IX
O livro do Christovão Pernalta — Chrysanthemos — apareceu finalmente à venda, num sabbado, 16 de janeiro, acontecimento este que provocou reunião magna na Academia do Suisso.
À celebrada mesa dos nossos velhos conhecidos reformadores da Arte literaria compareceram nessa noite, como que chamados por convite especial, todos esses que, maldizendo tudo nunca produziram cousa que geito tivesse.
Os antigos e os modernos frequentadores desse cenaculo botiquineiro, discutiam com vehemente calor a producção exdruxula e estapafurdia do Christovão..
O Sebastião Guedelhas especialmente estava iracundo e impiedoso.
Mercê o afeto de um seu parente proximo que escrevia no Seculo, o Christovão abichára uma critica elogiosa e o competente retrato em zincographia barata.
E esse parente, que arrastava a aza à irmã dele, conseguira que o trombone do reclame fungasse rijo em outras gazetas varias.
Até o Anacleto Figueiredo e o Julião, por espirito de camaradagem, tinham ajudado á missa, tecendo louvores ao livro, inspirado nesse-outro de Pierre Loli, La reine des chrysanthêmes.
Eram pequeninos quadros exoticos de cenas do Japão pintalgados em sonetos, onde nem sempre a justeza da rima e a impeccabilidade do metro os podia recomendar.
Em todo o livro havia uma enorme profusão de cegonhas, de mascaras sardonicas, de poentes cor de cobre, de gabinetes de bambú, de porcelanas raras, de mulheres palidas de cabelos de ébano, de sabres polidos, de sedas recamadas de matizes violentos, de peixes dourados, e tudo mais quanto podia dar uma vaga ideia do país do mikado, que Wenceslau de Moraes descreveu com uma rara é consciênciosa honestidade de verdadeira copia do natural.
Aquilo não era um livro de versos, mas sim um bazar japonez.,
No entanto agradava, e possuia o seu quid de interessante e curioso.
O Tavares declarara alto e bom som que gos-
ad
tara muito dele, e o José Epigastrico tambem não regateou elogios.
—E a proposito, exclamou o Anacleto, como vai 0 José?
— Mal, respondeu o Tavares. Agora de lá venho. Encontra-se muito fraco e as saudades da amiga, que lhe passou o pé, não o abandonam de dia e de noite.
O Anacleto, que era scetico em questão de amores, encolheu os hombros.
— E ele tem escrito no seu livro? observou o Guedelhas desabridamente.
— Não, coitado. O seu estado não lhe permilte trabalhar.
— E pena, observou o Perez. Tinha imensos desejos de ver essa obra concluida.
— Nunca a concluirá, ripostou o Julião.
— Porque?
— (O José é um bom rapaz, inteligente e estudioso; mas, meninos, vocês devem attender que um livro da indole do que ele pretende escrever não é para as suas forças litlerarias. Arte?! Olhem que esta palavra só por si encerra uma encyclopedia. Raros escritores de qualquer país que sejam, se encontram nos casos de tratar semelhante assumpto: Em lilteratura, discutir Arte corresponde em politica a fazer uma revolução. Ainda hoje não se sabe mesmo ao certo como determinar as bases desse importante qualificativo.
Julião fez uma pequena pausa e continuou:
— À arte literaria é, por assim dizer, uma formula instavel que muda dia a dia, à medida que os cerebros evolucionam e se vão encontrando novos processos de pela palavra escrita traduzir as cenas da vida real, a emoção dos espiritos, 6 o estado das almas dentro de certas e determinadas circumstancias. Em 1830 a arte das leltras era aquilo que nós sabemos, tanto aqui como em França. De então para cá, a transformação tem sido espantosa no teatro, no romance e no poema, Chateaubriand foi um artista do sen tempo, como * depois Vitor Hugo, e a seguir Zola, Daudet, os Goncourt, Flaubert e outros o foram do seu. Onde haverá mais arte? Na Morte de D. João, de Junqueiro, nos sonetos de Anthero e de Gonçalves Crespo, na Judia e no D. Jayme, de Thomaz Ribeiro, ou na Lyra Meridional de Antonio dAzevedo Castelo Branco? Qualquer destes trabalhos é valioso e perfeito na sua essencia e na sua apresentação literaria. E se formos recuando no caminhar dos seculos, a Divina comedia do Dante e o Paraiso perdido de Milton podem ser consideradas duas obras de Arte literaria, como os Lusíadas de Camões e O D. Quixote de Cervantes. Arte tinha tambem todo o teatro grego, e a Iliada e a Odyssea de Homero são sem duvida dois monumentos artisticoslitlerarios legados à posteridade.
