II
Quando chegaram à altura do monumento dos * Restauradores o Anacleto Figueiredo, o Sebento, como era conhecido entre os colegas, parou com as mãos mettidas nas cavas do colete e exclamou um pouco irritado: “— Vocês não repararam na maneira importante como o Urso disse á gente: vou estudar?
— Para se dar ares, observou o Christovão Pernalta. Já que não percebe nada nem de letras nem de arte, ferra-nos com o seu estudo para nos achatar e encobrir a sua ignorancia.
— Iguorante é que não, acudiu o Tavares. ele “finge que desconhece a literatura, mas afinal sabe talvez mais que qualquer de vocês.
— Faltavas tu cá com a tua defeza, barafustow
o Sebastião Guedelhas, que não gostava do Urso. Como ele te escuta a versalhada e te anima, aposto que o comparas em autoridade literaria ao Herculano ou ao Garrett.
— Não é tanto assim, observou o Epigastrico. O Urso é muito estudioso e possue um criterio bastante apreciavel. Não é rapaz para brilhar na sociedade nem para se interessar por qualquer ideal superior, mas inteligencia não lhe falta.
— Um transmontano ambicioso e mediocre, rematou o Sebento enrolando um cigarro e dando um atracão numa rapariga baixinha que em passo rapido caminhava em sentido contrario.
— Parece que é cego, disse a rapariga meio zangada.
— Não se zangue, oh menina, que se faz feia, retorquiu o Sebento.
A rapariga encarou-o disposta a questionar, mas. o Guedelhas, reparando nela, aproximon-se, exclamando:
— Olha a Pitorra! Então tu estás muito zangada, filha?
— Ah, és tu! respondeu ela amansando e sorrindo. Se te parece. O bruto do teu companheiro deu-me um encontrão que por pouco não me estendi.
— De papo para o ar?
—Qu para baixo, isso não faz ao caso, respondeu ela rindo. Onde vão vocês?
— Dar um giro. Queres vir comnosco?
— A” pata?
— Podera ser de carruagem. Não vai tempo para luxos.
— Pois, meus ricos, a cavalo nas pernas é que não vai nada. Estou farta de bater butes.
— Não sejas assim cruel.
— Viva, temos conversado os farrapos. Vou até: à baixa.
— À pesca?
— Já se vê que sim. Vocês são uns pelintras que nem para uma tremsada têm dinheiro.
— Estamos no fim do mês, rapariga, observow o Christovão, e nestas alturas não ha massa.
— Tambem tirado hoje é sempre assim. Adeus. oh sucia.
-— Adeus oh deusa, contestou o Tavares.
— Olá, oh seu cara de menina, nada de piada grossa, ouviu.
— Pois tu não queres ser deusa?
— Eu quero, mas é que tu...
E a Pitorra, dando uma gargalhada, colheu os. vestidos e afastou-se lépida.
— Foi muito boa, observou o Guedelhas, quando ela se afastou.
— E ainda não é nada má, ajuntou o Tavares.
Sentaram-se todos no banco grande que terminao talhão que fica perto da rua das Pretas.
A conversação cahiu de novo em assumptos literarios, condimentada com uma critica impiedosasobre todos aqueles cujos nomes apareciam em.
publico revelando qualidades de trabalho e persistencia ao estudo.
As onze horas o Epigastrico levantou-se, e estendendo a mão flacida e lenta, reveladora dum permanente estado de fraqueza, aos companheiros, disse lhes:
— Até âmanhã.
— Onde vais tu?
— Para casa, são horas.
—vais estudar como o Urso, ou vais namorar?
— Nem uma cousa nem outra. Vou ler a Sonata de Kreutzer, de Tolstoi. Já leram?
—Jà, respondeu o Guedelhas que tinha a presumpção de ler tado. Não é mau.
O José afastou-se dos colegas em direcção à rua da Alegria.
— Aquilo é cousa que ele tem, disse o Sebento com intenção.
— Algum idylio, ajuntou o Tavares sorrindo com aquele seu ar ingenuo que tão sympalhico o tornava.
— Qu prosa pratica, corroborou o Guedelhas..
— Não quero teimas. ele anda com uma cara que revela grandes exercicios amorudos.
— Deixem lá o rapaz, exclamou o Anacleto, Arre, que vocês são impiedosos, não poupam nem mesmo os amigos. Parecem aquele bolicario que - quando saia o ultimo parceiro do gamão...
—Não contes, não contes, já sabemos o resto.
— Oh Sebastião, vamos às iscas? disse o Sebento.
— Ainda é cedo, homem, podemos ser vistos.
— Então venham dahi dar uma volta.
