O movimento intelectual brasileiro de 1873-83
O MOVIMENTO INTELLECTUAL BRAZILEIRO NOS ULTIMOS DEZ ANNOS(*) (1883) ãofoi pormero capricho que escolhi a época de 1873 para cá, para estudar comvosco o movimento intellectual brazileiro. Muito de industria o fiz, porque, como vio umdistincto critico cujo nome terei de repetirn'esta conferencia, o Sr. Dr. Sylvio Roméro, é d'essa data que o Brazil pareceu entrar no movimento intellectual que vae lá fóra e que acabo de esboçar em largos e fugitivos traços. Afoito direi que até 73 era miserrima a nossa vida intellectual, limitada na sciencia a alguns trabalhos de erudição historica e juridica, suffocada na Côrte do Imperio pela idolatria (*) Conferencia feita na ephemera Sociedade paraense promotora da Instrucção. Supprime-se o exordio. II2 ESTUDOS BRAZILEIROS romantica e pelo fetichismo que a mocidade professava pelos decrepitos representantes d'aquelle movimento.
A sciencia não existia sinão na repetição menos original dos livros francezes feita nos cursos superiores de mathematica e de medicina e, para dizer tudo, no anno em que me matriculei na antiga Escola Central, hoje Polytechnica, estudava-se mathematica exclusivamente por Lacroix, e os compendios de sciencias naturaes traziam esta advertencia no frontispicio: Approuvé par Monseigneur l'Archevêque de Paris e um d'elles, o de Mineralogia, de Beudant, negava--em 1874- a existencia do homem fossil! Nas academias que, dado o nosso meio social, eram, nem podiam deixar de ser, o centro unico do movimente scientifico, os estudos experimentaes e de observação, base de toda a sciencia e de uma importancia capital e exclusiva para seu desenvolvimento, eram feitos sem laboratorios nem gabinetes, ou em gabinetes pauperrimos, o que quer dizer que, realmente, apenas existiam nos programmas officiaes. Em uma palavra, desde a independencia até 1873, não ha, não conheço ao menos, a não ser talvez a Florafluminense de Velloso, um unico trabalho de valor da sciencia brazileira.
Nada; por estelado a stagnação mais completa. Está claro que existiam os sabios officiaes, creados pela opinião publica ou por simples coteries, sabios que sabiam muito, segundo era fama, mas que nada produziram por onde a critica, que tambem é uma sciencia experimental, podesse aferir do seu merecimento. Em philosophia tinhamos mestres d'essa disciplina e com- O MOVIMENTO INTELLECTUAL BRAZILEIRO 113 pendios, mas nenhum philosopho, que tal nome não merecem nem Mont'Alverne, nem Ferreira França, nem Patricio Muniz. O unico que talvez pudesse fazer jus a esse titulo era Magalhães, mas não fez sinão repetir os idealistas catholicos do seu tempo, sem produzir nem idéas, nem criticas originaes. Reinavam comomestres respeitados o ecletico Victor Cousin, tão illustre no seu tempo quanto hoje completamente esquecido, Maine de Biran, e todo o idealismo francez. A litteratura fóra inteiramente da sua via, pelafalsificação de um movimento que aqui, si tinha razão de ser, não foi bem comprehendido, o movimento romantico, em vão luctava para achar seu caminho e seu destino.
Como o romantismo na Europa fôra, sob uma fórma litteraria, uma revolução democratica, que voltou-se, de um lado, para o passado medieval em que o terceiro estado ia encontrar a origem gloriosa da sua formação, de outro para as origens poeticas e tradicionaes do sentimento popular, seguindo a corrente creada pelos irmãos Grimm, na Allemanha, os Thierry e posteriormente Michelet, em França, Garrett e Herculano, em Portugal, os nossos litteratos, não achando ou não vendo atraz de si sinão a indio, o selvagem, entenderam ser elle o passado brazileiro, e puzeram-se a cantal-o em prosa e verso, falsificando a ethnographia do paiz que se crearam ao saborde sua imaginação, e revivendo a tradição epica de Basilio da Gama e Durão, na Confederação dos Tamoyos e nos Timbiras.
