformosura.

«A nossa cantiga, como todas as outras fórmas da poesia popular, veio-nos directamente da metropole, como provamos pelas comparações acima feitas, e como resulta mesmo da conservação do verso octossyllabo, n'aquelle genero. É por isso individual, erotica e sentimental, conseguindo, porém, ainda assim attingir a bellissimas fórmas, na traducção que dáásfortes paixões populares. Encontram-se muitas vezes alguns versos, dignos de toda a admiração, não só pelo sentimento sincero que traduzem, como pela perfeição da fórma e intenção lasciva, como este: Eudavaaquem me puzesse Juntodecerta mulata, Um conto de réis em ouro, Seiscentos mil réis em prata. «A feição caracteristica d'esta poesia é, como se vê pelos exemplos citados, a paixão amorosa, os sentimentos ternos, traduzidos com toda a verdade. Raras vezes reveste a cantiga outra fórma.

Mas como, no dizer de Vico, as grandes paixões alliviam-se pelo canto, vamos encontrar a cantiga traduzindo tambem as duras angustias do captiveiro, n'esta triste quadra dos escravos, vergados sobre o rude trabalho do eito, ao latego do feitor: Pretoquandomorre Écaxaça quematou; Branco quandomorre Foi Deus quemchamou. «Ou então, muito raras vezes, como a manifestação da má vontade popular contra uma oppressão qualquer, como aconteceu nas épocas revolucionarias de Minas e Pernambuco, ou do odio entre o natural e o colono, como n'esta: Marinheiro pé de chumbo, Calcanhar defrigideira, Quemte deuaconfiança De casarcom brazileira. A historia do nosso paiz nos ensina que a sua primeira sociedade foi composta de máos elementos. As primeiras immigrações foram sómente de homens, que não querendo logo casar com a mulher que habitava esta região, por motivos faceis de comprehender, fizeram d'ella sua concubina em vez de fazel-a sua esposa.

Assim constituida, si a isso se póde chamar constituição, a primitiva sociedade brazileira, á qual faltava o mais poderoso dos elementos sociaes, a familia, não podia ser sinão immoral. A POESIA POPULAR BRAZILEIRA 151 Sob um sol ardente e em uma naturezaluxuriante o temperamento amoroso do portuguez, solto de todas as peias que o soffreavam na patria, ganhou aqui novo vigor e produziu o mestiço voluptuoso, impressionavel, apaixonado. Foi n'este meio que a poesia popular portugueza se desenvolveu e foi aquelle o individuo que a assimilou e que lhe deu o vigor erotico que a caracterisa, bem como ao nosso genio artistico. É no seio d'esse elemento mestiço, do filho do portuguez, da india, ou da africana, que nascem as suas mais bellas fórmas, e é ahi que algumas d'ellas se nacionalisam tanto que dirieis uma fórma expontaneamente nacional, como a modinha. A modinha é a mais rica das fórmas por que se manifesta a inspiração poetica do nosso povo.

N'ella transformou-se a xacara dos trovadores e castellas guitarristas, ou mais immediatamente, ofado do povo portuguez.É, como bem diz o Sr.Theophilo Braga, uma fórma brazileira. O temperamento melancolico-amoroso do brazileiro, a sua voluptuosidade, as lubricas paixões que se desenvolvem em um meio não educado pelo casamento, como era, e é ainda hoje, si bem que em menor escala, o nosso meio popular, contribuiram facilmente para essa transformação. Assim essa fórma caracterisa bem a tendencia morbida da nossa poesia popular, o deleixo, a preguiça da nossa raça, provinda da prodigalidade extraordinaria da nossa natureza e facilidade da nossa vida, quasi fóra da lei da lucta pela existencia, o que gera essa acedia tão do nosso caracter e tão a geito de produzir os amores faceis, a fonte unica da nossa inspiração popular. Na nossa não pequena collecção de modinhas esse thema repete-se com uma monotonia fastidiosa. É sempre o amor e os sentimentos que d'elle se derivam: o ciume, a saudade, o desejo, etc., em uma linguagem gongorica e piégas, mas sentida e interessante por vezes.

E lendo as collecções das nossas modinhas que já correm impressas ', chega-se á conclusão a que nos leva este estudo da poesia popular brazileira, e é que ella, por falta do elemento tradicional, é profundamente individual, pobre e monotona. O seu desenvolvimento não é igual em todas as partes do Brazil, tendo sido maior no sul do que no norte, onde a vida pastoril não só é mais desconhecida como menos accentuada, e é, geralmente, n'esse meio que tem nascido todos os grandes poemas populares, como entre nós foi lá que maior expansão teve o sentimento poetico do nosso povo. 1 V. Lyra do Trovador- Rio de Janeiro- 1875, 2 vol.--A cantora brazileira. nova collecção de hymnos, canções e lunduns—Rio de Janeiro 1878-Garnier. 2 Ha erro n'esta repartição geographica, na qual entretanto ha uma parte de verdade, considerando que norte para o A. é a Amazonia, onde escreve. Parece que é na região oriental do Brazil, no sertão principalmente, entre o Parnahyba e o S. Francisco, e um pouco ao S.

