VI
Dia de Natal na aldeia. O velho Gonçalves reunira em sua casa toda a familia, como costumava desde que o pai morrera.
Na sua qualidade de filho mais velho consideravam-no o chefe, o patriarcha daquela grey, apezar de contar apenas cinco anos mais do que seu irmão Joaquim, pai do Urso, o estudiooso João Gonçalves, que ali se encontrava rodeiado de todos os que lhe eram queridos, especialmente seu pai, que para lhe dar uma boa posição fizera sempre os maiores sacrifícios.
Tambem lá estava sua tia Ermelinda e os sens sete filhos, o mais velho de dezoito anos e o mais novo de sete, a quem por brincadeira chamavam o Lobishomem.
Presidindo a toda a familia encontrava-se sua veneranda avó, a boa Maria Andreza, de oitenta e dois anos de idade, com a cabeça toda branca, mas ainda direita e rija, andando desembaraçada e enfiando uma agulha sem auxilio de oculos.
fora uma mulher darmas, diziam os velhos do seu tempo, gerindo como o mais experimentado dos feitores todos os trabalhos da casa emquanto o marido, liberal esturrado, andava na guerra, pagnando enthusiasmado pelas vitorias da liberdade e pela Carta.
Umas poucas de vezes os realistas tinham-lhe invadido a casa à procura do Gonçalves, e ela, gravida do Elentherio, soffrera sem esmorecer nem acovardar-se todos aqueles sustos e intranquilidades de espirito.
Liberal até aos tntanos, quem a queria ver animada e enthusiasta não precisava mais do que falar-lhe no senhor D. Pedro IV e no senhor duque da Terceira, que ela conhecêra muito bem, de uma vez que fora ao Porto.
Então os seus olhos adquiriam um grande brilho, e com voz clara e vibrante contava todas as atrocidades que os malhados tinham comettido e d"algumnas das quaes fora testemunha.
Muito temente a Deus e devota de Nossa Senhora embirrava porém com os padres, pois fora o padre Miguel Esteves o mais encarniçado e perseguidor inimigo de seu marido.
Toda a familia a venerava como uma santa.
Os filhos e noras tinham-lhe um respe fundo, e os netos adoravam na.
Ninguem como ela sabia contar-lhes melhor as historias da Carochinha, do João Ratão e da Moira dos cabeilos de oiro.
Amava os netos com esse egoismo proprio das avós e revia neles a memoria do marido morto, pela qual tinha um culto profundo e uma admiração ilimitada.
Tinha casado com ele por amor, aos quinze anos, e enviuvara aos sessenta e um.
fora pois casada quarenta e seis anos, e durante esse longo periodo nunca tivera um desgosto com aquele homem bom, destemido, valente, generoso e honrado, que deixara aos filhos um nome impoluto e dignissimo, repetido sempre com veneração por todos aqueles sitios.
A sua mais legitima gloria de avó era o João.
Adorava-o, e a ideia de que em breve ele seria doutor enchia-a de satisfação e vaidade.
Consultada pelo filho mais velho ácerca do casamento do João com a Gertrudes, aprovou essa ideia sem restricções.
Unir a familia o mais possivel, era o seu verda- «deiro ideal como mãe e esposa exemplarissima que sempre fora.
E encarando a questão pelo lado material julgava-a tambem conveniente, porque assim parte “da sua casa não iria parar a mãos estranhas.
A Ermelinda tambem casara com um afilhado
seu, bom rapaz, muito trabalhador e honesto, que era como se fosse seu filho.
Casando o João com a Gertrudes filha unica do Eleutherio, a fortuna deste que era avultada, ficava toda na familia.
E depois, a posição de medico era importante e vinha continuar as tradicções da casa, pois medico tambem seu falecido marido fora.
A boa da velha Maria Andreza nem mesmo se dera à curiosidade, natural do seu sexo, de inquerir se 0 neto tinha o coração livre.
Considerava aquele enlace como uma resolução dos filhos que merecia todo o seu applauso, e não pensara em mais nada.
Verdade, verdade, ela não morria de amores pela Gertrudes, era mesmo de todas as netas & netos de quem gostava menos.
