PARTE I · Dedicatória
PARTE I · Dedicatória
Vós vos achegais de novo, formas vacilantes,
Que outrora cedo ao turvo olhar surgistes.
Tentarei desta vez prender-vos, constantes?
Ainda a esse delírio o coração resiste?
Vós me assediais! Pois bem, passai adiante,
Tal como em névoa e bruma ao redor subistes;
Meu peito sente um juvenil estremecimento
Ao sopro encantador que envolve o vosso advento.
Trazeis convosco imagens de dias venturosos,
E muita sombra amada torna a se erguer;
Como uma antiga lenda de sons já nebulosos,
Primeiro amor e amizade voltam a nascer;
Renova-se a dor, repetem-se os lamentos
Do labiríntico curso errante desta vida,
E os bons são nomeados, que, em belos momentos
Pela fortuna iludidos, partiram antes de mim.
Já não escutam estes cantos derradeiros
As almas para as quais cantei os primeiros;
Desfez-se a roda amiga, dispersa no ar,
E, ai de mim, cessou o eco inaugural.
Meu canto soa agora a uma turba desconhecida,
E até seu aplauso me angustia o coração;
E quem outrora nele achava algum prazer,
Se ainda vive, vagueia disperso pelo mundo.
E me domina uma saudade desacostumada
Daquele reino dos espíritos, grave e sereno;
Meu canto sussurrante flutua agora
Em tons incertos, como harpa eólia ao vento;
Um arrepio me toma, lágrima segue a lágrima,
E o coração severo se torna brando e terno;
O que possuo, vejo-o como à distância,
E o que desapareceu torna-se realidade.