até o Reconcavo, onde mais rica e notavel é anossa poesia popular.É de notarqueessaregião éa socialmente mais antiga do Brazil e o theatro principal da nossavidahistorica no primeiro seculo da conquista. Estando as explorações folkloricas entre nós apenas em começo, imprudente seria qualquer generalisação que sobre a sua distribuição geographica se quizesse fazer. Presumo que Minas Geraes e S. Paulo dariam uma bella recolta, que pena é se não tenha ainda feito. (1889). A POESIA POPULAR BRAZILEIRA 153 «Á falta de um Cancioneiro nacional, nós nos fundamos no que conhecemos da nossa poesia popular, para concluir pela idéa, triste para nós, de que o sentimento esthetico da nossa raça, revelado pela sua poesia, é muito fraco e muito individual.

Acanhado sob a pressão d'esta fraqueza e individualismo foi que o nosso lyrismo, que tem na Serranilha gallesiana o seu antepassado mais remoto e na nossa modinha, o mais proximo ascendente, foi que o nosso lyrismo, digo, que inconscientemente soffreu a influencia da nossa poesia popular, não poude largar ainda até hoje o velho e cançado thema dos amores mal recompensados. Com isto, porém, não queremos dizer contra a nossa poesia popular. Si ella não tem a alta importancia de suas congeneres do velho continente, de sua mãe, mesmo, a poesia popular portugueza, nem por isso o seu estudo deve ser despresado, pois d'elle se poderá concluir a verdade ou desacerto do principio que aqui firmamos, e que vero ou não, é de umagrande importancia para a concepção positiva e clara do caracter da nossa nacionalidade, caracter que deve ser estudado não só na historia das raças que formaram a nossa, sinão tambem nas quaesquer manifestações do genio d'esta.»> Quando foi escripto o estudo acima reproduzido, não conhecia eu nem a notavel collecção do Sr.

Sylvio Roméro, só mais tarde publicada na Revista Brazileira, nem tão pouco a recolta feita pelo iniciador d'estes estudos no Brazil, o mallogrado escriptor maranhense Celso de Magalhães. Por isso, as minhas conclusões, tiradas por mera inducção esabem todos quão fallivel é, em critica, este methodo―são de algum modo precipitadas. Da escacez dos meus conhecimentos dos cantos populares da população brazileira, inferi e n'isto encontrei-me com o ¹ Sr. Sylvio Roméro a pobresa da nossa poesia popular do mesmo modo que da tendencia amorosa, voluptuosa antes, das poucas amostras que conhecia d'esses cantos indusi que d'essa mesma, ao meu pensar, pauperrima poesia, a caracteristica era a paixão luxuriosa, o amor ardente e facil, como o sentem os mestiços. Estes dous conceitos, si não são completamente errados, são por demasia absolutos, principalmente o primeiro. Prova-o acollecção feita pelo Sr. Sylvio Roméro, e ora dada á luz pelos Srs.

Carrilho Videira e Theophilo Braga, a qual revela-nos a existencia em nosso paiz de uma florescencia de poesia popular, sinão tão rica como a das velhas nações da Europa, pelo menos notabillissima como producto original ou transformado de uma nacionalidade que se fórma. E é esta, sem duvida alguma, a grande importancia dos estudos folkloricos: servirem mais do que os factos da historia corrente para mostrarem-nos a formação e o desenvolvimento de uma nacionalidade nascente. Acho-me realmente feliz por 1 Rev. Braz., T. I, pag. 94. A POESIA POPULAR BRAZILEIRA ter assim comprehendido, addindo estes estudos ás minhas locubrações acerca da ethnographia patria, mas, por outro lado, admiro-me de que sendo eu um dos que têm trabalhado com mais afinco, á falta de brilhantismo, para assentar que o povo brazileiro é o producto dos cruzamentos das tres raças que aqui se encontraram em dado momento historico, haja commettido o erro grosseiro de não aceitar como productos da poesia nacional os romances do Bernal Francez, D.

Barão ou Náo Cathrineta sob o futil fundamento de que são verdadeiros cantos portuguezes mais ou menos adulterados no Brazil! Mas é essa adulteração, digo hoje a mim mesmo, que constitue a sua nacionalisação, por isso que, provocada como vamos ver pelo contacto de outros elementos ethnicos, é, para as manifestações do pensamento popular, como que um cruzamento, e o cruzamento é o que fórma as novas raças. Semelhante adulteração é, ainda sociologicamente, um facto importante para corroborar a opinião d'aquelles que souberam ver na formação da nacionalidade brazileira, alguma cousa acima de um méro resultado de combinações politicas, tão ineficazes sempre como causas de taes effeitos.

