PARTE I · Cárcere Fausto — edição integral · Capítulo 28 de 33
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PARTE I · Cárcere

PARTE I · Cárcere

Fausto, com um molho de chaves e uma lâmpada, diante de uma pequena porta de ferro.

FAUSTO.

Um horror há muito desaprendido me assalta,

Toda a miséria humana me toma.

Ela habita atrás desta parede úmida,

E seu crime foi uma doce ilusão.

Hesitas em ir até ela!

Temes tornar a vê-la!

Avante! Teu receio apressa sua morte.

Segura a fechadura. Ouve-se um canto lá dentro.

Minha mãe, a prostituta,

Que me matou!

Meu pai, o patife,

Que me devorou!

Minha irmãzinha

Juntou meus ossinhos

Num lugar fresco;

Então me tornei um belo pássaro da floresta.

Voo para longe, voo para longe!

FAUSTO

abrindo a porta.

Ela não suspeita que o amado escuta,

Que ouve as correntes tilintarem, a palha farfalhar.

Entra.

MARGARIDA

escondendo-se no leito.

Ai! Ai! Eles vêm. Morte amarga!

FAUSTO

em voz baixa.

Silêncio! Silêncio! Venho libertar-te.

MARGARIDA

arrastando-se até ele.

Se és humano, compadece-te de minha aflição.

FAUSTO.

Vais despertar os guardas com teus gritos!

Segura as correntes para abri-las.

MARGARIDA

de joelhos.

Quem te deu, carrasco, este poder

Sobre minha vida?

Já vens buscar-me à meia-noite.

Tem piedade e deixa-me viver!

Amanhã cedo não é bastante cedo?

Levanta-se.

Ainda sou tão jovem, tão jovem!

E já devo morrer!

Também fui bela, e isso foi minha perdição.

O amado estava perto, agora está distante;

A coroa jaz rasgada, as flores dispersas.

Não me agarres com tanta violência!

Poupa-me! O que te fiz?

Não me deixes suplicar em vão;

Nunca te vi em todos os meus dias!

FAUSTO.

Como suportarei tamanha desgraça!

MARGARIDA.

Agora estou inteiramente em teu poder.

Deixa-me primeiro amamentar a criança.

Abracei-a durante toda esta noite;

Tiraram-na de mim para me atormentar

E agora dizem que fui eu quem a matou.

Nunca mais voltarei a ser feliz.

Cantam canções sobre mim! É maldade dessa gente!

Uma velha história termina assim;

Quem os manda interpretá-la?

FAUSTO

lançando-se ao chão.

Um homem que te ama está a teus pés

Para abrir esta prisão de tormentos.

MARGARIDA

ajoelhando-se junto dele.

Oh, deixa-nos ajoelhar para invocar os santos!

Olha! Debaixo destes degraus,

Sob a soleira,

Ferve o inferno!

O Maligno,

Com terrível furor,

Faz um estrondo medonho!

FAUSTO

em voz alta.

Gretchen! Gretchen!

MARGARIDA

atenta.

Essa foi a voz do amado!

Levanta-se de um salto. As correntes caem.

Onde está ele? Ouvi-o chamar.

Estou livre! Ninguém poderá impedir-me.

Quero lançar-me a seu pescoço,

Repousar em seu peito!

Ele chamou: “Gretchen!” Estava na soleira.

No meio dos uivos e dos golpes do inferno,

Em meio à zombaria furiosa e diabólica,

Reconheci a voz doce e amorosa.

FAUSTO.

Sou eu!

MARGARIDA.

És tu! Oh, diz outra vez!

Agarrando-o.

É ele! É ele! Para onde foi todo o tormento?

Para onde foi o medo do cárcere, das correntes?

És tu! Vieste salvar-me.

Estou salva!

Já vejo novamente a rua

Onde te vi pela primeira vez,

E o jardim alegre

Onde eu e Martha esperávamos por ti.

FAUSTO

tentando levá-la.

Vem comigo! Vem comigo!

MARGARIDA.

Oh, fica!

Como gosto de ficar onde tu ficas!

Acariciando-o.

FAUSTO.

Depressa!

Se não te apressares,

Pagaremos caro por isso.

MARGARIDA.

Como? Já não sabes beijar?

Meu amado, estiveste longe de mim por tão pouco tempo

E desaprendeste a beijar?

Por que sinto tamanha angústia junto a teu pescoço?

Antes, de tuas palavras e de teus olhares,

Todo um céu caía sobre mim,

E tu me beijavas como se quisesses sufocar-me.

Beija-me!

Senão eu te beijo!

Abraça-o.

Ai! Teus lábios estão frios,

Estão mudos.

Onde foi parar

Teu amor?

Quem me roubou dele?

Afasta-se.

FAUSTO.

Vem! Segue-me! Amada, cria coragem!

Hei de abraçar-te com ardor mil vezes maior.

Apenas segue-me! Só te peço isso!

MARGARIDA

voltando-se para ele.

És mesmo tu? És tu com certeza?

FAUSTO.

Sou eu! Vem comigo!

