V
O aparecimento do livro do Sebastião Guedelhas foi um successo de má lingua no Suisso e na Monaco, um canudo para o editor, e uma massada para os jornaes que recebiam pedidos para lhe fazerem o réclame por todas as fórmas e feilios.
Byzancio era um trabalho de absoluta falencia inteletual e poetica, declarára o critico de um jornal que, sob o pseudonymo de Z. Mysterio, aplicava com justiça e boa logica, monumentaes tareias nas obras lilerarias que lhe chegavam às mãos.
Tinha feito o elogio do Filho das Hervas, do Malheiro Dias, e da Caridade em Lisboa, do Teixeira de Queiroz, e tanto bastou para levantar contra si todos os reformadores e demolidores da
literatura nacional, acampados às mesas do concorrido café do largo de Camões.
Parecia porém que o homem não se importava muito com isso, porque as suas tozas não afrouxavam de intensidade, e agora fora impiedoso para o livro do Guedelhas.
Chamava-lhe arte nova de versos mal feitos e rimas forçadas, sem inspiração nem colorido, só percebivel pelos nephelibatas!!
O Sebastião foi aos arames, e o Sebento defendeu-o no Universo proclamando o livro um primor de arte poetica, a verdadeira arte elevada e sentida na sua mais alta manifestação, e para corroborar este parecer, transcrevia no final da critica um dos canticos mais nebulosos e insipidos do poema, onde haviam castelos luarentos, rosas cor de cobre, ogivas denegridas, caveiras de mandibulas torcidas numa expressão de desespero, e sapos esverdeados em aguas pantanosas e fétidas,
Um horror de porcaria, que estava a pedir a intervenção do delegado de saude, escrevera o Z, Mysterio apepinando o poema.
O editor é que andava fulo como uma cobra em dia quente de agosto.
Vendera apenas dez exemplares em oito dias, e os habitués da loja, que o tinham passado pela vista, eram todos de parecer que aquele trabalho devia ser incluido na classificação das paranoias que o Julio Dantas expoz na sua these intitulada Poetas e artistas de Rilhafolies..
As mesas do Suisso travaram-se então acaloradas e irritantes discussões, que davam em resultado os furibundos literatos comparecerem no dia seguinte nas aulas sem saberem nem uma palavra da lição, e caminharem para a perda do anso com vertiginosa rapidez.
O Christovão Pernalta andava a modos desconfiado.
Tambem ruminava a ideia de botar livro para não ficar atraz do Guedelhas.
Pensara em escrever um romance de analyse de costumes, e dez vezes começara a escrever O primeiro capitulo e outras tantas rasgara o que escrevera, por não encontrar a nota da originalidade com que pretendia achatar, é v termo, todos os seus amigos e colegas.
Imaginara o suicidio dum rapaz apaixonado por uma cocotte, que o deixara por um mulato de S. Thomé que dispunha de bens de fortuna, e realisava o nefando attentado prohibido pelos sagrados canones, numa das latrinas que existem por detraz do teatro de D. Maria, depois de se ter despedido do mundo e da amante num soneto escrito a lapis na caiada parede da mesma!
Era sem duvida original e exquisita esta maneira de um namorado acabar com a vida para não soffrer o abandono da amante.
Muito em segredo contou apenas ao Tavares a sua ideia.
Este achou-a magnifica, dum acre sabor tragico
e singular, que havia de despertar o interesse dos leitores.
Era 0 maximo realismo na Arte.
Inconfidente disse-a ao Anacleto, que por sua vez a contou ao Sebastião.
Fulo pelo insuccesso do seu livro e pelas tareias recebidas, o Guedelhas não teve mão em si que não dissesse tudo aos amigos, numa noite em que o Christovão não estava presente.
Os campos dividiram se.
Honve quem achasse a ideia ridicula, e houve quem a considerasse soberba.
Faltava saber qual a maneira de pôr fim à existencia escolheria o heroe do romance do Christovão.