— Aonde?
— Vamos até ao fim da Avenida e voltamos pela rua de S. Sebastião da Pedreira.
— Diabo, observou o Christovão, eu hoje tinha tanto que escrever...
—Em que?
— No meu livro.
Ora deixa o teu livro em paz, respondeu o Guedelhas, e vem comnosco. As musas podem bem conceder-te um feriado.
— Toca a girar, berrou o Sebento.
—Âmanhã não sabemos nem patavina da lição, murmurou o Christovão.
— Vê lá se queres dar em Urso, disse o Guedehas.
— Tudo menos isso. Toca a marchar, rapazes.
E inclinando o chapeu e volteiando a badine entre os dedos o Christovão enfiou o braço no do Guedelhas e começou a marchar, seguido pelos amigos.
Depois de ter deixado os colegas, o José Epigastrico tomou em direcção à rua da Alegria, su-
biu as escadinhas do chafariz, cortou à direita e achou-se na Praça do Principe Real, que atravessou em toda a sua largura, dirigindo se à rua do Jasmim, rua solitaria e tranquila áquela hora adiantada da noite.
Tirando do bolso uma pequenina chave introduziu-a na fechadura da porta de um predio de dois andares, de regular aparencia, e penetrando na escada fechou a porta.
Certamente que era esperado, porque imediatamente a cancela do primeiro andar abriu-se é uma voz de mulher exclamou:
— Vieste hoje tão tarde, José!
— Desculpa, Heloisa, mas estive tratando com o editor varios assumptos referentes à edição do meu livro. Bem vês que necessito a sua publicação o mais breve possivel.
— daccordo, respondeu a dama abraçando-o e beijando-o com efusão, mas o teu livro está ainda tão atrazado...
— O mais dificil está prompto. O resto vai depressa.
E o José sentou-se num sophá, cravando na senhora os seus grandes olhos negros e febris, que brilhavam intensamente.
A senhora sentou-se a seu lado, cingindo-o nos braços como num arroubo sensual de volutuosa ternura.
A luz do candieiro colocado sobre uma mesa redonda coberta com um pano de casimira es-
carlate dava-lhe em cheio no rosto oval é palido, matisado por algumas manchas sardentas.
Era mulher forte, de fôrmas opulentas e robustas, magnificos dentes duma brancura de jJaspe, labios carnudos e vermelhos, bons cabelos negros crespados, nariz um tanto aquilino e uns olhos verdes, grandes e expressivos, que amorteciam por vezes numa grande expressão de sentimental e ternura.
Rastejava pelos quarenta, e era vinva em Segundas nupcias dum oficial superior da armada que lhe deixára uma pensão bastante avultada para ela viver com desafogo e comodidades.
Demais, contava o rendimento de vinte contos de réis em inscripções com que a dotára o primeiro marido, um bom e honrado comerciante com o qual casára, contava então ela dezesete anos de idade.
Passára sempre por ser uma esplendida mulher, não pelos dotes de extremada formosura, mas pela gentileza empolgante do seu busto
Coquette e amiga da elegancia, trajava sempre a primor, escolhendo aliás toilettes espalhafatosas que lhe davam um certo tom de mundana com que cativava as cúpidas altenções de todos os homens.
Mais velho do que ela vinte anos, o marido adorava-a, nutrindo mesmo uma ardente paixão seusual por aquela juventude de mulher em pleno desabrochar da vida.
Volutuoso por temperamento, por educação e por habito, esquecêra a austeridade da sua posição de marido e iniciara a esposa em todos os mysterios mais profundos do culto de Venus,
Foi o mesmo que lançar fogo a um barril de polvora.
D. Heloisa, possuida do terrivel furor das nymphomaniacas, deu largas à sua expansibilidade lubrica e em poucos meses tinha um amante.
A este seguiram-se mais alguns, e só ao cabo de seis anos de casado é que o pobre-e imprudente marido teve conhecimento da sua desgraça.
Era porém demasiadamente fraco de espirito é de animo, e adorava em exaggero a mulher para poder reagir.
Submelteu-se serena e resignadamente à sua sorte, comprehendendo que era fisica e moralmente incapaz de preencher todas as ambições carnaes e espiriluaes da esposa, especialmente as primeiras.
Com vinte e tres anos de idade, Heloisa estava então na absoluta posse de todas as suas graças femenis.
Esteril, conservava a correcção impeccavel das linhas e curvas do seu corpo de estatua,
Os adoradores assaltavam-na aos cardumes, e para saciar a sua desmesurada incontinencia, concedia os seus ambicionados favores a dois e tres ao mesmo tempo.
