PARTE I · Prelúdio no Teatro Fausto — edição integral · Capítulo 2 de 33
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PARTE I · Prelúdio no Teatro

PARTE I · Prelúdio no Teatro

Diretor. Poeta Dramático. Personagem Cômica.

DIRETOR

Vós dois, que tantas vezes me assististes

Em aflições e em horas de tristeza,

Dizei-me: que esperança concebestes

Para este nosso intento em terras alemãs?

Eu desejaria muito agradar à multidão,

Sobretudo porque vive e deixa viver.

Os postes estão firmes, as tábuas levantadas,

E cada qual espera uma festividade.

Já estão sentados, de sobrancelhas erguidas,

Muito tranquilos, desejando ser espantados.

Eu sei como se acalma o espírito do povo;

Mas nunca me encontrei tão embaraçado.

É certo que não estão afeitos ao melhor,

Porém leram uma quantidade assustadora.

Como fazer que tudo pareça fresco e novo,

Agradável, e também cheio de significado?

Pois, francamente, gosto de ver a multidão

Quando a torrente se comprime junto à nossa barraca

E, com violentas e repetidas contrações,

Se espreme pela estreita porta da graça;

Em pleno dia, ainda antes das quatro,

Abrindo caminho aos empurrões até a bilheteria

E, como em tempos de fome às portas da padaria,

Quase quebrando o pescoço por um bilhete.

Só o poeta realiza tal prodígio

Sobre pessoas tão diversas. Amigo, faze-o hoje!

POETA

Oh, não me fales dessa turba multicolor,

Cuja visão nos faz fugir o espírito!

Encobre-me esse ondulante amontoado

Que, contra a vontade, nos arrasta ao turbilhão.

Não, leva-me ao sereno recanto celestial

Onde somente ao poeta floresce a pura alegria;

Onde o amor e a amizade, bênçãos do coração,

São criados e nutridos por mãos divinas.

Ai! O que das profundezas do peito ali brotou,

O que os lábios balbuciaram timidamente,

Ora malogrado, ora talvez bem-sucedido,

É devorado pela violência do instante selvagem.

Muitas vezes, só depois de atravessar os anos,

Surge afinal em sua forma consumada.

O que reluz nasceu para o momento;

O autêntico permanece intacto para a posteridade.

PERSONAGEM CÔMICA

Quem dera eu nunca ouvisse falar em posteridade!

Supondo que eu quisesse falar em posteridade,

Quem divertiria então os que vivem hoje?

Eles querem diversão e devem recebê-la.

A aparição de um sujeito de valor

Já é, a meu ver, alguma coisa.

Quem sabe comunicar-se de modo agradável

Não se amargura com o humor do povo;

Deseja ao redor de si um círculo numeroso,

Para com maior certeza o comover.

Portanto, sede dignos, mostrai-vos exemplares;

Fazei ouvir a Fantasia com todos os seus coros,

Razão, entendimento, sentimento e paixão,

Mas, notai bem, jamais sem uma dose de loucura!

DIRETOR

Sobretudo, porém, fazei acontecer bastante!

Vem-se para olhar, e o que mais se quer é ver.

Quando muita coisa se desenrola diante dos olhos,

De modo que a multidão possa pasmar boquiaberta,

Logo conquistastes amplo terreno

E vos tornastes um homem muito querido.

Só pela massa dominareis a massa;

Cada qual acaba escolhendo algo para si.

Quem oferece muito dará alguma coisa a muitos,

E todos deixarão satisfeitos a casa.

Se apresentais uma peça, apresentai-a logo em pedaços!

Um cozido assim não pode deixar de resultar;

É fácil servi-lo, tão fácil quanto inventá-lo.

Que importa terdes oferecido um todo?

O público haverá de despedaçá-lo.

POETA

Não percebeis quão vil é semelhante ofício!

Quão pouco convém ao verdadeiro artista!

O remendo desses senhores tão asseados,

Pelo que vejo, já se tornou vossa máxima.

DIRETOR

Tal censura não me causa ofensa.

Um homem que pretende agir com eficácia

Deve escolher sempre a melhor ferramenta.

Considerai que tendes madeira macia a rachar

E vede bem para quem estais escrevendo!

Este vem impelido pelo tédio;

Aquele chega farto de um banquete excessivo;

E o pior de todos, sem dúvida,

É quem acaba de ler os jornais.

Correm distraídos até nós, como a um baile de máscaras,

E apenas a curiosidade dá asas a seus passos;

As damas oferecem a si mesmas e a seus adornos

E representam sem receber cachê.

Que sonhais aí, em vossas alturas de poeta?

Por que uma casa cheia vos alegra?

Olhai de perto os vossos protetores!

Metade é fria, metade é grosseira.

Um, depois da peça, espera jogar cartas;

Outro, passar uma noite desregrada ao seio de uma prostituta.

Por que atormentais tanto, pobres loucos,

As amáveis Musas para semelhante fim?

Eu vos digo: dai mais, e sempre, sempre mais;

Assim jamais vos afastareis do objetivo.

