O pente enfeitiçado Branca de Neve e os Sete Anões · Capítulo 9 de 14
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O pente enfeitiçado

Depois da fita, a pequena casa mudou de respiração. Os sete saíam para a montanha com os olhos voltando muitas vezes para trás, e Branca de Neve passava os dias entre tarefas simples e uma vigilância que não combinava com sua idade. Lavava tigelas, varria cinzas, remendava panos, mas a cada estalo da madeira sentia o corpo lembrar a falta de ar.

A rainha, no castelo, ouviu do espelho o que já temia.

-- Ela vive.

Dessa vez, a inveja veio acompanhada de humilhação. Não bastava ser poderosa se uma casa de trabalhadores desfazia seu plano. Não bastava possuir um castelo se uma menina aprendia a existir fora dele. A rainha entendeu, com ódio, que Branca de Neve não estava apenas sobrevivendo: estava criando vínculos. E vínculos são perigosos para quem governa pelo isolamento.

Preparou outro disfarce. Menos miserável, mais persuasivo. Uma mulher de passagem, vendedora de pequenos luxos, dessas que parecem conhecer a solidão de quem mora longe e oferecem beleza como quem oferece notícia do mundo. Entre os objetos da cesta, colocou um pente enfeitiçado, fino, brilhante, trabalhado para parecer presente e agir como veneno.

Naquela manhã, os sete repetiram o aviso com mais severidade. Branca de Neve assentiu. A vergonha da primeira queda ainda doía. Trancou a porta, guardou a chave no bolso e prometeu a si mesma não confundir pena com confiança.

Mas a rainha não bateu à porta. Cantou sob a janela. Uma melodia baixa, quase antiga, trazendo palavras sobre cabelos embaraçados, dias compridos e moças que mereciam se reconhecer no espelho sem medo. Branca tentou ignorar. A canção, porém, tocava uma saudade que ela não admitia: a saudade de ser cuidada sem que todo cuidado viesse acompanhado de ameaça.

-- Não preciso de nada -- disse pela fresta.

-- Ninguém precisa de beleza -- respondeu a vendedora. -- Mas às vezes ela devolve à pessoa a lembrança de que ainda é sua.

Foi uma mentira quase verdadeira, e por isso mais perigosa. Branca aceitou olhar o pente. Não abriu a porta. Inclinou-se apenas o suficiente para que a mulher o aproximasse pela janela. Quando os dentes tocaram seus cabelos, a magia entrou silenciosa, sem aperto, sem violência visível. Ela caiu como quem adormece contra a própria vontade.

Os sete a salvaram ao entardecer, encontrando o pente preso junto à nuca. Ao retirá-lo, viram que não enfrentavam somente uma rainha vaidosa, mas alguém capaz de transformar desejo legítimo em armadilha. Naquela noite, Branca chorou de raiva. Era a primeira vez que sua bondade não terminava em pedido de desculpas, mas em indignação. E essa mudança, pequena como uma brasa, começou a aquecê-la por dentro.

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