Semelhantes romances, taes e quaes se acham aqui na boca do povo, são á vista do cruzamento, isto é, da alteração que soffreram, tão nacionaes como o producto do portuguez com a india ou com a africana, e o meu erro foi, obsecado máo grado meu e a despeito dos meus proprios esforços, pela idéa indianista dos chefes da escola romantica entre nós (Gonçalves Dias, Magalhães, etc.), esquecer-me de que não é só o producto d'aquella origem que é nacional, sinão qualquer producto de uma das raças que aqui se cruzaram e aqui cruzado. Para demonstrar este asserto ahi está toda a collecção do Sr. Sylvio Roméro, cheia de romances, canções, xacaras, versos soltos e cantigas de origem portugueza adulterados, ou muito melhor, variados sob a influencia do nosso meio popular. De todos esses versos nenhum acho mais typico do que o seguinte do romance de D. Barão: D. Barão, queeramacaco, Denadase arreceiou; Chamou pelo seu moleque, Umacartalhe entregou. que é a variante brazileira d'est'outro portuguez: D. Barão, como discreto De nada se receiou; Chamou pelo seu criado, Umacartalheentregou.

N'aquelle unico verso estão as tres raças formadoras do nosso povo, a portugueza, a africana e a americana. O eramacaco pertence a esta ultima de cuja lingua é a palavra macaco, assim como seu moleque em lugar do seu criado da lição portu- A POESIA POPULAR BRAZILEIRA genuinamente africano, e ambos perfeitamente brazileiros. Esse verso é mais que uma simples estrophe, éum mestiço. Disse eu mais que, como estudo do caracter esthetico da nossa raça «esses romances não têm nenhum valor porque são inteiramente extranhos a nossa vida.» Faço amende honorable, e espero me levem isso em conta de uma precipitação de rapazdesejoso de enfrentar com assumptos novos, como si alguem The quizesse disputar a despresada via! É tambem como utilissimo elemento para o estudo do nosso sentimento esthetico, penso eu hoje e julgo que acertadamente, que devemos tomar a peito o da nossa poesia popular, principalmente n'essa transformação das cantigas portuguezas. N'este ponto, ou pelo menos no desenvolvimento que vou dar-lhe, estou, parece-me, em opposição com o Sr.

Sylvio Roméro, que não vê na poesia popular sinão um dado para o estudo da psychologia social ou da ethnographia, e ainda com o proprio Sr. Theophilo Braga que embora menos exclusivo a considera mais por esse lado tambem. Não sou tão rigoroso, si reprovo as amplificações rhetoricas de Garrett a respeito da poesia portugueza, e de José de Alencar sobre a nossa, estou pelo menos convencido de que, producto do sentimento poetico do povo, é um documento importante e a aproveitar para 1 V. adiscussão da mesma estrophe pelo Sr. S.Roméro,inRev.Braz., T. I, pag. 363. o estudo d'esse sentimento, e, portanto, para o da historia da formação de sua litteratura. E que mais brilhante exemplo da influencia da poesia popular, como elemento de educação esthetica, do que esse grande romantico Garrett, porventura a mais illustre personificação litteraria de Portugal depois de Camões, apaixonado desde a sua meninice pela poesia popular da sua terra?!

Nem se pode, creio eu, ser um grande artista, um escriptor ou um poeta perfeitamente nacional, sem ir beber á fonte genuina da inspiração popular sob as suas diversas e variadas fórmas, a poesia, a superstição, as tradições. Que o digamos Homéridas, osVirgilios, os Camões, os Shakspeares, e todos os altivos engenhos que representam melhor do que ninguem o espirito nacional no que elle possa ter de mais elevado. Ha, pois, razões a militarem a favor d'este modo de encarar os cantos populares. Eu, pelo menos, sou cheio de admiração por essa esplendida canção do Rabicho da Geralda, e declaro que, no genero, a prefiro a quantas poesias hajam escripto poetas. Ejustamente o que me faz admirar essa bellissima prosopopéa, que o leitor poderá ler a pag. 72 do livro que nos occupa, é essa verdade palpitante dos detalhes, a representação fiel dos quadros da vida popular, por quem, como o anonymo cantor, não conhece os recursos da rhetorica.

Os Cantos populares do Brazil devem ser leitura favorita dos nossos poetas e dos nossos romancistas, em geral tão distanciados do verdadeiro sentimento nacional, que se afizeram a desprezar, por o não conhecerem. A POESIA POPULAR BRAZILEIRA Aos prosadores, aos verdadeiros artistas da palavra, serão elles de grande utilidade: o povo tem geitos de fraze que, por isso mesmo que são naturaes, são-nos desconhecidos, a nós que nos torturamos para alinhar um adjectivo apóz um substantivo. Demais, não ha melhor documento para estudar as transformações da linguagem, do que os que nos fornece a litteratura popular. Sobre o caracter geral, a caracteristica direi melhor, d'esta poesia, a collecção do Sr. Roméro revigorou, que não modificou, a minha opinião. É muito mais rica do que eu suppunha a poesia popular do Brazil, mas não é mais notavel, nem mais variada.

