III Os Decadentes · Capítulo 4 de 14
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III

Quando os amigos se retiraram, o Urso enrolou serenamente um cigarro, accendeu-o, e naquele seu andar grave e pausado de homem methodico e ponderoso em todos os seus atos, atravessou O largo de Camões, cortou à rua do Principe, e começou a subir a calçada do Carmo.

Dirigia-se para o seu quarto alugado na travessa dos Fieis de Deus, em casa da D. Mariana, uma pobre senhora viuva de um alferes do exercito morto em Africa, e do qual honvera uma filha que vivia em sua companhia, a formosa Guilhermina, que contava ao tempo vinte anos incompletos.

Eram exiguos os recursos de que elas dispunham; apenas a modesta pensão de sangue que o Estado lhes pagava, cobrando-lhes ainda uns miseraveis

reaes de selo, tristes migalhas destinadas à fabricação da opulenta sopa e chorudo caldo da engorda dos grandes e inuteis cevados politicos; da roupa branca que a D. Mariana cosia para a loja de um antigo amigo de seu pai, e dos bordados feitos pela Guilhermina, no que era eximia, em largas noites de trabalho assiduo, e no qual cançava a vista dos seus lindos e cariciosos olhos negros,

Pequenina de talhe, a Guilhermina era realmente formosa.

Muita branca, desse delicado e fino branco português que é simplesmente encantador, possuia uns belos cabelos castanhos e setinosos, uns labios de coral, virginaes, corretamente cortados, uma dentadura magnifica e um nariz admiravel.

Eram de criança as suas mãos habilidosas, e os pés delicados e mimosos pela ausencia de andar, pois que ambas poucas vezes saiam de casa, e passava-se às vezes um ano sem irem a um teatro nem a um passeio.

Pessoas bem educadas, quase que não tinham relações por serem muito pobres e honestas.

Não se davam com as visinhas, e viviam assim, recatadamente, essa existencia incarateristica, anonyma e ignorada, das pessoas de bem desprovidas de recursos, que se resignam com a fatalidade da sua sorte. j

Havia dois anos que o João Gonçalves, o Urso, era seu hospede.

Tiveram muita relntancia em alugar o quarto independente a um rapaz, mas o logista para onde a D. Mariana trabalhava recomendara-lho.

Era filho dum seu correspondente antigo de Vila Real, lavrador abastado que mandára o filhopara Lisboa estudar medicina depois de ter feito os preparatorios no seminario de Braga.

O rapaz, um provinciano serio e de bom porte, não oferecia perigo, e aquela mensalidade de cinco mil réis pelo quarto e arranjo da roupa, sempre lhes chegava para pagarem a renda da casa.

Hesitante por causa da filha, a D. Mariana accedeu por fim, forçada sob a eloquencia fatal da sua mingua de recursos pecuniarios.

Ao cabo de pouco tempo não se deu por arrependida.

O João Gonçalves era realmente o modelo dosrapazes.

Muito sério, muito grave, muito regrado na sua: maneira de viver, recolhia cedo e estudava até altas. horas.

De trato afavel e franco, dessa doce e bela franqueza provinciana que só se perde na vasalethal de Lisboa, elas foram-se-lhe afeiçoando, e nofim do primeiro ano, quando já lhe conheciam bem as qualidades e os sentimentos, accordaram em que: ele comesse em sua casa em vez de ir ao restaurant, onde almoçava e jantava por dezoito mil réis mensaes.

fora mesmo o João quem lhes propozera 0 negocio porque estava farto de comidas de casa de pasto que não se coadunavam com o seu estomago ç habitos de provinciano.

Escreveu ao pai, a quem dava conta dos seus menores atos, indicando-lhe a sua resolução e pedindo-lhe que lhe mandasse alguns generos, porque, como ele muito bem sabia, aquelas senhoras eram bastante pobres.