Por sua causa trocaram-se algumas bengaladas
no Aurea e nos salões dos teatros, e ela então, como as antigas romanas recebendo nos seus leitos de ouro os gladiadores que haviam vencidô nas lutas do Circo, recebia nos braços mornos e ve. ludineos o amante valente que tinha por ciumes desancado o ontro.
O marido, que em questões de vitorias só havia excedido as que o famigerado rei Menelau deveu á sua formosa esposa, a bela Helena, sabia às vezes destes escandalos, mas guardava-se em prudente silencio, só para que ela se não zangasse e lhe não negasse os seus deveres conjugaes, que, talvez por piedade e remorso lhe concedia em haustos de artisticas e invenciveis seducções.
Finalmente ao cabo de quinze anos de casado houve por bem remetter-se à paz do tamulo, levando para a eternidade a convicção de que se havia sido muito condescendente tambem tinha gozado horas de inolvidavel ventura.
Viuva aos trinta e dois anos de idade, D. Holoisa seguiu na serie das aventuras romanticas e praticas, até que aos trinta e quatro casou em segundas nupcias com um oficial de marinha que dela se enamorara perdidamente.
Homem energico e destemido, forte e saudavel, o novo marido da volutuosa senhora diferia em tudo e por tudo do primeiro.
ela assim o comprebenden, porque durante os oito anos one com ele foi casada portou-se sempre bem, excepção áparte duns meses que foi pas-
Sar ao campo em casa da cunhada, eslava então o “marido em Moçambique, e houve por bem dessedentar-se com um pastor das proximidades, rapaz de vinte anos, que era o mais brilhante campeão do amor que ela havia encontrado em toda a sua vida. e que logo na primeira entrevista batem O record das africas amorosas dos seus amantes e maridos.
Envinvou de novo aos quarenta e dois anos.
Ainda bela e apetecivel, estava porém gasta Da aparencia pelas devastações de uma longa existencia de excessivos prazeres.
No intimo porém, era a mesma mulher ardente e fogosa, tal qual a natureza a fizera, apaixonada, terna, sensivel, cheia de sentimentalismos doentios e erotismos terriveis.
Foi em casa de uma amiga, prima do seu defunto segundo marido, e senhora das mesmas tendencias e qualidades das suas, que ela conheceu O José Epigastrico.
aquele rapaz, na aurora risonha da mocidade, escrevendo versos cheios de idealismo e de sentimento, com o buço mal despontante e os seus grandes olhos negros scismadores e cariciosos perdidos nas orbitas fundas do seu rosto macilento e anguloso, accendeu de prompto a chama do seu hysterismo incuravel.
Viu nºele o macho passivo e cioso em plena flo-. rescencia da vida, ancioso de domar os impetos eshuberantes da sua seiva juvenil, é aquelas ma-
- mifestações de literato romantico e sentimental, “ vendo o mundo pelo prisma da fantasia e do sonho “agradou sobremaneira ao seu espirito inclinado ao “Taro e ao não vulgar.
Admirou-lhe os versos melancholicos e tristes, de uma tristeza saida da alma e não dos desgostos da vida, escutou-lhe embevecida a frase quente e dolorida em busca de um mundo novo feito de bondades, de afetos e de puras manifestações da arte, e os seus olhos verdes, luminosos e cúpidos, cravavam-se nos dele ao passo que erguia propositalmente a fimbria do vestido para deixar ver o pequenino pé sempre irreprehensivelmente calgado.
Alguns cabelos começavam a brilhar como fios de prata na sua bela cabeça de mulher altiva, que não esquecia um só momento os recursos de que dispunha para seduzir e attrahir os homens.
O José não reparou nesses fios, e com o sentimento impulsivo da mocidade sempre generosa e incanta, deixou-se lentamente adormecer ao cantico mavioso da sereia, e ao seu coração ainda virgem de sensações amorosas, que apenas confiára ao papel nas neurasthenias dos seus versos, frouxos de inspiração e de verdadeiro genio poetico, soube-lhe bem a ternura daquela mulher galante, que, se não estava já na alvorada da vida, resultava porém divinamente na maneira de o comprebender, de o animar, e de satisfazer à sua vaidade de querer ser literato à força,
D. Heloisa procedia assim estendendo as suas redes de ouro, e antegozando os prazeres da recolha daquele inocente e luminoso peixinho, que, dia a dia, vinha submisso e amoravel, deliciar-se à babugem das suas seducções.
Como ela tambem o José Epigastrico era um, neurasthenico e um nervotico, dotado duma sensibilidade extrema, que os olhos daquela mulher experimentada, pratica e sagaz, por mais de uma vez tinham surprehendido sem receio de se haverem enganado...
