Apêndice Os Decadentes · Capítulo 14 de 14
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Apêndice

Pouco tempo depois deste livro ter entrado no prélo, recebi o numero VII da Revista Nova, numero com que terminou esta publicação dirigida por dois rapazes de verdadeiro valor literario > Fernando Reis e Mayer Garção.

Li-o, como em regra costumo ler tudo quanto me: chega às mãos, e com grande surpreza verifiquei que ele confirmava duma maneira terminante, clara e positiva, a essencia critica deste livro. Como nem todas as pessoas conhecem a Revista Nova eis o artigo com que abre e seu ultimo numero 7

O Dilettantismo literario

Se percorrermos, ainda mesmo com a mais distrahida attenção, as columnas dos jornaes, impossivel se torna, de-

pois dum praso mais ou menos largo, chegar a outro desideratum que não seja o de que a literatura portuguesa está, na realidade, regorgitando dum pessoal tão populoso que se diria ser ainda maior do que o numero dos seus possiveis leitores. Desde o jornal de mais larga circulação no país até ao modesto semanario, destinado à simples leitara dos redatores e suas familias, no caso duns e outras saberem ler, não se topa senão com nomes de apreciaveis cidadãos, jovens, ou não jovens, antecedidos das formulas encomiasticas de laureado escritor e mimoso poeta.

Cada um destes laureaos, como cada um destes mimosos, tem sempre um livro a entrar no prelo, a que sempre se augura um exito fora do comum. Outros publicaram já esse livro de tão auspicioso futuro sem que, por um funesto destino, a minima resonancia o acompanhasse, é ainda outros são recomendados pela sua brilhante colaboração em jornaes ou revistas. Todavia, o leitor, embora seja um devoto das letras, desconhece quase sempre esses nomes elevados a tantas glorificações. Nunca vio colocar taes louros nem saboreou taes mimos. Mas isso não quer dizer que os que se investem na posse dos primeiros e se reputam na distribuição dos segundos, não existam, — porque assim o afirma a voz autorisada da imprensa.

E o desfile dos literatos segue sempre Ha meses, alguns amigos meus procuraram abalançar-se à empreza titanica de os relacionar: ou antes de os inventariar, visto tratarse de autores e obras que, em seu entender, constituiriam o thesouro inteletual da nação. Modelado no gosto do Almanach comercial, dividindo-o por freguezias e ruas, o pessoal literario ficaria assim classificado como o está, nesse volumoso indice, o funecionalismo e o comercio português. A breve trecho, comtudo, esses meus amigos, ingenuos paladinos da Estatistica, tiveram de desistir do seu intuito, não pela falta de informações seguras que poderia diMcultar a construeção desse monumento, senão pela exhuberancia de materiaes que de toda a parte lhes

acudia, forçando-os ao levantamento duma obra tão grandiosa que, para a sua realisação, bem depressa se lhes afiguraram fracas todas as forças que podessem dispender. O seu terror assemelhou-se ao de meia duzia de homens, dispondo simplesmente do minuto da sua existencia e do transitorio esforço do seu braço, aos quaes se pedisse a construeção das pyramides do Egypto.

Imagine-se: um deles, cujo nome poderei citar, definia nesta frase exaggerada, mas synthetica da dificuldade a vencer, o carater insoluvel da tentativa: «São já oito milhões, menino!» E como eu me espantasse de que, numa população de metade desta soma, ela podesse existir, attribuindo-se aos cultores das artes, o meu amigo, explicava que muitos deles tinham usado e usavam ainda tres, quatro e mais pseudonymos, que lhes permittiam reproduzir-se como os germens duma epidemia, sem que fosse possivel averiguar ao certo o nome de batismo desses, Protheus literarios. Esta explicação dissipou o meu espanto, tunto mais que eu, num dia, sem me occupar dos pseudonymos, já organisara uma lista de perto de quatrocentos escritores portugueses, atuaes e vivos, podendo sem dificuldade chegar ao duplo só com um pequeno esforço de memoria.

Que denuncia isto? Que prova isto? Muito simplesmente a praga do dilettantismo literario. Praga porque é moda. Como antigamente o bom gosto consistia em ser-se marialva ou fadista, hoje está-se tornando tanto do tom como usar vistosas gravatas o afixar preoceupações artísticas e darse ares de genio incubado. Eu já disse acima que, por mais problematica que pareça a existencia dessa multidão de desconhecidos, condecorados de adjetivos nas columnas

das gazetas, ela todavia existe. Não existem, é certo, as suas obras, ou se alguma, sem sentimento, sem orientação, sem fatura, aparece, empacotada em estantes e livrarias, e respirando desde o titulo esse pessimismo de cuecas em que os netos de Antony sacodem a caspa fatalista da sua imaginação, o certo é que a sua existencia continta a ser tão ignorada como ignorados foram e permanecem os seus autores. Mas existem, repito, e porque existem, forçoso é admittir que estejam em alguma parte.