Achava-a altiva, brusca, pouco afavel, fria e secca.
Não deixava por isso de lhe reconhecer a intel ligencia vivissima e sutil, a correta seriedade do seu porte e a nobreza de sentimentos de que era dotada.
Era tal e qual o carater da mãe já falecida, à esposa de seu filho Eleulherio, senhora de descendencia nobre, que não fizera a completa ventura do marido por os genios de ambos serem bastante incompativeis.
Filha unica, o pai adorava-a e não via no mundo outro sol nem outra lua.
Egoista no seu amor paternal não desejava entregal-a a outro homem que não fosse o João, seu sobrinho direito, cujos sentimentos nobilissimos e carater diamantino ele conhecia intimamente.
Demais, estava prestes a conquistar uma bonita posição, e com a influencia politica de que dispunha na terra, havia de fazel-o subir rapidamente.
Tencionava fazel-o eleger presidente da camara municipal e trazel-o às córtes nas futuras eleições para deputados.
Diplomado, a carta de doutor havia de abrir-lhe muitas portas e aplanar-lhe bastantes dificuldades.
Dera a comprehender à filha os sentimentos que o animavam e as ideias que lhe germinavam na
- mente, e ela percebendo-o respondeu-lhe:
— Concordo com o que o pai me diz, mas hade consentir que lhe faça uma pequena observação-
— Dize.
— Só casarei com o primo João se reconhecer que ele me deseja para sua mulher. Um casamento de exclusiva conveniencia de familia póde ser a infelicidade de nós dois.
O Eleutherio meditou um bocado, e depois, mordendo a ponta do charuto, respondeu:
— Tens razão, Gertrudes, e se teu primo não se enamorar de ti, o que não creio que succeda, não serei eu quem lhes faça o casamento, embora isso me desgoste bastante.
Eu não quero contrariar o pai, mas deve calcu-
lar que o casamento é um laço muito forte, e se ao menos um bocadinho de afeto mutuo não presidir ao seu nó, nunca se póde ser feliz.
O Eleutherio ficou-se a meditar naquela observação da filha.
X *
— Para a mesa, exclamou a boa Maria Andreza assomando à entrada da grande sala onde estava reunida toda a familia.
Como que obedecendo âquela voz imperiosa, sempre attendida com o mais profundo respeito, homens, mulheres e crianças levantaram-se e encaminharam-se para a espaçosa casa de jantar onde ia realisar-se aquela patriarchal festa de familia.
Fazia mau tempo. O sudoeste soprava rijo, assobiando nos angulos da casa, e grossas balegas de agua fustigavam violentamente os vidros das janelas.
Davam as cinco horas da tarde, e as primeiras sombras da noite, noite tempestuosa e fria de dezembro, começavam a envolver a aldeia.
Lã muito ao longe sentia-se o uivar dos cães, talvez persentindo lobo, e de espaço a espaço brilhavam algumas luzes nos perdidos casaes dessiminados pelo sopé da montanha.
—
Estava-se em pleno inverno, o inverno da provincia, tão triste e sombrio que enche a alma de melancolia e Into.
Acostumado aos centros mais populosos, especialmente Lisboa de que muito gostava, o João Gonçalves aborrecia-se supinamente naquela insipidez sertaneja, embora o seu coração rejubilasse por se encontrar ao lado dos pais que muito amava, e da irmã que era extremosa e fanatica por ele.
A animação de Lisboa, essa vida notivaga qu expressava o modo de ser do uma capital civilisada, causava-lhe saudades.
Não era um bobemio nem um estroina, mas gostava de ir um bocado ao Suisso e passeiar nas rua cheias de gente e de luz.
aquele isolamento da casa paterna apavorava-o, e a enormidade da de seu tio Eleutherio, perdida no meio duma quinta extensissima, seguida de um grande pinhal, inspirava-lhe tédio.
Desacostumado do campo desde muito criança, agora já não lhe achava encantos.
Quando muito ainda o poderia tolerar de verão, mas no pino do inverno parecia-lhe simplesmente: um horror.
