Nas malocas
NAS MALOCAS CARTA (1882) RAÇAS á muita amabilidade do distincto cavalheiro que administra actualmente na provincia do Amazonas, fiz no mez de Setembro ultimo uma excursão por aquella riquissima e futurosa terra e tive,a occasião, apreciabilissima para mim, de visitar algumas malocas de indios aldeados, visita de que vou dar conta, quebrando assim oproposito que fizera de não occupar-me, durante a licença que tive, e em cujo goso ainda me acho, de cousa que se parecesse com trabalho intellectual. É verdade que o que ahi vae, não merece talvez esse nome e em nada altera, portanto, o regimen hygienico que me tracei e que, a falar a verdade, começa a pezar-me. As malocas visitadas por mim foram Andirá, Uariarú, Mocajatuba, Paricatuba e Abacaxis; as duas primeiras no rio Andirá, as outras no Maués e a ultima no Canuman, onde tam- bem estivemos na aldea d'este nome, quejá não merece aquella qualificação comquanto todos os seus habitantes sejam indios. puros ou descendentes immediatos.
Antes de proseguir, direi da impressão que me causou a grandeza, para mim inesperada, dos dois rios Andirá e Maués, que, na ignorancia em que nós todos mais ou menos vivemos da geographia da nossa patria, eu tinha por pouco importantes cursos d'agua, sem nenhumabenemerencia de menção em compendio de geographia. Pois não é assim. Qualquer d'esses dois rios é um grande rio que ainda n'aquella época, de plena vasante, apresentava um enorme volume d'agua cuja profundidade não foi jámais de menos de 3 braças, attingindo algumas vezes a 12 e mais. Era a segunda vez que a quilha de um navio cortava, além de certas paragens conhecidas, as aguas crystalinas e limpidas d'esses dois rios, de formosissimas margens, onde alvejavam extensas e bellissimas praias, destacando-se entre a verdura da luxuriosa matta e as aguas negro-uzues. O Moema era o segundo vapor que visitava aquellas malocas; o primeiro levara tambem um dos presidentes da provincia, ha já alguns annos.
Quando o escaler, que nos levou para terra, embicou na areia finissima da bella praia sobre a qual se ergue em um terreno que se vae insensivelmente elevando a maloca do Andirá, já estavam ali á espera de quem quer que fosse e presumiriam que fosse alguma autoridade á vista do navio, do escaler de bandeira erguida e marinhagem fardada, o tucháua ou capitão e seu ajudante ou alferes, como é tratado. NAS MAALLOOCCAASS 63 Eu confesso que não pude conter o primeiro movimento de riso ante aquellas duas figuras.
O tucháua, um indio baixo, gordo, de côr escura carregada, com uns pequenos olhinhos horisontaes, a pêra curta, e bigodes asperos, grisalhos, o cabello duro espetado, muito negro, apezarde dever ter os seus setenta annos, segundo os calculos que fizemos, o pescoço curto e o corpo grosso attarracado, tinha um aspecto de anta, a quem houvessem posto de pé, vestido uma farda de capitão da guarda nacional em grande gala, encasquetado um chapéo armado de pluma verde, apertado uma banda encarnada á cintura e calçado uns grosseiros sapatos grandes e grossos, por cujos canos se prendessem as calças de ganga amarella. Este capitão Antonio Joaquim que tal é o seu nome não falava uma palavra de portuguez, mas respondia ás nossas saudações por intermedio do seu alferes, fardado como elle com uma farda de guarda nacional da respectiva graduação. Já vêm os meus amigos que, ao menos nas malocas, a guarda nacional está em pleno florescimento: que esta noticia, que eu tenho a felicidade de transmittir, console aquelles que lhe choram a decadencia.
