VII
Muito fraco ainda, cadaverico, palido como um defunto, embrulhado num enorme casacão felpudo, com o busto curvado e encostado ao braço do Tavares, o José Epigastrico entrou no Suisso eram oito horas da noite.
Estava-se em principios de fevereiro.
Havia mais de um mês que ele não saia de casa e à custa de enormes cuidados melhorara um pouco.
Moralmente porém, o seu espirito encontrava-se mergulhado no mais profundo abatimento.
Escrevera repetidas cartas à D. Heloisa.
As primeiras obtivera outras em resposta, cheias de ternura e de afeto, nas quaes ela, recordando os seus amores, desejava que ele melhorasse.
Pouco a pouco porém, essas cartas foram rareando, e cada vez eram menos expressivas e expansivas.
A ultima em resposta áquela em que ele lhe participava que em breve teria licença do medico para sair e iria visital-a, ela mandou-lhe dizer que não se incomodasse, porque ia sair de Lisboa por alguns meses afim de liquidar uma herança que lhe deixara um tio falecido em Beja.
Era mentira.
Apaixonada loucamente pelo seu novo amante, o herce dos heroes nas campanhas do amor, à D. Heloisa o que desejava era evitar o reateamento daquela antiga ligação com o Josésinho, e mesmo porque tal ligação não podia existir, pois o novo amante nas noites em que não estava de serviço nos comboios ia ficar com ela.:
Ensaiou hem a criada, em cuja perspicacia tinha toda a confiança, e resolveu não mais escrever ao José.
Assim, a carta que ele lhe mandou repleta de saudade, e de amorosa expansão não obteve resposta.
ela leu-a à criada.
—Coitadinho do menino, exclamou a esperta alcayota da ama; o rapazinho gosta muito da senhora.
— Gosta, sim, Thereza, lá isso é verdade, mas... ele é muito fraquito para estas cousas.
— A senhora tambem não o deixava...
— Então para que o queria eu? vê lá se o se-
nhor Ladislau se cança?! Ah, Thereza, este é que é um homem como se quer.
— Tambem póde-se lá comparar o senhor Ladislau, que é uma torre, com o menino José que andava sempre que parecia roido das carochas, com aqueles olhos muito grandes e muito pretos que até fazia arripiar a gente, o cabelo muito lambidinho e mais esguio que um pau de arfeloa.
A D. Heloisa riu demoradamente agitando num tremor convulso todas as suas exbuberantes e já pouco duras carnes.
— Tu sempre tens cousas! disse olhando para a Thereza.
— A senhora tem razão. O meu Thomaz, que foi porta-machado do 7, tambem era um pimpão para a coisa... como o senhor Ladislau.
E a velha Thereza arrancou do fundo do ressequido peito um longo suspiro que envolvia um vasto poema de doces recordações da sua mocidade.
— Mas olhe, accrescentou ela, sempre direi à senhora que tenho pena do menino José, Era tão delicado, tão agradavel, tão bomsinho, e parecia gostar da senhora a valer,
— Pois gostava, gostava, Thereza, e por isso mesmo é que eu julguei melhor cortarmos as nossas relações. ele não podia com semelhantes excessos a que o levava o seu amor por mim.
A Thereza deitou à patroa um olhar matreiro.
Ha vinte anos que a servia e conhecia-lhe portanto a chronica.
Algumas noites, curiosa, fora escutar à porta do quarto e percebera que era ela quem desafiava O pobre rapaz.
Encolheu os hombros e batendo no solo os seus ignobeis chinelos de trança, accrescentou:
— Este é que não se vai assim abaixo com duas razões.
— Isso agora veremos... respondeu a D. Heloisa erguendo a bata e repuchando as meias luxuosas e elegantes, que lhe ficavam como uma luva na perna roliça, polpuda e musculosa.
..... aerea. eu....eseea
O José sentara-se à meza onde se juntaram os seus amigos, o Christovão Pernalta, o Sebastião Guedelhas, o Anacleto Figueiredo, o Tavares, O Peres, o Climaco e o Sinfronio, tres novos perpetradores de crimes literarios que pouco a pouco se havicm reunido à coterie.
falavam ainda da Alvorada, morta no oitavo numero sem de si deixar rasto apreciavel, a não serem os artigos do Anacleto e os do Julião Reis, os unicos que, além do Escuro, possuiam talento e faculdades criadoras.
Todos tinham felicitado muito o José pela sua reaparição e melhoras, e apresentaram-lhe os tres novos amigos, o Peres que escrevera cousas na Alvorada, o Climaco que estava a fazer um livro ácerca de Byzancio, e o Sinfronio, poeta symbolista, que tinha em preparação um volume de versos incomprehensiveis, e por isso mesmo geniaes!...
Sempre despeitado com o fracasso da sua obra o Guedelhas, depois de alguns momentos de conversa sobre generalidades e respetivas tareias nos, sulrefas dos editores que não queriam editar os livros dos novos poetas e prosadores, voltou-se para o José e perguntou-lhe abrutamente:
— E a tua Arte quando aparece?