Havia tres dias que lá estava, e mau grado a satisfação que o enchia por se encontrar junto da familia sentia-se nostalgico da cidade.
E depois, sem querer, vinham-lhe à memorias repetidas recordações da Guilhermina, tão castas.
tão formosa e tão distincta em todos os seus modos e maneiras,
Na ultima estação telegraphica antes de chegar à sua aldeia, não podera deixar de lhe expedir um telegrama com estas simples palavras:
«Cheguei bem, saudades a sua mãe.»
Se ele tivesse visto a alegria e a satisfação que esse telegrama causou à pobre menina, certas mente que teria cortado o fio da conversa de seu pai, quando este lhe demonstrava as vantagens que lhe adviriam casando com a prima Gertrudes.
Esta não lhe causou a menor impressão, além de uma natural expansibilidade familiar.
Achou-a pretenciosa e ridicula no seu vestuario espaventoso de seda cor de cravo com rendas pretas, relulgente de joias nas orelhas, nos dedos e nos pulsos, e com a grande trumpha opulenta e negra arripiada como a juba de um leão.
Mulher robusta, forte, opulenta de carnes, trigueira, de belas côres rosadas, olhos grandes muito expressivos e brilhantes, voz forte, e uns ademanes masculos que indicavam o seu carater energico, dominador e imperativo.
Como femea podia considerar-se um exemplar magnifico e perfeito.
Como mulher porém, sob os aspetos delicados e inspiralivos que elas aevem possuir, a Gertrudes não era credora de apreço nem dotada de seducções capazes de impressionarem uma alma sensivel e concentrada como a do João.
E quanto mais a observava, mais reconhecia as enormes disparidades que existiam entre sua prima e essa criaturinha gracil, submissa, doce, afetuosa e modesta, a Guilhermina, que estava em Lisboa a trabalhar à noite em bordados, para ajudar sua velha e enfraquecida mãe.
Podia assegurar-se que a Gertrudes havia de ser uma magnificente reprodutora da sua especie, saudavel e forte como se apresentava em pleno desabrochar da mocidade, mas a outra seria certamente a mãe carinhosa por excelencia, e a esposa dedicada e terna, em termos de encher de venturas e de afetos toda a vida do marido que ela escolhesse para pai de seus filhos.
A Gertrudes falava muito, e as palavras saiam lhe seccas e estridentes dos labios vermelhos, como ordens de comando.
Ria ruidosamente, agitando o busto e deixando a descoberto a rija e solida fieira dos dentes muito brancos e grandes.
A sua fisionomia, bastante dura como a da mãe, e as feições fortemente accentuadas, tornavam-na pouco sympathica.
Sem ser positivamente feia, estava muito longe porém de a considerarem formosa.
Conservava porém indelevel, o chamado ar de familia, e quando ria a semelhança com sua avó paterna era flagrante.
Ao contrario do que julgara, o João impressios nou-a bem.
Se não soubesse que a destinavam para esposa do primo, talvez não lhe desse maior altenção, mas desde que estava ao fato desse pato de familia, deu-se à curiosidade de o encarar sob varios aspeetos. Achou-o talvez um pouco concentrado demais, mas como homem pareceu-lhe muito apreciavel, um rapagão completo, proprio para a sua opulenta grandeza corporal.
E gostou muito de o ouvir conversar, descrevendo com sobriedade e elegancia a vida da capital, seus usos e costumes.
Então, com uma sutileza inaudita, fez-lhe milhares de perguntas, todas de intenção reservada, a ver se ele revelava qualquer inconfidencia ow declaração que podessem fazel-a suspeitar da existencia de qualquer namorada, ainda mesmo por simples distracção de rapaz.
ele porém respondia a tudo tão natural e simplesmente, que ficou conscia de que na vida do homem que lhe destinavam para marido não existia mulher alguma.
Esta conversa passára-se no dia seguinte ao da “chegada dele, na sala grande, na presença de varias pessoas de familia. Depois do jantar abordouse de novo o assumpto e a Gertrudes perguntoulhe como é que ele passava a vida em Lisboa.