Com excepção de tres ou quatro romances de vaqueiros, dous ou tres autos de festas populares como o Bumba meu boi, e mais meia duzia de canções religiosas, ou facetas, o mais tudo que se contém n'esta copiosa collecção, tem por thema- O amor, a paixão amorosa e sentimentos correlativos, o ciume, a saudade, o desejo, predominando sempre, a nota luxuriosa, languida, piegas, a mesma que se reproduz na modinha, e que caracterisa o lyrismo brazileiro, o qual, graças aos documentos agora recolhidos pelo Sr. Sylvio Roméro, acha assim o antepassado onde ha de ir entroncar a sua arvore genealogica. (*) O Sr. Theophilo Braga, que prefacía e annota a recolta do Sr. Sylvio Roméro, é um dos primeiros e raros escriptores portuguezes, que de nós e de nossas coisas tratou, com relativo conhecimento d'ellas e uma intelligente sympathia por nós.

Em Portugal, até bem pouco tempo tinhamos encontrado, a respeito de litteratura, ou uma profunda indifferença a que se alliava não menos profunda ignorancia do nosso movimento litterario, ou uma especie de benevolencia protectora, e como quer que seja para nós humilhante e impertinente, ou a systematica negação d'esse movimento, de envolta com manifesta antipathia e má vontade a nosso respeito. É o arauto d'estes ultimos sentimentos o Sr. Camillo Castello Branco. Alexandre Herculano e o velho Castilho representam o segundo modo, d'onde excluo o outro Castilho, José, porque este, apesar de uma ou outra alambicada palinodia, mal conseguio occultar-nos a sua má vontade litteraria. Com a renovação dos estudos em Portugal, apóz adefecção do romantismo, novos espiritos surgiram menos peiados por esse estreitissimo chauvinismo portuguez, tão bem representado, sob o aspecto litterario, pelos Srs. Thomaz Ribeiro e Pinheiro Chagas. (*) D'aqui em diante este trabalho haviaficado inedito.

A POESIA POPULAR BRAZILEIRA 161 Repetia-se ridiculamente emquanto a litteratura, o phenomeno que se dera na politica, quando foi dos movimentos da independencia. Procurava-se por uma systematica negação da nossalitteratura conservar-nos na vassalagem intellectual da metropole, como outr'óra as Côrtes de 20 tiveram a ingenua velleidade de recolonisar o Brazil. Isto porém, por honra de Portugal, parece ter passado, e julgo não exagerar attribuindo ao Sr. Theophilo Braga e aos seus companheiros da nova geração, esta concepção mais nobre e mais justa das relações litterarias entre os dous paizes. Com effeito, em seus bellos estudos sobre a litteratura de sua patria, elle deu um lugar ao Brazil, fazendo sentir a sua influencia sobre a mãe patria e comprehendendo o que essa influencia teve e poderia ainda ter de salutar e fortificante. O Sr.

Adolpho Coelho por seu lado, no ramo da glottologia, que versa com inestimavel intelligencia e vasto saber, comprehendeu a evolução da lingua portugueza no Brazil, aceitando-a como um facto natural e que, portanto, em extranhal-o e até satyrisal-o, como soiam fazer os corypheus do purismo, era apenas revelar uma singular ignorancia ou innocente animosidade. Na introducção que sobre a poesia popular do Brazil poz o Sr. Theophilo Braga aos cantos colligidos pelo Sr. Sylvio Roméro, vem clara e succintamente exposta a nova concepção do brazileirismo aceite-se esta palavra como synthetisando quanto possa fazer o caracter brazileiro-qual resulta dos estudos e trabalhos mais recentes aqui e sobre nós mesmos feitos.

«Existe uma nacionalidade brazileira, escreve o Sr.Theophilo Braga, superior a todas as combinações da politica e dos interesses dymnasticos, formada pelas condições fataes da ethnologia e da mesologia, e á qual a marcha historica das suas luctas pela independencia e do seu conflicto com as velhas civilisações europeas, vem completar a obra da natureza dando-lhe o relevo moral, o caracter e o destino consciente no concurso simultaneo de todos os seus factores.>» ¹ Para elle os nossos cantos populares, á parte o interesse que têm como documento para o estudo da formação ethnologica de nossa nacionalidade «apresentam um duplo valor porque trazem os themas tradicionaes sobre que a nova litteratura brazileira tem de assentar as suas bases organicas, e porque são a irradiação remota dos vestigios tradicionaes deixados pelo povo portuguez na época da sua grande actividade e expansão colonisadora». " Igualmente bem comprehendeu o Sr.

