I
Corre serena e luarenta do mês de agosto, duma calma sufocante, que alquebrava as forças e
extenuava os corpos, deixando-os vencidos por esse laxamento e inercia que advem sempre das temperaturas elevadas.
Pouca gente pelas ruas, os teatros fechados, os caixeiros somnolentos encostados aos balcões à espera da hora de fechar os estabelecimentos, e apenas na Avenida, obscura, extensa, silenciosa é tranquila, como a rua principal duma acropole gigantesca, se viam todas as filas de bancos e ca “deiras do Asylo da Mendicidade, ocenpadas por homens e senhoras que para ali iam ao cahir da noite em busca de uma leve aragem que os refrigerasse dos ardentes calores do dia.
Nos bancos das ruas latteraes, especialmente uaqueles que se occultam mais na sombra, destacavam-se alguns pares muito chegados, conversando a meia voz, com as mãos entrelaçadas em mysteriosa combinação de entrevistas intimas ali principiadas, ou vindas já de longe, servindo aquele local para assentamento do contrato definitivo.
Pelos sitios onde a claridade era mais viva, passeiavam mulheres elegantes e faceis, apetitosas nos seus toilettes claros de seda e rendas, erguendo e apanhando os vestidos, de maneira que se lhes vissem bem os pequeninos pés calçados em sapatinhos ou botinhas brancas, e as opulentas nadegas, cingidas às roupas, deixassem perceber nitido, todo o suggestivo relevo da sua espheroicidade...
Passeiavam em grupos de duas ou tres, conversando animadamente, e lançando olhares intencionaes para os homens mais bem postos que encontravam no seu trajeto.
Andavam porém semi-aborrecidas e despeitadas.
Não viam senão pelintras, rapaziada de sangue na guelra mas sem vintem nas algibeiras, estndantes das varias escolas superiores, amanueases, caixeiros de escritorio, finalmente toda essa multidão de poucos haveres, para a qual não existe a vilegiatura do campo nem a estação das praias.
As chamadas pessoas de dinheiro, funccionarios
superiores, banqueiros, comerciantes, logistas, advogados, capitalistas, e todos aqueles que dispunham de bens de fortuna, estavam fora da capital.
Os que não podiam abandonar os seus negocios ou as suas altas funcções burocraticas, chegavam a Lisboa no comboio das nove e abalavam no das quatro para Cintra, Queluz, Belas, Cacem, Bemfica e todas as localidades campesinas dos arredores onde tinham casa sua ou alugada.
Felizes daquelas deusas de Cythera que pos-
suiam alguns sacerdotes fieis do seu culto, que as procuravam de dia, não lhes fazendo sentir assim tão asperamente a debandada das gentes da cidade, As outras, coitadas, que não dispunham de dois ou tres protetores certos, viam-se em serios embaraços, porque às vezes batiam durante horas aquela extensa Avenida para ao cabo recolherem, e com dificuldade, uma triste nota de mil réis, e isto não era sempre.
Em principios de setembro tado aquilo levantava vôo em direcção a Cascaes, ao Estoril, a Pedrouços, ao Dáfundo, Caxias e Cruz Quebrada, e sómente em fins de outubro é que este enorme exodo recolhia à capital, quando os teatros comecam a abrir, e as noites frias e ventosas já não convidam à existencia agreste nos chalets edificados proximos do mar.
Por essa época tambem os nobres regressam das
suas propriedades solarengas da provincia, e os grandes ricassos da sua estação balnear nas praias faustosas e animadas de Espinho, da Figueira e da Granja.
aparecem nas montras as modas de inverno, as ultimas novidades de Paris, conjuntamente com uma grande atividade politica e artistica, traduzida nos artigos de fundo dos jornaes, nas peças novas dos teatros, e na proxima chegada das celebridades dramaticas contratadas para 0 D. Amelia.
E o reviver de toda a vida civilisada da capital, expressa nestes inconfundiveis detalhes das sociedades modernas.
Interessa por igual a abertura proxima do parlamento e a de S. Carlos. Uma cousa é como que o complemento da outra...