Muito ingenuamente o João contou-lhe tudo, & quando teve que falar da D. Mariana e da Guilhermina a sua voz teve outra entonação ao referir-se a esta ultima.
o
A Gertrudes notou essa subita mudança, e sempre muito cautelosa e sutil, indagou se a Guilhermina era bonita, elegante, nova, inteligente, bem educada e honesta.:
O Urso cabiu como um pato no laço que a velhacaria provinciana da prima lhe armára, e quando mudaram de assumpto, a Gertrudes estava muito desconfiada do genero de estima que o primo nutria pela filha da dona da casa onde vivia hospedado em Lisboa.
Inexperiente embora, era mulher, e nas veias. girava-lhe o sangue perspicaz e ladino da mãe, que fora sempre a desconfiança de saias.
Não desanimou porém, antes sentiu esporeada a sua vaidade natural, e desde logo formulou tenções de seduzir o primo, julgando que ele não desgostava simplesmente da Guilhermina, demasiado pobre para lhe satisfazer as ambições despertadus e assopradas por toda a familia, e que só ela com a sua fortuna podia tornar realisaveis sem maior esforço ou dificuldades.
A boa Maria Andreza fez o signal da cruz, no que foi imitada por todas as filhas e netas, e depois do amen da praxe, sentou-se na sua larga cadeira de braços, de carvalho entalhado, a mesma:
ED ndrartemd
onde seu marido se sentára durante toda a vida de casado, e o jantar principiou.
Fumegava nos pratos a loira canja odorifera e substancial, e sobre a mesa estendia-se uma vasta fileira de fruteiros de prata e crystal antigo, carregados de laranjas, tangerinas, maçãs, peros, ba= nanas e toda a qualidade de fruta passada, desde o figo até às saborosas rainhas claudias.
Em grandes pratos da India, azul e ouro, erguiam-se magnificos pudings de ovos e de pão, e os vinhos cor de topasio e de rubi scintilavam nas preciosas garrafas de vidro de Veneza com lindos desenhos a ouro, que o tempo não conseguia apagar
Oito magnificas serpentinas de prata, cada uma «de seis velas, iluminavam como se fosse dia, toda a ampla sala do festim de alto teto de nogueira po= lida. Anoitecera de todo, e os convivas aliraram-se ao jantar denodadamente, não se lembrando mais «do bonito presepio que na casa imediata estava armado com muito gosto e arte, vendo-se deitado na sua caminha de feno um lindo Menino Jesus de marfim colorido que pertencera à bisavó da Maria Andreza.
Jantar de lavradores, à antiga portuguesa, não figurava nele esses pratos escolhidos e artísticos que constituem a elegante e leve cosinha fran- -ceza. As trutas fritas succedera-se a cabidela de galinha, depois o lombo estofado, o cabrito assado, as costeletas de porco, as favas com presunto, as
salchichas com couve lombarda, o esperregado de espinafres, e por ultimo dois enormes perús recheiados, dos quaes poucos dos presentes ousaram comer uma pequena lasca do peito.
Não faltou o arroz doce, magnifico, amarelo como ouro e polvilhado de canela e grangeia, O leite crême, as farofias, e toda essa serie de doces de cosinha que fizeram as delicias de tres gerações de anafados e rubicundos frades.
Os vinhos espumavam nos copos, as crianças chilreavam como passaros, as senhoras riam, Os homens falavam alto, e um ritus de satisfação ç orgulho iluminava o rosto branco e rugoso da Maria Andreza, presidindo como uma romana patricia dos velhos tempos de Curcius aos agapes de toda a sua numerosa descendencia.
Foi o João quem iniciou os brindes.
Levantando-se, e pegando no copo cheio dum precioso Porto de 1815, fez signal de que ia falar.
As mães aquietaram os filhos, os homens calaram-se, as senhoras deixaram de rir, e a Gertrudes fitou nele os seus grandes olhos negros, brilhantes como carbunculos.
Então, em voz pausada e sonora, 0 João, muito grave e sereno como era o seu feitio, voltou-se para a avó e começou o seu brinde.
Revia nela a arvore veneranda e frondosa donde procediam todos aqueles frutos humanos, dos quaes ele era o mais inferior e obscuro...