Theophilo Braga o que havia de falso na tendencia da nossa poesia de seguir o, como elle diz, atrazado romantismo europeu, si bem me pareça haja desacertado quando attribue exclusivamente a essa tendencia principalmente representada no subjectivismo byroniano o desvairamento d'ella. Não foi uma só a corrente européa que influenciou o nosso romantismo e não sómente Byron actuou sobre os nossos poetas. Victor Hugo, talvez mais do que Byron, Musset, Vigny, e em outra ordem, Lamartine e Chateaubriand, tambem influiram. O indianismo que foi aqui a fórma 1 Tom.I,pag. 9. 2 Ibid. pag. 10. A POESIA POPULAR BRAZILEIRA 163 caracteristica do romantismo nacional, por isso que o indio, á primeira vista, apresentava-se como o nosso unico passado tradicional, o indianismo, digo, tambem desvairou ou, e me parece mais conveniente a expressão, desviou a nossa poesia, toda a nossa litteratura pudera eu dizer, do caminho que se me affigura verdadeiro. Como bem reconhece o Sr. Theophilo Braga e como resulta dos estudos do Sr.

Sylvio Roméro e de outros criticos brazileiros, a nossa poesia «só poderá achar o seu caracter original conhecendo e comprehendendo o elemento ethnico das suas tradições populares». A constituição ethnographica do Brazil, como producto dos tres factores ethnicos branco, negro e indio, formando um povo de mestiços, assentada tambem de modo indiscutivel pela critica brazileira, é tambem criterio em que o Sr. Theophilo Braga baseia as suas apreciações da nossa poesia popular, apreciações que, e será o digno escriptor o primeiro a reconhecer, são em sua totalidade baseadas nos notaveis estudos sobre ella publicados na Revista Brazileira pelo Sr. Roméro, aliás constantemente citado pelo seu editor litterario. O Sr. Theophilo Braga foi entre escriptores portuguezes e brazileiros, do meu conhecimento ao menos, o primeiro que se occupou detida e largamente d'essa especial fórma da nossa poesia popular, a modinha, derivando-a das serranilhas e outras canções tradicionaes portuguezas esquecidas no seculo XVII e conservadas no Brazil sob a fórma da modinha e indo n'ella 1 Ibid.— 10.

filiar, e ao que nos parece com razão, o nosso lyrismo que se lhe antolha superior ao portuguez. Sobre essa caracteristica fórma da nossa poesia popular escrevia eu nos estudos esparsos que, como notas ligeiras sobre esta publiquei em um diario d'esta cidade em 1879, e das quaes n'este artigo tomei já a liberdade de reproduzir uma parte: «A modinha é a mais rica das fórmas por que se manifesta a inspiração poetica do nosso povo. Essa fórma, como o crê tambem o Sr. Theophilo Braga, é perfeitamente nacional. «A modinha é a fórmapopular e chã (diminuitiva, puderamos dizer), da velha e aristocrativa moda portugueza. É a xacara dos trovadores e castellas guitaristas transformada pelo povo. O temperamento melancolico-amoroso do brazileiro, at voluptuosidade, as lubricas paixões, que se desenvolvem em um meio não moralisado pelo casamento, como é o meio popular dos nossos sertões, contribuiram facilmentepara essa transformação.

Assim essa fórma caracterisa bem a tendencia morbida da nossa poesia popular, o deleixo, a preguiça da nossa raça, pela prodigalidade extraordinaria da nossa natureza e facilidade de nossa vida quasi fóra da lei da lucta pela existencia, o que géra essa acedia tão do nosso caracter e tão pro1 V. n'este livro O Lyrismo brazileiro. 2 Questõesde litt. e arteportugueza. A POESIA POPULAR BRAZILEIRA 165 pria para produzir os amores faceis, a fonte unica da nossa inspiração popular.

Dissemos que não podia deixar de ser assim porque o canto popular é, em geral, a expressão dos sentimentos de um povo e a consagração das suas tradições, ou guerreiras, ou religiosas, ou ethnicas, nacionaes emfim; e nós, resultado do cruzamento entre tres raças differentes e de um meio geographico, climaterico e social naturalmente diverso dos meios em que viviam duas d'ellas,nascidos hontem(o que são tres seculos nalonguissimavidadahumanidade?)nós nãopodemos ter tradições. As tradições portuguezas ficaram na peninsula, as africanas na Africa, assim como as indigenas, se as havia, morreram com a raça a que pertenciam. Nós, producto autonomo d'essas tres raças, somos um povo differente d'ellas. «A imaginaçãopoetico-patrioticademuitos quereria encontrar entre nós elementos para compôr um rico Cancioneiro, os nossos Niebelungen talvez, a critica, porém, procurando a verdade, constata o facto da não existencia d'esses elementos.

Mas não se entristeçam esses enthusiastas, porque si ella chegar a estabelecer, como verdade indiscutivel, isto que eu penso ser ainda uma opinião, mas uma opinião fortificada por innumeras probabilidades, n'esse dia tambem ella terá, descobrindo as nossas tendencias estheticas, de tanta importancia na vida de um povo, e verificando si nos pódem ser nocivas ou uteis, ella terá, digo, concorrido para achar o caminho a seguir na nossa carreira politica. «É crendo na importancia d'esse desideratum, quejulgamos uteis estes estudos que poderão parecer a outros de pouca monta. Voltemos, porém, á modinha. «O amor, a paixão individual, lubrica, voluptuosa, é, como dissemos, a fonte inspiradora e o assumpto unico sobre que se tem exercido com mais merecimento a musa popularbrazileira. Na nossa não pequena collecção de modinhas, esse thema se repete quasi fastidiosamente. Mas a ardentia da paixão, consegue dar-lhe ainda, por vezes, incontestavel belleza.

