No castelo de inverno Branca de Neve e os Sete Anões · Capítulo 2 de 14
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No castelo de inverno

A nova rainha chegou quando o inverno já havia deixado o reino com aparência de coisa guardada. As torres brilhavam sob a neve, os telhados pareciam lâminas brancas e, dentro do castelo, cada criado sabia exatamente onde ficar para que a cerimônia parecesse natural. Nada ali era natural. Até o fogo nas lareiras ardia como se obedecesse a uma ordem.

Branca de Neve observou a comitiva da galeria alta. A mulher que desceu do carro não parecia apenas bela. Parecia treinada para ser vista. Havia nela uma precisão que assustava mais do que qualquer gesto rude: o modo como apoiava a mão, como recebia reverências, como sorria sem entregar um pensamento inteiro. O palácio, que até então parecia respirar em torno da ausência da antiga rainha, inclinou-se diante daquela presença como se enfim tivesse encontrado uma forma nova para seu vazio.

Nos primeiros dias, todos falaram de harmonia. Disseram que o rei parecia menos sozinho, que a corte recuperava brilho, que uma menina precisava de uma figura feminina por perto. Branca ouviu tudo com a educação que haviam colocado nela desde cedo, mas entendeu depressa que algumas frases existem para impedir perguntas. A rainha era gentil quando havia testemunhas. Chamava-a de criança preciosa, tocava seus cabelos escuros, elogiava a palidez de sua pele como quem avalia uma porcelana rara.

Sozinhas, porém, havia outra coisa. Não crueldade aberta, ainda não. Era antes uma atenção fria, uma espécie de cálculo. A rainha perguntava sobre suas aulas, seus passeios, seus livros, seus vestidos, e em cada resposta parecia medir quanto espaço aquela menina ocupava no castelo. Branca de Neve começou a perceber que a beleza, quando repetida por muitas bocas, podia deixar de ser bênção e virar acusação.

O rei via pouco. Ou via e escolhia chamar aquilo de adaptação. Estava cansado demais para decifrar as pequenas violências que não deixam marca no corpo. A corte, por sua vez, preferia a ordem. Uma rainha bela, jovem e politicamente útil era mais fácil de celebrar do que uma criança crescendo com olhos atentos demais.

Assim o inverno continuou. Por fora, o castelo ganhou música, banquetes e tecidos novos. Por dentro, Branca de Neve aprendeu a reconhecer silêncios. E a rainha, diante dos espelhos do palácio, aprendeu que havia uma coisa pior do que não ser admirada: ser admirada ao lado de alguém que nada fazia para merecer admiração e, justamente por isso, parecia recebê-la com mais verdade.

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