O disfarce da rainha
No castelo, a rainha voltou ao quarto do espelho com a impaciência de quem já havia decidido a verdade e desejava apenas ouvi-la confirmada. O caçador trouxera a prova pedida. A corte continuava reverente. O rei permanecia distante, preso em seus próprios corredores de luto. Tudo, em aparência, voltara ao lugar.
Mas o espelho não respeitava aparências.
-- Espelho meu, espelho meu -- disse ela, segurando a moldura como se pudesse forçá-la a obedecer. -- Existe alguém mais bela do que eu?
A superfície escureceu. Depois abriu-se em névoa, e a voz antiga respondeu:
-- Branca de Neve vive. Respira numa casa pequena entre as árvores. Enquanto ela existir sem odiar, vossa vitória será incompleta.
A rainha não gritou. O grito teria sido honesto demais. Ficou imóvel, sentindo a frase entrar onde nenhum vestido apertado, nenhuma joia, nenhum elogio de corte poderia alcançá-la. O caçador mentira. Pior: alguém tivera piedade. A piedade, para ela, era uma forma insuportável de desobediência, porque lembrava que o medo não governava todos os corações.
Abriu então o armário escondido atrás da tapeçaria roxa. Ali guardava coisas que nenhuma rainha admitiria possuir: pós para empalidecer a pele, tinturas para escurecer rugas falsas, mantos de lã grosseira, frascos de cheiro amargo, pequenos objetos encantados por artes antigas demais para terem nome decente. Não era magia de maravilha. Era magia de controle.
Enquanto vestia a pele de uma vendedora velha, pensou em Branca de Neve não como menina, mas como ameaça. Era assim que a crueldade se protegia: transformava pessoas em obstáculos. Colocou numa cesta fitas, pentes, linhas coloridas e pequenos agrados para uma vida simples. Sob tudo isso, escondeu uma fita costurada para apertar mais do que devia.
Ao amanhecer, saiu por uma passagem lateral. Os guardas não a reconheceram. A floresta, porém, pareceu reconhecê-la sem precisar de rosto. Os galhos rangeram. A neve cedeu sob seus passos com um som seco. Cada árvore guardava, a seu modo, uma memória da menina que ela perseguia.
Na pequena casa, Branca de Neve varria o chão e tentava aprender o ritmo daquela nova vida. Os sete haviam saído cedo, depois de repetir o aviso: não abrir a porta. Ela prometera. Queria ser digna da confiança recebida. Mas perto do meio-dia, três batidas leves chegaram à madeira.
-- Boas fitas, boas linhas, pequenas belezas para alegrar a casa.
Branca de Neve aproximou-se da janela. Viu apenas uma velha curvada sob o peso da cesta. O perigo, aprendeu naquele instante, nem sempre entra fazendo sombra. Às vezes pede licença com voz cansada.