O velho Gonçalves mandou em resposta um barril de vinho, dois presuntos, uma cesta de chouriços, uma bilha de azeite, tres queijos, e avultada porção de feijão branco, vermelho e amarelo, alem de uma boa manta de toucinho de primeira qualidade.

O João ofereceu tudo à D. Mariana, dizendo-lhe:

— Isto manda-lhe meu pai para os nossos jantares.

A D. Mariana e a Guilhermina agradeceram reconhecidas.

aquele presente era a abundancia que lhes entrava em casa.

E dali por diante, de tres em tres meses, o velho lavrador mandava sempre ao filho generos novos.

Nas noites de inverno o João estudava na casa de jantar, emquanto a Guilhermina executava os seus bordados e a D. Mariana bispontava os peitilhos das camisas, no que era primorosa.

Por diversas vezes, fora ele quem desenhara para alguns bordados, esplendidas letras de fantasia, e frequentemente succedia, sem eles quererem... os seus olhares encontrarem-se quando ele erguia os olhos dos livros, e ela os seus dos bordados que estava executando.

Ficavam como que envergonhados daquele encontro visual e cada um continuava com os seus afazeres sem proferirem palavra.

Estheticamente falando, o João Gonçalves não era um rapaz elegante, nem proprio para preencher os ideaes romanticos de qualquer menina idealista.

De avantajada estatura, rasto redondo e córado, bons olhos e melhores dentes, trigueiro, cabelos espessos, abundantes e negros, pés grandes, pescoço taurino e modos bonancheirões, vestia decentemente, mas sem a menor preoccupação de apuro.

Fato de cheviot escuro no verão, e o mesmo fato e. mais um varino de Aveiro no inverno, gravata preta e camisa de oxford, chapeu desabado e botas grossas, eram o seu invariavel toilette, apenas modificado de longe em longe por um outro de casimira preta, sobrecasaca, que lhe ficava mal, e chapeu alto que nunca sabia usar com distincção nem propriedade.

Era regularmente aceiado, tanto ou mais do que os provincianos sabem ser, e às vezes andava tres e quatro dias com a barba crescida, o que lhe dava um aspeto mais velho do que os seus vinte

e cinco anos opulentos de mocidade, de seiva e de saude.

No seu olhar sereno e tranquilo lia se porém a grande bondade da sua alma, e as delicadas virtudes do seu coração.

Era amigo intimo do Carocho, um belo gato preto que havia em casa e se lhe afeiçoára duma maneira singular.

Dava almoço ao gato, ao seu lado, numa cadeira alta, procedia do mesmo modo ao jantar, e à noite recolhia-o no quarto dormindo com ele na cama.

O comodista felino conhecia lhe os passos na escada, e apenas o presentia começava a miar para que fossem abrir a purta,

Mãe e filha admiravam aquela amizade, porque o Carocho fora sempre um tanto arisco e desconfiado.

O João porém fazia dele o que queria: deitava-o de barriga para o ar, ensinara-o a saltar um arco e a fazer sentinela encostado a um canto da casa, de pé, sobre as patas trazeiras, finalmente, para ele o gato não tinha dentes nem unhas. Era mais docil que um cão.

Tambem o velho canario já o conhecia por ele lhe dar bocadinhos de pão de ló, junto dos arames da gaiola.

O futuro medico, que conquistara a amizade e a consideração de todos os lentes pelo seu amor ao estudo e irreprehensivel conduta, tinha pelos animaes uma dedicação extrema.

Pessoa que não gostasse de animaes escusava de pensar em adquirir a sua sympathia.

Coração sensivel e afetuoso, criara amizade áquelas senhoras, e nas férias do natal fora à terra e ali enaltecera aos paes as virtudes de que elas eram dotadas.

O velho Gonçalves suspeitou qualquer inclinação do filho pela Guilhermina..

Não lhe fez a menor referencia, mas escreveu ao seu amigo de Lisboa pedindo-lhe as mais francas e claras informações.