Feitas as apresentações do muruichána (presidente) e do tucháua pozemo-nos a visitar a maloca composta de umas 23 miseraveis barracas de palha e uma pequena capella tambem de palha e bastante arruinada. Nada encontramos ahi de mais notavel, sinão uma velha india rodeada de filhos quasi tão velhos como ella, netos e bisnetos, e cabello quasi todo branco, a pelle enrugada, emfim um typo de velha guariba. Calculando-lhe a idade pela qual tinha na época da revolta (1835) que é o marco milliario para ocomputo do tempo entre agentevelha d'estas paragens, e pela dos filhos e netos, vimos que não devia ter menos de 100 a IIO annos. Guardando mais para adiante as impressões geraes que me ficaram d'esta visita ás malocas, sigo com a viagem do Moema. A segunda maloca visitada foi a de Uariaú, aldea de indios Maués, á margem esquerda do rio Uariaú, affluente do Andirá, em boa posição. Compõe-se de 18 miserabilissimas palhoças, algumas das quaes bastante compridas e, para habitação de diversas familias, divididas por paredes tambem de palha.
Em cada uma d'aquellas casas vivem promiscuamente individuos de ambos os sexos. Um esteio fincado no centro basta para amarrar n'uma sala geralmente quadrada seis, oito e mais redes. É incrivel a miseria em que vive estagente,a quem faltam até os objectos mais indispensaveis à sua vida: as proprias armas de pesca e os mais necessarios utensilios domesticos. Visitei, uma por uma, todas as barracas e observei attentamente que em quasi nenhuma havia o que comer e nem siquer fogo feito entre as tres pedras que lhes servem de fogão. Como os do Andirá, os indios do Uariaú têmumaspecto fraco e amolentado. São uma raça que degenera ao contacto de uma civilisação que não comprehendem e que lhes é ma1 Tacurua é o nome indigena d'esta trempe-fogão. NAS MALOCAS 65 drasta. São baixos, de corpo grosso, de physionomia inexpressiva, têm alguma barba, pouca, no bigode e no mento sómente; os olhos são pequenos com a palpebra superior caída.
É rarissimo encontrar entre elles um individuo com dentes sãos; em quasi todos, sinão em todos, faltam os dentes da frente da maxilla superior, o que concorre muito para afeial-os, principalmente ás mulheres, entre as quaes foi-nos impossivel encontrar uma belleza, ainda relativa. Contrariamente ao que se nota entre as populações ribeirinhas do Amazonas- -descendentes da mesma raça·- asquaes são, geralmente, aceiadas, os Maués, quer d'aqui quer do Andirá,. são muito pouco dados a limpeza, havendo nós notado em muitas moças uma grande falta de aceio, que as torna repugnantes e dá-lhes o odor especial de certas aves, como o japiim ou chechéo (Cassicus icteronotus). Trazem os negroscabellos, que lhes crescem com abundancia invejavel, muito maltratados e cheios de piolhos, que mutuamente se catam, com uma faca de ponta, trincando-os depois nos dentes, como vimos.
São quasi todas agradaveis e affaveis e facilmente se familiarisaram comnosco, o que não aconteceu logo com os homens, os quaes, não só n'estas como nas demais aldeas quevisitámos, fugiram todos para o matto, á noticia, adrede espalhada pelos regatões, de que o presidente da provincia vinha recrutal-os. (Eis mais um documento para juntar aos dois compadres que se mataram depois de beberem juntos aguardente do regatão consoante a historia contada ahi na Assembléa Provincial.) É verdade que ás nossas affirmações de que não ha- via receio de recrutamento e aos chamados dos capitães vinham pouco a pouco apparecendo, e mostrando-se mais confiantes. Em honra do presidente da provincia foi organisado um poracê ou baile n'uma sala pessimamente illuminada por duas lamparinas de folha, de fórma conica, servidas com kerosene, que lhes vendem os regatões, unicos homens civilisados com quem têm contacto. As danças constaram do gambá, umas cousas que se pareciam polkas e walsas, e lundús, dançado tudo aosomdamesma musica, o que para nós civilisados fôra talvez impossivel.