O Tavares declarou que era por meio de um tiro de rewolver.
— No olho?.. interrogou o Sebastião
Gargalhada geral, e tendo o Pernalta aparecido cercaram-no de perguntas. quase que iam dando com ele em doido.
Felizmente não chegou a lançar no papel o que a sua mente concebera, porque o pai, rispido e teso, o ameaçou de o mandar para a Africa como empregado de uma casa comercial, se ele perdesse o ano.
Tendo abandonado os estudos, o Anacleto Figueiredo dava-se ares protetores de jornalista de importancia.
A familia tivera com isso um enorme desgosto,
porque o seu maior interesse era que o filho seguisse o curso de engenheiro civil.
O Anacleto declarara porém formalmente que as letras eram a sua vocação. e orgulhoso e radiante: lia os artigos que publicava no Universo, cheios de ideias arrojadas e de critica acerba sobre todos os nossos poetas, prosadores e dramaturgos, a quem negava talento, e condemnava as obras como mediocres e estiolantes da nossa regeneração literaria.
— Conseguiu assim, impôr relativamente o seu nome às alenções dum certo meio.
Não tinha rasgos brilhantes de inteligencia superior, mas sabia dizer mal e apanhar o ponto fragil das cousas.
Era de todos o mais bem construido, mentalmente encarado, e dispunha de regulares faculdades de trabalho.
De parceria com o Julião, seu amigo intimo, lan” cara a publico um pamphleto de combate, O bisturi, no qual flagelava todos os vícios da nossa sociedade politica, literaria, burgueza, industrial e burocratica.
A publicação morreu no seu oitavo numero é não deixou rastro, porque o publico manteve-se indiferente, pois estava saciado de ler aquilo mesmo em varios jornaes avançados.
Sem perderem o animo, resolveram abordar apenas as questões literarias, e fundaram a Alvorada, jornal quinzenal, onde os novos deveriam terceiar-
as suas armas, expondo à luz clara da imprensa os frutos do seu talento.
Contaram com a colaboração de varios amigos ditteratiços, entre os quaes o José Epigastrico, O Guedelhas, o Christovão, o Tavares, o Dias, o Gameiro, o Escuro, o Barros, o Rebelo, o Xerxes, Teixeira, o Peres, e tantos outros de que as chromicas literarias não conheciam os nomes, mas que «chegavam ao campo da luta promptos e decididos a terceiarem armas, e quaes outros Magriços, a baterem-se gentilmente no campo largo e verdejante da lilteratura, pela Arte Nova e pela sua dama!
A luta devia ser homerica e medonha,
Pretendia-se derrubar os velhos idolos das letras, provar que todos eles tinham os pés de barro, e relundir por completo o paladar do publico, obrigando-o a confessar que a literatura deles é que era a verdadeira, a genuina, a unica que possuia a luminosa scintilação artistica do sentimento e da verdade, e aquela que estava destinada a operar a revolução do lheatro, do romance e do poema, como Balzac tinha feito em França e depois dele Sardou, Zola, Daudet, Flaubert, George Ohnet, Prevost, Loti e outros demolidores de superior talento.
Haviam de pulverisar toda a obra dos modernos ditteratos, o Chagas o Camilo, o Thomaz Ribeiro, o Eça, o Fialho, o Malheiro Dias, o Junqueiro, o Go- «mes Leal, o Mesquita, o Lopes de Mendonça, o Dan-
tas. o João da Camara, o Raul Brandão e outros, não ficando dela pedra sobre pedra.
Nas suas mãos magras e tremulas traziam a lanterna vermelha da verdade e da razão, com a luz da qual haviam de alumiar em soberbas projecções de genio, a longa e magnificente estrada da literatura nova.
Todos os que tinham produzido qualquer cousa apreciavel e comprovativa de boas faculdades de trabalho e de imaginação, eram uns mediocres sem talento, e eles, que nunca haviam gestado coisa alguma que revelasse uma ideia, é que estavam encarregados da gigantesca reforma!!