Isto quanto á primeira phase do romantismo, porque a segunda, inspirada de Musset e Byron sáe ainda mais do caminho no fim do qual podia estar a verdade e produz os nostalgicos da desgraça, especies de Manfredos manqués como Alvares de Azevedo, Aureliano Lessa, Junqueira Freire e outros muitos, indo continuar-se até 1873, em Varella e Castro Alves. É principalmente na poesia e no romance que se manifesta em todos os tempos a litteratura brazileira. Domovimento perfunctoriamente esboçado,salvam-seapenas, além dos poetas cujos nomes citei e cujo valor é incontestavel, o primeiro lyrico nacional, Gonçalves Dias, e a mais poderosa organisação litteraria que hajamos tido,José de Alencar. N'esse periodo, entretanto, um homem de verdadeiro talento ede extraordinaria intuição artistica, Martins Penna, lança no Irmão das almas e em outras comedias, as bases do theatro nacional.
Infelizmente seu nome não tinha autoridade, e as suas tentativas morreram suffocadas pelos applausos que festejavam esses monstros litterarios chamados AntonioJosé, Olgiato, Othelo, que o romantismo nos dava pela grande voz de João Caetano, o celebre actor nacional. E nunca mais tivemos theatros, e ainda hoje a critica não descobre uma só esperança no campo dos nossos escriptores que cultivam esse genero. Em 1873 si é possivel assentar nos estreitos limites de um anno o inicio de um movimento da ordem d'aquelle de que trato em 1873, uma evolução salutar, e inexperada porque seria difficil encontrar-lhe antecedentes no paiz, dá-se na mentalidade brazileira.
Procurando as causas geradoras d'este phenomeno que não podia deixar de as ter-acho-as todas em factos estranhos por assim dizer á vida intellectual: aguerra do Paraguay, o movimento republicano de 1870, a guerra franco-prussiana e por fim a questão impropriamente chamada reli- O MOVIMENTO INTELLECTUAL BRAZILEIRO 115 giosa, que, em verdade, não passou de uma questiuncula sem nenhum alcance philosophico, entre as sacristias e as lojas maçonicas. Todos estes movimentos, despertando cada um por seu modo a consciencia nacional, chamaram-na á realidade dos grandes interesses que se debatiam fóra d'aqui no mundo moral e puzeram-na em communidade de sentimentos comsigo mesmo. A guerra do Paraguay, como disse em uma conferencia realisada por mim em 1880, sobre a Constituição da nacionalidade brazileira, tem na nossa historiamoderna- echamo nossa historia moderna a da nossa vida social após a independencia ·uma importancia capital: a de ter contribuido para a consolidação da nossa unidade.
Pela primeira vez depois da emancipação politica do paiz, o povo brazileiro sentio praticamente -se assim me posso exprimir—a responsabilidade que impõem aos seus membros essas collectividades chamadas nações. Pela primeira vez o povo brazileiro, que até ahi vivia segregado e ignorando-se mutuamente nas provincias, divididas por menos que mesquinhas rivalidades, encontrou-se fóra das estreitas preoccupações bairristas de campanario, no melhor dos campos para estreitar aconfraternidade de um povo―o campo da batalha. As idéas e os sentimentos trocaram-se de provincia a provincia, as relações de acampamento prolongaram-se após a guerra, houve emfim uma vasta communicação interprovincial do norte para o sul, cujos effeitos, que não posso analysar longamente, se fizeram forçosamente sentir na nova orientação da mentalidade nacional.
O movimento republicano, pondo uma nota discordante e bastante aguda para fazer-se ouvir em todo o paiz, no concerto das nossas funcções publicas, despertou a consciencia politica dos cidadãos que, como o Pangloss de Voltaire, se acreditavam no melhor dos mundos possiveis. Á frente d'esse movimento, ephemero mas significativo, acharam-se porummomento homens que pertenciam ao scól dos nossos publicistas e oradores como Saldanha Marinho, Christiano Ottoni, Flavio Farnese, Laffayete Rodrigues Pereira, actualmente presidente do Conselho de Ministros (o que prova que ha muitos caminhos para ir á Roma), Limpo de Abreu, Quintino Bocayuva, Salvador de Mendonça, Amaral e muitos outros, que pela autoridade dos seus nomes e respeitabilidade do seu caracter, congregaram em torno de si, no mais bem feito jornal que ainda houve no Brazil, a primeira Republica, uma mocidade generosa, a quem uma nova idéa politica abria tambem novos ideaes litterarios. As adhesões que chegavam das provincias, entre as quaes se contava a nossa com o Futuro, alargavam o circulo da acção d'esse movimento.