Tão boas as recebeu, que o seu espirito desconfiado de velho pratico das cousas do mundo, apezar de viver na provincia, se tranquilisou alisolutamente.

fora melhor assim, porque agora o João e a Guilhermina, quando os seus olhares se encontravam, ficavam-se a contemplarem-se mutuamente, expressando-se nessa linguagem muda que só os namorados entendem.

ele porém não se declarava.

Todavia começava a ter para com a Guilhermina umas grandes attenções proprias de homem apaixonado.

Levava-lhe flores de vez em quando, ofereceralhe uma gaiola nova para o cânario, e no dia dos anos dela dera-lhe um anel de ouro muito bonito, que comprara com o produto das suas economias.”

Um vício apenas possuia este belo rapaz, intel-

ligente, estudioso e tenaz em conquistar uma posição social que remunerasse os sacrifícios que por ele fazia seu velho pai— o fumo.

Fumava muito, e o melhor presente que lhe podiam dar era um bom charuto.

Ao seu quarto iam raros amigos, e tanto mais raros quanto mais ele ia gostando da Guilhermina, aquela linda mignene fresca e delicada, que sorria como uma flôr gentil à sua robustez de transmontano vigoroso.

Sempre o primeiro do curso, estava no terceiro ano.

Mais dois passados, defenderia these, e a sua carta -de medico ser-lhe-hia entregue sem favor nem patrocinato.

O pai livrara-o do recrutamento pela junta, a titulo de falta de vista, pois ele era realmente um pouco myope.

Devêra esse favor a um seu conterranco altamente cotado no mundo politico e que ainda tinha com ele uns afastados laços de familia, e ao qual prestara bons serviços nas occasiões eleitoraes.

A Guilhermina por seu turno afeiçoara-se bastante ao João.

Os seus olhos 'perspicazes de legitima filha de Eva que era, descobriram nele todos os requisitos físicos e moraes que o faziam sobresahir.

Concordava que, além de talentoso como todos diziam que ele era, dispunha de dotes apreciaveis como os seus belos olhos castanhos, a forte e bran-

ca dentadura, a saudavel cor do rosto e dos labios, o farto bigode negro, e a elevada estatura que o tornava um homem a valer.

Suavemente, com essa sutileza propria do seu sexo, conseguiu modificar-lhe bastante o descuro da sua maneira de vestir.

E sem dar por isso, o João, seguindo as suas indicações e conselhos, acabou por pedir-lhe, se a não incomodava, que tratasse ela desse assumplo.

Foi assim que no dia em que ele apareceu na Escola, de frack e plastron à moda, obteve um verdadeiro successo admirativo de parte de Lodos os colegas, que o estimavam pela dignidade do seu bom carater e o temiam pela força pujante do seu pulso.

dentre todos, o seu preferido era o Tavares dos teatros, como lhe chamavam, por andar sempre meltido nos palcos a conhecer actrizes e a esquecer os estudos.

Considerava-o um excelente rapaz, digno e bondoso, obsecado pela triste ideia da literatice, e pervertido por aqueles cenaculos doentios do café Suisso e da tabacaria Monaco.

Aconselhara-o varias vezes a que se deixasse de jornaes e de coisas litlerarias e estudasse para completar o curso.

O Tavares promettia-lhe seguir os conselhos, mas mordido pela tarantula da vaidade de ver o seu nome em lettra redonda e os atores e empre-

zarios chamarem-lhe o critico do jornal, ia para casa, e em vez de se agarrar às lições, escrevia um banal artigo de critica ácerca da peça, mais batal ainda, que vinha de ver, e no dia seguinte sendo chamado, estendia-se ao comprido na ignorancia da lição apanhando um zero que havia de ter capital importancia na sua média de final de ano para o exame.

