PARTE I · Floresta e Caverna Fausto — edição integral · Capítulo 17 de 33
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PARTE I · Floresta e Caverna

PARTE I · Floresta e Caverna

Fausto, sozinho.

FAUSTO

Espírito sublime, deste-me, deste-me tudo

Quanto te pedi. Não foi em vão

Que voltaste para mim teu rosto em fogo.

Deste-me a natureza esplêndida por reino,

Força para senti-la e desfrutá-la. Não

Me concedes apenas a visita fria

De quem contempla atônito: permites

Que eu mire em seu profundo coração

Como no peito aberto de um amigo.

Conduzes diante de mim a série dos viventes

E ensinas-me a reconhecer meus irmãos

No arbusto silencioso, no ar e nas águas.

E quando a tempestade ruge e estala na floresta,

Quando o pinheiro gigantesco, ao tombar,

Esmaga os galhos e os troncos vizinhos,

E ao seu baque oco e surdo o monte troveja,

Então me levas à caverna protegida,

Mostras-me a mim mesmo, e em meu próprio peito

Abrem-se maravilhas fundas e secretas.

E quando diante de meus olhos a lua pura

Se eleva, serenando tudo, pairam

Dos paredões de rocha e do bosque úmido

Formas de prata de um mundo ancestral,

E abrandam o severo prazer da contemplação.

Ah, agora sinto que ao homem nada

É concedido em perfeição. A esta ventura,

Que mais e mais me aproxima dos deuses,

Deste-me o companheiro de quem já

Não posso prescindir, embora, frio e insolente,

Ele me rebaixe aos meus próprios olhos

E, com o sopro de uma palavra, reduza

A nada todos os teus dons.

Ele atiça em meu peito, diligente,

Um fogo selvagem por aquela bela imagem.

Assim cambaleio do desejo ao gozo,

E, em meio ao gozo, morro de desejo.

Mefistófeles entra.

MEFISTÓFELES

Já não viveu bastante dessa vida?

Como pode ela ainda diverti-lo?

É muito bom provar uma vez,

Mas depois, rumo a algo novo!

FAUSTO

Quem dera tivesses mais que fazer

Do que me atormentar em pleno dia.

MEFISTÓFELES

Ora, ora! Deixo-te em paz com prazer,

Mas não precisas falar tão seriamente.

Pouco se perderia, na verdade,

Com um companheiro ingrato, ríspido e louco como tu.

O dia inteiro, fico de mãos ocupadas!

O que lhe agrada, o que se deve evitar,

Jamais se lê no nariz desse senhor.

FAUSTO

Esse é exatamente o tom adequado!

Ainda quer agradecimento por me entediar.

MEFISTÓFELES

Como terias, pobre filho da terra,

Conduzido a vida sem a minha ajuda?

Do emaranhado de tua imaginação

Eu te curei por longo tempo;

E, não fosse eu, já terias

Passeado para fora deste globo.

Por que te metes em cavernas e fendas

E lá te empoleiras feito um mocho?

Por que sorves do musgo abafado e da pedra gotejante

Teu alimento, como um sapo?

Que passatempo belo e delicado!

O doutor ainda está dentro de teu corpo.

FAUSTO

Compreendes que nova força de viver

Este caminhar no ermo faz nascer em mim?

Sim, se ao menos pudesses pressenti-la,

Serias diabo bastante para invejar minha ventura.

MEFISTÓFELES

Um prazer verdadeiramente sobrenatural!

Deitar-se sobre as montanhas, entre a noite e o orvalho,

Abraçar com deleite o céu e a terra,

Inflar-se até tornar-se uma divindade,

Revolver a medula do mundo com ânsia de presságio,

Sentir no próprio peito os seis dias da criação,

Desfrutar, com força altiva, sabe-se lá do quê,

Ora derramar-se em tudo, num êxtase amoroso,

Até desaparecer por completo o filho da terra,

E então concluir a elevada intuição...

Faz um gesto.