À força de incoherencia a ideia chegava a parecer sublime!
Estavam animados das mais fortes e inhabalaveis resoluções que haviam de dar brado em todo o nosso mundo literario.
Tinham lido Saint Benve, e Max de Nordaa, alguns trechos das obras de Tolstoi, de Turgouneff, de Hauptman, de Ibsen, e de outros escritores de raça, nascidos entre as densas brumas dos gelidos paizes do norte.
Era por eles, pensadores melancolicos e fantasiosos, quase infantis, à procura da eterna justiça e da doce perfetibilidade da alma humana, nas: gidos num meio especial e exotico, que os novos Jutadores da pena tencionavam regenerar as nossas letras, esquecidos do nosso temperamento de meridionaes que nunca nos permiltirá attingir a
essencia da obra complicada e fenomenal dos grandes literatos slavos!
E então, nos primeiros numeros da Alvorada, começaram a surgir em prosa e verso, abortos extraordinarios que irritavam os nervos e ninguem comprehendia!
O Anacleto e o Julião, unicos que possuiam va- Jor real e boas condições de trabalho, desesperavam-se com aquele japoneirismo torturante que ameaçava matar-lhes a publicação à força de banal, e o critico Almeida, com aquele seu sorrisinho de blagueur e trocista impenitente, apezar de tosado na Alvorada, declarara no Suisso que os seus diretores ainda tinham talento, e que de toda essa cafila de idiotas, só o Escuro e mais dois, revelavam qualidades literarias.
O resto era uma vara de... e proferiu uma obscenidade realista e expressiva.
Os primeiros numeros do jornal ainda se venderam.
O meio inteletual esperava quaesquer revelações que indicassem o alvorecer duma mocidade tulentosa e habil, cheia de vida, de fogo, de originalidade e de belas atidões literarias. O jornal promettia critica severa e rude, apreciações justas é imparciaes, e trabalhos desses novos, que não encontravam fora do seu gremio ninguem de talento: nem de merito.
A desilusão foi porém absoluta e completa.
Afóra um ou outro artigo dos seus diretores,
uma poesia regular ou um conto acceitavel, o resto não passava de um acervo de ingenuas sandices pretenciosamente literarias, que massavam o espirito e deixavam a impressão de que esses reformadores se encontravam em manifesta decadencia mental.
E essa decadencia accentuava-se no trabalho enorme que o Julião e o Anacleto tinham para lhes apanharem os artigos, escritos dosimetricamente com uma dificuldade atroz, uma verdadeira ausencia de seiva produtiva, tirados do cerebro quase que a forceps, parto laborioso e dificil que os deixava extenuados para uns poucos de dias.
Os leitores começaram a rarear, e o jornal só era discutido e apreciado entre os que para ele escreviam.
O desalento invadiu os espiritos realmente saudaveis do Julião e do Anacleto, experimentados e trenados nos trabalhos da imprensa diaria e do pamphieto, e a Alvoreda morreu no seu oitavo numero, tonservando apenas como documento valioso as criticas filosoficas e literarias dos seus di. retores, e alguns trabalhos do Escuro, que tinha
“talento, segundo vaticinava o critico Almeida.
O José Epigastrico achava-se de novo em campo, sósinho com o seu livro «Arte», do qual tinha apenas escrito o primeiro capitulo.
A doença não lhe permittia trabalhar, e as saudades da Heloisa amarguravam-lhe a alma ensandecendo-lhe todas as faculdades imaginativas.
Um pouco melhor lembrava-se dela a cada momento, daquelas deliciosas noites de volupia passadas nos seus braços de nymphomanisca quarentona, rescendente a essencias finas e fazendo resaltar todos os salvados da sua extincta juventude, em primores de rendas finas, de sedas leves e transparentes, e de calçado de luxo primorosamente cingido aos seus bonitos pés pequeninos e bem feitos e à perna grossa divinamente bem torneada.