— (O melhor! o melhor! exclamaram vozes.
E fez-lhe a apologia como esposa, como mãe, como dona de casa e exemplo vivo de virtudes e bondades, que sempre havia de recordar a seus filhos se um dia os tivesse.
O pai e o tio trocaram com a Gertrudes um olhar significativo.
Depois, enaltecendo-lhe as qualidades do coração e as virtudes preciosas dos seus sentimentos, voltou-se para o pai agradecendo-lhe em frase viva, que o seu amor filial aquecia gradualmente, todos os sacrifícios que o autor dos seus dias fizera para lhe dar uma posição social, não esquecendo de agradecer tambem a seu tio a quota parte com que contribuira para essa conquista, que é a unica que nas sociedades modernas oferece garantias do homem sair vencedor das arduas latas da vida.
Terminando, bebeu à saude de todos os presentes, que eram a sua familia, o mais precioso dos thesouros que possuia no mundo e do qual extremava como joia de inapreciavel valor sua santa mãe.
Disse, e todos se levantaram ruidosamente para o beijarem e abraçarem com delirante afeto.
Seu pai e sua mãe choravam de alegria, o Eleutherio estava comovido, e a Clotilde soluçava como se tivesse recebido um grande desgosto, tal era a impressão que lhe causara o brinde do irmão que adorava.
-— Anda cá, filho, que te quero beijar, exclamou
Ena et
a boa Maria Andreza com as lagrimas a brilharem nos seus olhos de otogenaria.
A Gertrudes tambem se levantara para O felicitar.
— Anda, dá lhe um beijo e um abraço, disse-lhe opai..
ela não se fez rogada e beijou e abraçou o João com extremado ardor.
ele sentiu no seu amplo peito a impressão dos alterosos e tumidos seios da Gertrudes, e aqueles labios sanguineos e juvenis escaldaram-lhe o rosto como se fossem brazas.
A avó apertou-o demoradamente nos braços fitando-o com desvanecida vaidade. O neto recordava-lhe o marido, que fora eximio em fazer brindes, nos grandes jantares que costumava dar à familia e aos seus mais intimos amigos.
Serenada a afetuosa e comovente impressão que as palavras do futuro medico tinham causado, todos se sentaram de novo à meza e as saudes proseguiram simples e despretenciosas, muito animadas e familiares.
Sorrindo, a velha Maria Andreza disse lá do seu logar e em voz que todos ouviram perfeitamente:
— Eu cá bebo esta pinguinha... dagua, pois na minha idade o vinho é mau companheiro do somno, à saude e felicidades dos meus netos Juão e Gertrudes. Reuno os dois, porque eu cá me intendo e quem perceber que beba...
— Percebemos, percebemos, mãe, disseram todos os filhos.
—Nós tambem percebemos, avó, disse a traquinas da Clementina, filha da Ermelinda, uma garota de dez anos, esperta como um azougue.
Todos deram uma gargalhada. À
— Então o que é que tu percebeste? inqueriu a velhota.
— O primo João vai casar com a prima Gertrudes.
— Tu que o dizes é porque o sabes, respondeu a avô.
— Sei, sei, avó.
— Cala-te, Clementina, disse-lhe a mãe.
A Gertrudes olhou para o primo esperando encontrar os olhos dele fitos nela.
Enganou-se porém.
O João fitava distrahidamente o fundo da sua chavena de Saxe antigo, onde um grupo de pastorinhas atravessavam um prado florido.
Naquele momento a sua imaginação pairava na casinha da travessa dos Fieis de Deus é contemplava a Guilhermina fazendo o seu serão junto da mãe, emquanto o Carocho dormitava enroscado perto do candieiro de petroleo, com grande abatjour verde.
A Gertrudes não poude dominar um gesto de profundo despeito.
A indiferente distracção do primo feria-a no seu amor proprio e na sua orgulhosa vaidade.
Algumas pessoas, a Clotilde especialmente, notaram a distrácção do promettido noivo da Ger-- trudes.
Havia tres horas que estavam à meza.
Levantaram-se e foram para a sala passar a noite.