— À doença não me tem deixado trabalhar, respondeu ele revolvendo nas cavadas orbitas os seus grandes olhos negros de expressão de lanigero.
— Ah, sim, tens razão, desculpa, atalhou o Guedelhas percebendo nas fisionomias dos amigos que tinha sido um tanto bruto.
— Mas em estando melhor, proseguiu o José picado no seu amor proprio, começarei a recuperar 0 tempo perdido. Descança que o meu trabalho ha de aparecer mais breve talvez do que tu imaginas.
— Mas olha que tu sempre tiveste um arrojo inaudito, oh José! proseguiu o Guedelhas, que estava com manifesta vontade de questionar. Discutires arte, e demais a mais arte literaria, é um: trabalho de tal complexidade que me parece...
E ficou-se sem concluir, porque o Arnaldo lhe «eu por debaixo da meza um valente canelão.
— Que te parece o quê? interrogou o José.
— Que tu farás o teu nome com esse livro...
A expressão abatida do pobre doente irradiou de alegria antevendo naquelas palavras o prognostico da sua vitoria literaria. E tão contente se sentiu, que até esqueceu que de cada vez que revia o original já escrito mais embaraçosas é dificeis se lhe antolhavam as altas muralhas que se levantavam no proseguimento da obra, que demandava um folego e uma educação e experiencia literaria que ele estava longe de possuir.
Calado, o Guedelhas saboreava a sua chavena de café.
— Então já sabem o acontecimento de ontem na Escola Medica? disse dali o Sebastião Pernalta.
— Não. O que foi? exclamaram todos quase a um tempo.
— A esplendida lição que o Urso deu, a ponto do dr. Eduardo lhe fazer um elogio perante toda a aula, declarando que muito o alegrava a ideia de «em breve poder chamar colega a um estudante de tanto valor.
— Toma! observou o Guedelhas. Meus amigos, ainda até hoje não vi nenhum urso que não fosse feliz.
- — Menos os que andam pelas ruas a fazerem habilidades e cheios de fome, retorquiu o Anacleto.
— Sim, menos esses. Mas eu referia-me aos ursos da nossa especie.
— Se ele tivesse alma de artista, comentou o Tavares, dava um homem de muito valor.
— Lá porque estuda como um burro para acabar O curso e começar por ahi a dar consultas nas farmacias até que encontre uma herdeira rica que queira ser esposa do senhor doutor? berrou o Guedelhas animando-se, pois nunca gostara do João desde que este, repelindo-lhe uma brincadeira de mau gosto, o estirara no chão da casa das autopsias com uma despreoccupada chulipa.
— Sejamos justos, atalhou o Anacleto: o João Gonçalves é o estudante mais distincto do curso, e em se formando não ha de ser ele quem se restrinja à vida medica de consulta nas farmacias. Se vivermos ainda o havemos de ver provido numa cadeira da Escola.
— Que lhe preste, rosnou o Guedelhas.
— Olhem, ele ahi vem, disse o José apontando para a porta.
Efetivamente o João Gonçalves, de aspeto muito prasenteiro e bamboleando o seu grande busto, entrou no café.
— Boas noites, rapazes, exclamou estendendo as mãos aos amigos.
Todos o saudaram agradavelmente.
— Boas noites e parabens, accrescentou o Anacleto.
— Parabens de quê? interrogou o Urso.
— Já se cá sabe o elogio que tu ontem apanhaste do dr. Eduardo em plena aula.
— Ora, ora, disse ele rindo. Por isso é que me dás os parabens? Julguei que vocês houvessem sonhado que me tinha saido a sorte grande.
— Nem só o dinheiro póde causar a felicidade de um homem, replicon o Anacleto.
—E é verdade, respondeu o João pensativo. Aquilo não valeu nada. Como gostei da lição tinha-a estudado com amor, e o lente deu-lhe na bolha dizer-me aquelas coisas.
E sem se mostrar nem orgulhoso nem pedante voltou-se para o José e exclamou:
— E tu como te sentes, rapaz? estás 'melhor? Fizeste asneira em sair numa noite como esta, fria e humida.
Sentou-se ao lado dos amigos e mandou vir um café.
A conversação então derivou das questões literarias para varios assumptos geraes, e ás dez horas cabia um chuva meudinha e gelada.
O José, tremendo de frio, metteu-se num americano e dirigiu-se para sua casa na rua de S. Francisco de Paula,
O Tavares, que era um zaranza, perdido pela mania do jornalismo e frequencia dos palcos, mas possuia um coração generoso e bom, acompanhou-o.
A essa hora já o Urso estava no seu quarto da travessa dos Fieis de Deus, ou para melhor dizer, encontrava-se estudando na casa de jantar da D.
Mariana, sentado à meza defronte da Guilhermina que trabalhava nuns bordados dificeis para uma menina rica que ia casar-se.
O Carocho, enroscado sob o amplo gabão do seu amigo, ressonava como um bemaventurado.