Depois de se ouvir na camara dos pares um discurso pittoresco do sr. visconde de Chanceleiros, ou na dos deputados uma catilinaria violenta do sr. Alpoim, não ha nada melhor para rebater os efeitos destes dois pesados manjares politicos, do que a marcha nupcial do Lohengrin ou o rondó da Somnambula.
Muitas vezes mesmo, os animos aquecem mais nos corredores do teatro lyrico a discutir a voz duma soprano ou dum tenor, do que nos de S. Bento a avaliar um projeto do governo, ruinoso e gravoso para o comercio colonial ou para a agricultura!
vai nisto a revelação nitida duma sociedade defuteis descriteriosos.
Emquanto porém esta atividade não chega, e que em regra começa a esmorecer dépois de domingo de Paschoa, quando a secção do hig-life dos jornaes anuncia a partida para o campo dosprimeiros vilegiadores, a vida da capital é fraca e mortiça desde os fins de maio até principios de “ outubro.
Esse enfraquecimento attinge o maximo grau de intensidade nos dois meses da canicula, julho e agosto, em que só os que não podem é que não fogem de Lisboa, mais por snobismo do que por estarem convencidos de que vão encontrar no pódas estradas escaldantes, e em exiguos cubiculos fedorentos e cheios de moscas, comodidades e delicias superiores ás das suas habitações na cidade.
Mas a vaidade estulta que impera ferrea sobre os espiritos dos desprovidos de bom senso, e essesé o maior numero, indica-lhes que para fingirem de pessoas de bom gosto e de distincção, devem ir para o campo, ainda que seja para uma arribana, comtanto que se dêem o tom de chegarem de maubã à estação da Avenida com as botas brancas de poeira e o guarda-pó da praxe a defender-lhes o. fato.
“Que numa triste casa durmam no chão tres e. quatro pessoas sem terem o ar necessario para respirarem, isso pouco importa, desde o momento-
em que ao cahir da tarde vão todos passeiar para a estrada; eles de botas amarelas, calças arregaçadas, pau emponteirado e chapeu branco a daremse ares de pessoas abonadas; e elas muito limphaticas e descoloridas, de braço dado, a coxixarem segredinhos idiotas, e com veus brancos no rosto à segurarem-lhe o pó darroz e os frisados do cabelo, em aparencias ridiculas de Ophelias banaes da calçada do Caldas.
Porque deve notar-se, que no campo só gente rica pôde ter comodidades, pois ali tudo falta, desde a manteiga para untar as torradas, no caso de por esquecimento ela não ser trazida de Lisboa, até à agua em abundancia para os usos caseiros e lavagem dos corpos.
Não ha gelo, não ha peixe, não ha luz, não ha confortos nem bem estar, para esses que alugam uma baiuca qualquer na esperança de retemperarem o sangue no ar puro dos campos, e afinal respiram uma atmosphera viciada e pobre, são torturados pelos mosquitos, e não encontram na visinhança da sua casa senão doentes, em regra tuberculosos, como succede no Estoril, que em poucos anos será uma estação de enfermos preparada para lá perderem a saude aqueles que ainda se conservem sãos.
O campo não é isso que a maioria da gente gosa ou pensa gosar, aqui, a dois passos de Lisboa, em casinhotos acavalados, sem expansibilidade, nem amplidão.
O campo tomado nas cidades à conta de tonico anual pertence apenas áqueles que podem ausentar-se dois meses para o fundo dessas provincias do norte, onde a exhuberancia do arvoredo, a pureza das aguas, do vinho, do leite e do ar, é realmente benefica para os sãos e para os enfermos.
Aqui em Lisboa, quem morar num bairro saudavel, em andar alto, bem provido de janelas e de aceio, com agua em abundancia, e todas as tardes, no pino do verão, dê o seu passeio a Algés ou ao Campo Grande, aos domingos a Cintra ou a Cascaes, e à noite recolha ao seu quarto bem arejado e se deite numa cama confortavel e limpa, gosa tripla ou quadruplamente mais, que todos esses que estão no campo a ingerir o pó das estradas e a comerem o jantar e o almoço condimentado com as inconveniencias naturaes das moscas, que em tudo pousam, sem distincção nem escolha...