Aguerrafranco-prussiana teve grande importancia na evolução a que me refiro, dislocando por um momento a supremacia intellectual que no mundo civilisado, e principalmente entre nós, exercia a França. Com effeito, essa formidavel guerra, chamou a attenção de todo o mundo para a Allemanha que a um tempo vencia a até então invicta França e consolidava a sua unidade nacional, revelando uma superioridade de cultura sobre a sua rival que a todos espantou. E, coisa curiosa! foram ainda os livros fran- O MOVIMENTO INTELLECTUAL BRAZILEIRO 117 cezes inspirados pela sciencia e critica allemas, ou os livros allemães traduzidos por francezes, como as obras de Büchner, de Moleschott, de Schopenhauer, de Strauss, de Hartmann, de Virchow, de Hoekel, que nos puzeram a par de uma nova fórma mental, geralmente por nós ignorada, e que grande influencia teve na evolução apontada.
Por outro lado a França tambem, tendo a consciencia da decadencia a que a tinha levado o nefasto governo do segundo imperio, procurou reerguer-se pelareconstituição das suas idéas, a que, graças a liberdade que encontrou sob a sua actualfórma de governo, deu maior expansão, voltando-se já para o um pouco esquecido positivismo de Comte renovado por Littré, já para as theorias inglezas do transformismo darwinista ou do evolucionismo spenceriano, já, emfim, para o monismo allemão. Os novos livros, portanto, que nos chegavam de França, que até então fôra a nossa mestra exclusiva, traziam-nos um sopro mais largo, e onde a positividade inconsciente dos nossos melhores espiritos achou o elemento de que justamente carecia para ter consistencia.
A cultura allemă influindo igualmente em Portugal, de cujos absoletos autores recebiamos tambem lições, creou ali uma pleiade brilhante de escriptores, como Theophilo Braga, Adolpho Coelho, Joaquim de Vasconcellos, Ramalho Ortigão, Antero de Quental e Luciano Cordeiro, cuja acção—digo-o de experiencia propria, não foi pequena namentalidade brazileira, substituindo-se a dos velhos rhetoricos que nos davam leis do outro lado do Atlantico. Com este impulso que se dava nos espiritos e que tinha por principal, sinão unica arena, os centros academicos, d'onde se irradiava em artigos de jornaes ephemeros e de revistas de pouca vida, coincide a chamada questão religiosa, provocada por insignificantes brigas de ópas e balandráus, por dois bispos, o d'esta provincia e o de Pernambuco, hoje fallecido, que levantaram pretenções inspiradas do moderno codigo da igreja catholica-o Syllabus, pretenções que os regalistas acharam desarrasoadas.
Entretanto, apezar do nenhum alcance philosophico ou mesmo social da questão, a consciencia nacional sobresaltou-se, por que com justo presentimento vio que por detraz de uma méra e ridicula querélla de sacristia, existiam intenções que, dado o caracter vigoroso e resoluto de quem as tinha, podiam comprometter, não a inviolabilidade das leis do placet, que é questão de somenos importancia, mas o desenvolvimento, no sentido moderno, do espirito nacional. A imprensa de todo o paiz-excepção feita de meia duzia de jornaes clericaes-levantou-se unanime a condemnar o procedimento dos dois bispos, e abrindo lucta com elles aconteceu o que sempre succede quando se combate os ministros de uma religião, a mesma religião e seus dogmas foram discutidos, pela primeira vez, de uma maneira geral do norte ao sul do Imperio. Para sustentar a discussão, abriram-se os livros impios; estudaram-se os modernos exegetas do Evangelho, os criticos religiosos e os historiadores menos parciaes da igreja.