Lembrava-se daqneles beijos ardentes e lascivos e daquelas exclamações de ternura e de amorosa sensualidade, apimentadas a espaços por frases soltas duma liberdade incorreta, que eram como que a espora que a feriam nas suas anciedades messalinicas.
Hysterico como ela, com o coração a trasbordar-lhe de ilusões fugazes e mentidas fantasias, o José, convencido de que era apaixonadamente amado por aquela mulher fatal, soffria terrivelmente com a separação forçada em que se encontrava.
Mal sabia ele que já tinha um substituto: Era um revisor da companhia dos caminhos de ferro, rapagão de gigantescas proporções, de quem ela se apaixonara num domingo que fora a Queluz visitar uma amiga intima!
A contas com aquele hercules transmontano, acima de tudo um bonito homem, a D. Heloisa esqueceu o José, e altingin os pinaculos da felicidade dominada pela robustez excepcional do novo
amante, o mais completo e na conta de todos os que até ali tivera.
Dava lhe boas ceias de bifes e carne assada, vi- - nho do Porto e queijo, que ele absorvia como um apetite de leão, afim de se portar com uma valentia de heroe.
Era a antithese do José, que fraco de estomago se contentava com um chavena de chá e bolachinhas Marias, ou um bocadinho de marmelada e um copo de Malvasia quando, praticando façanhas superiores às suas forças, a D. Heloisa se condoia dele e lhe dizia com um certo tom de desgosto e de despeito:
— Es tão fraquinho, meu anjo!
Agora já a mãe do José, que o adorava, formara tenção de o levar para Caneças apenas viesse a primavera
E ele, para não se subtrahir ao convivio dos amigos, às reuniões do Suisso, e aos amores da amante, declarava que talvez não fosse necessario aquele remedio.
A mocidade sobrelevava à prudencia, e o amor proprio ao são criterio. A
Léra todos os numeros da Alvorada e sentiu-se indignado.
Não era aquilo o que ele esperava, e numa expansão de amistosa confidencia, declarou ao Tavares, que tambem andava magro e escaveirado, que o jornal era uma borracheira ignobil, que viera fazer um prejuizo terrivel aos creditos do gremio
dos novos, expondo a nú a sua insuficiencia mental e qualidades anti-literarias.
O José apreciava justamente a verdade, e talvez chegasse a dar alguma cousa se, à falta da precisa robustez fisica, organisasse um methodo de trabalho compativel com as suas forças, limitando-se a produzir successivemente obras de simples faclura até haver pelo estudo e pela observação ganho a robustez precisa para alçar mais alto os seus vÔos.
Tendo inutilisado o seu poema incompleto a Morte de Cleopatra, por o julgar mediocre e frouxo, pensara em se eslreiar no mercado das letlras com 0 seu livro «Arte», que abrangia por completo as mais vastas e complicadas theorias literarias e criticas, livro destinado a refundir as leltras patrias e que experimentados escritores de pulso hesitariam em escrever.
O prefacio, já prompto, não estava mau.
Era ele a corporisação graphica das ideias que lbe borbulhavam na mente, dos seus desejos e das suas aspirações literarias; mas ao par que essas ideias iam declinando por já estarem expendidas, tambem o estylo amortecia, e a falta de base e de real talento para o substituir, começava a transparecer nos ultimos periodos, terminando aphorica e nebulosamente duma maneira quase incomprehensivel.
O primeiro capitulo abordava a poesia, e era uma critica falsa da obra de Garrelt e de todos os
poetas contemporaneos do ilustre reformador do teatro português.
O José mal conhecia as obras desses poetas, é quando chegou a meio, os argumentos analyticos começaram a faltar-lhe, exatamente no periodo em que os incitamentos da D. Heloisa lhe sobravam para a fatura da mais real e positiva de todas as obras da ereação.