E agora que tracei um pequenino preambulo ácerca da vida de Lisboa no verão, é tempo do leitor me acompanhar áquela mesa do Suisso, e sentar-se perto de quatro rapazes, que em frente de dois copos de cerveja e outros tantos de groseile com gelo, discutem acaloradamente as suas altas individualidades literarias, infelizmente desconhecidas do país, não porque elas sejam mediocres ou não estejam destinadas a altos comettimentos, mas simplesmente porque o país não sabe
apreciar os seus homens de genio e de luminoso talento...
— Qh meninos! exclamou o mais velho dos quatro, rapaz dos seus vinte e dois anos, muito alto e esguio, rosto ossudo e livido, de maçãs salientes e frontal deprimido, tendo cravados lá no fundo: das orbitas uns grandes olhos negros scismadores e abstratos como os dos lanigeros, vocês ja leram o livro do Raymundo?
— Não me fales nessa medonha estopada, respondeu um dos do grupo sacudindo a comprida e corredia cabeleira, cujas guedelhas unctuosas lhe cahiam sobre a gola sebenta do casaco de cheviot, já cossadito.
— Estopada não, atalhou o José Epigastrico, estendendo a mão para o copo do groseile e entreabrindo a enorme bocca de labios descorados e dentes apodrecidos. O livro tem alguns versos bons.
— À que chamas tu versos bons? inquiriu o ultimo do rancho, o Christovão Pernalta, assim comhecido entre os amigos e conhecidos, pelo descomunal comprimento das suas esguias pernas de cegonha.
—Versos bons são todos aqueles que revelam inspiração e alma, replicou o Epigastrico accendendo um cigarro.
— Nesse caso tambem o Tavares escreve bons versos?
—E às vezes escreve. Então que te parece?
— A mim parece me que ele não escreve senão tolices.
— Diabo, atalhou o primeiro que falara, o Anacleto Figueiredo, tu tambem, oh José, és impiedoso para com o Tavares. Pobre rapaz, ele faz o que póde, e sempre deves lembrar-te que é cá dos nossos e não pertence a essa panelinha do elogio mutuo que anda a melter peças em todos os teatros e livros à cara de todos os editores. Uma cambada de idiotas plagiarios, rematou despejando o copo da cerveja.
— daccordo, mas não posso consentir que o Guedelhas diga que o livro do Raymundo tem bons versos.
— Sim, efetivamente, bons não são, mas passam.
— Passam, passam, como tu passaste em anatomia e eu em pathologia.
Todos deram uma gargalhada franca e expansiva.
— E em que alturas vai a tua Morte de Cleopatra, oh José?
— Está quase concluida. Eu sempre quero ver como estes safardanas acolhem o meu trabalho. Tambem estou disposto a discutil-o na imprensa. Heide leval-os de ventas à torneira.
— Se te deixarem, acudiu o Guedelhas sorrindo.
Certamente que deixam. Bem sabes que no Orbe trabalho de borla, e isto de critica teatral não é para o dente de todos.
— Modestia áparte... rematou o Anacleto.
— Como quizeres, retorquiu o José Epigastrico um tanto suscetibilisado.
— Ahi vem o Tavares, exclamou o Christovão, olhando para a porta.
— E de fato novo, ajuntou o Guedelhas, sorrindo-se.
O Tavares, sorridente e bamboleante, entrou no café.
Era um lindo rapaz, que não contaria mais de vints anos, alto, bastante nutrido, de belos olhos negros que lhe conquistavam a sympathia das mulheres, rosto oval, palido e correto, bocca fresca e sensual, e vestindo com certa elegancia, realçada pelo seu grande chapeu mole de aba larga inclinado sobre a orelha esquerda.
Estudante chronico de medicina, dera-se às letras, versejando e escrevendo criticas theatraes para varias gazetas.
Frequentava os palcos e cortejava as discipulas e as coristas bonitas, que brincavam com ele muito confiantes e despreoccupadas.
Bem educado e amavel, os emprezarios gostavam dele, e os atores e actrizes davam-lhe essa confiança ampla que se concede às crianças inofonsivas e bondosas.