Tratai apenas de confundir as pessoas;

Satisfazê-las é difícil.

Que vos acomete? Êxtase ou sofrimento?

POETA

Vai-te e procura outro servo!

Deveria o poeta sacrificar criminosamente,

Por tua causa, o mais elevado direito,

O direito humano que a natureza lhe concedeu?

Por que meio ele comove todos os corações?

Por que meio domina cada elemento?

Não é pela harmonia que lhe brota do peito

E torna a abraçar o mundo em seu coração?

Quando a natureza força o comprimento eterno do fio,

Girando indiferente, a enrolar-se no fuso;

Quando a multidão desarmônica de todos os seres

Ressoa, contrafeita, num confuso emaranhado;

Quem divide e anima a série sempre igual que flui,

Para que ela se mova ritmicamente?

Quem convoca o particular à consagração universal,

Onde pulsa em acordes magníficos?

Quem deixa a tempestade enfurecer-se em paixões?

E o crepúsculo arder em pensamento grave?

Quem derrama todas as belas flores da primavera

Ao longo dos caminhos da amada?

Quem entrelaça as folhas verdes e insignificantes

Numa coroa de honra para méritos de toda espécie?

Quem protege o Olimpo? Quem reúne os deuses?

A força do homem, revelada no poeta.

PERSONAGEM CÔMICA

Então empregai essas belas forças

E conduzi os afazeres poéticos

Como se conduz uma aventura amorosa.

Por acaso as pessoas se aproximam, sentem, permanecem,

E pouco a pouco acabam enredadas;

Cresce a felicidade, depois é combatida;

Vem o encanto, logo se aproxima a dor,

E, antes que se perceba, já temos um romance.

Demos também assim um espetáculo!

Mergulhai de cheio na vida humana!

Todos a vivem, poucos a conhecem,

E, onde quer que a agarreis, será interessante.

Em imagens variadas, pouca clareza,

Muito engano e uma centelha de verdade:

Assim se prepara a melhor bebida,

Que o mundo inteiro anima e reconforta.

Então a mais bela flor da juventude

Se reunirá diante de vosso drama e ouvirá a revelação;

Então todo coração sensível

Extrairá de vossa obra alimento melancólico;

Ora isto, ora aquilo será despertado,

E cada qual verá o que traz no coração.

Ainda estão igualmente prontos para chorar e rir;

Ainda honram o arrebatamento e se alegram com a aparência.

A quem já está formado nada consegue agradar;

Quem está em formação será sempre agradecido.

POETA

Então devolve-me também aqueles tempos

Em que eu próprio ainda me formava,

Quando uma fonte de cantos impetuosos

Brotava sem cessar, sempre renovada;

Quando a névoa me encobria o mundo,

E o botão ainda prometia maravilhas;

Quando eu colhia as mil flores

Que enchiam prodigamente todos os vales.

Nada possuía, e no entanto possuía o bastante:

O impulso para a verdade e o prazer da ilusão.

Devolve-me, indomados, aqueles ímpetos,

A profunda felicidade cheia de dor,

A força do ódio, o poder do amor;

Devolve-me a juventude!

PERSONAGEM CÔMICA

Da juventude, meu bom amigo, talvez precises

Quando inimigos te acuam nas batalhas,

Quando, com violência, ao teu pescoço

Se penduram as mais adoráveis moças,

Quando ao longe a coroa da corrida veloz

Acena junto à meta dificilmente alcançada,

Quando, depois da furiosa dança em rodopio,

Passas as noites bebendo e banqueteando.

Mas tocar com coragem e graça

O conhecido jogo das cordas,

E, rumo a um objetivo traçado por vós mesmos,

Flutuar entre graciosos desvios,

Isso, velhos senhores, é vosso dever,

E por isso não vos reverenciamos menos.

A idade não nos torna infantis, como se diz;

Ela apenas nos encontra ainda verdadeiras crianças.

DIRETOR

Já trocamos palavras suficientes;

Deixai-me enfim ver ações!

Enquanto torneais gentilezas,

Algo de útil poderia ser feito.

De que serve falar tanto de inspiração?

Ela nunca aparece a quem hesita.

Uma vez que vos dais por poetas,

Ordenai então à poesia.

Sabeis do que necessitamos:

Queremos sorver bebidas fortes.

Começai imediatamente a prepará-las para mim!

O que não se faz hoje não estará feito amanhã,

E nenhum dia deve ser desperdiçado.

A decisão deve agarrar corajosamente

Pelos cabelos aquilo que for possível;

Depois não o deixará escapar

E seguirá agindo porque assim precisa.

Sabeis que, em nossos palcos alemães,

Cada qual experimenta o que bem entende;

Portanto, neste dia, não me poupeis

Cenários nem máquinas.

Usai as luzes grandes e pequenas do céu;

Podeis esbanjar as estrelas;

Não faltarão água, fogo, muralhas de rocha,

Animais nem pássaros.

Assim, dentro desta estreita casa de tábuas,

Percorrei todo o círculo da criação

E passai, com deliberada rapidez,

Do céu pelo mundo até o inferno.

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