Pela primeira vez appareceram, despertando a curiosidade e attraindo novos leitores, os nomes de Renan, Strauss, Drapper, Quinet, Michelet, Littré, etc. Nas academias, principalmente nade Per- O MOVIMENTO INTELLECTUAL BRAZILEIRO 119 nambuco a quem, como demonstrou o Sr. Sylvio Roméro, cabe a primasia no movimento que faz objecto d'esta conferencia, a mocidade perdia na lucta dialectica de todos os dias, as crenças do seu romantico idealismo christão, e fazia dos livres pensadores os seus guias e mestres. N'aquella cidade a Palavra, umjornal de combate, redigido por Franklin Tavora, Sylvio Roméro, Souza Pinto, Tobias Barreto e outros, discutia, sinão com profundeza, com sinceridade e boa fé, todos os problemas de sciencia, de litteratura, de arte e de politica, segundo o criterio da nova orientação philosophica e no Rio de Janeiro a Idea, revista mensal de Miguel Lemos e Teixeira de Souza, agrupava nas suas columnas, por este mesmo tempo e nos mesmos principios, o que havia de mais distincto no corpo academico d'aquella cidade.
No parlamento algumas vozes eloquentes, servindo embora convicções da incolor metaphysica constitucional, mantinham este utilissimo alvoroço dos espiritos. Nos principaesjornaes do Rio deJaneiro, no Jornal do Commercio, no Diario do RiodeJaneiro e depois no Globo, um polemista valente, o representante mais autorisado da maçonaria brazileira e do partido republicano, sustentava, sob o famoso pseudonymo de Ganganelli, em artigos queaimprensade todo o Brazil reproduzio, a lucta anti-clerical. Não ha negar o muito que actuou nos espiritos com estes artigos o Sr. Saldanha Marinho; nunca mesmo um escriptor n'este paiz foi tão lido e apreciado, mas o espirito de seita em que eram escriptos e á falta de uma direcção philosophica systematica faz com que os tres grossos volumes em que foram reunidos aquelles artigos sob o titulo A Igreja eo Estado, sejam I20 ESTUDOS BRAZILEIROS hoje apenas um documento importante para a historia d'aquella lucta, sem mais valor theorico. A este trabalho, juntaram-se ainda outros livros e folhetos entre os quaes cumpre destacar dous: a Igreja no Estado do Sr.
Conselheiro Tito Franco d'Almeida e o Direito contra o direito do Sr. D. Antonio de Macedo Costa, bispo d'esta diocese. O principio regalista das prerogativas do Estado encontrou no Sr. Franco d'Almeida um habilissimo defensor, entretanto, o principio era estreito, e tratado de umafórmajuridica, fazia da questão um simples negocio de politica. Á mocidade não agradou esse livro, aliás erudito e bem feito, preferindo sempre o do Sr. Saldanha Marinho que, no meio do embaralhamento de idéas do racionalismo metaphysico, tinha a seus olhos dous grandes meritos, o de levantar a bandeira da separação da Igreja e do Estado, e o espirito de livre pensamento que por vezes resumbrava. De quantos volumes, porém, appareceram por essa época e sobre esta questão, o mais importante, o que mais calou no espirito publico foi o do bispo do Pará, o já citado Direito contra o direito, porque escripto com uma dialectica vigorosa, uma sinceridade de convicções palpavel, e uma louvavel franqueza, tinha ainda por si ser perfeitamente logico.
As novas gerações que despertavam applaudiram, pois, essa obra, em que o inimigo descobria-se com honrosissima lealdade e cujas conclusões, que achavam perfeitamente logicas, levavam fatalmente a este dilemma: ou a Igreja livre no Estado ou a separação d'um de outro-a mais bella aspiração, n'esta ordem de idéas, do pensamento moderno. O MOVIMENTO INTELLECTUAL BRAZILEIRO I2I E apezar dos ataques de Ganganelli, e da rigorosa e erudita refutação do Sr. Tito Franco em artigos primeiro publicados no Jornaldo Commercio, sob o pseudonymo O Canonista, e mais tarde colligidos em volume, o livro, com suas verdadeiras conclusões, ficou de pé. A instrucção publica entrou a occupar de uma maneira mais séria a attenção dos governos e do publico.