Por fim o Urso, vendo que ele não se emendava e já perdera dois anos, não esteve para mais conselhos, e limitava-se a aprovar ou reprovar os versos e a prosa que 0 Tavares sujeilava à sua apreciação.

Era durante as férias e aos domingos, em casa, para não estar afastado da Guilhermina, que ele lera as melhores obras dos nossos classicos, se apaixonára pelos livros de Herculano, e constatara a triste mediocridade da moderna literatura nacional, onde, áparte Junqueiro, Eça de Queiroz, e Julio Diniz, não encontrava cousa que o impres- Sionasse.

Dos modernos, o seu poeta favorito era o grande Anthero, cujos sonetos magnificentes, de uma alta inspiração magoada de trascendental filosofia, lhe calaram fundo no animo scismador e melancolico.

Finalmente, uma linda noite de verão, estando à janela a tomar o fresco ao lado da Guilhermina - e vendo-a tão linda e gentil, ia para declarar-lhe o seu amor quando na rua soaram toques de apito,

gritos de, oh da guarda, e viram um rapaz imberbe, de melenas e calça abuzinada, vir correndo desesperadamente, perseguido pelo povo que gritava:

— Agarra, agarra, agarra.

saiu à frente do fugitivo, mesmo defronte das janelas da Guilhermina, um policia que lhe deitou as mãos.

Na rua ia um burburinho medonho.

aquele triste produto dos alcouces e das tabernas acabava de dar duas facadas na amante, meretriz, por esta não lhe ter dado dinheiro, ameacando o que queria deixal-o, pois estava farta de sustentar malandros.

E seguro pelo guarda, o pervertido macrot, de olhar envinsado e busto gingante, adduzia que procedera assim por a gaja o ter ofendido na sua diguidade!!!

Os gritos da mulher, ferida com uma facada na omoplata esquerda e outra no ante-braço direito com que desviara a que lhe ia dirigida ao seio, ouviam-se distinctamente.

— Muito palida e tremula a Guilhermina exclamava.

— Coitadinha da rapariga.

O João vin-a então afastar-se da janela, cambalear, e teria cabido desamparada no chão, se ele, com o seu olhar perspicaz, antevendo um desmaio, não a tivesse amparado nos braços robustos e museulosos.

Sentou-a no modesto camapé de palhinha, e correu a aspargir-lhe o rosto com agua, emquanto à D. Mariana, muito aflita, agarrava-se à filha chamando-a pelo seu nome.

— Não se esteja a aflligir, disse o João tranquilamente. E” um simples desmaio. Isto já passa.

E expedito, forte e resoluto no exercicio das suas funcções de futuro medico, melteu os dedos rijos como tenazes, no coz das saias, e rebentou-os nuEi instante. Desacolchetou-lhe a gola do casaco pondo» a descoberto um pedaço daquele lindo colo de eysne duma alvura imaculada.

Um leve tom rosado assomou às faces sonia da gentil menina, dos labios escapou-lhe um longo suspiro, e os seus lindos olhos carinhosos & meigos abriram-se lentamente.

— Então, que foi isso? exclamou o João que não lhe largara o pulso.

ela sorriu-se com doçura e respondeu:

— Fez-me muita impressão os gritos da rapariga.

Estes já não se cuviam e à rua cabira na sua trivial banalidade.

— Vá deitar-se um bocado, aconselhou 0 Urso. Doe-lhe a cabeça?

— Alguma cousa.

ele retirou-se lésto, prevendo que ela ao levantar-se sentiria as saias escorregarem-lhe ao longo do corpo.

Como se vê era um rapaz prudente e serio, in-

capaz de se aproveitar menos dignamente de qualquer circumstancia inesperada.

Nºessa noite em que o leitor o acompanhou desde que ele saira do Suisso, entrou em casa muito alegre e satisfeito e tirando um embrulho da algibeira entregou-o á Guilhermina dizendo-lhe sem olhar para ela:

— Aqui tem a sua encomenda.

