IV Os Decadentes · Capítulo 5 de 14
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IV

Tinham-se passado cinco meses e aproximavamse as férias do Natal, que o João tencionava ir passar à sua ferra a instancias do pai, que desejava apresental-o à prima Gertrudes para tomarem conhecimento, pois a ultima vez que ele a vira, antes de partir para o Seminario, tinha ela oito anos apenas.

Pela primeira vez na sua vida custava-lhe a ir passar as férias à casa paterna, apezar das saudades que já tinha de ver a mãe, o pai e a irmã.

A ideia de passar alguns dias sem contemplar ao menos uma vez, o rosto angelical da Guilhermina, era bastante penosa para o seu coração de enamorado, agora em maior ardor, desde que estava fazendo aquele sacrifício cujos resultados não podia prever.

E uma noite, antevesperas da partida, estava meditando nestas cousas todas à porta do Suisso e fumando o seu inseparavel cigarro quando se aproximou dele o Tavares e lhe disse:

— Já sabes que o José Epigastrico está muito mal?

— Não, respondeu o João distrahidamente. Desde que ele abandonou a escola nunca mais O vi. O que tem?

— Não sei, mas disse-me o Pernalta, que o foi ontem visitar, que ele está de cama num estado de fraqueza impossivel e que os medicos receiam, uma tysica galopante.

— Diabo, isso é serio, respondeu o João.

— Queres ir vel-o? eu vou agora lá.

— Pois vamos.

E o Urso acompanhou o Tavares a casa do sem ex-condiscipnlo.

Quando o viu quase que o não conheceu.

O Epigastrico parecia um cadaver.

Esguio, livido como um defunto, os grandes olhos negros brilhavam-lhe febrilmente no fundo cavado: das orbitas revelando o estado da doença.

— Enlão que é isso? exclamou o Urso estendendo-lhe a mão, que o José apertou debilmente entre as suas descarnadas e compridas falanges.

— Estou muito mal, João.

— Mas que tens tu? que doença é a tua, rapaz?

O José fez-lhe signal que se sentasse ao lado dele, e com voz debil e cançada contou-lhe tudo..

fora a D. Heloisa, a sua amante, quem o levara áquele estado em lhaustos messalínicos de terriveis prazeres”não lhe concedendo tempo para ele trabalhar no seu livro sobre Arte.

aquela mulher era um demonio de volupia.

Muito sua amiga, muito dedicada, amava-o verdadeiramente, mas exigia-lhe esforços superiores ás suas qualidades de resistencia fisica.

E ele, como a amava, deixara-se levar inconscientemente nesse caminho de ruina, sem ter a energia precisa para lhe moderar os ardores da

- sua incontinencia nymphomaniaca.

Estava que não podia ter-se em pé. Mal tinha força para suster entre os dedos um cigarro ou abotoar o colete!!

Porém não era a doença que o mortificava, mas sim o atrazo em que a sua obra se encontrava.

Ralava-o profundamente a ideia de que o livro de versos, Byzancio, do Sebastião Guedelhas, já estava no prélo, e os jornaes referiam-se a ele elogiosamente.

Tambem o Anacleto Figueiredo, o Sebento, entrera para a redacção do Universo, e escrevia chronicas incendiarias e dissolventes com uma pontinha de filosofia tolstoiana à mistura.

Isto é que lhe dava cuidado, porquanto fisicamente estava certo da sua cura, seguindo um regimen de absoluta continencia, restaurador e tonificante das alquebradas forças.

— O diabo é o atrazo em que o meu livro se

encontra, rematou esbugalhando muito os grandes olhos negros, scismadores e abstratos.

— Deixa lá o livro, com trezentos diabos, respondeu o João. Trata da tua saude, que livros ha por abi aos ponta-pés.