A typographia nacional tirava em volume as traducções dos trabalhos de Hippeau sobre a instrucção publica nos Estados-Unidos, na Inglaterra ou na Prussia, reformava-se o Collegio de Pedro II, creavam-se conferencias e cursos publicos e por fim, em 1874, o governo reformou o antigo curso de engenharia da Escola Central, creando a Escola Polytechnica e n'ella além dos cursos das artes de engenheiro civil, manufactureiro ou de minas, as duas importantissimas secções de sciencias physicas e naturaes e de sciencias physicas e mathematicas, mandando vir da Europa professores como Guignet, o mineralogista Gorceix, a quem depois incumbiu de fundar a Escola de Minas de Ouro Preto, o physiologista Couty, dotando ao mesmo tempo mais generosamente os laboratorios e gabinetes e enviando professores á Europa, a estudarem os aperfeiçoamentos das materias que ensinavam. Nos novos programmas, pela primeira vez appareciam nos cursos academicos, os nomes de certas disciplinas, como a biologia e outras. Ao mesmo tempo nas provincias, dava-se igual movimento de espiritos.
Já falei de Pernambuco, onde a mocidade academicaantes da do Rio deJaneiro lia e criticava os modernos pensadores; no ΙΟ Ceará, aoredordeum moço prematuramentefallecidoedequem ha com o titulo de Litteratura e Critica, um livro posthumo, Raymundo da Rocha Lima, agrupavam-se outros como AraripeJunior, a quem desde o anno passado deve anossalitteratura um dos seus melhores livros de critica, o perfil litterario deJosé de Alencar; Capistrano d'Abreu, intelligencia ponderosa e depois autor dos Estudos da historia do Brazil no seculo XVI; Thomaz Pompeu, orador fluente e agradavel, e outros. No Rio Grande, tambem, não ficára perdido este exemplo; a immigração allemã que para ali affluia, impregnava de germanismo os escriptores e jornalistas, á frente dos quaes estava Carlos Koseritz. D'ali parte em 1874, o Fim da Creação, de Araujo Ribeiro, a primeira obra francamente darwinista, sinão materialista, escripta no Brazil. Em S. Paulo, um pensador solitario, um medico de Jacarehy, o Dr.
Pereira Barreto, estuda e propaga a philosophia positiva, publicando em 1874 o primeiro volume da sua obra, ainda não concluida, As tres philosophias. N'esta resenha, que não posso alongar, é impossivel encontrar o Pará, a quem, com pezar o digo, a civilisação brazileira nada absolutamente deve, porque a propria questão religiosa que si não nasceu aqui, ao menos aqui teve enorme repercussão, não passou na nossa provincia de uma insignificante e mesquinha lucta de facções, sustentada na imprensa diaria em artigos sem alcance, nem novidades. Si alguma cousa produziu, foi um falso e estupido sentimento de nacionalidade que gerou, para vergonha nossa, o jornal e o em tudo minguado partido da Tribuna.
O MOVIMENTO INTELLECTUAL BRAZILEIRO 123 Não devemos, entretanto, dar a esta agitação importancia maior do que aque realmentemerece.Ella existe, é certo,e actúa fortemente nos espiritos, mas espalha-se, dispersa-se, nojornalismo de todo o paiz, em brochuras lidas e logo esquecidas, em ephemeras revistas e jornaes academicos, em conferencias e discursos publicos, nas discussões das sociedades litterarias que,nos centros principaes como Pernambuco, Rio, S. Paulo,Rio Grande do Sul e Bahia, formigam como saúbas após umagrande chuva. Jámais se condensou em uma corrente unida e cerrada, que produzisse grandes resultados, isto é, grandes obras, d'essas que fazem a gloria de um homem e a honra de umalitteratura. Para isso ha uma causa de um valor capital: o não poescriptor brazileiro viver das suas obras, o que obriga-o forçosamente a não passar de um simples amador, umdiletantte. E na litteratura, como na sciencia, como na arte, o amador é, em regra geral, um ente sem valor, de perniciosa influencia.
