O sono de vidro
Os sete pequenos trabalhadores não aceitaram a morte de imediato. A recusa veio primeiro como movimento: abrir janelas, buscar água, chamar o nome dela, examinar cada dobra do vestido, cada fio de cabelo, cada sinal mínimo que pudesse provar que o mundo ainda era negociável. Mas havia uma quietude em Branca de Neve que nenhum cuidado alcançava.
Quando enfim entenderam que não podiam despertá-la, recusaram outra coisa: enterrá-la na terra escura. Não por vaidade, nem por incapacidade de despedida, mas porque havia nela uma aparência de intervalo. O rosto conservava cor demais para o fim, e as mãos, embora frias, pareciam guardar a memória do gesto. A floresta, silenciosa em volta da casa, também parecia suspender o próprio julgamento.
Construíram então um leito de vidro.
Não era uma escolha de exibição. Era uma forma de vigília. O vidro protegia e revelava ao mesmo tempo, como se dissesse que certas injustiças não devem ser escondidas depressa demais. Levaram Branca de Neve para uma clareira onde a luz chegava limpa entre as árvores. Cobriram-na com flores resistentes ao frio e permaneceram ali, um de cada vez, dia após dia.
A notícia correu pela floresta antes de alcançar estradas. Animais passavam sem ruído. Viajantes diminuíam o passo. Alguns diziam que era uma princesa morta, outros que era uma menina enfeitiçada, outros apenas que havia numa clareira um corpo tão sereno que obrigava os vivos a pensar no que faziam com sua própria crueldade.
No castelo, a rainha perguntou ao espelho e recebeu a resposta que esperava. Pela primeira vez em muito tempo, ouviu que não havia beleza acima da sua. Sorriu. Mas o sorriso não encontrou repouso. Porque vencer alguém que já não pode responder é uma vitória habitada por ecos. O espelho lhe deu o título; não lhe devolveu paz.
Na clareira, os sete aprenderam uma forma lenta de amor: continuar cuidando quando já não havia garantia de recompensa. Limpavam o vidro, trocavam as flores, contavam histórias do dia como se Branca de Neve apenas dormisse com muita profundidade. Talvez fosse loucura. Talvez fosse fidelidade. Às vezes a diferença entre uma coisa e outra só aparece muito depois.