E enrolando um cigarro, ajuntou:

— quase todos eles são uma m.... que não valem dez réis. a

— Tens razão, João, tens, mas o meu trabalh enche-me de esperança. Pretendo nele, como sabes, protestar contra esta pacotilhagem da literatura falta de arte, e apenas amparada pelos barrotes ignobeis do elogio mutuo. Preciso provar a esses senhores que monopolisam as letras, que eles não passam de uns remendões da prosa e do verso, e que a verdadeira fatura artistica e literaria é outra muito diversa daquele pechisbeque que eles querem impingir por ouro de lei.

Parou um pouco, respirando ofegante e exausto por aquele esforço.

— Olha, é melhor não falares, aconselhou o João. Estás muito fraco e isso faz-te mal. Em estando bom conversarás então. E sempre te aconselho que te deixes das letras. Queima o que já tens escrito do teu livro e vê se fazes o curso. E” melhor.

O José olhou-o espantado.

— Queimar o que já escrevi!! Tu estás doido! Era a ruina da minha reputação literaria.

“O João esboçou nos labios grossos e vermelhos um leve sorriso de compaixão.

— ele tem razão, interveiu o Tavares. Depois de todos nós sabermos que o José está escrevendo um livro, do Sebento ter entrado para o Universo, e O Sebastião ter a Byzancio quase a ser publicada, não póde nem deve seguir 0 teu conselho.

O Urso encolheu os hombros, e estirando as grandes e musculosas pernas, exclamou com certa violencia impropria do seu carater pacifico e sereno.

— Sabem porque eu disse isto? Porque vocês nunca hão de ser literatos, percebem agora? Andam todos às aranhas a fantasiarem coisas às mesas do Suisso, a discutirem quantas tolices em prosa e verso aparecem por ahi, a cortarem na pele uns dos outros, e afinal nenhum apresenta um trabalho pensado e valivso, que pelo menos revele uma vocação. Criticos até à medula, não passam disso. Não, não é de critica feita entre um copo de genebra e um café que nascem romancistas e poetas. O Garrett, o Camilo e o Herculano trabalhavam a valer, e a sua obra ahi está, firme e erecla a traduzir a estatura literaria deles. Vocês são uns patetas que se deixam levar por asneiras sem pés nem cabeça, escangalham o seu futuro, e acabam por não serem nem literatos nem coisa nenhuma. Imaginam que bastam tres chronicas nos jornaes, um chocho livro de versos ou um trabalho em prosa que ninguem entende, para se ser um escritor? Pois se eu até já os ouvi tosarem impiedosamente o Filho das hervas, do Malheiro

Dias!... Pois não têm razão. Li esse livro, e se alguns defeitos contém, possue altas qualidades que revelam uitidamente que o seu autor é um romancista apreciavel. Ha ali muito trabalho, muita observação psicologica-social, e bastante intensidade descritiva.

— Mas os carateres não são verdadeiros, berrou 0 José muito excitado.

— Isso agora é discutivel. literariamente falando tudo póde ser verdadeiro ou falso, como se queira; pois se na vida real existem aberrações não é demais que elas se deem nos cerebros dos escritores. E, rigorosamente, eu não os encontrei tão falsos como tu imaginas.

— Tu vão és literato, observou o José.

— Agora tens toda a razão no que dizes. Realmente eu não sou literato, sim, é isso verdade, mas possuo o senso comum bastante para perceber que voês tambem o não são, e na ideia de o «quererem ser à forciori destroem lentamente a sua carreira.

— Medicos, engenheiros e militares ha muitos, observou o Jose; litleratos é que ha poucos.

— Efetivamente. Mas ainda existem mais sapa- 4eiros!

E o João deitou na cuspideira a beata do cigarro.

“O José mordeu os labios.

— Queres então dizer 2...

— Que te trates; deixa-te de livros, e quando «estiveres bom foge da tua Heloisa, que essa é que

tem artes de dar cabo dos rapazes incautos e inexperientes como tu. O Tavares largou uma piada garota que provo- “

Chegou finalmente o momento do Urso partir para a casa paterna em goso das férias do Natal.