Contemplando o teusemblante Sintoavidam'escapar, N'um teu olhar perco avida Resuscito n'outro olhar! Mas étão doce Morrerassim!... Lilia não deixes De olharp'ra mim! A POESIA POPULAR BRAZILEIRA 167 «Essashyperboles gongoricas,de máo gosto em outra qualquer poesia, são o encanto maior da modinha. Na conhecida Canção do cégo, este verso é uma prova d'isso: Si eu cairdá-me teus braços Ampara-me, anjo de Deus; Talvez recupere avista Cahindo nos braçosteus! «A facilidade de amar, apparece n'estes versos, onde não deve passar despercebido o descurado da linguagem piégas, que é tambem uma das feições da modinha: Sivejo moçacorada Fico de amor abrazado: Moçapallida e romantica Põe-me todo derrotado. Amoreninham'encanta, Mederrete, memaltrata, M'envenena, m'enfeitiça, Mefere, me abraza e mata.

Sinhô Juca é forte teima Nãobulacommigo, não... Nãobrinque comobrincou Nanoitede S.João. SinhôJuca, arredelá Sinãolevaum bofetão Eu não quero mais gracinhas DanoitedeS.João. SinhôJuca, você chora (Jáse viutaltentação?) Nãose vá que eujá não ralho Danoitede S.João. Ai meu Deus, sinhô Juquinha, Vocêé os meus peccados! Eis de novo indaoutravez Osmeus protestos quebrados! As artesde sinhôJuca Sãomesmo artes do demonio; Não meposso livrar d'ellas Nem resando a Santo Antonio. Santo Antonio, meu santinho, Já não vales nada, não; O chorardo sinhôsinho Derreteu-me o coração; Santo Antonio, Santo Antonio Quetentação dodemonio.

Não temos musica nacional, a não ser esse monotono motivo sobre que varia mais ou menos o nosso povo othema das suas composições musicaes. Henrique de Mesquita, prodigioso talento musical, verificando a verdade d'este asserto, tentou crear uma musica que se podesse chamar brazileira. Outros o imitaram, mas debalde: não são os maestros que fazem a musica de um povo, é o proprio povo. «A selecção que até aqui temos feito, dividindo a nossa poesia popular em Cantos populares, modinhas e agora canções não é completamente arbitraria. O proprio assumpto o provará ao leitor, mas como isto é uma simples nota, não vale a pena, por ora, entrar n'esta questão que poderá ser depois desenvolvida. A POESIA POPULAR BRAZILEIRA 171 «Damos aqui o nome da canção ao que nas collecções se tem dado o nome de hymnos. Esses hymnos ou canções, como preferimos chamar, são, na sua generalidade, sem nenhum valor. Não os caracterisa uma inspiração larga, franca e generosa.

As grandes canções populares, os cantos nacionaes, não precisam de figuras de rhetorica.

com fastidiosas rimas em il «A prova concludente da falsidade rhetorica d'esses cantos e do seu nenhum merecimento é que não puderam nunca ser assimilados pelo povo, que não só não os canta como não os conhece. Soube o povo condemnar assim o máo gosto, a banalidade, o artificio, a figura de rhetorica sandia, com que pretendidos vates populares revestiram esses cantos inspirados pela adulação de um potentato ou pelas idéas de uma facção. «Os verdadeiros cantos nacionaes, tornam-se em breve populares, quando traduzem os sentimentos de um povo, e não pelas influencias dos governos. Rouget de L'Isle é o autor da Marselheza, mas nenhuma canção em França é mais popular A POESIA POPULAR BRAZILEIRA 173 do que esse sublime canto, que não traduz sómente a aspiração de um povo para a liberdade, mas é já hoje o grito de emancipação de todos os povos. «Ma muse c'estle peuple, dizia o velho e popularBéranger.

Este principio, que a critica reconhece exacto devia ser o de todos os cancionistas populares, que só no povo achariam inspiração, não só elevada e generosa, mas o que mais é, verdadeira.>> Qualquer das fórmas tradicionaes da poetica popularnovella, conto, romance, xacara, canção, verso solto, ou hymno —seja de que origem fôr, conservada pelo nosso povo, ainda que não perfeitamente assimilada e mal comprehendida, deve entrar, embora com a especificação de seu exotismo, na nomenclatura da poesia popular brazileira. Todavia, a poesia popular verdadeiramente nossa seria aquella aqui gerada e aqui nascida da inspiração do nosso povo, por elle comprehendida e que fielmente traduzisse as impressões do seu pensar, as emoções do seu sentir ou as aspirações do seu querer. Seja qual fôr, pois, o valor dos cantos que sob o titulo de Romances e Xacaras formam a 1.ª série da recolta do Sr.