O gambá tira o nome do instrumento que n'elle serve: um cylindro de Im de comprimento, feito de madeira ôca, em geral de molongó ou jutahy, com uma pelle de boi esticada em uma das extremidades á guisa de tambor, ficando a outra aberta. Tocam-no assentados em cima, batendo com as mãos abertas sobre a pelle. A orchestra compunha-se de dois d'estes instrumentos e mais duas caixas a que chamam tamborins, fazia um grande barulho pouco melodico que parecia ser muito apreciado por elles. Esta musica que merecera o conceito de Talleyrand, de que a musica é apenas um barulho supportavel—era invariavelmente acompanhada de cantos não menos monotonos do que ella.
A parte dançante do gambá consiste em uma especie de lundú em que o cavalheiro estallando castanholas com os dedos e sapateando com os pés gira em retorcidas posições em torno da dama que pelo seu lado roda tambem, como a fugir- NAS MALOCAS 67 lhe a um amplexo, emquanto os musicos tocam e cantam, repetindo-se enfadonhamente: Capitão barateiro, Zonda do má I Prometteumas não deu, Zondado má Sete saiade chita, Zonda do má Paradiade anno, Zondado má. Etc., etc. ou então esta incorrecta, incompleta e estropeadissima versão do celebre romance popular portuguez A náo Cathrineta: Arriba, arribagageiro, Aaquelle tope reá Avistaterrade Hespanha Areiaem Portugȧ. Marinheiro vieram de longe, Nogrande navio de guerra. P'rastarem hoje encalhado No caná da Ingraterra. Avistaramterrade Hespanha Areia em Portugá 1 Ondas do mar.
Não avistei terra de Hespanha, Nemareiaem Portugá, Avisteitres menina Em baixo dolaranjá Mostrava serfilha Do capitão generá Amais pequena d'ella, Para contigocasá Não queroavossafilha Que lhecustou a creá Queroomeu anáu (sic) Cathrineta Paranomarnavegá Nemissote posso dá, Te darei em dinheiro, Não quero vosso dinheiro, Quevos custou aganhá. De accordo com os mestresda sciencia que estudam as manifestações estheticas do sentimento popular, transcrevo exactamente tal qual lhes ouvi a elles pronunciar, os versos que ahi ficam, e de cuja significação no meu entender elles não têm consciencia repetindo-os apenas como indispensavel acompanhamento á musica e á dança, com as quaes não têm aliás a menor relação. E mais me confirma n'esta idéa, que quando lhes pedi que m'os dictassem, foi preciso que cantassem para se lembrarem, não sendo capazes de os recitarem de cór.
E si eu, estranhando a desconnexão que não só n'estes transcriptos, mas em outros que lhes ouvi se nota, procurava fazel-os supprir as evidentes lacunas, jámais o consegui, provando NAS MALOCAS 69 as suas respostos constantes de ser assim que cantavam, que não os comprehendiam. Ao som da mesma musica e comos seguintes versos, cantados n'uma toada molle, dançam a tyranna, que não passa de uma especie de polka compassos meneiados como os do lundú. Eis os versos: Eu vi, euvi, tyranna, Ninguemme contou, tyranna, Meu amor,ingrata, tyranna, Nãosei comonão morri, tyranna. Bisados os dois ultimos versos, voltam a repetir a quadra toda o que podem fazer cem vezes semdar mostras de enfado. Ojacundá¹ consta de um circulo formado por homens e mulheres alternadamente de mãos dadas. Para o meio do circulo vae um homem ouuma mulher em torno do qual gira todo elle, sempre ao som da mesma musica e da seguinte cantiga: Vamosgapuiá, 2 Jacundá, Debaixodo páo, Jacundá, 1 Ojacundáé um peixe, e a dança descripta parece serumarepresentação dasuapesca.