A D. Mariana e a Guilhermina foranr despedir-se à estação, e quando ele subiu para a carruagem verificou que duas grossas lagrimas brilhavam nas ramudas pestanas dos lindos olhos da gentil menina.

O coração pulsou-lhe violentamente, ficou por um momento indeciso e attonito, com um nó na “ garganta, hesitante se deveria seguir a viagem ou apeiar-se, e só accordou desse rapido barafundio das ideias, quando o empregado da estação veiu fechar a porta do wagon.

A machina deu um silvo agudissimo, os cylindros deixaram escapar um jato de vapor, as rodas deram a primeira volta, todo o comboio sofireu um solavanco violento, e depois começou a caminhar para a frente em direcção ao tunel.

Na platafórma a Guilhermina acenava-lhe com o

seu lenço de rendas. ele dizia-lhe adeus, com os olhos muito fitos nela, e quando o trem penetrou naquele comprido buraco de dois kilometros, ati-' rou-se para um canto da carruagem resfolgando ruidosamente..

aquele momento de separação revelara-lhe mais do que nunca a intensidade do sentimento que ele dedicava à formosa filha da sua hospedeira.

Sósinho naquele compartimento de caminho de ferro, embrolhado no seu amplo gabão de Aveiro, concentrára-se a meditar naquele episodio da sua existencia.

Com os olhos fechados e o cigarro ao canto da bocca, via agora a Guilhermina em toda a plenitude da sua beleza de santa de cathedral antiga.

A frescura daqueles labios de coral, onde a mocidade brincava num esmalte delicioso, a delicadeza daquele nariz duma correcção alheniense, os seus olhos meigos, expressivos, limpidos e belos, duma doçura infinita, o oval do rosto aristocrata, a luxuriante catadupa dos seus lindos cabelos castanhos com reflexos de ouro cendrado, a elegancia felina do seu corpo de mignone apelitosa, a pequenez das mãos e a esculpturação fidiesca da garganta, onde um fio de perolas deveria assentar maravilhosamente, tudo isto lhe surgia nessa estranha placa fotographica do pensamento com uma nitidez que o admirava.

Ouvia-lhe a voz musical e crystalina, serena, sem vibrações irritantes, e recordava os seus mo-

dos tranquilos, honestos e graves de mulher bem educada e fina.

Passava-lhe pela memoria a maneira como ela obedecia à sua velha mãe, dedicando-lhe todos oscuidados e disvelos, e a fórma como trazia toda a casa arranjada, numa ordem, num methodo e num aceio, que revelavam as suas qualidades de ménagére primorosa e exemplar.

E o comboio rodava agora com mais velocidade apitando vibrantemente de espaço a espaço.

Chovia um pouco, e fazia frio.

A agua, impelida pelo vento, esparrinhava-se em brilhantes gottas contra os vidros das porlinholas.

O Urso embuçou-se mais no gabão, pisou a ponta do cigarro quase a extinguir-se, e adormeceu profundamente.

A luz dubia da lampada colocada no teto da carruagem dava-lhe em cheio no rosto, que revestia uma bela expressão de felicidade e ventura.

E que ele estava sonhando que sabia de uma igreja muito bonita, cheia de luzes e flores, levando pelo braço, toda vestida de branco, formosa e rejubilante, com um longo veu de gaze a cobrirlhe o rosto juvenil e uma corôa de flôr de laranja na cabeça, a Guilhermina, com quem acabava de casar à face de Deus e da sociedade.

Ouviam-se os sons harmoniosos do orgão, e muitos bomens e mulheres abriam alas à sua passagem, mirando-os com interesse e curiosidade.

E o comboio corria sempre, devorando o espaço com as suas rodas de aço, atravez a escuridão daquela desabrida noite de dezembro, sem estrelas no ceu, nem folhas nas arvores solitarias que se encontravam espalhadas pelo caminho.

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