O príncipe da estrada branca
O príncipe chegou pela estrada branca numa manhã sem pressa. Não vinha em busca de esposa encantada, nem de glória em forma de lenda. Vinha tratar de fronteiras, escoltas e acordos menores, essas tarefas que os reinos chamam de política quando desejam dar dignidade à necessidade. Foi um dos guardas quem lhe falou da clareira.
Ele pediu para vê-la não por curiosidade vulgar, mas porque certas histórias, quando repetidas por vozes simples, carregam uma verdade que documentos não alcançam. Encontrou os sete junto ao leito de vidro. Eles o receberam com desconfiança. Tinham aprendido que gente de castelo costuma trazer promessas grandes e mãos pouco acostumadas ao cuidado.
O príncipe aproximou-se devagar. Ao ver Branca de Neve, não pensou primeiro em beleza. Pensou em violência. Não a violência do sangue aberto, mas a mais silenciosa: a de uma vida interrompida porque alguém poderoso não suportou dividir o mundo. Aquilo o comoveu mais do que qualquer encanto.
-- Quem fez isto? -- perguntou.
Os sete contaram. Não como camponeses diante de um nobre, mas como testemunhas diante de alguém que talvez pudesse levar a história além das árvores. Falaram da rainha, dos disfarces, dos objetos, da maçã. Falaram também da menina que lavava tigelas, aprendia a acender fogo e pedia desculpas até quando era ela a ferida.
O príncipe ficou longo tempo em silêncio. Depois pediu ajuda para transportar o leito até um lugar mais seguro, onde médicos e sábios pudessem examiná-la. No movimento, a estrada irregular sacudiu o vidro. O corpo de Branca de Neve inclinou-se um pouco, e de sua garganta soltou-se o pedaço de maçã que a mantinha presa ao sono.
Ela respirou.
Ninguém soube o que fazer com o primeiro som. Os sete choraram antes de sorrir. O príncipe recuou, dando espaço, porque entendeu que despertar alguém não dá direito de posse sobre essa pessoa. Branca de Neve abriu os olhos para a luz, depois para os rostos que a haviam guardado, e por fim para o desconhecido que permanecia a uma distância respeitosa.
-- Onde estou? -- perguntou.
-- Entre os que não desistiram de você -- respondeu o mais velho dos sete.
O príncipe inclinou a cabeça. Naquele gesto, não havia conquista, mas reconhecimento. A história poderia seguir o caminho fácil dos contos, em que uma mulher desperta e imediatamente pertence ao homem que chegou por último. Mas Branca de Neve não voltara da morte para trocar uma prisão por outra. Voltava para escolher o que fazer com a verdade.