E bebendo um calix de genebra, proseguiu depois de acender o cigarro:
— Francamente, eu desconheço a ideia do José,
au
e o alvo e a critica da sua obra, mas não creio que ele tenha a envergadura necessaria para arcar com tamanha responsabilidade. Na sua idade só um talento genial poderia arrojar-se a tanto. Creioque vocês conveem em que o José não é positivamente um Leibnitz, nem tão pouco um Pico de Mirandola...
E despejou nas guelas o resto da genebra Con. tida no calix.
Os demais aprovaram todos o parecer do Ju-- lião, que possuia a justa fama de ser muito talentoso e bom conhecedor de literatura, apezar dedar-se um pcuco ares de demolidor e de critico irredutivel.
Foi nesta altura da sessão que o Christovão entrou no café, sorridente e espanejante em ares de triamphador.
Os amigos deram-lhe os parabens.
Sómente o Guedelhas, que era azedo e invejoso, não se conteve que não lhe dissesse:
— Oh Christovão, olha que aquela de:
Corriam pelos ares cegonhas alvas
é de cabo de esquadra!
— Porque? perguntou o outro muito ingenua-- mente.
— Pelos ares não se corre, voa-se, muito mais quando se é cegonha.
— Cegonha já tu me pareces a notar esses erros,.
0.
em que afinal todos mais ou menos cahem. Não é verdade, Julião? perguntou ele como quem pede auxilio.
—E sim, rapaz. O Sebastião está a metter-te os pés nas algibeiras a ver se dás sorte, respondeu o Julião a sorrir.
— Perdão, replicou o Guedelhas formalisado. Eu falei sério. Notei o disparate sem intenção reservada.
“—De maneira que tu nem mesmo os amigos poupas! observou o Anacleto.
— Não, não poupo. O valor da critica reside na imparcialidade.
— Muito bem, concordo. Mas olha que se eu quando falei do teu livro seguisse esse principio talvez não gostasses...
O Guedelhas córou como um pimento morrone é titubeou:
— Estavas no teu direito. Quizeste ser amavel para comigo contra a tua consciência? agradeçote o favor.
—Não tens nada que me agradecer. Procedi apenas como um bom camarada, e gostava que de igual maneira procedesses para com os nossos colegas.
— Apoiado, berrou o Tavares.
E após pequena pausa continuou:
— Niguem ainda aqui disse que o livro do Christovão é um chefe de obra isento de defeitos ou a revelação de um genio poetico de primeira grandeza, mas lê-se com agrado, tem mesmo uma
certa originalidade, e sobretudo está limpo de pretensões.
— Muito bem, exclamou o Anacleto, é isso mesmo.
E depois de beber o ultimo golo de café, acrescentou:.
— Demais, nós que sempre cortamos nas casacas alheias, se não pouparmos as dos nossos camaradas deves concordar que damos ao publico um bem pouco salutar exemplo.
— Apoiadissimo, exclamou o Escuro.
— Nesse caso, respondeu o Guedelhas, não se faz mais critica, e proponho que se beba um garrafa do Alto Douro espumante, pelo exito do livro do nosso camarada e amigo Christovão.
— Assim, Sebastião, assim mesmo é que é! exclamou o Julião. Bebamos em honra do nosso amigo Christovão, e se quizermos vencer, o primeiro passo indicativo da vitoria consiste em sermos unidos como irmãos e guardarmos para os outros todas as baterias da nossa critica. De contrario, aquele que ali está a observar-nos, e outros mais, levar-nos-hão sempre de vencida.