Por fim ela acquiesceu a recebel-o em sua casa.
Passaram uma noite encantadora os dois, a sós na pequena salinha onde o leitor os encontra, na casa da rua do Jasmim.
A principio o José conservou-se timido e acanhado. Como que o apavorava aquela entrevista com uma senhora tão volumosa, que rescendia perfumes capitosos e deixava perceber atravez a bata de musselina branca, tão aperitivos e sedutores relevos aphrodisiacos.
Atreveu-se a pegar lhe na mão setinosa e bem cuidada, que ela não retirou, e conservou-a tremula e quente entre as dele, ao passo que os seus belos olhos verdes enlanguesciam numa doce expressão de volupia. Depois, como tivessem guardado um pedaço de perigoso silencio, o José estremeceu vivlentamente, e num impeto abraçou-se a ela, e unindo os seus labios frementes de desejos aos
daquela mulher magnifica, devorou-a com beijos exclamando:
— Amo-te, Heloisa; amo-te muito.
ela fingiu que resistia opondo uma debel inta, mas 0 José, desvairado, cingiu-a nos braços nervosos e subjugou-a.
Então ela, estreitando-o muito aos volumosos seios, segredou-lhe:
— Aqui não, José... a criada póde ouvir.
ease ens a te een era neo ns an aa eu..
Rompia a madrugada quando ele, cambaleante e como que sob a impressão dum sonho delicioso, lbe deu o ultimo beijo, dizendo-lhe:
— Es divina, Heloisa! és um anjo! Adoro-te.
ela olhou-o com indisivel expressão de amor sensual e respondeu:
— Amar-me-has sempre assim?
— Sempre, Heloisa. Até à morte.
— Vê o que dizes?
— Juro-te.
—Bem, fecha a porta e não faças barulho. Espero-te hoje à mesma hora.
E depois dele sair, a terrivel senhora, mirando-se desvanecida no grande espelho do seu guar da-
fato, esboçou um inequivoco sorriso de triumpho.
Apezar dos seus cabelos brancos e de contar perto de quarenta e tres aunos, considerava-se ainda nos casos de alimentar a paixão de um rapaz de vinte.
Demais, nenhuma outra a venceria na arte de accordar todas as fantasias da carne, nem de fazer realçar os mais preciosos encantos que a natureza lhe concedera.
Descalçou as lindas meias de seda cor de rosa que lhe ficavam admiravelmente à perna muscalosa e esculptural, e enfiando a fina camisa de dormir, metteu-se no Jeito adormecendo profundamente.
O José Epigastrico era a sua decima segunda conquista amorosa!
Passaram-se assim dez meses.
Completamente mergulhado naquele ambiente de amor e de capitosos prazeres, o José perdera o ano e não sentia vontade de estudar.
Passava os dias em casa da amante, lendo romances e fazendo versos, que ela achava lindos e às vezes eram publicados nos jornaes.
Estava esqueletico, fraco, doente quase, muito
- agarrado ao seu livro sobre Arte, do qual escrevera apenas os tres primeiros capitulos.
À noite encontrava-se com os amigos no Suisso, e oseu espirito sensivel e desnorteado, engolphava-se naquelas eternas disputas literarias, e naquela estiolante e improdutiva critica, da qual não surgia cousa alguma de valor nem de proveitoso para incremento e fortalecimento das letras portuguesas.
Como mais ou menos todos os seus amigos tencionavam publicar um livro, tambem ele não desejava ficar-lhes atraz, e imaginara escrever aquela obra de folego, que intitulara simplesmente — Arte — em substituição da Morte de Cleopatra que inutilisara.
Pretendia desenvolver uma these, tentando explicar o que deve ser a Arte nas letras, mas como estudara pouco e acabara por se fatigar de ler, lutava a cada momento com as maiores dificuldades para expender os seus pensamentos.
A” noite era-lhe impossivel trabalhar.
A amante, recomendando-lhe que não se cançasse, deixava-o porém exausto de volupia, tentando-o demoniacamente com incitamentos sempre novos e irresistíveis.
A custo passara em dois exames, e o pai confessava desgostosamente que o rapaz era muito fraco para resistir aos trabalhos do curso, e que melhor seria procurar-lhe um emprego publico onde ganhasse para si sem maiores fadigas.
O pobre homem, que era cego como a maio-. ria dos pais, tinha um enorme desgosto com essa inatidão fisica do filho, tanto mais que o julgava dotado de muito talento, ao ler os elogios que um jornal dedicara a uma poesia que ele escrevera, é a qual o Urso apreciára nestas simples palavras:
— Uma pachochada sem pés nem cabeça!