É só a profissão que faz as grandes personalidades litterarias ou scientificas, pelo trabalho de toda a hora, pelo constante e incessante estudo. Quer os nossos sabios, quer os nossos litteratos, o são de horas vagas, furtadas ás occupações do ganhapão diario. Um paiz em que a mentalidade fica assim sembase material, não póde aspirar a produzir um movimento intellectual fecundo em resultados. Comtudo e honra seja aos trabalhadores que sem recompensas, nem, as mais das vezes, a da consideração publica, não esmorecem no labor apezar do meio pouco propicio ao estudo o movimento se accentúa e a litteratura---tome-se esta palavra na sua mais lata accepção toma um desenvolvimento até então não visto aqui. A reforma do Museu Nacional do Rio de Janeiro põe ali em honra os estudos experimentaes e faz apparecer pela primeira vez de um modo systematico no paiz o estudo da anthropologia e da ethnographia.
Nos cinco volumes publicados dos Archivos d'aquella importantissima instituição, encontram-se jáexcellentes trabalhos originaes de anthropologiapelos Srs.Lacerda Filho e Peixoto, de physiologia por aquelle senhor, de ethnographia e archeologia pelos Srs. Ladislau Netto e Ferreira Penna, de physiologia botanica pelo mesmo Dr. Ladislau Netto, além de outros de naturalistas estrangeiros ao serviço do Brazil, como o professor Hartt, Orville Derby, Ch. Wiener, Fritz Müller, etc. Nos Ensaios de sciencia cujo primeiro fasciculo appareceu em 1873, o Dr. Baptista Caetano d'Almeida Nogueira, revela-se um digno discipulo n'este paiz da sciencia dos Bopp e dos Schleicher, e pela vez primeira o estudo das linguas indigenas brazileiras é feito segundo os novos methodos da sciencia da linguagem.
Barbosa Rodrigues, de volta da sua expedição scientifica ao Amazonas, publíca, além do Sertumpalmarum novarum, onde estuda e descreve 62 especies novas de palmeiras, diversas e interessantes monographias sobre os varios affluentes do grande rio por elle explorados, enriquecendo a sciencia de novos dados geographicos, botanicos, zoologicos, archeologicos e ethnographicos d'esta immensa região. Ao mesmo tempo que os Archivos do Museu vem a lume os Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, a revelar-nos a importancia até então desconhecida do estabelecimento que possuiamos e que tão nota- O MOVIMENTO INTELLECTUAL BRAZILEIRO 125 vel se tornou sob a administração do seu ultimo bibliothecario, o Dr. Benjamin Franklin Ramiz Galvão, um erudito de raça. Os Annaes dos quaes estão publicados nove volumes, honram sobremaneira aquelle estabelecimento, e contém artigos de subido valor litterario. Nos 6.º e 7.º volumes encontram-se duas obras de largo folego do já citado Dr.
Almeida Nogueira: o Esboço grammatical do abañée e o Vocabulario guarany da traducção por elle feita de um manuscripto deixado n'aquella lingua pelos padres jesuitas. Esta ultima obra, um verdadeiro trabalho de benedictino, em outro paiz traria ao seu autor uma nomeada, sem a qual, entretanto, morreu o nosso sabio linguista. Nas academias começaram os expositores francezes a serem substituidos por compendios dos proprios professores, nos quaes, entretanto, se nota ainda uma falta de originalidade sinão na exposição, nos factos analysados, a provar uma grande pobreza de estudos originaes. Todavia era já um passo dado, e é de esperar que a introducção dos estudos experimentaes do Brazil e a nova organisação do nosso ensino medico e do das sciencias physicas e naturaes, crêem entre nós alguns verdadeiros homens de sciencia, que possam citar experiencias, factos e leis por elles mesmos feitas, estudados e descobertas. A litteratura, por seu lado, abandonava as illusões romanticas, procurando, no romance principalmente, realisar o ideal de uma litteratura verdadeiramente nacional.