E o Julião apontou para a porta.
O espreitador era o critico Almeida, que eles combatiam na sombra, mas de cuja troça mordente, incisiva e afiada todos se temiam, porque ele conhecia-lhes as fraquezas, o baixo valor literario e até os ridiculos, embora o Julião, o Escuro e o Anacleto fossem tidos por ele como rapazes
de merito e possuidores de apreciaveis qualidades literarias.
Mandaram vir a garrafa do espumante, e as taças encheram-se bebendo todos à saude do Christovão, que comovido e sensibilisado agradecia num speech tortuoso aquela prova de boa camaradagem.
— Estão a saudar o advento da asneira, observou 0 Almeida ao ouvido do Gomes do monoculo, outra linguinha de prata que era cruel e terrivel na maneira de apreciar as cousas, e que apesar de não escrever, as suas criticas e piadas andavam sempre na boca de todos como obras primas de troça e de ridiculo.
O Gomes sorriu-se, e reposton:
— Aquilo é que são letras do Alto Douro com espumante sandice poetica.
O Almeida piscou-lhe o olho, e avistando o João Gonçalves que se aproximava, disse:
— Ahi vem um que nunca percebeu senão de letras gordas, mas ia jurar que hade fazer carreira.
— Já leste a these dele?
— Já. Uma massada.
—Mas é muito bem feita e prova que quem a escreveu sabe do seu oficio, observou judiciosamente o Gomes.
—Lá saber sabe. O Urso nasceu para medico, isso não soffre duvida. Está aqui está a botar tipoia, e professor da Escola,
— Afinal de contas o seu destino é igual ao dos amigos...
— Porque? interrogou o Almeida com grande curiosidade.
O Gomes apertou nos tendões zygomaticos o seu monoculo, e respondeu distrahidamente:
— Porque ele assassinará pessoas, emquanto os outros vão assassinando as letras. Criminosos irresponsaveis, um e outros, meu velho!...
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x ”
Nessa noite, ao chegar a casa, uma novidade bem desolante esperava o João Gonçalves.
Num telegrama, sua mãe informava-o de que o pai se encontrava gravemente enfermo e por isso pedia-lhe a sua comparencia.
O João apenas teve tempo de fazer as malas para partir no comboio da manhã.
Mostrou o telegrama à Guilhermina dizendolhe:
— Não ha felicidade perfeita neste mundo. Agora que principiava a minha vida profissional na intenção de recompensar meu pai de todos os sacrificios que ele fez para me dar uma posição, é que o pobre velho adoece, sabe Deus se de manei-
ra que não consiga ver o fruto desses sacrificios.
— Tranquilise-se, doutor, respondeu a Guilhermina cravando nele os seus candidos e meigos olhos de bondosa. Deus não hade permittir que” ele morra. Tenho fé que tanto lhe heide pedir pela vida de seu pai que serei ouvida.
E duas lagrimas lhe correram ao longo das faces, aljofrando aquele rosto candido, capaz de inspirar amor ao mais concentrado asceta.
O João pegou-lhe nas mãos, que levou respeitosamente aos labios, exclamando cheio de comoção:
—E uma santa, Guilhermina, creia que as palavras de conforto e estima que acaba de me dirigir nunca me poderão esquecer, creia.
ela fitou-o com aquela sua expressão leal e pura, espelho limpido de todas as virtudes e de toda a enorme meiguice da sua alma nobre e afecluosa.
ele apertou-lhe levemente as mãos que ainda não largara de entre as suas e concluiu.
— E a lembrança dessas palavras, Guilhermina, será sempre o élo mais forte que hade ligar eternamente a si o profundo, a... ffeto que lhe tenho.
ela fez-se muito corada e instinctivamente retirou as mãos das dele, porque surprehendera no tom como ele se lhe dirigira uma como que declaração de amor.
As oito e quarenta e cinco da manhã, linda manhã pronunciadora da primavera que se aproximava, o João Gonçalves partia para o norte no comboio do Porto.