E estão. Estão nos salões preciosos, estão nos cafés haratos, estão nas aulas cabulas, estão nas repartições ociosas, estão nas esquinas suspeitas. Não os conhecemos, pelo nome, porque o não têm, mas adivinham-se pelo aspeto. Todos eles, desde o que faz sonetos a marquezas até ao que escreve contos em revistas de charadas, estão assinalados, como um estygma, pelo seu ar superior, — o ar da casta. Porque, por muito que ignorem a gramatica e as quatro operações arilhmeticas, o fato é que, desde o dia em que da sua pena, que já supõem ilustre, sabiu uma quadrinha que o Rei da Madureza não teria assinado, eles consideraram-se levantados a um nivel superior, Foi-se o direito divino dos dynastas, mas ficou o direito divino dos literatos. Escreve sandices, — por graça de Deus. Foi a faisca, — como diziam os lamartinianos. Essa faisca cabinlhes um belo dia na mioleira e abrazou-lha. Póde, porventura, dahi em diante, ser egual aos seres das outras elasses, que não têm os miolos em torresmos?

Assim se creou essa legião inumeravel de patetas que desacreditou, senão para sempre pelo menos por um largo periodo, a literatura portuguesa. As literaturas de cada epocha estudam-se no seu meio, e definem-se pela syn-

these do conjuncto. Ora o, meio é este — que eles formam; o conjuneto é este, — que eles definem. Passou o tempo em que a literatura em Portugal cumpria uma missão e exercia uma profissão. hoje a literatura é um sport. Faz-se um vilancete tolo e vasio, para agradar às damas, como se entra numa corrida de burros e se disputa uma argolinha, RO mesmo intuito cortezanesco. Assentou-se, como base, que a Arts é um simples prazer, uma distracção, um divertimento. Nega-se-lhe todo o carater util e pratico. Não se considera trabalho, e dahi o relegal-a à inferioridade das cousas infimas e dispensaveis. Não é serio, — não tem furo, nem sob o ponto de vista da evangelisação nem sob o ponto de vista dos interesses monetarios. Assim nesta corrente despensativa de todos os sens nobres ideaes e de todos os seus legitimos estimnlos, a Arte abastardon-se até à nivelação com as mais ridículas futilidades, deixou de existir em essencia, passou a ser um nome vão, uma tabo- Jeta ilinsoria, como a das tabernas que anunciam bom vinho e vendem uma ignobil zurrapa.

Quem fez isto? Essa turba de meninos, a que já se juntam algumas meninas, — porque os progressos do feminismo, todos o sabemos, são vertiginosos, — turba que invade ruas, praças, teatros, cafés e redacções, todos os pontos onde se trata dessa grande moribunda, que é a literatura portuguesa, não se oceupando senão de si, não se admirando senão a si, não pensando senão em si, e falando em arte com o mesmo interesse e empregando o mesmo tom com que se exprime ácerca dos jogos de latntenis e de ceias com meretrizes. Se perguntarem a um destes artistas em que trabalha, ele responderá: se é academico, — que estuda para veterinario; se é empregado, — que faz as

cobranças da salchicharia X.; se é rico, — que é moço de curro em touradas de fidalgos. Elucide-se a pergunta, e então abrirá uns grandes olhos espantados. Trabalhar em arte? Mas a arte não é um trabalho, é uma distracção a que ele se entrega de vez em quando, por desfastio, como poderia fazer paciencias, e em que não tem culpa de produzir paginas brilhantes e geniaes. Mas isso, por Deus! nãoé trabalho | O serio, o util, o respeitavel trabalho é curar bestas, é pesar chouriços, é pegar touros, — não é dedicar um pedaçó de coração a um ideal nem cumprir o dever sagrado de arremessar um pensamento às almas!

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eles são isto, e contudo o meio literario são eles. E” de ver quanto isto asphixia as intenções mais corajosas dos que à Arte decidiram consagrar o melhor da sua existencia, fazendo da sua pena o instrumento duma profissão; — que não é superior nem inferior às outras, mas que é tão nobre como todas as que se inspirem em honeslidade e desejo de beneficio social. Isto quer dizer que eu, não admittindo o ar de casta dos plumitivos medioeres, não o admitio ainda nos que, pelos privilegios da inteligencia ereadora, com maior aparencia de direito o queiram assumir.

Todo o trabalho do homem, esta é à verdade, se equipara perante a utilidade geral. O operario manual que faz o teto que me cobre beneficia-me tanto como o operario inteletual que me delicia a alma com os pensamentos que aformoseou para ela. O homem não vive só de pão, mas tambem não vive só de espirito.