MARGARIDA.

Soltas minhas correntes,

Tornas a acolher-me em teus braços.

Como podes não ter medo de mim?

Sabes, meu amado, quem estás libertando?

FAUSTO.

Vem! Vem! A noite profunda já recua.

MARGARIDA.

Matei minha mãe,

Afoguei meu filho.

Ele não foi dado a ti e a mim?

Também a ti. És tu! Mal posso acreditar.

Dá-me tua mão! Não é um sonho!

Tua mão querida! Ah, mas está úmida!

Enxuga-a! Parece-me

Que há sangue nela.

Meu Deus! O que fizeste?

Guarda a espada,

Eu te suplico!

FAUSTO.

Deixa o passado passar.

Estás me matando.

MARGARIDA.

Não, tu deves permanecer vivo!

Vou descrever-te os túmulos;

Deves cuidar deles

Já amanhã.

Dá à minha mãe o melhor lugar,

Meu irmão logo ao lado,

E a mim um pouco afastada,

Mas não longe demais!

E a criança junto a meu peito direito.

Ninguém mais ficará deitado ao meu lado.

Aconchegar-me junto de ti

Era uma felicidade doce e terna!

Mas já não consigo fazê-lo.

Parece que preciso obrigar-me a chegar perto de ti,

Como se me repelisses;

E, no entanto, és tu, e olhas com tanta bondade, tanta pureza.

FAUSTO.

Se sentes que sou eu, então vem!

MARGARIDA.

Para fora?

FAUSTO.

Para o ar livre.

MARGARIDA.

Se lá fora está o túmulo,

Se a morte espera, então vem!

Daqui para o leito de repouso eterno

E nem um passo além.

Agora vais embora? Oh, Henrique, se eu pudesse ir contigo!

FAUSTO.

Tu podes! Basta querer! A porta está aberta!

MARGARIDA.

Não posso sair; para mim já não há esperança.

De que serve fugir? Eles estão à minha espreita.

É tão miserável ter de mendigar

E ainda por cima com a consciência culpada!

É tão miserável vagar por terras estranhas,

E eles acabarão me prendendo!

FAUSTO.

Ficarei contigo.

MARGARIDA.

Depressa! Depressa!

Salva teu pobre filho!

Vai! Sempre pelo caminho

Que sobe junto ao riacho,

Atravessa a ponte,

Entra na floresta,

À esquerda, onde fica a cerca,

No lago.

Segura-o depressa!

Ele quer erguer-se,

Ainda se debate!

Salva-o! Salva-o!

FAUSTO.

Volta a ti!

Um único passo e estarás livre!

MARGARIDA.

Se ao menos tivéssemos passado da montanha!

Minha mãe está sentada sobre uma pedra,

Um frio me agarra pelos cabelos!

Minha mãe está sentada sobre uma pedra

E balança a cabeça.

Não acena, não inclina a cabeça; ela está pesada.

Dormiu por tanto tempo, já não desperta.

Dormiu para que pudéssemos nos alegrar.

Foram tempos felizes!

FAUSTO.

Se súplicas e palavras não ajudam,

Arriscarei levar-te à força.

MARGARIDA.

Deixa-me! Não, não suporto violência!

Não me agarres como um assassino!

Antes eu fazia tudo para te agradar.

FAUSTO.

O dia clareia! Amada! Amada!

MARGARIDA.

Dia! Sim, o dia vem! O último dia se aproxima;

Deveria ser o dia de meu casamento!

Não contes a ninguém que já estiveste com Gretchen.

Ai de minha coroa!

Está tudo acabado!

Voltaremos a nos ver,

Mas não durante a dança.

A multidão se aperta, mas não se ouve nenhum som.

A praça e as ruas

Não conseguem contê-la.

O sino chama, a vara se parte.

Como me prendem e me agarram!

Já fui arrastada ao cadafalso.

Sobre cada pescoço já treme

A lâmina que há de cair sobre o meu.

Mudo, o mundo jaz como o túmulo!

FAUSTO.

Oh, se eu nunca tivesse nascido!

MEFISTÓFELES

aparecendo do lado de fora.

Vamos! Ou estais perdidos.

Temor inútil! Hesitação e conversa!

Meus cavalos estremecem,

A manhã começa a clarear.

MARGARIDA.

O que sobe do chão?

Ele! Ele! Manda-o embora!

O que quer neste lugar sagrado?

Ele me quer!

FAUSTO.

Tu viverás!

MARGARIDA.

Juízo de Deus! Entrego-me a ti!

MEFISTÓFELES

a Fausto.

Vem! Vem! Ou te deixo aqui com ela.

MARGARIDA.

Sou tua, Pai! Salva-me!

Anjos! Santas hostes,

Cercai-me para me proteger!

Henrique! Tenho horror de ti.

MEFISTÓFELES.

Está condenada!

VOZ DO ALTO.

Está salva!

MEFISTÓFELES

a Fausto.

Para cá, comigo!

Desaparece com Fausto.

VOZ DE DENTRO

extinguindo-se ao longe.

Henrique! Henrique!

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