E voltando-se para a D. Mariana, que ha dias andava um pouco adoentada, disse-lhe:

— Então isso vai melhor?

— Assim, assim, sr, João. hoje o jantar não me agoniou.

— Bem, bem, faça o que eu lhe aconselhei e verá que se põe boa.

— Obrigada pelo seu cuidado, exclamou a Guilhermina tristemente, revendo a escolhida coleeção de letras e monogramas para bordados que ele lhe trouxera.

— Olá, seu Carocho! exclamou o João.

E começou a afagar o gato, que ouvindo-lhe a voz acordara da cadeira onde dormia enroscado, e saltara para cima da mesa a fazer-lhe festas como costumava.

— E agora boa noite, ajuntou ele sorrindo. Temho muito que estudar.

— Boa noite, sr. João, responderam mãe e filha quase que ao mesmo tempo.

O João dirigiu-se para o seu quarto, seguido pelo olhar contristado da Guilhermina.

Havia dois meses que ele fazia grande diferença.

Dera-se isso oito dias depois d"aquela noite em que ela desmaiara por causa dos gritos da malher esfaqueada.

Começara a ser menos expansivo, a estadar no seu quarto em vez de o fazer na casa de jantar, acompanhando-as 20 serão como costumava, e aos domingos saia cedo de casa, jantava fora e recolhia tarde.

— Aquilo é namoro que ele tem, dissera a D. Mariana, que ingenua e simples como era, nunca suspeitara da inclinação da filha pelo estudante, nem de que este se mostrava attencioso e afavel demais para com a Guilhermina, attribuindo tudo aquilo a ele ser um excelente rapaz.

A pobre menina recebeu essa opinião de sua mãe como se lhe tivessem dado uma punhalada e respondeu apenas:

— Talvez,

Ficou-se porém a pensar naquilo, e o seu amor proprio de mulher revoltou-se.

Não era vaidosa, mas tinha a convicção nitida da sua beleza, e sobretudo do valor dos seus sentimentos e qualidades.

afeiçoara-se ao rapaz, e esperava sempre essa ". declaração positiva, que o ato inesperado de um criminoso viéra cortar abrutamente.

Allribuia sómente à sua pobreza o fato do João a regeitar, fazento a córle talvez a alguma menina rica que lhe satisfizesse bem às suas ambições futuras, pois faltava já pouco tempo para ele concluir o curso e proclamar-se medico.

Ouvia muitas vezes dizer, que em regra os medicos são ambiciosos, e quase todos procuram para esposa mulher que possua bens de fortuna.

Não arguia o João Gonçalves, porque ela nunca se lhe declarara.

Era mesmo possivel que aqueles extremos que ele lhe tributava fossem apenas filhos da sua grande bondade e das qualidades da sua alma afetuosa e meiga.

A sua sagacidade natural de mulher segredavalhe porém que naqueles modos e attenções do João Gonçalves, havia alguma cousa mais do que a simples expressão duma alma de rapaz propensa a tratar extremosamente aqueles que o acarinha - vam,

Se os labios ainda não se linham descerrado numa confissão cathegorica, os seus olhares não podiam negar o sentimento que lhe ia no espirito.

Embora inexperiente, a Guilhermina estava convencida de que não era indiferente ao estudante, e por isso a brusca mudança que este fizera magoava-lhe a alma profundamente.

Passava as noites sem poder conciliar o somno e às vezes chorava em silencio a sua desdita.

fora aquele o primeiro homem por quem o sen coração despertara ao sol caricioso e brilhante do amor.

Amava-o pelo seu carater sincero e honesto, pela bondade dos seus sentimentos, e mesmo como homem, pois pequenina e debil como era, sentia-se vivamente attrabida para aquele macho de fórmas herculeas e vigorosas, que lhe pareciam proprias para a defender e escudar dos males do mundo como um colosso de bronze.