Instaram com a Gertrudes para que tocasse: piano.
ela accedeu de má vontade, tocando sem arte cem gosto o pouco que sabia.
O João recolhera-se ao seu quarto para fumar um cigarro.
Veiu depois e deu-se a conversar com o tio e com o pai ácerca da vida de Lisboa e dos progressos que existiam na cidade.
Mais alguns meses e acabava o curso.
Tencionava defender these com um estudo muito. desenvolvido sobre a tuberculose, que estava prendendo as attenções de todos os medicos do país.
fora mesmo o dr. Benjamin, seu lente e amigo, quem lhe suggerira aquele thema como propriopara dispertar as attenções do publico, do governo, e da escola, para 0 seu nome.
Quando a prima acabou de tocar ele disse-lhe: muito banalmente do sitio onde estava:
— Muito bem, prima, muito bem.
ela lançou-lhe um olhar de despeito e não agra-- deceu.
Cá fora a tempestade desencadeiara-se medonha..
Ribombavam os trovões e fusilavam os relam-'
pagos, iluminando subitamente duma claridade azulada toda a vastidão da serra.
As crianças mais pequenas dormitavam, e a velha Maria Andreza adormecera beatificamente a um canto do sophá, tendo-lhe a filha Ermelinda coberto as pernas com uma manta para ela não apanhar algum resfriamento.
As onze horas tomaram chá e deram-se as boas noites, retirando-se cada qual aos seus quartos.
A Gertrudes não tinha somno.
* Despedira-se do primo friamente, muito irritada com aquela indiferença que elo lhe demonstrara depois da traquinas da Clementina ter anunciado à meza O seu casamento com o João.
E desnudando-ss, constatava vaidosa que era uma bela mulher na força da vida e plethorica de encantos, que a qualquer homem só poderiam passar indiferentes, dado o caso desse homem estar enamorado de outra.
E para em tudo ser contrariada até tinha de confessar a si propria que gostava do primo.
Achava-o um belo rapaz, inteligente, agradavel, bem falante, assim com uns certos ares de superioridade que se harmonisavam com o seu orgulho e com a sua vaidade.
De novo lhe voltou à memoria a recordação daquela Guilhermina, da qual ele lhe falara com tão elogiosas referencias, apresentando-a como inteligente, trabalhadeira, modesta, boa, e sobretudo formosa.
Aos vinte e dois anos um homem não faz assim o elogio biographico de qualquer mulher se por ela não sente e nutre algum interesse enthusiasta e reservado.
Parecia-lhe mais que evidente, que o João não gostava dela como mulher.
Não lhe surprehendera nem um olhar, nem uma palavra, nem um gesto que lhe indicasse merecerlhe alguma attenção, fora daquela simples e banal amisade de familia.
Ponderava pois que os calculos e projetos de seu tio e de seu pai tinham de ser abandonados como irrealisaveis, não por causa dela, mas por ele, que deixára em Lisboa, para onde em breve voltaria, amores antigos, estava certa disso.
Nem ao menos emquanto tocára viera para junto dela voltar-lhe as folhas da musica!
Este procedimento explicava tudo, num homem a quem a linham indicado como sua promettida esposa.
E a custo adormeceu, tortnrada no seu amor proprio, que não estava acostumado a ser vencido.
Passaram ainda mais seis dias, findos os quaes terminavam as férias e o João devia voltar para a capital.
ele modificara-se um pouco, em virtude duma longa conversa que tivera com o pai.
Agora procurava a companhia da Gertrudes, permanecia junto dela grande parte da noite, conver-
sava muilo, e mostrava-se obsequioso e cortez, amavel e serviçal.
ela porém, com a sagacidade e perspicacia proprias do seu sexo, comprehendia bem que tudo aquilo não era espontaneo nem nascido do coração.
No entanto, sufocando o seu despeito e formando o arrojado projeto de o conquistar, correspondia-lhe prodigamente a todas as attenções e disvelos.
E insensivelmente, sem mesmo ter a consciência: do que se passava, era ela quem se ia enamorando dele, duma maneira que o João já percebera.
Observador como era, estudava-lhe as menores palavras e acções, e quanto mais a observava mais se convencia de que não era aquela mulher a que lhe convinha para esposa, apezar da grande: fortuna que possuia.