Como dois meses antes, de vez em quando o João erguia os olhos do livro e a Guilhermina os seus do bordado, para se encontrarem rapidos num mutualismo espontaneo, que lhes enchia de felicidade as almas juvenis e amoraveis.
A Guilhermina como que adquirira uma vida nova desde que o vira volver aos seus antigos habitos. Os seus olhos tinham deixado de chorar messe silencio afilitivo do seu quarto, quando o demonio do ciume lhe cravára no coração sensivel e casto as agudas e recurvas garras. 6
As vezes porém assaltava-a um presentimentó terrivel. a
Em breve o João concluiria o curso e seria di clamado medico.
. Filho de gentes abastadas, pelo menos o/tio) certamente que abriria o seu consultorio nºalguma rua das mais concorridas da baixa, pois “era“imo possivel que ele depois da formatura continuasse a residir num quarto alugado na travessa “dos Fieis de Deus.
Passaria depois muitos dias sem over, potistiva, talvez meses; ele começaria a dar-se com-famis lias abastadas que haviam de procwral-o,poié já da escola levava um nome laureado; e quem sabé
se alguma das suas clientes, qualquer menina rica e formosa, se enamoraria dele e o casamento se realisasse breve.
Estes pensamentos torturavam a alma suscetivel e muito delicada da pobre Guilhermina, trazendo-a apprehensiva e triste.
A D. Mariana suspeitava do estado do coração da filha, desconfiava mesmo que era do João de quem ela gostava, mas não lhe falára ainda em tão melindroso assumpto.
O João agora era ainda mais expressivo e afetuoso do que antes se mostrára.
aqueles dias de ferias longe da gentil menina e lembrando-se dela a cada momento, indicaramlhe que era amor o sentimento que ele sentia por aquela formosa e bondosa joven no alvorecer sorridente da mocidade.
Demais, sua prima Gertrudes deixára-o muito mal impressionado.
Não gostava dela nem fisica nem moralmente, e depois do que a respeito dela a Clotilde lhe contára ainda menos probabilidades via em principiar os preludios duma ligação que deveria fazer a infelicidade de ambos.
“Estava resolvido, depois de concluir o curso, a falar claro aos pais, e a colocar a questão nos termos rigorosos em que a via sob todos os aspetos.
| Não era ambicioso, e o carater da Guilhermina agradava lhe, extraordinariamente.
aquela sim, aquela é que devia ser uma boa esposa e uma boa mãe, como excelente filha sempre fora.
Muito modesta e ignorante do bulicio do mundo, sem aspirações à grande vida moderna, acostamada desde criança ao governo da casa, divorciada de festas e prazeres que a não seduziam, à Guilhermina era em tudo e por tudo propria para fazer a ventura dum homem reservado e de habitos simples e caseiros como ele entendia a vida da familia.
Não era homem para andar em teatros, em bailes, em soirées e em reuniões, a estadear as sedas e as joias da mulher anciosa de luzir a sua riqueza.
E tudo isto constituia exatamente as aspirações da Gertrudes, conforme ela lhe declarára sem reservas nem hypocrisias.
Bem sabia que a familia havia de ficar altamente desgostosa e despeitada com esta resolução, especialmente seu tio, mas por muito que estimasse os seus e desejasse sempre não discordar das idêéas que eles nutriam, achava que naquele ponto tão serio, de ligar a sua vida inteira a uma mulher de quem não gostava para esposa, nem cujo carater lhe agradava, não deveria submetter-se, pois corria o risco de fazer a infelicidade de toda a sua existencia. À
Em ultimo caso confiava no bom senso de seu pai que, tão seu amigo como era, certamente não
desejaria que ele corresse submisso e cego, para lhe agradar, à conquista da desventura.
E firme nestes pensamentos deu-se a amar à Guilhermina tão claramente, que faltava apenas uma declaração cathegorica para não existirem duvidas.
Tencionava declarar-se-lhe no dia em que defendesse these.
Faltava já pouco tempo para esse almejado final da base da sua vida futura, e até lá iria amadurecendo a sua ideia.
Prova de amor, dera-lhe ele, sem ela a saber, oferecendo-lhe intata a caixa dos doces que a Gertrudes lhe dera na estação do caminho de ferro no dia da sua partida para Lisboa.
E só os provou à sobremeza, quando a Guilhermina lhe ofereceu um, tirado do prato com a sua pequenina mão muito branca e delicada.
Ao cabo de seis dias de estar em Lisboa é que se lembrou que promeitera escrever à prima amiudadas vezes!
Dirigiu-lhe pois uma carta inexpressiva e banal, carta onde se via claramente que o coração não tomára a menor parte, e contava-lhe que o Carocho apenas o viu lhe fizera muitas festas e a D. Mariana e a filha, a D. Guilhermina, o tinham. recebido com muita alegria e satisfação.
A Gertrudes quando recebeu esta carta ficou
desapontada.
— Que serie de banalidades! exclamou, atirando-a para a pedra do toilette.