Sylvio Roméro, o que é certo é que, sem embargo das alterações de linguagem e outras que tenham soffrido, das quaes algumas fo- ram já n'este estudo notadas, elles não são menos, e não tanto por sua origem como pelos assumptos que versam, sentimentos que exprimem e idéas que traduzem extranhos ao Brazil. No ponto de vista da genesis da nossa poesia, popular ou culta, o seu estudo é sobre todos importante, pois n'ella havemos de ir achar-lhe as origens, mas, encarados sómente como producto métrico da inspiração poetica popular, valem, ao meu ver, infinitamente menos que a poesia de que falei—aquella que não é apenas uma transformação, sinão que nasceu no Brazil e nos diz os sentimentos, os anhellos, as tendencias do brazileiro, cujo caracter e indole manifesta. «O povo rio-grandense, diz o Sr. Carlos Koseritz, distincto folklorista teuto-brazileiro citado pelo Sr. Theophilo Braga, não tem romances nem xacaras como o portuguez.

Nossa poesia é de versos faceis, que vulgarmente se chamam quadrinhas e que filhos do improviso foram transmittidos de boca em boca, tornando-se propriamente de todos.»> Creio que esta observação póde sem difficuldade ser transformada em lei geral da poesia popular do Brazil, cujos romances exacaras, não são productos genuinamente brazileiros, sinão transformações ou adaptações de romances e xacaras portuguezas, alguns dos quaes apenas foram ligeiramente alterados na linguagem, sendo mais raros os que soffreram alguma modificação intrinseca, si assim posso dizer. E assim pensando não estou em contradição com o que atraz ficou dito: não recuso importancia a essa poesia portugueza para cá transplantada e aqui adaptada, mas essa importancia, certo, não é a mesma, sob o ponto de vista nacional, A POESIA POPULAR BRAZILEIRA 175 que a da poesia que aqui gerou-se no seio do nosso povo quando elle se achou constituido pela fusão das tres raças e feito com as suas caracteristicas proprias.

Esta poesia popular brazileira, tem duas feições sinão distinctas, diversas, uma que julgo poder considerar primordial são esses versos geraes, a outra é a modinha. Essas quadrinhas, tão bellas e tão profundas algumas, são a mais caracteristica e a principal feição pela qual servindo-se da poesia, traduz o nosso povo os seus sentimentos. Ellas são, por assim dizer, o repositorio da alma popular. Com ellas o nosso povo não só diz os seus prazeres, os seus amores, as suas paixões ou os seus desejos, como as suas maguas, as suas ironias, as suas revoltas, todos os aspectos emfim do seu sentir. Ellas encerram a sua sciencia da vida e a sua philosophia popular, assim elle as repete habitualmente em todos os successos da existencia ou cita-as como texto sentencioso, de todos, sinão sabido, comprehendido, a cada passo da vida. Já vimos atraz alguns exemplos d'isso. A collecção do Sr. Sylvio Roméro fornece-nos o ensejo de vermos outros e mais numerosos.

A apprehensão tão propria ás mães respeito o futuro dos filhos, exprime-a assim: Todaa mãe que temfilho, Razão tem parachorar Quenão sabe ainda da sina QueDeus tempara lhe dar. A ironia popular da musa mestiça contra aquelles numerosissimos mulatos que quereriam passar por brancos, traduz-se d'este modo: Cabellopretoe crespo Fazum lindo parecer; Todos querem cabello crespo, Mulato ninguem querser. Ás vezes na traducção da ardentia dos seus desejos, da sua lascivia de mestiço, chega ao sublime como n'esta quadra: Eu queria, ella queria, Eu pedia, ellanão dava; Eu chegava, ellafugia, Eufugia, ella chorava. ou então tem delicadezas d'estas: Eutevi etume vistes, Tume amastes ¹, eute amei; Qual de nós amouprimeiro Nemtu sabes, nem eu sei. 1 Nalinguagem popularbrazileira asegunda pessoa do singulardo perfeito definitoaffectaemgeral afórmado plural. A POESIA POPULAR BRAZILEIRA 177 A animosidade das raças encontra largo écco nas tradições, ditados e versos populares.

N'esta collecção, entre outras, depara-se-nos esta quadra: Bode de cabellogrande Merece serbem penteado, Com pente de cinco pernas, Para não ser confiado. A cautelosa e velhaca prudencia tão de molde para a nossa vida social a quem a sinceridade repugna, ensina-a o nosso povo, não talvez sem uma ponta de ironia: Eu quero darum conselho Aquem o quizer tomar: Quem quizerviver no mundo Hade ouvir, ver e calar. Araça escravisada, comojá anteriormente vimos, traz tambem a sua nota, geralmente ironica: Quando umbranco está comendo, Com um negroem companhia, É o branco o devedor Oudo negro éacomida. 1 Allude aobacalháo, vergalho com que nas fazendas castigavam os escravos. A politica, as commoções populares fornecem tambem thema á inspiração popular que, ou eleva como n'este: Bento Gonçalves da Silva Daliberdade é oguia, É heróe, porque detesta Ainfametyrannia. ou deprime e enxovalha, consoante as inspirações de suas paixões, como n'est'outro por mim ouvido de um velho patriota mineiro de 1842, no interior do Rio de Janeiro: Perguntem ao Sr.