Era pouco afetuosa para à familia, não gostava: de crianças nem de animaes, impunha rudementea sua vontade aos criados, não sofíria que a contrariassem, e expunha ideias futeis e estromboticas: ácerca das responsabilidades e deveres da existen-= cia das mulheres.
Ambicionava subir da aldeia e vir para a capital frequentar a grande roda e disfrutar esses prazeres. e mundanismos de que tinha conhecimento pela leitura dos jornaes.
Aborrecia-se facilmente de qualquer trabalho que:
começava para se distrahir, e os cuidados do toilette absorviam-lhe um tempo infinito para se apresentar garrida e coquette.
la completar apenas dezenove anos, e já parecia ter vinte e cinco, fão desenvolvida estava em todas as suas magnificas fórmas e opulencias carnaes.
Estimava o pai a seu modo, e considerava uma bondosa patetinha a avó, que todos respeitavam, e que se encontrava em pleno goso das suas faculdades mentaes!
As suas opiniões divergiam muito das do João, que a considerava uma boa mulher para fazer a felicidade dum ambicioso, mas nunca para constituir a ventura da existencia dum homem modesto e de são criterio, que desejasse ter por companheira uma esposa terna e carinhosa, devotada à casa e à familia, como ele sempre vira sua mãe e sua avó.
E conversando com a irmã, esta contou-lhe varios casos acontecidos, em que a Gertrudes revelara ser dura de coração e pouco sensivel às desgraças alheias.
A Clotilde tambem não gostava dela, tendo-a na conta duma vaidosa cheia de orgulho e de birras, muito senhora da sua vontade, estribada na riqueza que possuia, e fazendo ponco de todos os que lhe estavam debaixo do mando imperioso e altivo.
E até sob o importante ponto de vista da sua
predilecção esthetica, a Gertrudes não lhe agradava.
Como quase todos os homens de avantajada estatura, gostava das mulheres mignones, delicadas de fórmas, frageis, quase crianças, daquelas emfim de quem se costuma dizer:—se cingem todas com um braço.
A Gertrudes era exatamente a antithese do seu gosto.
Forte, saudavel, robusta, de esplendida carnação e grande opulencia de fórmas, constituia o que o vulgo chama uma boa mulher, magnificencia esta de que o João não gostava. O sem ideal fora sempre as mulheres da raça da Guilhermina, pequeninas, franzinas sem serem esqueleticas, especie de gatinhas mansas e cariciosas ou de bonecas galantes, que ele tomava nos seus braços musculosos de alhleta transmontano, como se elas fossem umas leves e mimosas pombas.
Em Lisboa e Porto, depois de ter altingido a idade viril e quando os impetos da mocidade e da carne o impeliam naturalmente em procura de femea, andava sempre à cata, nos alcouces, de raparigas que possuissem estas condições especiaes, e nesta primeira cidade era freguez assiduo duma mundana barata da rua dos Correeiros, conhecida eutre as colegas pelo alcunha da Pitorra, por causa da sua resumida estatura.
Dava até uns certos ares da Guilhermina, ainda que não possuia aquela candida expressão de in-
nocencia, de bondade e de delicadeza nativa, que esta conservava no rosto virginal.
Pelo contrario, era muito vivaz e animada, graciosa e petulante, atrevida mesmo, abusando da frase equivoca e grossa do desbocado calão prostibular.
O João porém gostava dela, fisicamente falando.
aqueles pés e mãos de criança, os seios muito redondinhos e tumidos, do tamanho de laranjas, o busto gracil e resumido, a pele muito branca e setinosa, e os opulentos cabelos negros a emoldurarem-lhe o rosto oval e picaresco, seduziam-lhe a sua predilecção.
ela era-lhe um tanto afeiçoada pelo habito, e mais ainda por ver que ele não procurava outra dentre as suas companheiras, conservando-lhe assim uma relativa fidelidade que a enchia de amor proprio.
As vezes chegara a contar-lhe os seus desgostos e pezares, e a exprimir-lhe uma certa ternura desinteressada e sincera.