Agora, depois da leitura da Alrorada, a sua pobre cabeça ficára num verdadeiro cahos. aquela prova terrivel de que os novos ainda estavam, na sua maioria, em peiores circumstancias mentaes do que os velhos, atordoara-o como se lhe houvessem despedido um violento golpe sobre o craneo enfraquecido.
Bom ou mau, melhor ou peior, estes ultimos continuavam a produzir trabalhos que mereciam O agrado publico e que revelavam estudo e aplicação.
A Caridade em Lisboa, de Teixeira de Queiroz, deixara-o surpreso.
aquela obra era positivamente um belo estudo de observação e de ertica, educativo e filosofico, cheio de ternura e de humanitarismo personificados na pessoa do protogonista, além de scientificamente revelar vasto e profundo conhecimento dos modernos trabalhos de microbiologia, que ali se encontravam honesta e proficientemente descritos na analyse de um triste caso de infecção mormosa.
Da camada antiga, Teixeira de Queiroz, produzira uma obra moderna, cheia de verdade, de vida e de realismo, sem lhe faltar nem sentimento nem arte na maneira de apresentar as cenas e 0 caracler nitido de todos os personagens.
aquele livro de reservada censura e sutil critica, era um detalhe magnifico do nosso modo de ser social, é qualquer novo que o houvesse escrito, sem se preoccupar com altas fantasias balofas e arrojadas aspirações incoherentes, teria feito de uma vez 0 seu nome e a sua reputação literaria.
O José sentiu-se vacilar ante aquela prova esmagadora de que os novos não produziam coisa digna de maior valor, existindo da velha guarda das letras, alguns que ainda conseguiam que as suas obras fossem lidas com interesse e applauso publico.
Na sua consciência achava a obra boa, duma fatura muito honesta, os carateres bem desenhados, as situações encontradas sem esforço, os episodios logicos e naturaes, o estylo facil e elegante, e a parte descritiva bastante colorida para dar um bom relevo a todo o decorrer da obra.
Especialmente a kermesse e o velho bairro da Alfama, eram fotographias magnificas que faziam honra ao romancista.
Não haveria Arte naquele sério e probo trabalho lilterario?
Esta interrogação verrumou-lhe o cerebro ex-
haurido como se nele lhe cravassem um prego de galeota.
Afinal o que era a Arte no romance?
Não seria ela tanto mais legitima e sincera quanto melhor pintasse as cenas da vida real e as qualidades e idyosincrasias dos personagens dos nossos dias que nela se agitam?
Seria licito negar a Arte a qualquer obra literaria que symbolisasse uma época e caminhasse firme e serena para um ideal educativo e filosofico, como esse do romance de Teixeira de Queiroz, pondo em contraste a caridade espetaculosa, desfastienta e sportiva da sociedade elegante, e aquela que nascia espontanea, anonyma, impulsiva, modesta e desinteressada na grande alma do Barbas?
Se isto não era Arte nas letras, então onde se deveria procurar essa esquiva deusa que os gregos tanto cnltivaram e conseguiram altingir nas suas imorredouras obras da esculptura e da pintura? |
Realmente fidias, Praxiteles, Xeuxis, farrasio, Apeles, e outros, fizeram Arte a valer, reproduzindo duma maneira assombrosa e fecunda, na pedra e na tela, as mais belas maravilhas da natureza.
Mas aqueles que no livro, no romance ou na poesia, conseguem sensibilisar o coração humano pelo relevo da pura verdade suggestiva tambem devem ser considerados artistas.
As obras de Zola, de Hugo, de Flaubert e de Balzac são obras de arte, porque encerram, como na Nana, nos Miseraveis, na Salambó e na Eugenia Grandet primorosas e esplendidas analyses de carateres e de costumes sociaes que educam e instruem o leitor.