Mal sabia porém que o João Gonçalves tambem soffria em silencio por causa dela,

Recebera uma longa carta do pai, na qual, depois de varias considerações e censelhos, lhe recor= dava que sua prima Gertrudes, filha de seu tio Eleutherio, completara os dezoito anos, e as duas familias haviam accordado em que ele casasse com ela.

A Gertrudes era rica. Quando casasse devia receber a legitima da mãe falecida e que orçava por uns vinte contos, e do pai era a herdeira absoluta, pois não haviam mais irmãos.

A Gertrudes, além de não dever á natureza cousa alguma à formosura, era dotada de um genio irrascivel e autoritario, que uma educação pouco euidada deixara florescer em todas as suas manifes-

tações.

Fôóra sempre assim desde pequenina.

O João era mais velho do que ela sete anos, e como sempre andara arredado da casa paterna pelos estudos, pouco convivio tinha com ela.

O pai da Gertrudes, irmão do João, vendo o sobrinho proximo a sair doutor, anteviu nele o melhor esposo que podia dar a sua filha, com a vantagem da sua fortuna não sair da familia.

Na sua carta extensa e repizada, o pai do futuro medico lembrava-lhe os sacrifícios que tinha feito para lhe dar aquela posição, e como pratico que era, apresentava-lhe as vantagens daquele casamento, notando lhe que a sua modesta fortuna rural era bastante mesquinha para lhe abrir carreira, tanto menos que havia outro herdeiro, sua irmã Clotilde, ainda solteira.

Rogava-lhe pois que tomasse aquela carta em toda a attenção e criterio, e se lembrasse sempre de que o casamento havia de fazer-se.

O João ficou como que atordoado perante aquela novidade de negocios de familia, que estava longe de esperar, e na qual nunca pensára.

Se não gostasse tanto da Guilhermina como gostava, a carta de seu pai pouco o teria incomodado.

Casaria com a prima, indiferentemente, sem afeto nem repugnancia, só para satisfazer os desejos do autor dos seus dias, que ele venerava com o maior dos respeitos e devoção.

No momento atual, esse desejo paterno contra - riava-o a mais não ser.

Era certo que não o ligava à gentil menina o menor compromisso, mas no seu intimo custava-lhe a desfazer aquele doce sonho damor, o primeiro da sua vida de rapaz, a que se fora acostumando lenta e serenamente.

Demais, conhecia bem a educação fina e o genio bondoso e meigo da Guilhermina, muito honesta, séria e submissa, que dava garantias de ser uma excelente esposa, uma bela dona de casa e uma exemplar mãe de familia.

Acostumado porém a obedecer cegamente às ordens e desejos do pai, fez um supremo esforço de vontade, e tratou de travar aquele encantador idylio em que estava vivendo havia ja seis meses.

Pensou em sair de casa da D. Mariana e ir hospedar-se noutra parte.

Lembrou-se porém da falta que iria fazer às pobres senhoras, e o seu coração bom e generoso, resignou-se a soffrer com coragem para não transtornar a vida dos outros.

Deu-se então a essas largas ausencias de casa, notando porém que a Guilhermina emagrecia, e que uma sombra de profunda tristeza empanava a doce e meiga expressão do seu lindo rosto virginal ç belo.

Atirara-se ao estudo com uma ancia terrivel, é quanto mais o seu coração soffria, mais louros de gloria colhia nas aulas, sendo proclamado o primeiro estudante do curso.

De novo voltara a descuidar-se do seu vestuario

e tornara-se macambuzio e sombrio, a ponto do Sebastião Guedelhas declarar que o Urso soffria da nostalgia da stepe siberiana donde viera para a Escola Medica.

O dito foi considerado de graça entre os estudantes, e chegou aos ouvidos do João.

Em vez de se zangar, ele sorriu-se tristemente e declarou que o Guedelhas talvez tivesse razão...

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