«A linha precisa que se pretende estabelecer entre à arte e 0 oficio — diz Michelet, — é na realidade fiticia. Quem

não sente que a maior parte dos ofícios, se os quizermos. aprofundar, são ramos reaes duma arte?>

Mas isto foi uma digressão, indispensavel a quem, comoeu, sente sempre a necessidade de definir os seus pensamentos, de fórma a não admittirem subterfugios. Eu dizia que o meio literario é de natureza a asphyxiar todos aqueles que pretendam fazer da Arte um ideal e uma profissão. A razão da aflirmativa está na falta de estimulo a que se junta o desçredito desse oficio, elevado como um sacerdocio. Lá fára ha o que se póde chamar um publico inteletual, ilustrado, cheio de bom senso e de bom gosto, que procura nos livros inspirações da consciência e refrigerios do espirito. E esse publico que com o seu applauso, o seu dinheiro e o seu fervor alimenta as literaturas, estabelece a concorrencia das obras de arte, cria as justas glorificações e fixa os grandes principios das épocas. Aqui, esse publico não existe, e aquele que o poderia representar é o que, desde os mais verdes anos, considera o prazer de recetividade literaria como uma vaga e nebulosa vocação artística, que a sua vaidade o instiga a pretender afirmar, sem que para isso se soccorra do estudo das letras nem da experiencia da, vida. Julgando-se possuidor da faísca, ele ahi vai, o ungido do Senhor, na frase incisiva e justa de Zola, accumulando disparates sobre disparates, até que um dia, por um fatal aviso da consciência, reconhece a sua incapacidade para produzir qualquer cousa de apreciavel, e então, em vez de confessar que ele é que não vale nada, a sua miserrima vaidade leva-o ainda a afirmar que a Arte, que ele não póde fazer, é que nada vale, além duma simples distracção do espirito, que se póde até satisfazer com acrosticos em leques de madamas.

Ed *

Insisto: asphyxia este meio, porque, como vimos, destroe O estimulo necessario ao trabalhador de espirito e, ainda mais, gera o descredito da profissão literaria. Nada, no mundo, se alcança sem o trabalho, e é precisamente esse attributo de nobre e respeitavel esforço o que se nega ao eseritor do nosso tempo. Que importa que emquanto o amanuense erra os oficios das repartições e o caixeiro se engana nas cifras dos Livros Caixas, ele gaste longas e dolorosas horas na tortura das suas paginas? Que importa que gasts, methodicamente, dias e noites inteiras de trabalho sem esperança, e quase sempre sem remuneração condigna, e muitas vezes sem remuneração de especie alguma? E um literato! Basta: não trabalha! Aquilo não é trabalho! E não é trabalho, porquê? Porque os milhares de imbecis que, em familia, falam dalto em literatura, são os primeiros a dizer que os versos tolos ou as prosas grotescas que confeccionam meia duzia de vezes por ano não lhes dão trabalho nenhum, e são apenas uma distraçção para os duros encargos da sua existencia de balcão ou “secretaria.

Ha em Portugal meia duzia de homens que trabalham. Não é agora oecasião de me pronunciar sobre a natureza, os intuitos e a influencia do seu trabalho. Mas tenho-o dito sempre: é o unico ponto em que os admiro, os louvo e os respeito, — pertençam eles a qualquer grupo a que pertençam, dentre os varios em que se divide o tão restrito pessoal literario que, neste país mais ou menos merece esta designação. Porque é preciso tempera para trabalhar

literariamente em Portugal, — entre a praga crescente do diletantismo likerario que tudo sufoca, tudo envergonha, tado rebaixa, enchendo de irritação e sobresalto os que, emergindo a fronte dentre as vagas destes gafanhotos de mã morte, levantam os olhos para o sol, obstinando-se em idealisar a seara futura que a sua inexgotavel vida ha de

fazer renascer da terra.; Maver GARÇÃO.

Este artigo diz só por si mais do que tudo quanto en amenamente exemplifico no meu romance.

Mas, ainda ha mais. Eis a ultima pagina da Revista:

Com o presente numero conelue à publicação da Revista Nova, em virtude de circumstancias independentes da vontade da sua redacção, bem como da casa editora que tomou o compromisso de a lançar à publicidade.

Essas circumstancias que, — convém accentual-o para evitar erradas ou malevolas interpretações, — não se referem a fatos que signifiquem transigencias que deslustrem ou fraquezas que envergonhem, cifram-se, de resto, quase exclusivamente nisto: a falta duma cvoperação assidua da parte dum grande numero dos seus colaboradores, o que levava a tornar-se chronica a irregularidade da saida de cada numero. dahí, a impossibilidade de manter à Revista O carater periodico de que ela necessitava para um completo exito. z

A Revista Nova não acaba, pois, nem por falta de publico nem por falta de honestas convicções a expressar. Acaba em virtude, apenas, desse fenomeno bem caraterisadamente lusitano que leva a deixar sempre para o dia seguinte o que se deve fazer num dia. Eis tudo, — sem circumioquios, que seriam desnecessarias hypocrisias, quando não ha responsabilidades proprias a defender.

Todavia, ao terminal-a, cremos que ela alguma cousa fundou, de são e nobre, ou seja esse espirito de criterio livre e de intransigencia sentida que deve sempre orientar, nos trabalhos da arte e nas analyses da vida, os que sinceramente pretendam honrar uma e regenerar outra.

A falta de qualidades de trabalho, de presistencia e de tenacidade, unicas que podem formar um escritor, falta que expressa bem um esgotamento precoce de forças mentaes, está aqui acentuada.

E" a minha thése; e portanto o aparecimento dos Decadentes tem razão de ser, e eu tive razão em os escrever.

A. Gallis.

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