Caxias, Intitulado barão, Quefimelledeu Do oitavo batalhão. Si a poesia popular do Brazil não póde, nem pela copia nem pela variedade, soffrer comparação com congeneres manifestações de outros povos- e sobejam causas que expliquem esta relativa inferioridade—si ella é pobre, como este ensaio apezar de deficientissimo parece ter mostrado, essa pobreza augmenta na Amazonia. A POESIA POPULAR BRAZILEIRA A gente amazonica em que domina, como julgo ter provado, o elemento que á falta de melhor termo chamamos indio, é como esta raça pouco poetica, triste e indifferente. Esta sua apathia, tão caracteristica, é por ventura menos physica que moral. A Amazonia, comquanto seja geographica e socialmente uma região distincta no Brazil, nunca teve um poeta, não direi grande, mas notavel siquer. Este facto me parece digno de attenção e eu não sei até que ponto erraria si fizesse, notar que os grandes poetas brazileiros são quasi todos completamente alheios á raça indigena-a menos poetica das que concorreram para a formação do nosso povo.

Como disse, parece-me aqui a poesia popular excessivamente pobre e algumas tentativas que fiz para recolhel-a foram vans. Além da influencia da raça, é de notar a do genero de vida que levam. Povo pescador, faltaram-lhe os grandes estimulos poeticos da vida mais romantica e mais bella dos povos pastores ou agricultores, onde a florescencia poetica é sempre mais vigorosa. De mais o mestiço amazonico é por indole taciturno e concentrado. A pesca mesmo, nas condições em que, em geral, é aqui feita, força ao silencio. Tudo isto teria accaso contribuido para esta pobreza da poesia popular aqui, onde os descantes a viola, os desafios tão de uso entre os tabaréos, vaqueiros, caipiras e gaúchos do sul são alheios ao povo. Segundo boas e fundadas presumpções seria na ilha de 1 V. As raças mestiças e indigenas da Amazonia in Scenas da Vida Amazonica. Marajó onde se encontrasse menos pobre a poesia popular amazonica.

Sendo a população de Marajó essencialmente pastora e talvez aquella de toda a região onde o elemento predominante da mestiçagem é não o indio, mas o africano, este facto viria abonar as observações feitas sobre as causas da pobreza extrema da poesia popular n'esta parte do paiz. São ainda os versos geraes, as quadras, que, como em todo o Brazil, formam a parte mais importante da nossa poesia popular. Pelo metro, pela inspiração, pelos assumptos, pela notadominante, emfim pelo seu caracter, essa poesia é a mesma que a de todo o paiz. Como amostra d'ella e prova d'isso, traslado para aqui algumas d'essas quadras populares por mim directa ou indirectamente recolhidas. Lávem alua saindo Pordetraz dasamuúma, Tanta mulatabonita Minharêde sem nenhuma. * Vae-te ingrata pelo mundo Procurarmaior riqueza Si não achares quem t'a dê Voltaaoresto dapobreza. A POESIA POPULAR BRAZILEIRA 181 Ingrata quando eu morrer Nasepulturavaepôr Uma lettraem cadacanto: A-M-O-R-amor. * Meubarquinho vae ávella Procurandoamarração, Meubemzinho vae no leme Óque dorde coração.

* Novirard'aquellaponta Plantei umpé de alecrim, No dobrard'aquellaoutra Tenho quem chorepor mim. * Mandeifazerumpunhal Paraemmeupeito cravar, Cravando o punhal no peito Querocomavidaacabar * Si Santarem fosse porterra Meubemzinho iate ver, Mas as ondas do mar1 são bravas Tenho medodemorrer. 1 NaAmazonia, as populações ribeirinhas do Amazonas, chamamaeste riomar. Maria, minha Maria, Meufusinho defiar, Te lembra d'aquelle abraço Quete dei no copiar? * Quandovejomulhermagra Vem-melogo no sentido: Ou é magrade ciume, Ou pancadado marido. Sem affirmar, creio entretanto que n'esta região é ainda mais pobre que nas demais do paiz a poesia popular. Existem aqui os romances e xacaras de origem portugueza, porém muito corrompidos e diminutos em numero e em importancia. São as quadras soltas, repito, a fórma quasi unica por que se revela a poesia popular amazonica. A propria modinha não tem aqui a mesma florescencia que no sul, nem é tão cultivada. Estas observações, porém, longe de serem definitivas, carecem de baseadas em provas que infelizmente nos faltam.

Por menos notavel que possa ser a poesia popular amazonica merece estudada, quando nada para o completo conhecimento do folklore brazileiro, que até aqui tem apenas sido dispersamente feito. 1 Copiar, varanda, puchada, alpendrejá em frente, já atraz da casa.

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