Da primeira época tinham escapado dous romancistas conhecidos, José de Alencar e Macedo. O primeiro, graças a sua organisação feminina, de um extraordinario nervosismo, a quem, parece, a realidade re- pugnava, não poude jámais acertar com esse ideal que, aliás, mais do que ninguem procurava. E é justamente esta tendencia que salvará Alencar do olvido, porque ninguem se esforçou ainda tanto como elle pela creação da litteratura brazileira, nem combateu com mais energia a nossa subserviencia litteraria a Portugal. Infelizmente, Alencar, pela razão dada, falsificava tudo em que tocava, por uma necessidade de crear, de idealisar, ingenita ao seu organismo, mas que punha-o forçosamente fóra da verdade. Entretanto, si houvermos de admittir ainverdade na arte, o grande romancista deixou-nos duas obras primas que honrariam ainda as mais ricas litteraturas, o Guarany e a Iracema. Macedo, a quem não faltava vocação litteraria, carecia no emtanto de um principio dirigente, o que fez que não fosse elle, apezar de para isso ter dotes incontestaveis, o creador do romance genuinamente brazileiro.
Depois de Penna, foi o mais perfeito autor dramatico que temos tido. O que prova, porém, uma nova orientação das idéas dos nossos romancistas, é que o proprio José de Alencar, deixa a sua illusão indianista para estudar de 1873 para cá um meio mais brazileiro, no Gaucho, no Tronco do Ipê, e no Sertanejo. Pelo mesmo tempo apparecem os romances de Sylvio Dinarte (Escragnolle Taunay) e os de Franklin Tavora, que, embora comprehendendo o naturalismo cada um a seu modo, vêm concorrer para o abandono completo do culto indianista pelo estudo de dramas e actores mais nacionaes. Entretanto, este segundo periodo não tem, na poesia, um emulo de Gonçalves Dias. O MOVIMENTO INTELLECTUAL BRAZILEIRO 127 Castro Alves morre em 72, Varella exhausto publíca o Evangelho nas Selvas, a doutrina christă posta em magnificos versos soltos, mas sem outro valor.
Ha hoje uma nova geração de poetas, vivazes e alguns vigorosos, comoTheophilo Dias, Luiz Guimarães, Affonso Celso Junior, Mucio Teixeira,Valentim Magalhães, Arthur de Oliveira e alguns mais, porém a não serem talvez Luiz Guimarães e Mucio Teixeira, nenhum ainda conta obras bastante firmes por onde possamos augurar álitteratura brazileira umgrande poeta. Entre os escriptores de todo o genero, historiadores, criticos, essaistas, occupando-se de sciencia, de philosophia ou de arte, não devo esquecer os nomes de Tobias Barreto de Menezes, Souza Bandeira Filho, Capistrano de Abreu, Pacheco Junior, Machado de Assis, Escragnolle Taunay, Franklin Tavora, Sylvio Roméro, Araripe Junior, que representam, cada um conforme com o seu temperamento e educação, as modernas tendencias do intellecto brazileiro. Parece-me que eu escusaria falar da arte.
Está claro que dependendo a existencia de uma arte nacional da existencia de uma corrente de tradições historicas, litterarias, éthnicas, artisticas, que todas concorram para alimentar o sentimento esthetico, não póde existir no Brazil uma arte brazileira. Possuimos alguns grandes artistas de que nos podemos orgulhar como Carlos Gomes na musica,Victor Meirelles e Pedro Americo na pintura, Bernardelli na estatuaria, mas não temos arte, por que esses todos são ou italianos ou francezes, conforme as escolas em que estudaram e as tendencias do seu espirito. Eis ligeira e imperfeitamente dito, o que é o movimento intellectual brazileiro dos ultimos dez annos. N'esta synthese rapida que acabo de fazer escaparam sem duvida alguns nomes e factos, assim como pontos ha que careciam de maior desenvolvimento; mas, sem abusar da attenção com que me honraes e que agradeço, não podia eu proceder de outro modo.
Para dirigirmo-nos com segurança para o futuro, precisamos conhecer o passado; creio, pois, que não foi ocioso o estudo que acabo de fazer, e espero que não se romperá a corrente começada em 1873, que irá de dia para dia elevando 0 nivel da mentalidade brazileira. Terminarei, por isso, por um voto; o de que o Pará não fique fóra d'esse movimento, e comprehenda que para a gloria e a honra, e para a propria felicidade material de um povo, não basta produzir borracha.