2 Gapuiar,verbo de origem tupy-guarany,pescarnos baixios umpouco ao accaso lançando o harpão ou a flexa aqui e ali, caçar pequenos peixes áaventura nos lugares baixos. Gapuia, gapuia, Jacundá, Vamosgapuiá, Jacundá, Noburaco dapedra, Jacundá, Ai! não deixafugí, Jacundá, O peixinho é gostoso, Jacundá, Jacundá pintadinho, Jacundá, Nomeio da roda, Jacundá, Pelos garapé, 1 Jacundá, Ai! segura, segura, Jacundá. O jacundá, isto é, o sujeito ou sujeita de dentro procura escapar-se do circulo para o meio do qual é empurrado pelos que o formam, até que por fim escapa-se indo aquelle ou aquella que o deixou safar-se, substituil-o na roda, continuando assim o jogo por muito tempo ao som monotono da cantiga repetida interminavelmente. Nos intervallos d'estas danças distribuia-se cachiry eguaraná. Provei de ambas estas bebidas, que achariaperfeitamente potaveis, si não fosse a consideração do desaceio que vi reinar 1 Porigarapé, riacho, ribeiro. NAS MALOCAS 71 entre elles e ainda mais que, segundo se diz, a primeira leva, para acelerar-lhe a fermentação, milho mastigado.
Em seguida visitámos as malocas de Mucajatuba e de Paricatuba, ambas situadas ás margens do rio Maués, ambas e principalmente a primeira em lindissima posição. Aquella é, como a de Abacaxis, no rio Canuman, á qual fomos em seguida, de indios Mondurucús e esta de Maués. A observação superficial que fizemos d'estes individuos, mostrou-nos os primeiros de um typo differente do segundo, de angulo facial mais agudo, o queixo fino e physionomia denotando menor intelligencia, e de genio mais desconfiado. Depois de Abacaxis, fomos a Canuman, cujos habitantes são tambem mondurucús, sendo o tucháua e sua mulher ainda pintados ou mondurucú pinima. De curioso ahi encontrámos um velho indio ex-tucháua de uma maloca já extincta e que de envolta com a sua patente de capitão, passada creio que ainda por Tenreiro Aranha, mostrou-nos o seu titulo de antigo simples votante. Este cidadão fala apenas a lingua geral e só a custo comprehende o que se lhe diz em portuguez! A impressão que deixa no espirito do observador attento e de boa fé o estudo d'este meio, é má.
Vem-nos, por mais que contra ella luctemos a convicção de que o indio é um individuo com quem a civilisação não deve contar. Nada mais desolador do que estas malocas, em ruinas, semcultura, sem progresso, sem trabalho, sem vida, onde vegeta, que não vive, uma população mesquinha e mofina de gente fraca, sem nenhum vigor moral, nem selvagem, nem civilisada, miseravel, indolente, pauperrima, no meio das maximas riquezas naturaes. Não ha ali nenhuma ligação de familia, nenhum sentimento de patria, de raça ou de religião que os eleve. A prostituição é geral e precoce. Não vimos uma virgem de mais de 14 annos. D'essa idade já todas tinham a apparencia de mulheres gastas. Perdem de tal modo a noção da raça que quando se pergunta a um si é mondurucú, por exemplo, elle, si já fala portuguez, responde: Sou ladino. Ser ladino é para elles falar portuguez e ser um pouco mais esperto do que os que o não falam. A um d'estes ladinos, perguntando-lhe o Dr. Paranaguá que idade tinha, o que elle só comprehendeu depois de repetidas explicações, respondeu: Um anno, paresque...
Este cidadão de um anno tinha junto de si um filho de quatro ou cinco. Outro que pediu seis tostões por outros tantos ovos de tracajá (Emys tracaja), venderia tres taquáras (frechas) por tres vintens, si a pessoa que as comprou não tivesse mais consciencia do que os regatões que os exploram. E, diante de toda esta degradação, a gente não póde deixar de sorrir das theorias sentimentalistas dos romanticos da politica ou da arte, e perguntar si estes sujeitos darão jámais cidadãos aproveitaveis e indagar onde estão, entre estas mulheres feias e desgraciosas as Iracemas e entre estes homens rudes e grosseiros, os Ubirajáras.