Perdia os anos letivos com um stoicismo de spartano, mas dava-se por bem pago dessa derrocada do seu futuro, em troca de um artigo elogiando-o ou dumsoneto que obtivesse a aprovação do Urso
figura com a qual mais tarde o leitor travará intimo conhecimento.
De resto era um excelente rapaz, dotado de bons sentimentos e grande honestidade de carater, incapaz de praticar uma vilania ou atraiçoar o seu amigo.
Ser litlerato era o seu fraco
As vezes o Urso dizia-lhe que ele não tinha geito para a coisa, pois não bastava fazer-se aos vinte anos dois ou tres sonetos regulares para se cultivar decididamente a republica das letras.
E aconselhava-lhe então a que melhor seria estudar o curso, que isto de literatices em Portugal era rematada asneira.
Para ele, inimigo de tudo quanto cheirava a literatura, só havia dois escritores que mereciam a sua altenção e respeitos, um poeta e um prosador: Camões e Alexandre Herculano.
Não negava o merecimento de Camilo, nem de Junqueiro, mas ainda assim as suas obras não O faziam curvar.
Da nova geração, se alguem lhe merecia alguma consideração, esse alguem era decerto o infeliz Anthero, cujo alto espirito filosofico admirava.
Não desgostava do Fialho, sentindo que a sua obra fosse tão incompleta e dispare, tão dispersa e retalhada, e como critico, considerava o trabalho -de Eça de Queiroz de primeira ordem, embora inutil como educativo ou proprio para reformar os costumes.
Da chamada rapaziada brava, que dia a dia surgia de todos os cantos do país empunhando um livro de versos ou um esboceto de critica, não lia nem uma linha. Pareciam-lhe todos mediocres e banaes, a ava-
liar pela conversação de muitos deles naqueles bocados do cenaculo do Suisso ou à porta da Monaco, onde muitas vezes uma piada rija do Gualdino evitava a tempo um estendal de barbaridades atrozes.
Considerava-se mesmo anti-literario, e no entanto conhecia como nenhum outro os nossos melhores classicos.
Gostava de ler os antigos, e os sermões do Vieira, as Decadas de João Barros, e as poesias do padre José Agostinho e do Bocage, eram-lhe familiares.
Sabia de cór estancias completas dos Lusíadas e capitulos inteiros do Eurico e do Monge de Cister.
Os amigos e condiscipulos conheciam-lhe estes predicados, e por isso a opinião do Urso era lida sempre na conta duma sentença terrivel, da qual cão existia apelação nem aggravo.
Diante dele evitavam certas discussões, porque ás vezes, encolhendo os largos hombros do seu arcaboiço de transmontano vigoroso, concluia enfadado:
— Vocês não têm dito seuão asneiras!
O Tavares era quem mais se aproximava dele.
Respeitava-lhe a franqueza de carater, a tena-
cidade de ferro, e as qualidades de estudioso que lhe haviam ganho a especial predilecção dos lentes, havendo já obtido dois premios, em chimica e em mathematica, na Escola Polytechnica.
O Urso tambem gostava do Tavares. Conhecialhe as qualidades lidimas dos seus bons sentimentos, e aconselhava-o como um irmão póde aconselhar outro.
As vezes lia-lhe os versos, e quando eles possuiam um certo valor não se escusava a dizerlhe:
— Isto não está mau. Parece-me; porque eu cá de literatices não percebo nada...
Percebesse ou não, o Tavares antes queria um elogio do Urso do que os applausos de todos os «demais seus amigos e conhecidos.
—Boa noite, oh vadios; exclamou ele entrando no café, com as mãos nos bolsos das calças, sorrindo, e aproximando-se da meza onde estavam os amigos.
Os quatro rapazes estenderam-lhe as mãos, que ele apertou, sentando-se em seguida e olhando-os fixo, pretendendo adivinhar-lhes o assumpto da conversa.
— Qual é a tua opinião ácerca do livro do Raymundo? perguntou o Epigastrico.
O Tavares elevou para o Leto da sala os seus belos olhos peninsulares, e esboçando um sorriso respondeu:
— São assim, assim; não têm arte.
— Bolas! exclamou o Epigastrico. Só faltavas tu a melter a arte a martelo.
