A pergunta do espelho Branca de Neve e os Sete Anões · Capítulo 3 de 14
Obra Menu

A pergunta do espelho

O espelho ficava num aposento que quase ninguém frequentava. Não era o maior salão do castelo, nem o mais rico, mas havia nele uma espécie de autoridade secreta. A moldura escura, trabalhada com folhas de metal antigo, parecia menos feita para enfeitar uma parede do que para vigiar quem se aproximasse dela. A rainha mandara limpar o quarto, trocar as cortinas e afastar todos os criados. Disse que precisava de recolhimento. Na verdade, precisava de confirmação.

Na primeira vez, perguntou quase sorrindo:

-- Espelho meu, espelho meu, existe neste reino alguém mais bela do que eu?

A superfície tremeu como água sob vento. Quando respondeu, a voz não pareceu vir do vidro, mas do espaço entre uma verdade e uma sentença.

-- Vossa beleza ainda governa muitos olhos, rainha. Mas Branca de Neve cresce. E há nela uma claridade que nenhum adorno vos empresta.

A frase não dizia morte. Não dizia ameaça. Mesmo assim, a rainha a recebeu como um golpe. Porque o espelho, cruel à sua maneira, não comparava apenas rostos. Ele expunha o limite de uma vida construída sobre aparência. Branca de Neve não tinha coroa, não comandava guardas, não compreendia ainda o alcance da própria presença. E, no entanto, bastava entrar numa sala para que as pessoas relaxassem os ombros. Bastava rir para que o castelo parecesse menos frio.

Nos dias seguintes, a rainha tentou vencer a resposta com disciplina. Escolheu joias mais raras, apertou vestidos, mudou perfumes, treinou sorrisos diante das aias. A corte elogiou tudo. Era o que a corte sabia fazer. Mas elogio repetido, quando nasce do medo, não alimenta: apenas aumenta a fome.

Então ela chamou o caçador. Não no grande salão, onde as ordens precisam fingir nobreza, mas numa passagem estreita junto às despensas, onde a pedra guardava melhor os segredos. Entregou-lhe uma tarefa com voz baixa, quase doce. Levaria Branca de Neve para a floresta. Voltaria sozinho. Traria uma prova.

O homem entendeu antes que ela terminasse. Ficou imóvel, como se o corpo ainda servisse à rainha, mas alguma parte mais funda dele já tivesse recuado. Branca de Neve, chamada pouco depois para um passeio, acreditou por um instante que a madrasta enfim se cansara de vigiá-la de longe. Não sabia que, em certos palácios, uma porta aberta pode ser apenas outra forma de empurrar alguém para fora.

1/1
Menu

Fazer anotação