PARTE I · Rua I Fausto — edição integral · Capítulo 10 de 33
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PARTE I · Rua I

PARTE I · Rua I

Fausto. Margarida passa.

FAUSTO

Minha bela senhorita, posso ousar

oferecer-lhe meu braço e acompanhá-la?

MARGARIDA

Não sou senhorita, nem sou bela,

e sei voltar para casa sem companhia.

Desvencilha-se e sai.

FAUSTO

Pelo céu, como essa menina é bela!

Nunca vi coisa semelhante.

Tão recatada, tão virtuosa,

e, ao mesmo tempo, um pouco arisca.

O rubor dos lábios, a luz das faces,

não os esquecerei enquanto viver!

A maneira como baixou os olhos

gravou-se fundo em meu coração;

e aquele modo brusco de falar

chega a ser um encanto!

Entra Mefistófeles.

FAUSTO

Escuta, tens de conseguir-me essa moça!

MEFISTÓFELES

Qual delas?

FAUSTO

A que acaba de passar.

MEFISTÓFELES

Aquela? Vinha de falar com o padre,

que a absolveu de todos os pecados.

Passei bem perto do confessionário.

É uma criatura muito inocente,

que foi confessar-se sem ter culpa alguma.

Sobre ela não tenho poder!

FAUSTO

Mas já passou dos quatorze anos.

MEFISTÓFELES

Falas como João Libertino,

que deseja para si toda flor bonita

e imagina que não há honra

nem graça que não se deixe colher.

Mas nem sempre isso é possível.

FAUSTO

Senhor Mestre Louva-Tudo,

poupe-me de suas leis!

E digo-lhe isto de maneira breve e clara:

se esse doce sangue jovem

não repousar esta noite em meus braços,

à meia-noite estaremos separados.

MEFISTÓFELES

Pensa no que é possível fazer!

Preciso de pelo menos quatorze dias

só para descobrir uma oportunidade.

FAUSTO

Se eu tivesse sete horas de sossego,

não precisaria do diabo

para seduzir uma criatura dessas.

MEFISTÓFELES

Já falas quase como um francês.

Mas peço que não te aborreças.

Que vantagem há em desfrutar de imediato?

O prazer não chega nem de longe a ser tão grande

quanto quando primeiro, por cima e ao redor,

com toda sorte de cerimônias,

a bonequinha é amassada e preparada,

como ensinam tantas histórias italianas.

FAUSTO

Tenho apetite mesmo sem isso.

MEFISTÓFELES

Agora, sem ofensa e sem brincadeira,

digo-te que, com essa bela criança,

as coisas não caminham depressa.

Nada se conquista ali de assalto;

teremos de recorrer à astúcia.

FAUSTO

Consegue para mim alguma coisa do tesouro desse anjo!

Leva-me ao lugar onde ela repousa!

Arranja-me um lenço que tenha tocado seu peito,

uma liga que alimente meu desejo!

MEFISTÓFELES

Para que vejas que desejo

ajudar e servir ao teu sofrimento,

não perderemos um instante.

Ainda hoje te levarei ao quarto dela.

FAUSTO

E vou vê-la? Possuí-la?

MEFISTÓFELES

Não! Ela estará na casa de uma vizinha.

Enquanto isso, poderás, sozinho,

saciar-te, dentro da atmosfera que a envolve,

com todas as esperanças dos prazeres futuros.

FAUSTO

Podemos ir?

MEFISTÓFELES

Ainda é cedo demais.

FAUSTO

Trata de arranjar um presente para ela!

Sai.

MEFISTÓFELES

Dar presentes logo de início? Muito bem! Assim vencerá!

Conheço muitos lugares excelentes

e muitos tesouros antigos enterrados.

Preciso fazer uma pequena inspeção.

Sai.

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