O Monge de Cister, o Eurico, As viagens na minha terra, A morte de D. João, todos os sonetos de Anlhero do Quental, o Primo Bazilio, Os Maias, os Fidalgos da Casa Mourisca, o Amor de Perdição e as Memorias do Carcere, do grande Camilo, são trabalhos literarios aos quaes não falta Arte em muitas das suas paginas.
O José, pobre dele, andava muito arredio da verdade, confundindo a arte literaria com a arte nova que invadiu os dominios da moda e do chic, produzindo horrores e sacrilegios hediondos e imperdoaveis.
Chamava arte ao byzanthinismo nas leltras, ao symbolismo incarateristico e balofo, que explica a falta de talento analytico para organisar uma obra solida e pensada. onde os personagens vivam dentro dessa realidade palpitante da existencia contemporanea, da qual o romance é apenas o limpid» espelho onde essa realidade se contempla e serve de prevenção aos incautos e de ensinamento aos ingenuos.
Arle é tambem aquela que revive com propriedade e brilho uma época longiqua, fazendo surgir das trevas da passado os melhores vultos da his-
toria, como Oliveira Martins fez na Vida de Nuno Alvares e nos Filhos de D. João I
Porque, idealisar coisas macabras e torturantes, que apenas se agitam na mente do escritor, é um genero dArte que só o Dante attingiu gloriosamente na Divina Comedia, e mesmo assim, todos os personagens daquele superior trabalho do genio do homem, são symbolicos, segundo a opinião corrente dos mais autorisados criticos do imortal poema.
Não é Arte essa maneira de ser dos modernos poetas e prosadores da escola terrorifica, que do fel e das trevas do seu espirito extrahem horrendos produtos destinados a encher de pavor as almas e a envolver a vida num véu de densas sombras, onde tudo se agita num mar de lagrimas, de soluços, de rugidos, de desesperos, de odios, de podridões e desventuras.
Nem só o lado tragico da existencia humana oferece uma superficie bastante lisa para nela se esboçar um quadro pretenciosamente genial.
Nos pequeninos e modestos episodios sorridentes e mundanos dessa mesma existencia, tambem existe margem suficiente para o talento do poeta e do romancista se expandir com brilho e propriedade.
A chamada escola nephelibata falin por completo coberta de ridiculo e de troça, por ser toda convencional, desvairada e falsa, exatamente a mais pura contrafacção da Arte que se poderia desejar.
Era uma escola de doentes, de desequilibrados e de neurasthenicos, da qual apenas se salvou a obra exotica dum japonismo polychromo de Eugenio de Castro, Belkiss e Oaristos, e o poema Só de Antonio Nobre, que, como todos sabem, era um enfermo, um sombrio, um aborrecido da vida, tendo por unico idolo a Dór nascida do seu espirito de magoado permanente, antevendo a morte na terrivel doença que lentamente lhe devorava o organismo.
O pobre José, ao idealisar o seu livro de tremendas responsabilidade literarias, não mediu a intensidade das enormes dificuldades que havia de encontrar para a sua execução.
Vaidoso e picado no seu amor proprio pelas aspirações sempre falidas dos amigos, querendo sobrepujal-os a todos e dar que falar de si, sonhara construir aos vinte e dois anos aquele gigantesco monumento, que escritores experimentados de grande folego e aturado estudo ainda não tinham ousado tentar.
E a cada periodo que a sua fraca e palida acção mental tentava escrever, essas dificuldades surgiam-lhe cada vez mais robustas e volumosas, estando já arrependido de haver queimado a sua Morte de Cleopatra, poema lyrico em cinco canticos, do qual não chegara a concluir o terceiro por lhe parecerem descoloridos e frouxos os versos em que descrevia os amores de Marco Antonio com a formosa filha dos faraós.
E sentindo-se doente e sem energia para trabalhar, quase que abençoava aquele estado decadente do corpo que lhe servia de irrecusavel desculpa para justificar com os amigos a paragem forçada da sua obra.