A alma sensivel e bondosa do João Gonçalves impressionava-se bastante com aquelas confidencias, e de ha muito teria talvez contrahido com a Pitorra umã semi-mancebia protetora, se ela, ignorante, rude e estouvada como era, não desfizesse essa impressão com os seus modos descarados e ordinarios de bordel.
Então depois que se enamorara da Guilhermina
a Pitorra não o impressionou mais, substituindo a até por uma outra nas mesmas condições que uma noite encontrara a S. Paulo, perto do arco grande.
Chegou finalmente o dia da partida, dois de janeiro.
Entre abraços e lagrimas, despediram-se dele comovidamente, sua mãe, sua avó e sua tia Ermelinda.
O pai, o tio Eleutherio, sua irmã Clotilde e a Gertrudes, vieram no trem acompanhal-o até à estação do caminho de ferro.
O João vinha bastante alegre e satisfeito, expansivo e falador, o que nele não era muito frequente.
O pai e a irmã tomavam aquela manifestação como artificial, destinada a animal-os e tornar menos pungente a separação.
A Gertrudes, pelo contrario, com o apurado faro do seu carater penetrante e desconfiado, via nela apenas a traducção de uma alegria verdadeira por ele regressar para junto de alguem que lhe inte-
ressava vivamente a alma, o espirito, e o coração tambem.
Sentiu-se despeitada e ferida no seu desmesurado e irrequieto orgulho.
Gostava dele mais do que imaginara, e acceitando-o de bom grado para marido, não soffria que outra mulher a vencesse.
Dissimulando, foi todo o caminho conversando com ele muito chegada e amoravel, e arrancoulhe a promessa de que lhe escreveria a meudo dando-lhe nolicias suas.
ele prometteu salisfazel-a, mais por delicadeza do que por intenção formal de cumprir a sua promessa.
Na estação, antes da partida do comboio e quando já a campainha do signal tinha dado o primeiro aviso, ela correu ao trem, e trouxe uma pequenina caixa de folha que alegremente lhe entregou dizendo-lhe:
— Aqui tem primo, estes doces para comer durante a viagem. Fui eu propria que os fiz e tenho o maior prazer em lhos oferecer, pedindo-lhe ao mesmo tempo desculpa desta insignificante lembrança.
— Muito agradeço a tua lembrança, prima, res-- pondeu ele pegando na caixa. Sabes que sou guloso e por isso a tua oferta duplica de valor. Devem ser magnificos, pois sei que tens muito geito para fazer doces. Dá cá um abraço.
A Gertrudes, precipitou-se-lhe nos braços apertando-o com força de encontro ao seu volumoso seio.
O João, ao contrario do que ela esperava, não se aproveitou do momento. Abraçou-a inexpressi+ vamente sem a mais leve pressão intencional que lhe indicasse a existencia dum sentimento carinhoso.
Os dois irmãos trocaram um olhar de satisfação, longe de perceberem os desencontrados sentimentos que se agitavam nas almas de seus respetivos filhos. A Clotilde entristeceu, não gostava da prima e receiava que esta tivesse conseguido conquistar-lhe o irmão.
Finalmente a campainha deu o terceiro signal, os empregados fecharam as portas das carruagens, a machina soltou um silvo águdo e prolongado, um jato de fumo escapou-se dos cylindros, todas as ferragens do comboio rangeram, e o trem avançou, pausadamente primeiro é depois mais e mais depressa, emquanto na plata-forma o Joaquim, o Eleutherio, a Clotilde e a Gertrudes acenavam com os lenços exclamando:
— Adeus, João, adeus.
O Joaquim tossiu forte e fingiu que se assoava para disfarçadamente limpar as lagrimas que lhe marejavam os olhos pela partida do filho que rido.
A Clotilde chorava franca e aflitivamente. O Eleutherio, pensativo, enrolava um cigarro, e a Gertrudes muito serena e firme continuava a agilar o lenço correspondendo ao adeus que lá muito
ao longe o João lhe dirigia da portinhola do wagon com os olhos na estação e o pensamento na Guilhermina, que ia tornar a ver dali a poucas. horas.