Não posso dizer de que maneira.

FAUSTO

Que nojo!

MEFISTÓFELES

Isso não lhe agrada;

Tem o direito de dizer “que nojo” com decoro.

Não se deve nomear diante de ouvidos castos

Aquilo de que os corações castos não podem prescindir.

Em suma, concedo ao senhor o prazer

De mentir um pouco para si mesmo de vez em quando;

Mas não o suportará por muito tempo.

Já estás sendo arrastado outra vez

E, caso dure mais, serás consumido

Pela loucura, pelo medo e pelo horror.

Chega disso! Tua amada está lá dentro,

E tudo ao redor lhe parece estreito e sombrio.

Não consegue expulsar-te do pensamento,

Ama-te com uma força irresistível.

Primeiro, tua fúria amorosa transbordou,

Como um riacho que cresce com a neve derretida;

Derramaste-a inteira em seu coração,

E agora teu riacho tornou a baixar.

Parece-me que, em vez de reinar nas florestas,

Bem faria o grande senhor

Se recompensasse a pobre criaturinha

Pelo amor que ela lhe dedica.

O tempo se arrasta miseravelmente para ela;

Fica à janela, vendo as nuvens passarem

Por cima da velha muralha da cidade.

“Quem me dera ser um passarinho!”, assim canta

Dias inteiros, metade das noites.

Às vezes está alegre, quase sempre triste,

Às vezes chora até não poder mais,

Depois torna a ficar tranquila, ao que parece,

E sempre apaixonada.

FAUSTO

Serpente! Serpente!

MEFISTÓFELES (à parte)

Não é que te apanhei?

FAUSTO

Maldito, desaparece daqui

E não pronuncies o nome daquela bela mulher!

Não tragas o desejo por seu corpo doce

De volta aos meus sentidos quase enlouquecidos!

MEFISTÓFELES

Mas que fazer? Ela pensa que fugiste,

E, em parte, já fugiste mesmo.

FAUSTO

Estou perto dela, por mais distante que esteja;

Jamais posso esquecê-la, jamais perdê-la.

Já invejo até o corpo do Senhor

Quando, na missa, seus lábios o tocam.

MEFISTÓFELES

Muito bem, meu amigo! Quantas vezes vos invejei

O par de gêmeas que pasta entre as rosas.

FAUSTO

Foge daqui, alcoviteiro!

MEFISTÓFELES

Ótimo! Tu insultas, e eu tenho de rir.

O Deus que criou o rapaz e a moça

Reconheceu de imediato a mais nobre ocupação:

Criar ele próprio a oportunidade.

Vamos, isso já é uma grande miséria!

Deves ir ao quarto de tua amada,

Não para a morte.

FAUSTO

Que é a alegria do céu nos braços dela?

Deixa-me aquecer junto ao seu peito!

Não sinto sempre sua aflição?

Não sou o fugitivo, o desabrigado?

O monstro sem destino nem repouso,

Que, como uma torrente, de rochedo em rochedo rugia,

Ávido e furioso, rumo ao abismo?

E ela, ao lado, com seus sentidos infantis e obscuros,

Na cabana do pequeno campo alpino,

Com toda a sua vida doméstica

Encerrada naquele mundo estreito.

E eu, odiado por Deus,

Não me contentei

Em agarrar os rochedos

E reduzi-los a destroços!

Tive de destruir também a paz dela!

Tu, inferno, precisavas desse sacrifício.

Ajuda-me, diabo, a abreviar o tempo da angústia.

O que tiver de acontecer, que aconteça já!

Que o destino dela desabe sobre mim

E que ela se perca comigo!

MEFISTÓFELES

Como tudo torna a ferver e arder!

Entra e consola-a, seu tolo!

Quando uma cabecinha não enxerga uma saída,

Logo imagina que chegou o fim.

Viva aquele que sabe manter-se firme!

De resto, estás bastante endiabrado.

Nada há no mundo mais insosso

Que um diabo desesperado.

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