— Pois está claro, atalhou o Tavares precipitadamente. São versos frouxos, sem elevação arlistica, incolores, banaes, insonsos; estás satisfeito?
—lInsonso estás tu! acudiu o Anacleto. Agora queres versos salgados, talvez na conta sápida da tua Elvira da travessa da Palha...
Os rapazes desataram a rir perdidamente com esta piada do Anacleto.
— Eu não tenho os teus costumes, observou O Tavares filosoficamente, rindo tambem.
E voltando-se para o Guedelhas continuou:
— Vamos lá a saber, o teu livro sobre Arte está muito adiantado?
O Guedelhas tomou uns modos serios e respondeu:
— Tenciono tel-o prompto lá para o fim do ano.
— E já tens editor?
— Não, mas heide arranjar.
— Olha que isso é dificil. Esses marotos fazemse de manto de seda. Eu, para editar o meu livro de versos, vi-me à brocha.
— E quanto gastaste?
— Não gastei nada, mas foram precisos empenhos.
— E” isso 0 que me arrelia, berrou o Christovão Pernalta. Anda a gente a escrever uma obra sincera e honesta, na intenção de refundir a literatura por-
tugueza que está completamente perdida e não encontra editor. Quando aparece então uma borracheira como o Filho das hervas fazem-se gemer 08 prélos, e os patifes até pagam aos autores!
— Dizem que o Malheiro Dias recebeu quinhentos mil réis por aquela pepineira.
—'Tu és injusto, Christovão, atalhou o José. O Filho das hervas é um livro bem feito e dum belo sabor literario. Não digo que seja isento de defeitos, mas em todo o caso é um romance sentido e honesto da moderna escola.
— Lá porque o Dantas fez ácerca dele um apelo às mães?
— Não. Simplesmente porque o julgo bem escrito e bem delineado. aquelas cenas dão-se na vida real.
— daccordo, mas não tem arte, observou o Tavares.
— A que chamas tu arte? interrogou o Epigastrico enrolando um cigarro.
— Tu queres corda, mas estou hoje muito esbodegado para te aturar, respondeu o Tavares. Ámanhã te explicarei.
— Olha quem ahi vem, disse o Gucdelhas apontando para a porta.
— (O) Urso! exclamaram todos.
— Não falemos mais em lifteratura, concluiu O Guedelhas.
Era efeclivamente o Urso que chegava, a passo grave, de chapeu de palha, gravata de chita, e cha-
ruto barato entalado entre os dentes alvos e fortes.
—Boa noite, oh sucia, exclamou ele serenamente,
— Boa noite, João, responderam todos.
— Que novidades ha? interrogou o Christovão.
—Uma muito grande, respondeu ele sentando-se.
Todos o fitaram com interesse.
— Dize lá, avançou o Anacleto.
— Vejam se adivinham.
— Não sabemos decifrar charadas, disse o José Epigastrico; desembucha.
— Pois fiquem sabendo que acabei hoje de ler o Filho das hervas.
— Ah!
— E então, que tal achas? inqueriu o Guedelhas curioso.
— E" bem feito, respondeu o Urso. Está ali o estofo de um romancista, Se continuar, aquele rapaz hade ir longe.
Os cinco amigos entreolharam-se sem dizer palavra.
— E essa a tua opinião, aventou o Anacleto, após pequena pausa.
—E; vocês bem sabem que eu de literatura não percebo nada, mas emfim, sempre cá tenho o meu criterio, e por muito burro que seja pareceme que sei distinguir o bom do mau.
—Decerto, corroborou o Christovão.
— Interessei-me pelo assumpto, continuou o Urso, e a melhor de todas as criticas reside exatamente em a gente se interessar por aquilo que lê. Parece-me,
— Está bem, retorquiu o Tavares levantando-se.
— vais-Le embora?
— Vou dar um giro na Avenida. Estou farto de estar sentado; vocês veem?
— Vamos lá, exclamaram levantando-se.
—Vens dahi, João?
—Não. São quase nove horas e tenho que estudar. Vocês sabem já a lição?
Os cinco rapazes fingiram que o não tinham ouvido, e despedindo se, lá foram Avenida fora, emquanto o Urso entre portas, repuchando as calças, murmurava:
—Cábulas!